É da (nossa) cultura, mas não apenas. Nós, os portugueses, ou muitos de nós, esperamos mais por milagres ou que alguém faça o que nos cabe do que investimos nos procedimentos pessoais e colectivos adequados à prevenção dos riscos mais diversos. Lembro os que conduzem sem abstinência alcoólica, mas penduram um terço no espelho retrovisor. As limpezas de vegetação seca à volta das nossas casas, que, podendo, não fazemos, por admitirmos que alguém – das autarquias aos bombeiros - o fará por nós. Os foguetes que se lançam em honra de santos em festejos de Verão, como se daí decorresse alguma protecção contra incêndios. Isto ao nível do cidadão comum.
Mas os nossos governantes são filhos da mesma cultura. Donde, morreram pessoas por falta de assistência médica urgente, mas a ministra da pasta aguardou pelos inquéritos que mandou fazer para concluir que o seu lugar não estava em causa. Nos exames nacionais aconteceu o que não podia ter acontecido, de que resultaram prejuízos irremediáveis e injustiças definitivas para muitos alunos, que o senhor ministro foi justificando com razões diversas, algumas espúrias, sem o desassombro de assumir, ele mesmo, à cabeça, a responsabilidade primeira. Os exemplos podiam continuar…
A nível intermédio, nas organizações, o panorama é coerente: em quem manda, em muitos dos executores ou praticantes e nos cidadãos destinatários ou elementos do público. Veja-se a organização da «Volta a Portugal em Bicicleta»: Um cidadão, certamente sem intenção, provocou a morte a um jovem atleta. Há muitos anos, um cão fez cair o maior de todos os ciclistas portugueses, de que veio a resultar a sua morte. Este ano o percurso da corrida incluiu a passagem por um sector do único Parque Natural do país, no Gerês, com parecer favorável do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas!
E nós aceitamos. Ninguém nos mete na cabeça que o que pode correr mal, em alguma altura corre mesmo mal.
Ainda há quem lhe chame destino.
José Batista d’Ascenção.






