domingo, 31 de maio de 2026

Ter ou não ter talento

Há alguns anos, quando Luísa Sobral apareceu nas televisões (ou quando eu dei por isso…), impressionou-me a sua aptidão para a música. Mesmo a sua voz nasalada era uma originalidade de que gostava. Quando compôs a canção que fez do seu irmão uma estrela, pareceu-me natural, e revelou outra faceta dela: a sensibilidade e a solidariedade para com o outro, mesmo que familiar próximo. Antes disso, um dia fui ouvi-la ao Theatro Circo, em Braga, e já então confirmara, presencialmente, as suas qualidades artísticas e pessoais, ao enriquecer o seu concerto com a participação do irmão.

Na escrita não tinha, até este fim-de-semana, lido nada dela. Na Quinta-feira passada, ao fim da tarde, comprei o livrinho «Da Minha Janela» e o volume já não me largou mais até o terminar, ontem de manhãzinha.

Escrita simples, escorreita, expressiva, sobre as coisas comuns da vida, com humor, acutilância e incisão. Só fui ao «Google» duas vezes, para saber o que é «Push Pop» e «eneagrama». Tudo fácil e agradável, sensível e bonito. 

Bonitas e reveladoras de outro talento são as (pequenas) ilustrações, precedendo cada uma das crónicas. Pena ficarem tão pequeninas, “pormenor(es)” que não deve ser difícil trocar “por maiores”.

A última crónica, «Há dois anos que a morte me ensina a viver», é particularmente bela e emocionante.

Contrariamente ao que senti quando li livros de músicos cantores portugueses ou brasileiros consagradíssimos (há muito e muito merecidamente), apetece-me dar parabéns à autora.   

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Inda agora

O retrato é espelho de muita coisa, nenhuma delas boa. Fi-lo sem autorização nem conhecimento do sujeito.

Bolas para a sociedade que somos!

É este o fim-de-semana de recolhas do «banco alimentar», que mobiliza muitos, e ainda bem, mas não resolve a vida dos que precisam.

A seguir fui dar aulas e interroguei-me sobre o que (e para que) aprendem os jovens meus alunos.

Daqui a 10-15 anos o «banco alimentar» continuará «banco alimentar» ou terá mudado de nome ou (já) não existirá organismo equivalente? Por falta de necessidades não será…

Que evolução é a nossa, a das pessoas?

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Canícula e factores humanos responsáveis

Ainda Maio não terminou e já se sucedem dias de temperaturas infernais, a que se chama «onda de calor», e prevê-se que o fenómeno aumente a sua frequência com o decorrer dos anos.

As pessoas e muitos outros seres vivos não estão naturalmente adaptados a ambientes de fornalha sucessivos.

Acontece que as actividades humanas directas e indirectas contribuem em muitos casos para o aquecimento global, desde o consumo de combustíveis fósseis (carvão, gasolina, gasóleo, querosene…), à desflorestação e aos «negócios» dos incêndios.

A piorar, os líderes das maiores potências mundiais, ou porque loucos ou criminosos ou uma coisa e outra, negam ou pouca importância dão às alterações climáticas e promovem a guerra com mentalidade troglodita.

Ora, os recursos energéticos consumidos na produção de material bélico, o tráfego de navios e aviões de guerra, a deflagração das bombas e a destruição de infraestruturas são igualmente factores de elevação da temperatura e causadores de poluição diversa. As guerras produzem mortos, feridos, perturbação e destruição.

Nos países livres que (ainda) restam, e que tendem a ser cada vez menos, os cidadãos que amam a liberdade e possuem formação têm o dever de, independentemente de ideologias políticas (os crimes são igualmente crimes, se cometidos pela direita, pela esquerda ou pelo centro) e de nacionalidades, se organizarem para denunciar a demência, a irracionalidade e o delito criminal (que deve incluir os danos infligidos ao ambiente) e para exigirem a punição dos responsáveis, quaisquer que sejam, de onde sejam ou dos cargos que ocupem.

Universidades, centros de saber, religiões pacíficas, organizações governamentais e outros devem colaborar nesse sentido.

