terça-feira, 7 de julho de 2026

Recursos das notas dos exames sim, mas apenas nos casos justificados

Face aos problemas com a classificação dos exames nacionais, alguns dirigentes políticos têm sugerido que os eventuais recursos sejam gratuitos, e já há uma petição nesse sentido. Cuidado com propostas deste tipo. Com a falta de confiança que o processo de classificação está a incutir, pode dar-se uma avalanche de reclamações, parte das quais não tenha motivo justificado. Vendo a questão do ponto de vista dos classificadores, afogados em trabalho, a uma situação problemática podem somar-se novos e maiores problemas. Até admitia que o pagamento da cota exigida fosse devolvido com acréscimo (digamos mais 25% do custo) aos que tivessem razão, como compensação pelo transtorno sofrido, mas dar curso a uma imensidão de reapreciações sem razões que as validem, dá trabalho e despesas injustificadas, as quais, nesses casos, devem ter custos para quem, indevidamente, pretendeu o que não era legítimo.

Muita prudência, portanto, ou corremos o risco de ter a meada empeçada por muito tempo…

José Batista d’Ascenção

domingo, 5 de julho de 2026

Amor pela língua portuguesa

A minha amiga e colega Fátima Ferraz comentava recentemente o linguajar dos cozinheiros que, com frequência, aparecem nos programas de TV e dizem “gramas” no feminino  [a palavra, enquanto unidade física de massa, é um substantivo masculino, pelo que se deve dizer e escrever «o grama» ou «os gramas», mantendo-se o símbolo «g» invariável, no singular e no plural] e se referem (oralmente) à capacidade volumétrica dos recipientes para líquidos em «éme éle», possivelmente por desconhecerem que o símbolo «ml» se refere a mililitro (a milésima parte de 1 L).

Não ficava mal às televisões serem mais cuidadosas e exigentes no trato da (belíssima, mas degradada) língua portuguesa, e é inadmissível o que se passa nos canais públicos.

Para o vulgo, uma ajuda preciosa ao bem falar e escrever é o recente livro «Em Nome da Língua. Ámen», de Manuel Monteiro. Uma extensão desta matéria específica, e algo mais, consta, de modo muito esclarecedor, nas páginas 110-113.

Porém, todo o livro devia ser de leitura “obrigatória”.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Plantas, alterações climáticas e ar condicionado

As plantas, sobretudo as árvores de maior porte e fronde, são grandes consumidoras de dióxido de carbono (CO2), que transformam em compostos orgânicos (no processo da fotossíntese), os quais se acumulam no seu corpo, formando o que chamamos biomassa vegetal. Ao retirarem CO2 da atmosfera (e também da água, no caso das plantas aquáticas) contribuem para a diminuição do efeito de estufa, já que aquele gás é um dos que potenciam a retenção de calor pela camada gasosa do planeta (o consumo do CO2 dissolvido na água contribui igualmente, pois quando mais for removido da massa líquida, mais moléculas gasosas do mesmo gás provenientes da atmosfera se dissolvem na água).

Devido à queima de combustíveis fósseis (carvão, derivados de petróleo…) e à desflorestação, particularmente a causada por incêndios, não só tem aumentado a libertação de CO2 para a atmosfera como têm diminuído os mais eficazes sumidouros desse gás – precisamente as árvores. Aqui reside um dos factores responsáveis pelo aumento da temperatura média da atmosfera terrestre.

Temos, portanto, o clima a aquecer, em parte devido à actividade antrópica (humana). As ondas de calor sucedem-se, com aumento de frequência e de duração, causando desertificação e grandes problemas de saúde e mesmo de sobrevivência humana e de outras espécies.

Uma boa medida seria florestar, florestar, florestar. Não é isso que a humanidade está a fazer – está a fazer precisamente o contrário: a desertificar, desertificar, desertificar… áreas cada vez maiores.

Ao mesmo tempo reclamam-se melhores condições, principalmente no espaço urbano. Porém, aqui, queremos solos empedrados e asfaltados e acusamos as árvores (infundadamente) de causarem alergias e de exigirem a remoção de folhagem, assim como apontamos o risco de se arrancarem ou partirem causando danos. Ao mesmo tempo instalam-se ares condicionados onde se pode e por quem possui recursos para pagar os acréscimos (muito significativos) do consumo de energia.

Ora, as árvores dão sombra e libertam vapor de água (por transpiração), amenizando muito as temperaturas, ao mesmo tempo que renovam o ar que respiramos [porque produzem oxigénio (O2) no tal processo da fotossíntese]. E dispensam a instalação de canalizações e vaporizadores e gasto de água nas artérias citadinas. Além disso ainda embelezam e perfumam os espaços, não apenas na Primavera. Acresce que os aparelhos de ar condicionado gastam energia para deslocar o calor de certos espaços (normalmente interiores) para outros na envolvência (normalmente o exterior). Sendo que, ao funcionarem, esses equipamentos produzem calor, que se acrescenta ao que transferem de um espaço para outro. Ou seja, também contribuem para o aumento da temperatura.

