quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Gastos dois terços de Agosto

Foi um rápido. Passou e soube bem. Os mais jovens, filhos e netos regressam agora aos países que os acolhem. São emigrantes, os meus descendentes (todos). Não são emigrantes como foram, noutros tempos, tias e tios meus. Mas são emigrantes, mesmo os que têm dupla nacionalidade. Eu assim os considero.

Sobre a emigração dos meus tempos de meninice e juventude, retenho relatos fragmentários de viagens «a salto», sobretudo para França, relembro fragmentos de conversas sobre «passadores» e, principalmente, guardo referências ao trabalho intenso e ao esforço de poupança dos que se foram por negra necessidade, na intenção de um dia regressarem para a casa nova que, entretanto, mandaram construir, bem diferente do «ninho de pedras» coberto de telha vã, sem água nem electricidade, nem casa de banho que deixaram ao partir.

Os regressos para o Natal ou para os meses de Verão, em cada ano, eram uma festa ao chegar e um aperto no peito na hora de voltar.

Os emigrantes ajudaram a fazer de Portugal outro país. Há pouco mais de meio século, antes do «25 de Abril», as condições de vida eram paupérrimas para mais de três quartos das pessoas: mortalidade infantil, analfabetismo, carências alimentares, falta de assistência médica e ausência de liberdade de pensamento faziam uma paisagem humana e social cinzenta e triste, não obstante o escape (compreensível) do folclore e a acção da propaganda política.

Os nossos emigrantes também deram muito aos países a que aportaram.

Honra lhes seja e à sua condição.

Obrigado, meus filhos.

José Batista d’Ascenção.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Golos que valem por dois

Não há na minha biografia vestígios que indiquem que fui uma promessa não cumprida no desporto, em particular no mundo do pontapé na bola.

Conto no currículo com a prática em jogos de rua e mesmo em campos (pelados) de medidas regulamentares, em que fui (demasiadas vezes) um elemento desequilibrador (em desfavor da minha equipa), e orgulho-me de nunca, enquanto jovem, ter perdido por mais de dez (que me lembre).

Actualmente, várias décadas decorridas, ainda sou escolhido pelos meus netos para ficar à baliza, suponho que com dois generosos objectivos: envolver proximamente o avô e valorizar-lhe o talento.

No jogo desta tarde apliquei-me quanto pude na defesa da baliza à minha guarda, tanto que sofri (apenas) 21 golos. O resultado, no entanto, ficou em 22-6.

Para abreviar o tempo do massacre, que não a dimensão da derrota, o Artur, petiz de cinco anos, marcador do último golo, considerando a perícia do remate e o falhanço aparatoso do guarda-redes, gritou:

- Terminou o jogo, este golo valeu por dois!

E eu pude então descansar, com uma sensação de ternurenta vitória. 

José Batista d’Ascenção.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Coisas que permitimos que aconteçam em Portugal e não devíamos

É da (nossa) cultura, mas não apenas. Nós, os portugueses, ou muitos de nós, esperamos mais por milagres ou que alguém faça o que nos cabe do que investimos nos procedimentos pessoais e colectivos adequados à prevenção dos riscos mais diversos. Lembro os que conduzem sem abstinência alcoólica, mas penduram um terço no espelho retrovisor. As limpezas de vegetação seca à volta das nossas casas, que, podendo, não fazemos, por admitirmos que alguém – das autarquias aos bombeiros - o fará por nós. Os foguetes que se lançam em honra de santos em festejos de Verão, como se daí decorresse alguma protecção contra incêndios. Isto ao nível do cidadão comum.

