sábado, 17 de outubro de 2026

Coisas que crescem em nós

O nosso corpo é perturbadoramente maravilhoso, embora não mais do que o dos outros seres vivos de complexidade equivalente. As suas unidades funcionais, chamadas células, em número de milhões de milhões (algumas dezenas de biliões), são tão complexas como as maiores cidades. E, como elas, podem perturbar-se e começar a funcionar mal.

Por vezes, alterações genéticas afectam os mecanismos de regulação da divisão celular. Em consequência, pode acontecer que massas celulares desatem a crescer indesejavelmente por multiplicação das células constituintes.

Ávidas de alimento, há células tumorais que induzem a formação de vasos sanguíneos para aporte de nutrientes, e que são capazes de se descolar das outras e espalhar-se pelo corpo, onde continuam a consumir alimento e a multiplicar-se. Está-se em presença de uma doença maligna (cancro).

O nosso sistema de defesa (sistema imunitário) ataca normalmente o que nos é estranho. Como as células malignas são nossas, muitas vezes não são suficientemente diferentes das células normais, outras vezes iludem ou inibem o sistema imunitário, pelo que não são destruídas e continuam a originar outras a um ritmo tendencialmente exponencial, quando as condições o permitem (disponibilidade de alimento, de oxigénio, de espaço…): uma célula dá duas, duas dão quatro, quatro dão oito, etc.

É a vez da medicina: ou aquelas células descontroladas são removidas, por cirurgia, por exemplo, ou são eliminadas por algum procedimento (radioterapia, quimioterapia ou outro). Não sendo atalhada, a doença progride, em muitos casos, fatalmente.

Hoje, com o aumento da esperança média de vida, nos países mais “desenvolvidos”, e o envelhecimento das populações, a que se somam alguns hábitos prejudiciais e a exposição a diversos poluentes, as doenças oncológicas tornaram-se muito comuns, para o que também contribui a eficácia dos meios de diagnóstico.

Tanto como temer a palavra «cancro» devemos promover o conhecimento e adoptar comportamentos e praticar acções que, em muitos casos, o previnem ou detectam precocemente.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Cultura da avaliação ou paranóia de coisa que o valha?

Das análises clínicas ou exames de saúde aos serviços de mecânica automóvel ou atendimento em lojas, é comum recebermos notificações para proceder à respectiva avaliação.

Lembro-me de o senhor que me vendeu o último carro, há quase uma década, me “suplicar” que respondesse a tudo com o máximo, porque menos do que excelente em todos os itens era considerada uma avaliação fraca.

Deixei de responder a esses inquéritos, porquanto, sempre que o fiz, a globalidade das perguntas deixava de fora o que me parecia fundamental.

No meu campo profissional – as escolas – a «cultura da avaliação»: interna, externa, auto e hetero, diagnóstica, formativa, sumativa, etc., também se tornou uma obsessão formal, apesar de a preparação dos alunos, pelo menos na última década, deixar cada vez mais a desejar.

Sendo ainda mais cruamente concreto em matéria pessoal: enquanto professor estive obrigado à frequência de acções de formação para progredir na carreira. Tudo normal. Sempre fui muito selectivo nas que escolhi para frequentar, mas não pude evitar alguns barretes. Em consequência, tenho uma maleta de diplomas que comprovam a exigência formal, mas, para aí um terço deles, só os guardo como elementos factuais de eventual prova. Logo que surja a aposentação vão direitinhos para o lixo. As acções correspondentes não contribuíram em nada para que eu pudesse ter sido um professor melhor.

Avaliação é imprescindível, claro. Mas só no caso de ser clara, objectiva e maximamente imparcial, o que é difícil, particularmente quando se é juiz em causa própria.

Ou então passamos a vida a fazer de conta, que é o que temos feito.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Casamentos com interdição da presença de crianças

Mais ainda que pela idade, o estado psicossocial do mundo mostra-me que estou velho, porventura fora do tempo.

Soube um dia destes que um meu familiar ainda jovem, na casa dos trinta e picos, casado e com um belo filho, que frequenta o jardim-escola, sendo convidado para um casamento, confrontou-se com a necessidade de entregar o rapaz, por impossibilidade de o levar consigo e com a mãe à festa de noivado.