Devíamos pensar (mais) no assunto.

As árvores são nossas amigas.

José Batista d'Ascenção.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Houvesse na política líderes com a dimensão e o humanismo dos últimos papas

Homens monumentais: foi-o o papa Francisco e está a sê-lo o papa Leão XIV. Os líderes políticos dos principais países democráticos europeus das três últimas décadas foram ou são, em geral, baços, nada inspiradores e pouco eficazes. Enunciam princípios mas não lutam com denodo por eles. Parecem (e são) mais funcionários bem pagos e acomodados do que representantes eleitos dedicados a causas e esforçados na sua execução. Ainda pus esperanças nas mulheres das actuais chefias, mas ficaram iguais aos seus colegas masculinos. Temos uma massa dirigente indistinta, amorfa e desinteressante.

O mundo caminha mal. Torcionários frios e assassinos (Putin, Kim Jong-un), ditadores calculistas de face serena (Xi Jinping) ou narcisistas doentios espalhafatosos e amorais (Trump) querem tomar conta do mundo e conduzem-no para a negrura dos seus instintos e interesses materiais.

Poderosos como eles (ou mais ainda) são os donos das empresas gigantes digitais e dos sistemas de inteligência artificial (IA), alguns deles com afinidades hitlerianas, pelo menos em certos gestos e atitudes (Elon Musk).

No meio disto há referências de humanismo que devíamos divisar, quais âncoras de lucidez e compaixão, sem o que a espécie humana terá triste fim.

A encíclica «Laudato Si» mostra-nos lúcida e esperançosamente o melhor a fazer pela Casa Comum. Acabada de sair, a encíclica «Magnifica Humanitas» aponta corajosamente o caminho para fugirmos ao horror da escravatura dos algoritmos e ao atroz belicismo tecnológico apoiado na IA.

Pudesse o mundo católico de base multiplicar e tornar claras aos olhos do vulgo praticante a beleza, a bondade e a iluminação das propostas de Leão XIII, João XXIII, Francisco e Leão XIV, assim como recusar a profanação dos Evangelhos por líderes extremistas que se fazem filmar prostrados e de mãos postas frente aos altares.

Os humanos pertencem todos a uma só espécie e cada um de nós tem a mesma dignidade de quaisquer outros, sem excepções.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Azul

Certinhas, as minhas hortênsias – as mais belas da minha rua – correspondem anualmente, mesmo quando passam mal.

O fim-de-semana passado foi uma dessas alturas em que, sem serem regadas, murcharam, entristecidas, no alto da floreira em que enfeitam a entrada e podem ser contempladas da rua.

Mas, dois regadores de água depois, agradecidas, embelezaram-se como deve ser.

E ficaram assim, humildemente bonitas.   

José Batista d’Ascenção

De Curação a Curaçau?

Ilha Curaçau

Em saboroso artigo no jornal «Público», do dia 10 de Junho, Miguel Esteves Cardoso fala da presença da selecção de futebol de Curaçau no mundial. O que podia ter dito é que o nome «Curaçau», segundo algumas opiniões, é uma "corruptela" do termo "curação", com significado de "curar", dado pelos portugueses àquela ilha. No tempo das navegações dos europeus pela conquista do mundo, o escorbuto, resultado da falta do consumo de verduras (ricas em vitamina C) em viagens de meses sobre as ondas, dizimava os marinheiros. Sempre que aportavam em ilhas onde pudessem comer citrinos, por exemplo, a cura do escorbuto era rápida e (aparentemente) milagrosa. Ora, portugueses de então, esfaimados, teriam chegado àquela ilha e devoraram limões selvagens que rapidamente lhes proporcionaram francas melhoras. Por isso, lhes chamaram "ilha da curação", da curação do escorbuto.

Posteriormente, os holandeses tomaram posse dessa ilha, e como devem ter (tido) dificuldade em pronunciar o «ão», tão nosso, passaram a chamar-lhe «Curaçau».

E esse nome teria permanecido até à actualidade.

José Batista d'Ascenção

domingo, 31 de maio de 2026

Ter ou não ter talento

Há alguns anos, quando Luísa Sobral apareceu nas televisões (ou quando eu dei por isso…), impressionou-me a sua aptidão para a música. Mesmo a sua voz nasalada era uma originalidade de que gostava. Quando compôs a canção que fez do seu irmão uma estrela, pareceu-me natural, e revelou outra faceta dela: a sensibilidade e a solidariedade para com o outro, mesmo que familiar próximo. Antes disso, um dia fui ouvi-la ao Theatro Circo, em Braga, e já então confirmara, presencialmente, as suas qualidades artísticas e pessoais, ao enriquecer o seu concerto com a participação do irmão.