Mas os nossos governantes são filhos da mesma cultura. Donde, morreram pessoas por falta de assistência médica urgente, mas a ministra da pasta aguardou pelos inquéritos que mandou fazer para concluir que o seu lugar não estava em causa. Nos exames nacionais aconteceu o que não podia ter acontecido, de que resultaram prejuízos irremediáveis e injustiças definitivas para muitos alunos, que o senhor ministro foi justificando com razões diversas, algumas espúrias, sem o desassombro de assumir, ele mesmo, à cabeça, a responsabilidade primeira. Os exemplos podiam continuar…

A nível intermédio, nas organizações, o panorama é coerente: em quem manda, em muitos dos executores ou praticantes e nos cidadãos destinatários ou elementos do público. Veja-se a organização da «Volta a Portugal em Bicicleta»: Um cidadão, certamente sem intenção, provocou a morte a um jovem atleta. Há muitos anos, um cão fez cair o maior de todos os ciclistas portugueses, de que veio a resultar a sua morte. Este ano o percurso da corrida incluiu a passagem por um sector do único Parque Natural do país, no Gerês, com parecer favorável do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas!

E nós aceitamos. Ninguém nos mete na cabeça que o que pode correr mal, em alguma altura corre mesmo mal.

Ainda há quem lhe chame destino.

José Batista d’Ascenção.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Livros de ajuda que ajudam muito

Filipa Dias (que não tenho o privilégio de conhecer) é uma técnica habilitada e especializada (por instituições portuguesas e estrangeiras), que ajuda «a compreender melhor o processo de envelhecimento, a lidar com as mudanças trazidas pela doença e a organizar o cuidado…

Trabalha nas áreas de gestão de comportamentos, adaptação da casa, estimulação cognitiva e funcional e estratégias de autocuidado» … A sua prática inclui «vivência pessoal próxima com a doença de Parkinson e a demência» …

O que Filipa Dias também tem é uma excelente capacidade de comunicação por escrito com clareza, autenticidade, objectividade e precisão. Além disso, fá-lo com humanismo tocante e encorajador, especialmente nos casos em que aumentam exponencialmente os aspectos deprimentes da demência e da fisiologia, causadores de sofrimento extenuante e arrasador de quem cuida, pessoa que precisa igualmente de protecção, antes de esquecer-se de si e agravar dramaticamente toda a situação.

O livro «Os meus pais envelheceram, e agora?» merece o mais alto prémio da minha consideração, por ser extraordinário no esclarecimento e iluminação de tantos aspectos em que sou terrivelmente ignorante, mas também por não ser o livro de uma sabichona com a pretensão de tudo ensinar ao vulgo ignaro.

Como a minha mãe vai fazer noventa e dois anos, e me atormento com o seu conforto, talvez fosse difícil encontrar bibliografia mais a preceito.

Quase (já) não guardo livros depois de os ler, mas este vai permanecer comigo, também para antecipar o que provavelmente me vai acontecer no resto da minha vida.

José Batista d’Ascenção.

sábado, 8 de agosto de 2026

Pão que vale a pena

Sempre que passo pelas Caldas da Rainha e sou obsequiado com o almoço ou o jantar, o que acontece quase sempre, os meus anfitriões, conhecedores da minha gula por certa broinha de milho amarelo divinal têm-na sempre na mesa. É bonita de ver, macia ao tacto, muito gostosa e fatia maravilhosamente (eu gosto muito de cortar o pão, na hora, antes de o comer, quando ele é bom).

Desta vez, o privilégio foi maior. Sobre a mesa, lá estava o magnífico pão. Como se não bastasse, recebi dois de prenda para trazer para minha casa. O aspecto é o que se vê na imagem. O sabor é indescritível. Não sei em que casa o compram (problema que tenho de resolver…), mas é na cidade. Um dia tenho de ir lá eu mesmo, para o acto de aquisição e para felicitar o vendedor(a)/padeiro(a), acção que suponho que, para eles, seja banal.

Gosto muito de pão. O pão de trigo melhor que comi, simples ou com alguma mistura, não sei bem, foi na zona de Torres Vedras, Mafra e Ericeira. É de comer e gritar por mais.

Broa amarela muito boa comi-a faz muito tempo no interior da Beira Baixa, feita para consumo próprio e familiares pela Ti Natividade, mais conhecida por Ti Fòfa, da freguesia de Estreito, Concelho de Oleiros. Depois que ela morreu, há mais de 35 anos, desisti de comer broa por aqueles sítios, o que deve ser injusto para tantas outras senhoras desconhecidas daquelas terras.

