quarta-feira, 13 de maio de 2026

Líderes políticos de más intenções e a facilidade com que arrastam multidões

A natureza psicológica e social dos humanos ou evolui(u) pouco ou nota-se pouco que evolui(u).

As sociedades que sofrem os horrores da guerra geram pessoas com vontades/necessidades férreas de paz e acentuam tendências para a solidariedade e generosidade nos tempos sequentes aos conflitos bélicos. Também há recalcamentos e desejos de vingança, mas estes tornam-se mais subterrâneos nessas alturas.

Passadas décadas, novas gerações, sem memória vivida das guerras, desvalorizam a possibilidade de que voltem a acontecer, iniciando-se mais ou menos aceleradamente o recrudescimento dos factores capazes de as desencadear.

Desde sempre, em vários lugares, a humanidade esteve e está em guerra. Os estados de guerra são inexoráveis? Não se podem evitar?

Devemos acreditar que sim. E lutar para que assim seja. Mas isso implica doses infinitas de humildade, de generosidade, de reflexão e de estudo (da História e de algo mais). E não apenas por uma pequena fracção de cada população. Em termos de organização social, isso significa que a educação (boa formação) é fundamental, assim como são indispensáveis sistemas de (recta) justiça. As democracias dignas do nome não resistem sem qualquer dessas vertentes.

Por isso, líderes de péssima extracção encontram sempre pasto favorável para as suas tenebrosas ideias, preparando o terreno para as acções que lhes fazem ferver o sangue, dada a facilidade de disseminação do ódio e da mentira, que a tecnologia transformou em armas de eficacíssima manipulação.

O mundo nunca teve tantos aliciantes como na actualidade, mas também nunca esteve tão perigoso.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 24 de abril de 2026

25 de Abril sempre

Celeste Caeiro - a mulher que fez florescer Abril

Um filho, dois netos, um cunhado, duas tias e um sobrinho fazem anos em Abril. São datas emocionalmente festivas que celebramos discretamente, só nós, os mais chegados da família.

Mas o dia grande do mês de Abril, aquele dia a que Sophia, a nossa poeta contemporânea mais conhecida, talvez, chamou «dia inicial inteiro e limpo» é o dia 25 de Abril de 1974.

Foi inteiro, sim. E longo. E esperançoso. E belo. Nunca a Primavera, de todas as que teve o século XX em Portugal, teve um dia tão florido e entusiasmante.

Vivam os cravos vermelhos de Abril.

Vivam os homens democráticos, corajosos e generosos que fizeram a justa revolução, sem derramarem sangue, revolução luminosa que pôs fim à longa e tenebrosa “noite” salazarista.

Destaco um desses homens, já morto, em representação de todos: Salgueiro Maia.

Depois fomos vivendo a democracia consoante a fomos construindo. Podíamos ter feito melhor? Podíamos, mas a responsabilidade foi e é nossa.

A educação dos portugueses é a que é e que tem sido. Dela, na parte que me coube, também eu procurei ser um obreiro digno. Mas falhámos muito. Falhámos tanto que agora temos, ufanos, e em grande número, os que pretendem subverter (ou ignoram) os factos da História e as regras fundamentais do viver democrático.

O sistema de justiça também andou e anda mal.

E sem educação e sem justiça nenhuma sociedade pode ser justa e democrática.

Porém, a oportunidade tivemo-la e temo-la todos os dias: foi-nos dada no dia 25 de Abril de 1974.

Estas são opiniões minhas, muito sentidas, que posso expressar - por enquanto - porque sou livre.

Viva a Liberdade.

José Batista d’Ascenção

domingo, 19 de abril de 2026

Homenagem à minha mulher

Nem sempre sabemos a sorte que temos. Por vezes, podemos ter essa noção passados muitos anos sem antes repararmos nas evidências. Sendo que a sorte que temos é, em grande parte, aquela que sabemos construir ou, mais simplesmente, a que podemos aproveitar nas oportunidades em que se nos oferece.

Eu e a minha mulher somos profundamente diferentes. Tão diferentes que temi, um dia, como é que íamos construir um percurso juntos. Medo maior só o tive quando me anunciou a gravidez do filho mais velho: era um contentamento interior cheio de gratificante expectativa e de susto, que traduzia para mim próprio na interrogação que, então, registei assim: “que raio de pai vou eu saber ser”? Felizmente, nascido o rapaz, as sensações de medo pela minha subida condição volatizaram-se face às novas e compensadoras preocupações e funções que passei a ter.

Porém, neste momento, quero confessar algo sobre a minha mulher. Olhando e vendo a (ir)realidade por perspectivas diferentes ou opostas às minhas, levou-me a descobrir o significado desta frase, que ouvi a alguém: “um casamento deve ser uma consagração de contrários”. Desse modo, à monotonia e pobreza dos sentimentos e pensamentos redundantes ou submissos, a vida trouxe-me a riqueza do diverso e a beleza e a grandeza e a conveniência do complementar.

A minha mulher é ela, antes de ser a minha mulher. Sendo ela, na condição de minha mulher, esteve sempre no seu “posto”, o que me fez admirá-la cada vez mais, por ambas as razões.