Na escrita não tinha, até este fim-de-semana, lido nada dela. Na Quinta-feira passada, ao fim da tarde, comprei o livrinho «Da Minha Janela» e o volume já não me largou mais até o terminar, ontem de manhãzinha.

Escrita simples, escorreita, expressiva, sobre as coisas comuns da vida, com humor, acutilância e incisão. Só fui ao «Google» duas vezes, para saber o que é «Push Pop» e «eneagrama». Tudo fácil e agradável, sensível e bonito. 

Bonitas e reveladoras de outro talento são as (pequenas) ilustrações, precedendo cada uma das crónicas. Pena ficarem tão pequeninas, “pormenor(es)” que não deve ser difícil trocar “por maiores”.

A última crónica, «Há dois anos que a morte me ensina a viver», é particularmente bela e emocionante.

Contrariamente ao que senti quando li livros de músicos cantores portugueses ou brasileiros consagradíssimos (há muito e muito merecidamente), apetece-me dar parabéns à autora.   

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Inda agora

O retrato é espelho de muita coisa, nenhuma delas boa. Fi-lo sem autorização nem conhecimento do sujeito.

Bolas para a sociedade que somos!

É este o fim-de-semana de recolhas do «banco alimentar», que mobiliza muitos, e ainda bem, mas não resolve a vida dos que precisam.

A seguir fui dar aulas e interroguei-me sobre o que (e para que) aprendem os jovens meus alunos.

Daqui a 10-15 anos o «banco alimentar» continuará «banco alimentar» ou terá mudado de nome ou (já) não existirá organismo equivalente? Por falta de necessidades não será…

Que evolução é a nossa, a das pessoas?

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Canícula e factores humanos responsáveis

Ainda Maio não terminou e já se sucedem dias de temperaturas infernais, a que se chama «onda de calor», e prevê-se que o fenómeno aumente a sua frequência com o decorrer dos anos.

As pessoas e muitos outros seres vivos não estão naturalmente adaptados a ambientes de fornalha sucessivos.

Acontece que as actividades humanas directas e indirectas contribuem em muitos casos para o aquecimento global, desde o consumo de combustíveis fósseis (carvão, gasolina, gasóleo, querosene…), à desflorestação e aos «negócios» dos incêndios.

A piorar, os líderes das maiores potências mundiais, ou porque loucos ou criminosos ou uma coisa e outra, negam ou pouca importância dão às alterações climáticas e promovem a guerra com mentalidade troglodita.

Ora, os recursos energéticos consumidos na produção de material bélico, o tráfego de navios e aviões de guerra, a deflagração das bombas e a destruição de infraestruturas são igualmente factores de elevação da temperatura e causadores de poluição diversa. As guerras produzem mortos, feridos, perturbação e destruição.

Nos países livres que (ainda) restam, e que tendem a ser cada vez menos, os cidadãos que amam a liberdade e possuem formação têm o dever de, independentemente de ideologias políticas (os crimes são igualmente crimes, se cometidos pela direita, pela esquerda ou pelo centro) e de nacionalidades, se organizarem para denunciar a demência, a irracionalidade e o delito criminal (que deve incluir os danos infligidos ao ambiente) e para exigirem a punição dos responsáveis, quaisquer que sejam, de onde sejam ou dos cargos que ocupem.

Universidades, centros de saber, religiões pacíficas, organizações governamentais e outros devem colaborar nesse sentido.

Enquanto são/somos livres.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 19 de maio de 2026

A pomba João

Observação: Esta não é a pomba João

A inteligência animal, seja isso o que for, deixa-nos por vezes agradável e ternamente impressionados. Há poucas horas, estava eu no café «Os Coelhos» (em Braga), saboreando uma xícara de café e concentrado em artigo longo de jornal, quando oiço o Sr Miguel, muito enfático, entre as mesas, a chamar carinhosamente pelo João, que estaria na zona de dentro do balcão, onde eu não via ninguém. O Sr Miguel repetia o chamamento e encaminhava-se para a porta, que dá para a esplanada. Foi então que baixei os olhos e vi sair a pomba muito direita, em marcha firme e bem direcionada para a voz que a convidava. Saiu e ficou momentos à espera de alguma compensação (que o Sr Miguel sabe que não lhe deve dar), imperturbável perante quem estava, sentado ou de pé, a olhar como eu.

No acto de pagamento felicitei o Sr Miguel pela comunicação muito humana com a pomba e por ela tão bem correspondida. Na resposta, fiquei a saber que mesmo ao Domingo, quando o estabelecimento está fechado, a ave vem plantar-se à porta à espera que o dono a abra.

