quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os troféus dos professores

Estava eu no supermercado, entre as batatas e as cebolas, e, à distância, uma cara sorria abertamente, com a expressão e o olhar. Duvidoso, tentei perceber se se dirigia para alguém ao meu lado, antes de compor, também eu, o melhor sorriso.

Então, já a menina estava à minha frente, em cumprimento amistoso e serenamente efusivo.

Pedi desculpa por, finalmente, reconhecer os traços, mas, ao contrário do desejo, não recordar o nome.

Primeiro “bónus”: era a Carla Daniela, minha aluna há cerca de vinte anos, na escola onde ainda trabalho.

E que fazia agora, como ia a sua vida? - Perguntei.

É enfermeira no Hospital Público de Braga e tem um bebé rapaz, com cerca de um ano, disse-me.

Estava contente com a profissão? - Arrisquei.

Com a função sim, com as condições… pôs uma cara triste.

Curioso, ainda perguntei se não chegara a pensar emigrar, até pela elevadíssima competência da enfermagem portuguesa, como eu pude comprovar abundantemente, na primeira pessoa, em 2009.

Que sim, que tivera um bilhete na mão, mas que era tanta a tristeza, na hora de partir, que a própria mãe lhe pedira que não fosse.

Felicitei-a, de todo o modo.

Segundo “bónus”: que às vezes se lembrava do professor de biologia, que sempre a incentivou e que lhe chamava Carlinha.

Terceiro “bónus”: que tentara orientar-se por outro conselho desse professor: que nunca deixasse de ser como era.

Devo ter ficado emotivamente confuso e rubicundo.

Apertei-lhe nas minhas as suas mãos e desejei-lhe as maiores felicidades, especialmente para ela e para o seu bebé.

Com o mesmo sorriso doce e belo foi à sua vida.

“Bónus” adicional: ao meu lado, a Lurdes, minha mulher, felicitou-me também.

Há dias assim.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Primavera que há-de chegar

Inverno, Inverno é o que temos tido: Muita chuva, ventos ciclónicos, neve e frio. Os solos estão saturados de água, os rios galgaram as margens e o mar enfureceu-se.

O bom disto tudo são as albufeiras cheias até mais não ser possível. O mau são os casos de morte e os prejuízos que tem havido, alguns dos quais se vão prolongar no futuro, como é o caso da perda de empregos…

Creio que, quando vierem uns dias de sol, os portugueses vão expor-se à luz e à (maior ou menor) quentura com particular satisfação.

E a Natureza pode reagir de modo análogo, como que para compensar e suplantar os rigores do tempo e o cinzentismo ambiental com que temos (con)vivido.

Nessa altura, a “explosão” de flores há-de colorir o meio ambiente, como que pondo-o em festa. E a festa, assim sentida e agradecida, por certo encherá de júbilo e esperança as (nossas) almas em hibernação sombria.

Quem sabe se essa bonomia do tempo entrará no calendário pelo Entrudo?

Bem-vinda seja, quando vier.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Sucedem-se as tempestades, mas tardam a bonança preventiva e a remediação efectiva

A eleição presidencial, pela sua natureza e significado, devia consumar-se no seu objectivo. Atingido este, adiante. Não sendo assim, os candidatos pretendem outros fins, que não os da eleição propriamente dita.

Ressalve-se, porém, que, em democracia, todos os movimentos políticos que não a neguem ou destruam são legítimos, mesmo que inconvenientes.

As presidenciais que decorrem tiveram um número recorde de candidatos e o país encheu-se de anúncios propagandísticos de grandes dimensões nas praças e arruamentos urbanos e nas bermas das estradas. A esses somam-se os que nos impingem apelos ao consumismo comercial.

Para a impressão de tais anúncios, estruturas de suporte e afixação, instrumentos e mão-de-obra, aparentemente, não falta dinheiro.

Acontece que a profusão e dimensão das imagens ofende a vista, degrada a paisagem e o ambiente e distrai condutores a quem convém toda a atenção.

