quarta-feira, 1 de julho de 2026

Plantas, alterações climáticas e ar condicionado

As plantas, sobretudo as árvores de maior porte e fronde, são grandes consumidoras de dióxido de carbono (CO2), que transformam em compostos orgânicos (no processo da fotossíntese), os quais se acumulam no seu corpo, formando o que chamamos biomassa vegetal. Ao retirarem CO2 da atmosfera (e também da água, no caso das plantas aquáticas) contribuem para a diminuição do efeito de estufa, já que aquele gás é um dos que potenciam a retenção de calor pela camada gasosa do planeta (o consumo do CO2 dissolvido na água contribui igualmente, pois quando mais for removido da massa líquida, mais moléculas gasosas do mesmo gás provenientes da atmosfera se dissolvem na água).

Devido à queima de combustíveis fósseis (carvão, derivados de petróleo…) e à desflorestação, particularmente a causada por incêndios, não só tem aumentado a libertação de CO2 para a atmosfera como têm diminuído os mais eficazes sumidouros desse gás – precisamente as árvores. Aqui reside um dos factores responsáveis pelo aumento da temperatura média da atmosfera terrestre.

Temos, portanto, o clima a aquecer, em parte devido à actividade antrópica (humana). As ondas de calor sucedem-se, com aumento de frequência e de duração, causando desertificação e grandes problemas de saúde e mesmo de sobrevivência humana e de outras espécies.

Uma boa medida seria florestar, florestar, florestar. Não é isso que a humanidade está a fazer – está a fazer precisamente o contrário: a desertificar, desertificar, desertificar… áreas cada vez maiores.

Ao mesmo tempo reclamam-se melhores condições, principalmente no espaço urbano. Porém, aqui, queremos solos empedrados e asfaltados e acusamos as árvores (infundadamente) de causar alergias e de exigirem a remoção de folhagem, assim como apontamos o risco de se arrancarem ou partirem causando danos. Ao mesmo tempo instalam-se ares condicionados onde se pode e por quem possui recursos para pagar os acréscimos (muito significativos) do consumo de energia.

Ora, as árvores dão sombra e libertam vapor de água (por transpiração), amenizando muito as temperaturas, ao mesmo tempo que renovam o ar que respiramos [porque produzem oxigénio (O2) no tal processo da fotossíntese]. E dispensam a instalação de canalizações e vaporizadores e gasto de água nas artérias citadinas. Além disso ainda embelezam e perfumam os espaços, não apenas na Primavera. Acresce que os aparelhos de ar condicionado gastam energia para deslocar o calor de certos espaços (normalmente interiores) para outros na envolvência (normalmente o exterior). Sendo que, ao funcionarem, esses equipamentos produzem calor, que se acrescenta ao que transferem de um espaço para outro. Ou seja, também contribuem para o aumento da temperatura.

Devíamos pensar (mais) no assunto.

As árvores são nossas amigas.

José Batista d'Ascenção.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Houvesse na política líderes com a dimensão e o humanismo dos últimos papas

Homens monumentais: foi-o o papa Francisco e está a sê-lo o papa Leão XIV. Os líderes políticos dos principais países democráticos europeus das três últimas décadas foram ou são, em geral, baços, nada inspiradores e pouco eficazes. Enunciam princípios mas não lutam com denodo por eles. Parecem (e são) mais funcionários bem pagos e acomodados do que representantes eleitos dedicados a causas e esforçados na sua execução. Ainda pus esperanças nas mulheres das actuais chefias, mas ficaram iguais aos seus colegas masculinos. Temos uma massa dirigente indistinta, amorfa e desinteressante.

O mundo caminha mal. Torcionários frios e assassinos (Putin, Kim Jong-un), ditadores calculistas de face serena (Xi Jinping) ou narcisistas doentios espalhafatosos e amorais (Trump) querem tomar conta do mundo e conduzem-no para a negrura dos seus instintos e interesses materiais.

Poderosos como eles (ou mais ainda) são os donos das empresas gigantes digitais e dos sistemas de inteligência artificial (IA), alguns deles com afinidades hitlerianas, pelo menos em certos gestos e atitudes (Elon Musk).

No meio disto há referências de humanismo que devíamos divisar, quais âncoras de lucidez e compaixão, sem o que a espécie humana terá triste fim.

A encíclica «Laudato Si» mostra-nos lúcida e esperançosamente o melhor a fazer pela Casa Comum. Acabada de sair, a encíclica «Magnifica Humanitas» aponta corajosamente o caminho para fugirmos ao horror da escravatura dos algoritmos e ao atroz belicismo tecnológico apoiado na IA.

Pudesse o mundo católico de base multiplicar e tornar claras aos olhos do vulgo praticante a beleza, a bondade e a iluminação das propostas de Leão XIII, João XXIII, Francisco e Leão XIV, assim como recusar a profanação dos Evangelhos por líderes extremistas que se fazem filmar prostrados e de mãos postas frente aos altares.

Os humanos pertencem todos a uma só espécie e cada um de nós tem a mesma dignidade de quaisquer outros, sem excepções.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Azul

Certinhas, as minhas hortênsias – as mais belas da minha rua – correspondem anualmente, mesmo quando passam mal.

O fim-de-semana passado foi uma dessas alturas em que, sem serem regadas, murcharam, entristecidas, no alto da floreira em que enfeitam a entrada e podem ser contempladas da rua.

Mas, dois regadores de água depois, agradecidas, embelezaram-se como deve ser.