Também na Beira Baixa há uma variedade de pão de trigo confecionada pelo padeiro de Cardigos, que faz com que me alambanze em merendas de trás-da-orelha, sobretudo se acompanho com queijo de Malpica (do Tejo), de ovelha ou de cabra ou de mistura. Também pode ser queijo da Soalheira ou as variedades de Castelo Branco, incluindo o picante.

Voltando ao pão: Pão bom devia ser «o pão nosso de cada dia».

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Portugal, um país heterogéneo com forte identidade

Portugal é um país (relativamente) pequeno, em tamanho. Já foi grande, muito grande, em importância mundial, que podia ainda ter, mas que não tem nem terá nas próximas gerações (oxalá estivesse enganado…), principalmente porque (em minha opinião, e por razões intrínsecas e envolventes) o nosso «sistema educativo» é confrangedoramente ineficaz.

Somos um rectângulo(zinho) no extremo ocidental do continente europeu mais uma dúzia de ilhas no Atlântico, de que resulta termos uma imensidão de oceano como zona económica exclusiva, que cuidamos pobremente e não conseguimos vigiar.

O continente português – o tal rectângulo – cujo comprimento alinha na direcção norte-sul, tem características geográficas diversas, quer devido à latitude (zonas mais a norte ou mais a sul), quer devido à orografia (tipo e orientação das montanhas), a que acrescem a proximidade do mar nas extensas orlas costeiras oeste e sul e a continentalidade nas fronteiras com a Espanha, a norte e a leste.

Para um beirão-interior albicastrense ou um alentejano, o dito do Alto Minho «o primeiro de Agosto é o primeiro dia de Inverno» causa espanto, espanto que tem tanta lógica como o próprio ditado, se considerarmos as características de cada uma daquelas regiões, vistas por quem nelas habita.

As ilhas têm também marcas próprias da sua localização.

O clima, a vegetação, e a paisagem moldam as pessoas e a cultura. Contudo, um dos traços mais fortes do nosso país é a profunda identidade nacional, não obstante a diversidade das formas de viver, de sentir e de estar. Creio que tudo assenta nos nove séculos da História de Portugal.

E, sendo um país sempre pobre, de que grande parte das pessoas teve de partir para fugir à fome e à miséria, a diáspora, espalhada por muitos países do mundo, só reforça, à distância, a funda identidade do que é ser português. Ou seja: os emigrantes fazem Portugal mais português.

Sem megalomania, é legítimo e saudável acreditar que, um dia, os portugueses cumprirão Portugal.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Sim, a bondade está nas pessoas

Nas pessoas em geral, mesmo quando não se nota ou parece o contrário. Cada vez dou mais importância ao papel dos líderes, daqueles que entusiasmam, mesmo se não arrastam multidões. Dou-lhes quase tanta como dou às pessoas intrinsecamente boas – aquelas que, sem o pretender ou exibir, dão exemplos maravilhosos.

A maior parte dos líderes políticos actuais parecem-me genericamente baços, gananciosos e pouco inspiradores, e, muitos deles, perigosos: pelo que são e pelo poder que têm. Mas há-os de categoria. Zelensky, por exemplo, tem lutado com coragem e firmeza pelo seu país e pelo seu povo.

Tristemente, as mulheres que ascenderam aos lugares de topo na política mundial não se distinguem dos homens. Neste particular, a igualdade de género tem sido menos fecunda do que eu a supûs (e profundamente desejei). Mas não é por isso que a devemos menosprezar, desde logo porque duplica o universo de escolha dos mais capazes para quaisquer sectores sociais. Cabe-nos a nós, a cada um de nós, saber escolher em função da competência e da dignidade, pois que as sociedades carecem enormemente de quem cuide (bem) delas.

Donde, os líderes são fundamentais, porque congregam e mobilizam.

Não podemos perder a esperança.

José Batista d’Ascenção