O livro «Imaginação» é uma obra de fôlego da autoria de Francisco Louçã. Lê-la vale por muitos motivos, que esta anotação não revela, limitando-se aos aspectos referidos no título, os quais achei curiosos e interessantes e por isso merecedores de registo.
«Aristóteles dedicou um capítulo da sua Política a instituir normas para o casamento, aconselhável aos 18 anos para as mulheres e aos 37 ou pouco antes para os homens, e para o momento da união reprodutiva, no inverno e de preferência com vento norte»… (p 398).
[…] Para os primeiros cristãos, a proibição do casamento de sacerdotes era absurda. Pedro era casado e Paulo admitia mesmo que esses matrimónios fossem normais e pedia unicamente aos bispos que fossem maridos fiéis. Só trezentos anos depois foi estabelecido que os bispos não podiam casar (p. 411).
[…] Os textos bíblicos autorizavam o divórcio, pelo menos em alguns casos. Mateus admitia uma única justificação para o divórcio, o adultério (p. 411) e Paulo, que tratou a questão em cartas conhecidas antes da redação dos evangelhos, afirmou que o divórcio devia ser impedido, mas não de forma absoluta (idem). Constantino, o primeiro imperador que se declarou seguidor do cristianismo promulgou em 331 leis que determinavam as condições do divórcio (se o marido fosse bêbado ou jogador, se a mulher o envenenasse e, para qualquer dos dois, a invocação do adultério) (ibidem).
[…] Martinho Lutero considerou, como Calvino, que o casamento não era um sacramento, pois não é mencionado como tal na Bíblia, e, portanto, os padres podiam casar-se – o que ele e muitos dos que o seguiam fizeram. (p 420)
[…] Na Cantábria, em Espanha, a poucos quilómetros de Santander, uma pequena igreja – a Colegiata de San Pedro de Cervatos, construída entre 1129 e 1199, tem profusa decoração exterior com estátuas simbolizando a luxúria sexual, o que permanece um mistério, tanto nessa igreja como noutras, de outros lugares de Espanha, mas também de países como Alemanha, França, Inglaterra, Irlanda, Itália… (p 421).
[…] S. Tomás de Aquino, o teólogo que alcançou mais fama e influência na fixação do cânone sexual (…) fê-lo de modo explícito na sua Summa Theologiae, escrita no final da vida, entre 1267 e 1273 (…). Para cumprir os preceitos, o coito só devia ser a penetração vaginal na posição do homem sobre a mulher, sendo negadas outras formas de relação sexual. (p 414)
[…] Desde o concílio de Trento, no séc. XVI, o casal devia estar sob a égide da igreja e as regras da sua vida sexual deviam ser definidas pela autoridade eclesiástica.» (p. 422)
José Batista d’Ascenção