Uma (simples) célula, um ser vivo (mais) complexo e uma cidade, qualquer que seja, têm aspectos matematicamente comparáveis, com tradução quantitativa, não obstante a aparente falta de relação. Num sentido muito preciso, Lisboa e um rato são variações sobre um mesmo tema.
Se se considerasse uma listagem de cidades americanas, ordenadas de acordo com o número de habitantes, verificava-se que a maior tem aproximadamente o dobro de habitantes da segunda, o triplo da terceira, etc. Este padrão surge espontaneamente como forma de auto-organização.
Há grandezas que crescem mais devagar do que as cidades propriamente ditas (por exemplo o número de bombas de gasolina). Isto deve-se a fenómenos de economia de escala.
Outras grandezas são proporcionais à dimensão das cidades (por exemplo o total de habitações, o consumo de água ou de electricidade). E há outras ainda que crescem a um ritmo maior do que o das cidades (por exemplo o custo das habitações). Estes dois tipos de grandeza não têm, em geral, analogias biológicas.
Passemos aos seres vivos. A energia necessária a um organismo vivo cresce com a sua massa, mas a taxa metabólica não é proporcional à massa. O ritmo cardíaco de um pequeno colibri pode ser de 1200 batimentos por minuto, enquanto o de uma baleia é de 8 batimentos por minuto. Há economia de escala. A taxa metabólica por unidade de massa, por unidade de tempo, diminui com o aumento de tamanho do animal.
A explicação reside, em parte, no modelo de distribuição de energia e nutrientes pelo sistema sanguíneo, cujos capilares se ramificam com uma estrutura (aproximadamente) fractal.
Há aqui uma ligação da biologia à matemática das cidades, em que as canalizações, as redes viárias e as de cabos eléctricos desempenham papéis de certo modo análogos ao do sistema circulatório dos animais. Assim, a biologia ajuda a compreender a matemática das cidades. As economias de escala seguem uma lei traduzida por uma fórmula matemática.
in: «Casamentos e Outros Desencontros». Jorge Buescu. Gradiva. 2ª Ed. 2026. p.139-146
José Batista d’Ascenção