Enquanto são/somos livres.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 19 de maio de 2026

A pomba João

Observação: Esta não é a pomba João

A inteligência animal, seja isso o que for, deixa-nos por vezes agradável e ternamente impressionados. Há poucas horas, estava eu no café «Os Coelhos» (em Braga), saboreando uma xícara de café e concentrado em artigo longo de jornal, quando oiço o Sr Miguel, muito enfático, entre as mesas, a chamar carinhosamente pelo João, que estaria na zona de dentro do balcão, onde eu não via ninguém. O Sr Miguel repetia o chamamento e encaminhava-se para a porta, que dá para a esplanada. Foi então que baixei os olhos e vi sair a pomba muito direita, em marcha firme e bem direcionada para a voz que a convidava. Saiu e ficou momentos à espera de alguma compensação (que o Sr Miguel sabe que não lhe deve dar), imperturbável perante quem estava, sentado ou de pé, a olhar como eu.

No acto de pagamento felicitei o Sr Miguel pela comunicação muito humana com a pomba e por ela tão bem correspondida. Na resposta, fiquei a saber que mesmo ao Domingo, quando o estabelecimento está fechado, a ave vem plantar-se à porta à espera que o dono a abra.

São reflexos condicionados, talvez banais, bem sei, mas é, provavelmente, um bocadinho mais do que isso. Estas interacções dos bichos com os humanos não são possíveis com quaisquer pessoas. E os animais conseguem distinguir isso, parece-me.

Num tempo de violência e desregramento do mundo - que nunca foi pacífico, reconheça-se, mas em que o poder de destruição dos humanos era, também ele, limitado - ver a compatibilidade harmoniosa entre espécies tão díspares dispõe bem.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Líderes políticos de más intenções e a facilidade com que arrastam multidões

A natureza psicológica e social dos humanos ou evolui(u) pouco ou nota-se pouco que evolui(u).

As sociedades que sofrem os horrores da guerra geram pessoas com vontades/necessidades férreas de paz e acentuam tendências para a solidariedade e generosidade nos tempos sequentes aos conflitos bélicos. Também há recalcamentos e desejos de vingança, mas estes tornam-se mais subterrâneos nessas alturas.

Passadas décadas, novas gerações, sem memória vivida das guerras, desvalorizam a possibilidade de que voltem a acontecer, iniciando-se mais ou menos aceleradamente o recrudescimento dos factores capazes de as desencadear.

Desde sempre, em vários lugares, a humanidade esteve e está em guerra. Os estados de guerra são inexoráveis? Não se podem evitar?

Devemos acreditar que sim. E lutar para que assim seja. Mas isso implica doses infinitas de humildade, de generosidade, de reflexão e de estudo (da História e de algo mais). E não apenas por uma pequena fracção de cada população. Em termos de organização social, isso significa que a educação (boa formação) é fundamental, assim como são indispensáveis sistemas de (recta) justiça. As democracias dignas do nome não resistem sem qualquer dessas vertentes.

Por isso, líderes de péssima extracção encontram sempre pasto favorável para as suas tenebrosas ideias, preparando o terreno para as acções que lhes fazem ferver o sangue, dada a facilidade de disseminação do ódio e da mentira, que a tecnologia transformou em armas de eficacíssima manipulação.

O mundo nunca teve tantos aliciantes como na actualidade, mas também nunca esteve tão perigoso.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 24 de abril de 2026

25 de Abril sempre

Celeste Caeiro - a mulher que fez florescer Abril

Um filho, dois netos, um cunhado, duas tias e um sobrinho fazem anos em Abril. São datas emocionalmente festivas que celebramos discretamente, só nós, os mais chegados da família.

Mas o dia grande do mês de Abril, aquele dia a que Sophia, a nossa poeta contemporânea mais conhecida, talvez, chamou «dia inicial inteiro e limpo» é o dia 25 de Abril de 1974.

Foi inteiro, sim. E longo. E esperançoso. E belo. Nunca a Primavera, de todas as que teve o século XX em Portugal, teve um dia tão florido e entusiasmante.

Vivam os cravos vermelhos de Abril.

