«Etimologicamente, burocracia significa qualquer coisa como o “poder da secretária”. O termo foi cunhado na França do século XVIII, quando um funcionário público (…) se sentou a uma mesa de trabalho com gavetas – uma escrivaninha (bureau). Assim, no coração da organização burocrática jaz a gaveta. A burocracia tenta resolver o problema do acesso a informação [qualquer que seja e sobre o que quer que seja] compartimentando o mundo em gavetas: a chave está em saber que documentos estão em cada gaveta.
O princípio não se altera seja o documento arrumado numa gaveta ou numa prateleira, num cesto ou numa pasta de ficheiros ou em qualquer outro recetáculo. Isto tem um custo: em vez de se concentrar na compreensão do mundo [ou da matéria ou do assunto] como ele é, a burocracia ocupa-se de impor ao mundo [ou às coisas de que se trata] uma nova ordem, artificial. Os burocratas começam por inventar diferentes gavetas, cada uma dela não correspondendo necessariamente a qualquer divisão objetiva que haja no mundo. E a seguir tentam arrumar o mundo nessas gavetas, nem que seja à força. (…) Basta preenchermos algum tipo de modelo oficial para o percebermos: durante o preenchimento, se nenhuma das opções corresponde à nossa situação, temos de nos adaptar nós ao impresso, e não o contrário. Sendo a realidade complexa, os burocratas reduzem-na a certo número de gavetas estanques e isso ajuda-os a manter a ordem, ainda que em detrimento da verdade. E, concentrados que estão nas suas gavetas – sendo a realidade infinitamente mais complexa -, não raras vezes, os burocratas desenvolvem uma leitura distorcida do mundo.»
O problema é que não podemos funcionar em sociedade, nem estudar nem compreender o mundo, se não desenvolvermos a burocracia necessária. Como consequência, vem o resto.
in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elslnore. Lisboa. 90-91 p.
José Batista d’Ascenção






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