sábado, 5 de setembro de 2026

Ir num pé e vir no outro

Era o modo de recomendar pressa às crianças encarregadas de fazer algum recado, na aldeia onde nasci e onde completei a escola primária, no interior da Beira Baixa.

Fazer um recado era uma tarefa que nenhum menino ou menina se lembraria de recusar, quando vindo de pais, avós, tios ou irmãos (bastante) mais velhos. Por outro lado, dar conta do recado, e com a rapidez pedida era, só por si, ser responsável e ter o merecimento de ser reconhecido como tal. Não era preciso mais recompensa, o que, a acontecer, era privilégio acrescido.

As crianças eram também mandadas fazer certos pequenos (ou não tão pequenos…) trabalhos, que muito ajudavam à dinâmica e à economia familiar. E, para as estimular, quando a tarefa era mais difícil ou morosa, havia outro dito frequentemente utilizado: «tu fazes isso com uma perna às costas». E as crianças faziam.

Claro que muitas delas trabalhavam muito, desde tenra idade, frequentemente acima do que permitiam as suas forças ou capacidades. Não sendo o caso, o valor educativo dos afazeres atribuídos às crianças era positivo.

Na juventude, quando a preguiça ou outras motivações afastavam a mente dos trabalhos a realizar, podia surgir ríspida chamada de atenção: «estás a encanar a perna à rã?», ou então: «não sais do mesmo sítio?», ou ainda: «estás apto a ir buscar a morte!»

Normalmente, ninguém retrucava, senão arriscava-se a «ficar mal do braço e pior da perna».

Nos tempos que correm (já) não é bem assim. 

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

«Afrocalipse»

Mário Lúcio Sousa é um escritor e músico (cabo-verdiano) de talento extraordinário e conhecimento vasto e abrangente. Dele só li «Afrocalipse», mas não se me oferecem dúvidas sobre a sua qualidade nem sobre a sua lucidez. Nem sobre a sua honesta coragem, já agora, porquanto não põe a desgraça actual dos países africanos sobre os ombros dos colonizadores, antes (e principalmente) a “distribui” pelos ditadores assassinos e ignorantes que se instalaram no poder em muitos deles nas últimas décadas.

A cultura e a criatividade de Mário Lúcio Sousa são impressionantes. A ironia também.

Pelo que me fica uma imensa vontade de ler toda a sua obra, levemente prejudicada pelas muitas palavras e expressões que colidem com a minha condição de filho grato da língua portuguesa, tal como a moldaram os autores clássicos da nossa literatura, sobretudo os dos séculos XIX e XX.

Mas a leitura vale a pena: Oh, se vale!

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Haja saúde

Cada vez mais, sempre que se aproxima uma consulta ou exame, fico aborrecido e contrariado. Hoje mesmo, lá torno. Nunca tive grande curiosidade pelo descritivo dos exames médicos, excepção feita às análises periódicas ao sangue. Agora, menos ainda. Talvez porque têm sido muitos desde há quase dúzia e meia de anos. Mas, seja como for, ainda não morri, nem tenho sofrido dores (físicas) de monta.

Tendo em conta que cheguei à idade em que tenho filhos e netos e estou prestes a terminar a actividade profissional a que dediquei a minha vida, bem se pode dizer que tenho tido sorte. Sim, muita sorte.

Que a vida bem vivida exige genética, condições materiais suficientes, (boa) educação e sorte, repito.

No mais, havendo saúde e paz, o resto a gente faz (este dito ficou-me da Alice Vieira, algures em algum tempo).

José Batista d’Ascenção

domingo, 23 de agosto de 2026

Plantas referidas na obra poética de Camões, ao vivo, em Coimbra

Jorge Paiva apaixonou-se pelas plantas na obra poética de Camões e quis mostrá-las ao vivo nos jardins da Universidade de Coimbra. Surgiu, assim, um roteiro literário-botânico de plantas vivas relacionadas com a obra do maior dos nossos poetas, espalhado por quatro jardins e canteiros da universidade.

Ver jornal «Público» de hoje (páginas 24 e 25 da versão impressa).

José Batista d’Ascenção


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Gastos dois terços de Agosto

Foi um rápido. Passou e soube bem. Os mais jovens, filhos e netos regressam agora aos países que os acolhem. São emigrantes, os meus descendentes (todos). Não são emigrantes como foram, noutros tempos, tias e tios meus. Mas são emigrantes, mesmo os que têm dupla nacionalidade. Eu assim os considero.