Vivam os homens democráticos, corajosos e generosos que fizeram a justa revolução, sem derramarem sangue, revolução luminosa que pôs fim à longa e tenebrosa “noite” salazarista.

Destaco um desses homens, já morto, em representação de todos: Salgueiro Maia.

Depois fomos vivendo a democracia consoante a fomos construindo. Podíamos ter feito melhor? Podíamos, mas a responsabilidade foi e é nossa.

A educação dos portugueses é a que é e que tem sido. Dela, na parte que me coube, também eu procurei ser um obreiro digno. Mas falhámos muito. Falhámos tanto que agora temos, ufanos, e em grande número, os que pretendem subverter (ou ignoram) os factos da História e as regras fundamentais do viver democrático.

O sistema de justiça também andou e anda mal.

E sem educação e sem justiça nenhuma sociedade pode ser justa e democrática.

Porém, a oportunidade tivemo-la e temo-la todos os dias: foi-nos dada no dia 25 de Abril de 1974.

Estas são opiniões minhas, muito sentidas, que posso expressar - por enquanto - porque sou livre.

Viva a Liberdade.

José Batista d’Ascenção

domingo, 19 de abril de 2026

Homenagem à minha mulher

Nem sempre sabemos a sorte que temos. Por vezes, podemos ter essa noção passados muitos anos sem antes repararmos nas evidências. Sendo que a sorte que temos é, em grande parte, aquela que sabemos construir ou, mais simplesmente, a que podemos aproveitar nas oportunidades em que se nos oferece.

Eu e a minha mulher somos profundamente diferentes. Tão diferentes que temi, um dia, como é que íamos construir um percurso juntos. Medo maior só o tive quando me anunciou a gravidez do filho mais velho: era um contentamento interior cheio de gratificante expectativa e de susto, que traduzia para mim próprio na interrogação que, então, registei assim: “que raio de pai vou eu saber ser”? Felizmente, nascido o rapaz, as sensações de medo pela minha subida condição volatizaram-se face às novas e compensadoras preocupações e funções que passei a ter.

Porém, neste momento, quero confessar algo sobre a minha mulher. Olhando e vendo a (ir)realidade por perspectivas diferentes ou opostas às minhas, levou-me a descobrir o significado desta frase, que ouvi a alguém: “um casamento deve ser uma consagração de contrários”. Desse modo, à monotonia e pobreza dos sentimentos e pensamentos redundantes ou submissos, a vida trouxe-me a riqueza do diverso e a beleza e a grandeza e a conveniência do complementar.

A minha mulher é ela, antes de ser a minha mulher. Sendo ela, na condição de minha mulher, esteve sempre no seu “posto”, o que me fez admirá-la cada vez mais, por ambas as razões.

Professora como eu, avessa ao grito e à imposição radical, impressionou-me sempre como é que alunos terríveis, de 13-14 anos, acabavam mansamente no ponto a que os sabia levar. E esses, não raro, entregavam-lhe no final do ano lectivo, às vezes muito discretamente, presentes simples que ela conserva ciosamente, não como troféus, mas como testemunhos de afecto.

Em casa e consigo mesma, a quaisquer objectos de luxo, que não tem nem usaria, prefere definitivamente gestos ou actos de carinho e amizade e oferendas simbólicas. Não é materialista nem exibicionista. Bastam-lhe afectos, a prática da amizade e o amor dos próximos.

Por sorte, ainda tenho mãe. Sinto pânico ao imaginá-la depositada num lar como os que conheço (pelo que, a leitura do livro «Misericórdia» de Lídia Jorge, merecedor de um Nobel, não me trouxe surpresas de conteúdo). Ora, eu desejava aproveitar enquanto posso a companhia da minha mãe. A Lurdes percebeu-o. Vai daí, temos a minha mãe comigo e dela cuidamos, mais a Lurdes do que eu. E fá-lo com a mesma generosidade, calor e afeição que sempre dedicou aos familiares – especialmente aos filhos – e aos outros.

Por tudo, desde há muitos anos, o meu pobre coração é cheio de agradecimento.

Obrigado, querida Lurdes.

José Batista d’Ascenção