Passou a primeira volta das presidenciais e sobrevieram temporais seguidos. Os que diligentemente afixaram os materiais de propaganda deixaram os monos agora inúteis a agredir os espaços e à mercê das intempéries. Mais ou menos esfrangalhados, parte deles permanecem.

Alguns dos candidatos que ficaram pelo caminho foram lestos a anunciar movimentos políticos, mas não se mexeram para que se removam e limpem quanto antes os detritos de que são responsáveis.

Se tivéssemos bons deputados e bom governo, em tempo oportuno far-se-iam normas mais apertadas e restritivas de afixação de megacartazes, também pelo risco que podem constituir para quem circula nas estradas.

Mas isso só aconteceria se os cidadãos exigissem que assim fosse.

José Batista d’Ascenção

sábado, 24 de janeiro de 2026

Casamento, divórcio e relações sexuais (curiosidades históricas, em resultado de leitura)

O livro «Imaginação» é uma obra de fôlego da autoria de Francisco Louçã. Lê-la vale por muitos motivos, que esta anotação não revela, limitando-se aos aspectos referidos no título, os quais achei curiosos e interessantes e por isso merecedores de registo.

«Aristóteles dedicou um capítulo da sua Política a instituir normas para o casamento, aconselhável aos 18 anos para as mulheres e aos 37 ou pouco antes para os homens, e para o momento da união reprodutiva, no inverno e de preferência com vento norte»… (p 398).

[…] Para os primeiros cristãos, a proibição do casamento de sacerdotes era absurda. Pedro era casado e Paulo admitia mesmo que esses matrimónios fossem normais e pedia unicamente aos bispos que fossem maridos fiéis. Só trezentos anos depois foi estabelecido que os bispos não podiam casar (p. 411).

[…] Os textos bíblicos autorizavam o divórcio, pelo menos em alguns casos. Mateus admitia uma única justificação para o divórcio, o adultério (p. 411) e Paulo, que tratou a questão em cartas conhecidas antes da redação dos evangelhos, afirmou que o divórcio devia ser impedido, mas não de forma absoluta (idem). Constantino, o primeiro imperador que se declarou seguidor do cristianismo promulgou em 331 leis que determinavam as condições do divórcio (se o marido fosse bêbado ou jogador, se a mulher o envenenasse e, para qualquer dos dois, a invocação do adultério) (ibidem).

[…] Martinho Lutero considerou, como Calvino, que o casamento não era um sacramento, pois não é mencionado como tal na Bíblia, e, portanto, os padres podiam casar-se – o que ele e muitos dos que o seguiam fizeram. (p 420)

[…] Na Cantábria, em Espanha, a poucos quilómetros de Santander, uma pequena igreja – a Colegiata de San Pedro de Cervatos, construída entre 1129 e 1199, tem profusa decoração exterior com estátuas simbolizando a luxúria sexual, o que permanece um mistério, tanto nessa igreja como noutras, de outros lugares de Espanha, mas também de países como Alemanha, França, Inglaterra, Irlanda, Itália… (p 421).

[…] S. Tomás de Aquino, o teólogo que alcançou mais fama e influência na fixação do cânone sexual (…) fê-lo de modo explícito na sua Summa Theologiae, escrita no final da vida, entre 1267 e 1273 (…). Para cumprir os preceitos, o coito só devia ser a penetração vaginal na posição do homem sobre a mulher, sendo negadas outras formas de relação sexual. (p 414)

[…] Desde o concílio de Trento, no séc. XVI, o casal devia estar sob a égide da igreja e as regras da sua vida sexual deviam ser definidas pela autoridade eclesiástica.» (p. 422)

José Batista d’Ascenção

Tanta água

Chuva, neve, inundações, albufeiras a transbordar. É uma maré cheia do precioso líquido. Também temos o frio e o vento e o mar furiosamente encapelado, pronto a atacar a costa, ante a impotência da prevenção possível, após décadas de imprudência, ambientalmente criminosa.

