terça-feira, 17 de março de 2026

Aprender com as cegonhas

O segundo dia a seguir à queda de parte do tabuleiro da autoestrada A1, na margem direita do Mondego, em Coimbra, devia eu atravessar aquele viaduto. Em vez disso tive de seguir o percurso alternativo.

Dias depois, em comentário sobre a violência da tempestade que tinha ocorrido e do rasto de destruição que deixou, alguém me dizia que, no meio dos destroços, os ninhos das cegonhas, em grande número nos postes da rede eléctrica de alta tensão, naquela zona, permaneciam lá. Então, não o pude confirmar objectivamente.

O que sei é que em tempos não muitos remotos (menos de cem anos), as margens do Baixo Mondego eram arborizadas e as cegonhas não dispunham de nem precisavam dos postes de electricidade para nidificar. O «progresso» dos humanos obrigou-as a solução de recurso, de que, aparentemente, se saem bem.

Ontem, dia 17 de Março, voltei a fazer a A1 nos dois sentidos entre Porto e Leiria e pude reparar que as torres metálicas da rede eléctrica estão repletas de ninhos de cegonha, com as aves por perto, tão diligentes como sempre as vi.

Ainda não sei se os ninhos são realmente os que já lá estavam ou se foram (re)construídos entretanto. Seja como for, enalteço a «engenharia» e a «resiliência» das cegonhas, que me parecem uma lição. Para os comuns mortais e, também, para a engenharia nacional.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 13 de março de 2026

O mundo em fanicos

Entre portas, além da preocupação com a escalada do preço dos combustíveis, que vai agravar inexoravelmente a inflação, parece sobrar muito tempo e espaço para a discussão de motivos tão fúteis como a vestimenta de cerimónia da mulher do novel presidente da república. Somos assim.

Para lá do nosso «quintal», o mundo está submetido a brutal «pirotecnia» de engenhos mortíferos e destrutivos que riscam os céus - «espectáculo» que alguns descrevem como «interessante»! - e fazem em pedaços estruturas, edifícios e… pessoas.

Os indivíduos mais poderosos do mundo são loucos e alguns deles são frios assassinos.

Os líderes europeus - das democracias que (ainda) restam - entretêm-se nas vacuidades características das respectivas irrelevâncias, grudados nos cargos a que ascenderam pelos votos, que pouco merecem.

Onde e como vamos acabar não o sei eu. Mas temo, sobretudo, pelos meus filhos e netos e por todos os que são das idades próximas das deles.

No resto da minha vida, vou cuidar de encontrar sementes de optimismo, que esforçadamente tentarei semear.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 11 de março de 2026

Húmus, “hummus”, humor triste e divórcio das palavras

Hoje, na aula de biologia de 11º ano, conveio referir a decomposição da matéria orgânica e a formação de húmus nos solos, agrícolas e não só.

A turma é de bons alunos, mas eles não sabiam o significado da palavra «húmus», que confundiam com um alimento de grafia parecida (ou mesmo coincidente).

Ignorantes não são apenas os alunos (na realidade são todos os que ignorantes parecem mais a totalidade dos que não causam essa impressão). Neste caso, o professor desconhecia o termo e o conceito que os alunos trouxeram à colação.

Marcas dos tempos, dos que passaram e dos que fluem no presente.

Tomara que o léxico dos alunos tenha aumentado com o meu esforço.

Pelo meu lado, não me sinto propriamente mais completo nem mais bem preparado com a extensão do que ouvi e fiquei a saber. Sem arrogância o digo.

E também sem contentamento.

José Batista d’Ascenção.

domingo, 8 de março de 2026

Às mulheres

 

Musa. Séc. I d. C. (Mármore)

Às minhas avós, à minha mãe, à minha mulher, às minhas irmãs, às minhas noras/filhas, às minhas sobrinhas, às minhas netas, que ainda não tenho, às minhas colegas e amigas.


A essas e todas as outras.


Pequena e humilde homenagem, imensamente sentida e grata.


Hoje e todos os dias do calendário.


José Batista d’Ascenção

domingo, 1 de março de 2026

Ortografia

Atente-se no título principal da capa do Jornal de Notícias de 28 de Fevereiro de 2026 (ontem).

Veja-se a importância do acento na palavra «pára», a qual, segundo o chamado «novo acordo ortográfico», devia ser grafada «para».

Fez bem o jornal em não cumprir o dito «acordo».

Faria bem o país em livrar-se dele.

Para isso era preciso três condições: gostarmos muito da nossa língua; percebermos a sua grandeza e importância; e termos coragem de mudar o que, manifestamente, não está bem.