E ficaram assim, humildemente bonitas.   

José Batista d’Ascenção

De Curação a Curaçau?

Ilha Curaçau

Em saboroso artigo no jornal «Público», do dia 10 de Junho, Miguel Esteves Cardoso fala da presença da selecção de futebol de Curaçau no mundial. O que podia ter dito é que o nome «Curaçau», segundo algumas opiniões, é uma "corruptela" do termo "curação", com significado de "curar", dado pelos portugueses àquela ilha. No tempo das navegações dos europeus pela conquista do mundo, o escorbuto, resultado da falta do consumo de verduras (ricas em vitamina C) em viagens de meses sobre as ondas, dizimava os marinheiros. Sempre que aportavam em ilhas onde pudessem comer citrinos, por exemplo, a cura do escorbuto era rápida e (aparentemente) milagrosa. Ora, portugueses de então, esfaimados, teriam chegado àquela ilha e devoraram limões selvagens que rapidamente lhes proporcionaram francas melhoras. Por isso, lhes chamaram "ilha da curação", da curação do escorbuto.

Posteriormente, os holandeses tomaram posse dessa ilha, e como devem ter (tido) dificuldade em pronunciar o «ão», tão nosso, passaram a chamar-lhe «Curaçau».

E esse nome teria permanecido até à actualidade.

José Batista d'Ascenção

domingo, 31 de maio de 2026

Ter ou não ter talento

Há alguns anos, quando Luísa Sobral apareceu nas televisões (ou quando eu dei por isso…), impressionou-me a sua aptidão para a música. Mesmo a sua voz nasalada era uma originalidade de que gostava. Quando compôs a canção que fez do seu irmão uma estrela, pareceu-me natural, e revelou outra faceta dela: a sensibilidade e a solidariedade para com o outro, mesmo que familiar próximo. Antes disso, um dia fui ouvi-la ao Theatro Circo, em Braga, e já então confirmara, presencialmente, as suas qualidades artísticas e pessoais, ao enriquecer o seu concerto com a participação do irmão.

Na escrita não tinha, até este fim-de-semana, lido nada dela. Na Quinta-feira passada, ao fim da tarde, comprei o livrinho «Da Minha Janela» e o volume já não me largou mais até o terminar, ontem de manhãzinha.

Escrita simples, escorreita, expressiva, sobre as coisas comuns da vida, com humor, acutilância e incisão. Só fui ao «Google» duas vezes, para saber o que é «Push Pop» e «eneagrama». Tudo fácil e agradável, sensível e bonito. 

Bonitas e reveladoras de outro talento são as (pequenas) ilustrações, precedendo cada uma das crónicas. Pena ficarem tão pequeninas, “pormenor(es)” que não deve ser difícil trocar “por maiores”.

A última crónica, «Há dois anos que a morte me ensina a viver», é particularmente bela e emocionante.

Contrariamente ao que senti quando li livros de músicos cantores portugueses ou brasileiros consagradíssimos (há muito e muito merecidamente), apetece-me dar parabéns à autora.   

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Inda agora

O retrato é espelho de muita coisa, nenhuma delas boa. Fi-lo sem autorização nem conhecimento do sujeito.

Bolas para a sociedade que somos!

É este o fim-de-semana de recolhas do «banco alimentar», que mobiliza muitos, e ainda bem, mas não resolve a vida dos que precisam.

A seguir fui dar aulas e interroguei-me sobre o que (e para que) aprendem os jovens meus alunos.

Daqui a 10-15 anos o «banco alimentar» continuará «banco alimentar» ou terá mudado de nome ou (já) não existirá organismo equivalente? Por falta de necessidades não será…

Que evolução é a nossa, a das pessoas?

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Canícula e factores humanos responsáveis

Ainda Maio não terminou e já se sucedem dias de temperaturas infernais, a que se chama «onda de calor», e prevê-se que o fenómeno aumente a sua frequência com o decorrer dos anos.

As pessoas e muitos outros seres vivos não estão naturalmente adaptados a ambientes de fornalha sucessivos.

Acontece que as actividades humanas directas e indirectas contribuem em muitos casos para o aquecimento global, desde o consumo de combustíveis fósseis (carvão, gasolina, gasóleo, querosene…), à desflorestação e aos «negócios» dos incêndios.

A piorar, os líderes das maiores potências mundiais, ou porque loucos ou criminosos ou uma coisa e outra, negam ou pouca importância dão às alterações climáticas e promovem a guerra com mentalidade troglodita.

Ora, os recursos energéticos consumidos na produção de material bélico, o tráfego de navios e aviões de guerra, a deflagração das bombas e a destruição de infraestruturas são igualmente factores de elevação da temperatura e causadores de poluição diversa. As guerras produzem mortos, feridos, perturbação e destruição.

Nos países livres que (ainda) restam, e que tendem a ser cada vez menos, os cidadãos que amam a liberdade e possuem formação têm o dever de, independentemente de ideologias políticas (os crimes são igualmente crimes, se cometidos pela direita, pela esquerda ou pelo centro) e de nacionalidades, se organizarem para denunciar a demência, a irracionalidade e o delito criminal (que deve incluir os danos infligidos ao ambiente) e para exigirem a punição dos responsáveis, quaisquer que sejam, de onde sejam ou dos cargos que ocupem.

Universidades, centros de saber, religiões pacíficas, organizações governamentais e outros devem colaborar nesse sentido.

Enquanto são/somos livres.

José Batista d’Ascenção