Fiquei impressionado. Na minha cabeça, um casamento é um acto fundador de uma família, que tem o seu sentido mais profundo e completo na possibilidade de se alargar com crianças. Sei que não tem de ser assim, mas parece-me que é deste modo que as crianças têm mais possibilidades de crescerem felizes e de receberem uma educação melhor (que até lhes permita participar em casamentos sem serem excessivamente incomodativas).

Onde também estranho a evolução das mentalidades e dos procedimentos é em esconder a morte e as cerimónias fúnebres das crianças. Não era assim na aldeia (do interior da Beira Baixa) onde nasci e frequentei a escola primária. Então, à parte a necessária sensibilidade e cuidado, as crianças não eram excluídas. E isso nunca me pareceu mal.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Mas não creio que se tenha mudado a natureza íntima e os sentimentos dos seres humanos.

À margem, observo.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Fuga ao tédio

Tão bonito o Porto, ontem à noite, de um miradouro (relativamente) silencioso, “longe” do clima demencial do “pontapé na bola”.

O futebol jogado era para mim um escape, que saboreava raramente, através da TV, com o som desligado.

Desisti.

Também desisti da maioria dos políticos nacionais e estrangeiros.

Aguardo melhores dias.


Às 21.00 horas de ontem assisti a um concerto pela «Schönbrunn Palace Orchestra Vienna», que me trouxe emoções positivas e paz interior. Os músicos estiveram irrepreensíveis e entusiasmantes. O público aplaudiu efusiva e longamente.

No fim, sentia-me mais capaz de acalentar a esperança, não obstante certas “notícias” e "comentariado", de que também me apetece desistir. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 26 de setembro de 2026

Corre a gente numa pressa. Para aonde e para quê?

Tenho para mim que de grande parte das nossas actividades não resulta grande coisa, senão cansaço físico e emocional. Somos nós, nas nossas correrias, são as organizações de trabalho, as instituições e os órgãos políticos que têm de mostrar serviço, particularmente os governos.

Cumprimos fadários que nos impõem e que nos impomos, bem como aos que de nós dependem, como é o caso das crianças. Reconheça-se que parar é morrer, mas o problema está no excesso evitável de que dificilmente damos conta.

Chega a velhice, depois de “avisos” que tendemos a ignorar, e que se vão somando inexoravelmente, até que alguém, mais ou menos claramente, com ou sem intenção, ou algum exame médico, nos confronta com a nossa condição. E então, se situação sócio-económica e as faculdades pessoais o permitem, questionamo-nos sobre se fomos formigas excessivamente laboriosas ou alguma espécie de barata tonta.

Infelizmente, muitos, demasiados, sofrem de precariedade social e doença tais que nem se colocam questões “filosóficas” deste tipo. E tantos caem em apatia e inactividade, em que se arrastam penosamente numa solidão crescente. Outros, os privilegiados que, ainda saudáveis, conseguiram uma pensão remediada podem entrar numa fase mais descontraída, dedicando-se ao que antes não puderam fazer, por vezes com grande gosto e proveito próprio e de outrem. Excepto se não iniciam outra etapa de correrias a levar e trazer netos e a cuidar deles, e estão livres da angústia de ter de auxiliar filhos ou não são obrigados a tomar conta de alguém incapacitado. 

Seja como for, cumpre-nos viver a vida, do modo que sabemos e podemos. E ser activo, em todo o percurso de vida, é um dever imprescindível – o dever de estar vivo e de dar vida, alegria e esperança. 

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

As cidades, os seres vivos e a matemática

Uma (simples) célula, um ser vivo (mais) complexo e uma cidade, qualquer que seja, têm aspectos matematicamente comparáveis, com tradução quantitativa, não obstante a aparente falta de relação. Num sentido muito preciso, Lisboa e um rato são variações sobre um mesmo tema.

Se se considerasse uma listagem de cidades americanas, ordenadas de acordo com o número de habitantes, verificava-se que a maior tem aproximadamente o dobro de habitantes da segunda, o triplo da terceira, etc. Este padrão surge espontaneamente como forma de auto-organização.