Sobre a emigração dos meus tempos de meninice e juventude, retenho relatos fragmentários de viagens «a salto», sobretudo para França, relembro fragmentos de conversas sobre «passadores» e, principalmente, guardo referências ao trabalho intenso e ao esforço de poupança dos que se foram por negra necessidade, na intenção de um dia regressarem para a casa nova que, entretanto, mandaram construir, bem diferente do «ninho de pedras» coberto de telha vã, sem água nem electricidade, nem casa de banho que deixaram ao partir.

Os regressos para o Natal ou para os meses de Verão, em cada ano, eram uma festa ao chegar e um aperto no peito na hora de voltar.

Os emigrantes ajudaram a fazer de Portugal outro país. Há pouco mais de meio século, antes do «25 de Abril», as condições de vida eram paupérrimas para mais de três quartos das pessoas: mortalidade infantil, analfabetismo, carências alimentares, falta de assistência médica e ausência de liberdade de pensamento faziam uma paisagem humana e social cinzenta e triste, não obstante o escape (compreensível) do folclore e a acção da propaganda política.

Os nossos emigrantes também deram muito aos países a que aportaram.

Honra lhes seja e à sua condição.

Obrigado, meus filhos.

José Batista d’Ascenção.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Golos que valem por dois

Não há na minha biografia vestígios que indiquem que fui uma promessa não cumprida no desporto, em particular no mundo do pontapé na bola.

Conto no currículo com a prática em jogos de rua e mesmo em campos (pelados) de medidas regulamentares, em que fui (demasiadas vezes) um elemento desequilibrador (em desfavor da minha equipa), e orgulho-me de nunca, enquanto jovem, ter perdido por mais de dez (que me lembre).

Actualmente, várias décadas decorridas, ainda sou escolhido pelos meus netos para ficar à baliza, suponho que com dois generosos objectivos: envolver proximamente o avô e valorizar-lhe o talento.

No jogo desta tarde apliquei-me quanto pude na defesa da baliza à minha guarda, tanto que sofri (apenas) 21 golos. O resultado, no entanto, ficou em 22-6.

Para abreviar o tempo do massacre, que não a dimensão da derrota, o Artur, petiz de cinco anos, marcador do último golo, considerando a perícia do remate e o falhanço aparatoso do guarda-redes, gritou:

- Terminou o jogo, este golo valeu por dois!

E eu pude então descansar, com uma sensação de ternurenta vitória. 

José Batista d’Ascenção.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Coisas que permitimos que aconteçam em Portugal e não devíamos

É da (nossa) cultura, mas não apenas. Nós, os portugueses, ou muitos de nós, esperamos mais por milagres ou que alguém faça o que nos cabe do que investimos nos procedimentos pessoais e colectivos adequados à prevenção dos riscos mais diversos. Lembro os que conduzem sem abstinência alcoólica, mas penduram um terço no espelho retrovisor. As limpezas de vegetação seca à volta das nossas casas, que, podendo, não fazemos, por admitirmos que alguém – das autarquias aos bombeiros - o fará por nós. Os foguetes que se lançam em honra de santos em festejos de Verão, como se daí decorresse alguma protecção contra incêndios. Isto ao nível do cidadão comum.

Mas os nossos governantes são filhos da mesma cultura. Donde, morreram pessoas por falta de assistência médica urgente, mas a ministra da pasta aguardou pelos inquéritos que mandou fazer para concluir que o seu lugar não estava em causa. Nos exames nacionais aconteceu o que não podia ter acontecido, de que resultaram prejuízos irremediáveis e injustiças definitivas para muitos alunos, que o senhor ministro foi justificando com razões diversas, algumas espúrias, sem o desassombro de assumir, ele mesmo, à cabeça, a responsabilidade primeira. Os exemplos podiam continuar…

A nível intermédio, nas organizações, o panorama é coerente: em quem manda, em muitos dos executores ou praticantes e nos cidadãos destinatários ou elementos do público. Veja-se a organização da «Volta a Portugal em Bicicleta»: Um cidadão, certamente sem intenção, provocou a morte a um jovem atleta. Há muitos anos, um cão fez cair o maior de todos os ciclistas portugueses, de que veio a resultar a sua morte. Este ano o percurso da corrida incluiu a passagem por um sector do único Parque Natural do país, no Gerês, com parecer favorável do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas!

E nós aceitamos. Ninguém nos mete na cabeça que o que pode correr mal, em alguma altura corre mesmo mal.

Ainda há quem lhe chame destino.

José Batista d’Ascenção.