Professora como eu, avessa ao grito e à imposição radical, impressionou-me sempre como é que alunos terríveis, de 13-14 anos, acabavam mansamente no ponto a que os sabia levar. E esses, não raro, entregavam-lhe no final do ano lectivo, às vezes muito discretamente, presentes simples que ela conserva ciosamente, não como troféus, mas como testemunhos de afecto.

Em casa e consigo mesma, a quaisquer objectos de luxo, que não tem nem usaria, prefere definitivamente gestos ou actos de carinho e amizade e oferendas simbólicas. Não é materialista nem exibicionista. Bastam-lhe afectos, a prática da amizade e o amor dos próximos.

Por sorte, ainda tenho mãe. Sinto pânico ao imaginá-la depositada num lar como os que conheço (pelo que, a leitura do livro «Misericórdia» de Lídia Jorge, merecedor de um Nobel, não me trouxe surpresas de conteúdo). Ora, eu desejava aproveitar enquanto posso a companhia da minha mãe. A Lurdes percebeu-o. Vai daí, temos a minha mãe comigo e dela cuidamos, mais a Lurdes do que eu. E fá-lo com a mesma generosidade, calor e afeição que sempre dedicou aos familiares – especialmente aos filhos – e aos outros.

Por tudo, desde há muitos anos, o meu pobre coração é cheio de agradecimento.

Obrigado, querida Lurdes.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O “interior deserto”

Deserto de gente jovem. Deserto da energia contagiante das crianças. Deserto de casais recentes, de mulheres grávidas e de bebés. Carente de renovação das gerações.

Um “interior” a cento e cinquenta quilómetros do mar em linha recta. Um “interior” geograficamente próximo das praias a abarrotar de gente, de Junho a final de Setembro. Para mais, reticulado de estradas com bom piso, a facilitar o acesso e o trânsito em todas as direcções. As tais estradas que haviam de atrair os nativos deslocados e outros, mas que funcionaram como vias de fuga dos poucos que ainda permaneciam.

É estranho. É confuso. Tanto mais que as pessoas que restam são acolhedoras. Os sabores são deliciosos. As paisagens são bonitas. As cores primaveris são um conforto para a vista e para a alma. O canto das aves não esmoreceu e as águias cirandam demorada e silenciosamente nos céus. Os corços correm gráceis pelas encostas. E até os javalis, individualmente ou em grupo, indiferentes aos carros que passam, têm alguma graça.

Para quem nasceu nas montanhas, a saudade e a nostalgia do retorno são vencidas na efusão dos abraços por que os corações anseiam.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Páscoa florida num mundo agressivo e inflacionário


O Sol brilha. As plantas florescem e reverdecem profusamente. Os animais estão activos, cumprindo o ciclo natural. Ontem, à tardinha, o cuco aplicava-se demoradamente no seu canto, como se soubesse que alguém o escutava rememorando tempos de criança.

As crianças, que deviam brincar e ouvir o canto das aves, nesta altura de interrupção lectiva, estarão provavelmente agarradas aos telemóveis, como os algoritmos determinam e os pais aceitam, vítimas que são, grande parte deles, de idêntica dependência.

Os que mandam no mundo fazem guerras, ganham rios de dinheiro e destroem a vida de muitas pessoas e os bens de todos.

Os preços sobem. Muitos acorrem a comprar o que supõem que amanhã já terá preço mais alto (como aconteceu antes de ontem com o gás de botija).

Nas culturas de raiz cristã, o tempo é de Páscoa, da Páscoa da ressurreição.

E o Sol brilha, como deviam brilhar os sorrisos das crianças em tempo de paz, para contentamento de pais e avós.

José Batista d’Ascenção

domingo, 29 de março de 2026

O pensamento dos principais líderes do mundo

Destes e doutros, tantos que não cabem aqui.

Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro.

Petróleo. Petróleo. Petróleo.

Poder. Poder. Poder.

Manipulação. Manipulação. Manipulação.

Guerra. Guerra. Guerra.

Destruição. Destruição. Destruição.

Luxo. Luxo. Luxo.

Consumismo. Consumismo. Consumismo.

Poluição. Poluição. Poluição.

É isto ou parecido.

Que valemos nós, os que não desistem de acreditar na ressurreição da decência?

A Natureza Viva ainda respira. Mal, mas respira.

Boa Páscoa. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 21 de março de 2026

O conceito de orgulho e a singularidade de cada um de nós

Várias vezes vejo o conceito de orgulho associado à condição de género (sexual) humano, à nacionalidade, aos filhos, aos pais, à profissão, etc.

Em qualquer destes casos há em mim discrepância no sentir. No sentir e no sentido. É-me estranho sentir orgulho em ser homem, por exemplo. Se é essa a minha condição biológica intrínseca, e se o facto não é mérito meu, que razão justificaria o meu sentimento de orgulho?

Gosto, prazer, conforto, harmonia, sentimento de realização com condições próprias ou acções realizadas ou procedimentos tidos é coisa diferente. Agora, orgulho, orgulho causa-me espécie…

Enquanto conceito exagerado de si, com o significado de soberba ou vaidade, termos que meto no mesmo saco, é algo que dispenso, na condição de sujeito. Por via das dúvidas, não tendo a associar à palavra orgulho sinónimos comuns como autoestima, brio ou dignidade, palavras benquistas à minha sensibilidade.

É assim que penso e sinto e sou.

José Batista d’Ascenção