Muito tarda o que não acontece. Mas íamos muito a tempo.

De resto, suponho que a imensa maioria dos portugueses nem notava. Infelizmente.

Disse.

José Batista d’Ascenção

sábado, 28 de fevereiro de 2026

«Caça às bruxas» é uma expressão com real e duradoiro fundamento histórico (II)

«Um juíz borgonhez, Henri Boguet (1550-1619) especulou que haveria 300 mil bruxas em França e 1,8 milhões na Europa. A histeria coletiva gerada levou a que, nos séculos XVI e XVII, fossem torturados e executados entre 40 mil e 50 mil inocentes, de diferentes origens e de todas as idades, acusados de bruxaria, incluindo crianças de cinco anos.

Os métodos inquisitoriais recomendados pelo manual de Kramer, Malleus Maleficarum, eram diabólicos. Obtida a confissão, os acusados eram executados e os seus bens repartidos pelo acusador, pelo carrasco e pelos inquisidores. Se o acusado recusasse confessar, tal era visto como obstinação demoníaca e tinham lugar as mais horrendas torturas: partiam-se dedos, mutilava-se a carne com tenazes em brasa, o corpo era esticado até ceder ou mergulhado em água a ferver. Famílias inteiras foram executadas, começando-se por um elemento da família forçado a incriminar outro, indicado pelos torturadores, e assim continuamente.

Em 1600, em Munique, os elementos da família Papphenheimer (o pai, a mãe, dois rapazes e um menino de dez anos), foram todos mortos. Começaram pelo menino, obrigado a denunciar a mãe. Os quatro adultos, mutilados com tenazes em brasa, foram torturados na roda, sendo-lhes partidos os braços e as pernas; o pai foi empalado; os seios da mãe foram cortados, e todos foram queimados vivos. O menino, chamado Hansel, foi obrigado a ver tudo, e quatro meses depois foi executado.»

[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 141-142 p.]

Hoje, as torrentes de informações das vias de comunicação, tal como no passado, depois da invenção da imprensa, não asseguram por si só, o conhecimento e a aproximação geral à verdade. Veja-se o que se passa nas redes sociais. Não se defenda a censura, mas é preciso conter a profusão e difusão de notícias falsas.

Se eu soubesse como, dizia.

José Batista d’Ascenção

«Caça às bruxas» é uma expressão com real e duradoiro fundamento histórico (I)

«A febre europeia da caça às bruxas foi um fenómeno moderno, não medieval. A partir de meados do século XV, aproveitando a invenção da imprensa, eclesiásticos e estudiosos da região dos Alpes coligiram elementos da religião cristã, da tradição local e da herança greco-romana e amalgamaram uma nova teoria da bruxaria, argumentando que as bruxas eram uma ameaça temível, dirigida à sociedade no seu todo. Haveria uma conspiração mundial de bruxas que, adorando Satanás, se constituíam como instituição religiosa anticristã, que visava destruir a ordem social da humanidade. As bruxas matavam crianças, comiam carne humana, faziam orgias e lançavam feitiços que traziam tempestades e epidemias e toda a sorte de catástrofes.

A primeira vaga de caça e julgamento de bruxas foi conduzida por eclesiásticos e nobres da região do Valais, nos Alpes Ocidentais, entre 1428 e 1436, ultrapassando-se as duas centenas de execuções de supostos bruxos e bruxas.

Em 1487, Heinrich Kramer, frade dominicano e inquisidor compilou um manual que ensinava a desmascarar e matar bruxas, intitulado Malleus Maleficarum. Especificamente, recomendava o recurso a métodos de tortura horripilantes aos suspeitos de bruxaria, cujo castigo não podia ser senão a execução. Kramer sexualizou a bruxaria, que seria uma atividade tipicamente feminina. Na sua imaginação transbordante de ódio, Kramer dedicou um capítulo inteiro ao talento das bruxas para o roubo de pénis.

O livro de Kramer encontrou alguma resistência inicial, todavia tornar-se-ia um dos maiores bestsellers do começo da modernidade. Em 1500, Malleus Maleficarum tinha esgotado oito edições. Até 1670 fizeram-se mais vinte e uma edições, a que se somaram várias traduções vernáculas. O livro tornou-se a obra definitiva sobre o tema, e o trabalho de Kramer foi definitivamente acolhido pelos peritos eclesiásticos.»

[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 136-141 p.]

Retire-se dos factos da história que a disponibilidade e a facilidade da circulação da informação não se traduzem directamente na divulgação e no conhecimento geral da verdade.

(Continua)

José Batista d’Ascenção