O Inverno está a ser Inverno, no calendário natural. Minimizando os riscos e estragos possíveis, devíamos ser capazes de potenciar as vantagens que possa haver.

Gostava eu que, chegados a Julho e Agosto, não tivéssemos de lamentar eventuais secas e prejuízos decorrentes. Para isso seria preciso uma gestão da água entretanto armazenada que, nessa altura, nos poupasse preocupações e danos. Temos soluções, das mais simples, e não propriamente dispendiosas, como o simples armazenamento de águas pluviais dos telhados em contentores de polietileno, a outras que exigem estudo e investimento, como represas e condutas mais ou menos extensas. Algo paralelo, e igualmente decepcionante, acontece com a necessidade de planeamento, acção e despesa na prevenção de incêndios.

Se os holandeses empurram e sustêm eficazmente o mar, porque não retemos nós a bendita água que fartamente nos cai do céu? Assim, no Verão, podíamos hidratar animais e plantas e apagar os fogos que houvesse.

Digo eu.

José Batista d’Ascenção

domingo, 18 de janeiro de 2026

O (tri)salazarismo recauchutado (ainda) não venceu

Para quem preza a democracia e não prescinde da liberdade, os tempos estão sombrios.

As condições de vida antes do 25 de Abril libertador eram paupérrimas para a imensa maioria dos portugueses, em quaisquer aspectos que possamos considerar.

Porém, as lamentáveis e persistentes falhas dos governantes desde então, os maus exemplos de políticos incompetentes ou corruptos, que a justiça não responsabilizou nem puniu, o chamado «sistema educativo», que falhou na sua missão básica, e algumas tendências intrínsecas dos humanos (da falta de empenho na prevenção dos incêndios à má escolha dos líderes políticos) – que nenhuma ciência elucidou, até hoje – fazem-nos aproximar de catástrofes naturais e sociais, como se, enquanto sociedade, abdicássemos do (muito) bem (ou bom) de que dispomos (ou que desperdiçamos) e voluntariamente nos atolássemos em situações de caos de que poucos beneficiarão.

Se assim não for, tanto melhor. De momento, os resultados eleitorais sustêm o pior, em minha opinião.

Precisamos de luz, e de trilhar sendas mais auspiciosas.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sobre candidatos presidenciais, falar de barriga cheia


Alguns dos candidatos presidenciais
Segundo algumas opiniões, os actuais candidatos à presidência da república são de quinta categoria. Não concordo.

Nem mesmo por comparação com os ocupantes do cargo eleitos no pós-25 de Abril. Genericamente, desde logo porque com esses hiperdotados políticos chegámos ao tempo actual com a democracia em regressão. Eles não contrariaram suficientemente a tendência “universal” nesse sentido e podem ter contribuído para ela.

Lembro-me dos tempos em que Ramalho Eanes era denegrido como pouco inteligente por vozes políticas. E do ódio que lhe votavam políticos de eleição como Francisco Sá Carneiro e Mário Soares.

Lembro-me do desprezo geral com que Mário Soares era tratado e considerado quando se candidatou ao cargo da primeira vez.

Lembro-me também da forte depreciação de Jorge Sampaio, acusado precisamente de ter um discurso redondo por figuras gradas de então, entre as quais António Barreto.

E lembro-me (muito) de como Cavaco Silva terminou o seu segundo mandato de presidente da república indesejado pela maioria dos portugueses.

No presente, todos podemos testemunhar que Marcelo Rebelo de Sousa, apesar da sua imensa cultura e inteligência, foi delapidando o elevado capital político que granjeou. E é (para mim) certo que extravasou os poderes constitucionais ao dissolver a assembleia da república em que uma maioria parlamentar sustentava um governo legítimo – embora incompetente – por razões que ainda hoje são obscuras.

Para desempenhar razoavelmente a função há entre os candidatos mais do que um com capacidades aceitáveis.

Eu vou votar em António José Seguro.

José Batista d’Ascenção