Há grandezas que crescem mais devagar do que as cidades propriamente ditas (por exemplo o número de bombas de gasolina). Isto deve-se a fenómenos de economia de escala.

Outras grandezas são proporcionais à dimensão das cidades (por exemplo o total de habitações, o consumo de água ou de electricidade). E há outras ainda que crescem a um ritmo maior do que o das cidades (por exemplo o custo das habitações). Estes dois tipos de grandeza não têm, em geral, analogias biológicas.

Passemos aos seres vivos. A energia necessária a um organismo vivo cresce com a sua massa, mas a taxa metabólica não é proporcional à massa. O ritmo cardíaco de um pequeno colibri pode ser de 1200 batimentos por minuto, enquanto o de uma baleia é de 8 batimentos por minuto. Há economia de escala. A taxa metabólica por unidade de massa, por unidade de tempo, diminui com o aumento de tamanho do animal.

A explicação reside, em parte, no modelo de distribuição de energia e nutrientes pelo sistema sanguíneo, cujos capilares se ramificam com uma estrutura (aproximadamente) fractal.

Há aqui uma ligação da biologia à matemática das cidades, em que as canalizações, as redes viárias e as de cabos eléctricos desempenham papéis de certo modo análogos ao do sistema circulatório dos animais. Assim, a biologia ajuda a compreender a matemática das cidades. As economias de escala seguem uma lei traduzida por uma fórmula matemática.

in: «Casamentos e Outros Desencontros». Jorge Buescu. Gradiva. 2ª Ed. 2026. p.139-146

José Batista d’Ascenção

sábado, 19 de setembro de 2026

Medronheiro

O arbusto da foto cresce em (pequena) propriedade minha. Como outros das proximidades está carregado de medronhos, quase tendo mais frutos que folhas. Cientificamente, o medronheiro tem o nome Arbutus unedo L. Pode atingir vários metros de altura, com troncos com 60-70 cm de perímetro na base. As flores são campânulas centimétricas, de cor branca ou rosada, reunidas em inflorescências pendentes. As urzes do género Erica são da mesma família. Ocorre em grande parte do país continental, é muito abundante em certas regiões da Beira Interior e do Algarve e é agora cultivado em jardins, talvez devido a ter uma folhagem persistente (sempre verde) e poder apresentar em simultâneo flores e frutos. Os frutos vão amadurecendo uns e depois outros, coexistindo frequentemente, na mesma planta, os de coloração verde, amarela e vermelha, com todas as gradações intermédias.

Desde sempre, a folhagem foi utilizada para alimentação de cabras, por exemplo, a madeira para lenha e os medronhos, sobretudo, para produzir aguardente. Depois de colhidos, os frutos maduros fermentam produzindo uma massa rica em etanol. Este processo chama-se «fermentação alcoólica» e decorre em semanas. Ao mesmo tempo, derivado de outros processos bioquímicos, forma-se outro álcool – o metanol. Por destilação da massa obtém-se aguardente.

A aguardente de medronho de produção rústica incluía aqueles dois álcoois, sendo que, embora  nenhum deles faça bem à saúde, a degradação do metanol tem consequências particularmente danosas.

A venda de aguardente de medronho só é legalmente permitida se, entre outros requisitos, o processo de destilação acautelar concentrações demasiado elevadas de metanol. Como o ponto de ebulição do metanol (cerca de 65ºC) é bastante inferior ao do etanol (aproximadamente 78ºC), aquele tende a concentrar-se mais nas primeiras fracções do destilado, que devem ser separadas.

Entre as pessoas (mais) apaixonadas pelo interior (bastante desertificado...) do país, algumas acreditam noutras possibilidades úteis do medronho, do fabrico de compotas à produção de pão. Porém, até ao presente, o seu consumo e procura não são significativos.

A flor do medronheiro, para além de ser bonita, alimenta abelhas que fazem mel.

Perguntou-me alguém se podia apanhar os medronhos. Não hesitei na resposta:

- Claro, não estão eles a pedir que alguém os apanhe? 

José Batista d’Ascenção