São reflexos condicionados, talvez banais, bem sei, mas é, provavelmente, um bocadinho mais do que isso. Estas interacções dos bichos com os humanos não são possíveis com quaisquer pessoas. E os animais conseguem distinguir isso, parece-me.

Num tempo de violência e desregramento do mundo - que nunca foi pacífico, reconheça-se, mas em que o poder de destruição dos humanos era, também ele, limitado - ver a compatibilidade harmoniosa entre espécies tão díspares dispõe bem.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Líderes políticos de más intenções e a facilidade com que arrastam multidões

A natureza psicológica e social dos humanos ou evolui(u) pouco ou nota-se pouco que evolui(u).

As sociedades que sofrem os horrores da guerra geram pessoas com vontades/necessidades férreas de paz e acentuam tendências para a solidariedade e generosidade nos tempos sequentes aos conflitos bélicos. Também há recalcamentos e desejos de vingança, mas estes tornam-se mais subterrâneos nessas alturas.

Passadas décadas, novas gerações, sem memória vivida das guerras, desvalorizam a possibilidade de que voltem a acontecer, iniciando-se mais ou menos aceleradamente o recrudescimento dos factores capazes de as desencadear.

Desde sempre, em vários lugares, a humanidade esteve e está em guerra. Os estados de guerra são inexoráveis? Não se podem evitar?

Devemos acreditar que sim. E lutar para que assim seja. Mas isso implica doses infinitas de humildade, de generosidade, de reflexão e de estudo (da História e de algo mais). E não apenas por uma pequena fracção de cada população. Em termos de organização social, isso significa que a educação (boa formação) é fundamental, assim como são indispensáveis sistemas de (recta) justiça. As democracias dignas do nome não resistem sem qualquer dessas vertentes.

Por isso, líderes de péssima extracção encontram sempre pasto favorável para as suas tenebrosas ideias, preparando o terreno para as acções que lhes fazem ferver o sangue, dada a facilidade de disseminação do ódio e da mentira, que a tecnologia transformou em armas de eficacíssima manipulação.

O mundo nunca teve tantos aliciantes como na actualidade, mas também nunca esteve tão perigoso.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 24 de abril de 2026

25 de Abril sempre

Celeste Caeiro - a mulher que fez florescer Abril

Um filho, dois netos, um cunhado, duas tias e um sobrinho fazem anos em Abril. São datas emocionalmente festivas que celebramos discretamente, só nós, os mais chegados da família.

Mas o dia grande do mês de Abril, aquele dia a que Sophia, a nossa poeta contemporânea mais conhecida, talvez, chamou «dia inicial inteiro e limpo» é o dia 25 de Abril de 1974.

Foi inteiro, sim. E longo. E esperançoso. E belo. Nunca a Primavera, de todas as que teve o século XX em Portugal, teve um dia tão florido e entusiasmante.

Vivam os cravos vermelhos de Abril.

Vivam os homens democráticos, corajosos e generosos que fizeram a justa revolução, sem derramarem sangue, revolução luminosa que pôs fim à longa e tenebrosa “noite” salazarista.

Destaco um desses homens, já morto, em representação de todos: Salgueiro Maia.

Depois fomos vivendo a democracia consoante a fomos construindo. Podíamos ter feito melhor? Podíamos, mas a responsabilidade foi e é nossa.

A educação dos portugueses é a que é e que tem sido. Dela, na parte que me coube, também eu procurei ser um obreiro digno. Mas falhámos muito. Falhámos tanto que agora temos, ufanos, e em grande número, os que pretendem subverter (ou ignoram) os factos da História e as regras fundamentais do viver democrático.

O sistema de justiça também andou e anda mal.

E sem educação e sem justiça nenhuma sociedade pode ser justa e democrática.

Porém, a oportunidade tivemo-la e temo-la todos os dias: foi-nos dada no dia 25 de Abril de 1974.

Estas são opiniões minhas, muito sentidas, que posso expressar - por enquanto - porque sou livre.

Viva a Liberdade.

José Batista d’Ascenção

domingo, 19 de abril de 2026

Homenagem à minha mulher

Nem sempre sabemos a sorte que temos. Por vezes, podemos ter essa noção passados muitos anos sem antes repararmos nas evidências. Sendo que a sorte que temos é, em grande parte, aquela que sabemos construir ou, mais simplesmente, a que podemos aproveitar nas oportunidades em que se nos oferece.

Eu e a minha mulher somos profundamente diferentes. Tão diferentes que temi, um dia, como é que íamos construir um percurso juntos. Medo maior só o tive quando me anunciou a gravidez do filho mais velho: era um contentamento interior cheio de gratificante expectativa e de susto, que traduzia para mim próprio na interrogação que, então, registei assim: “que raio de pai vou eu saber ser”? Felizmente, nascido o rapaz, as sensações de medo pela minha subida condição volatizaram-se face às novas e compensadoras preocupações e funções que passei a ter.

Porém, neste momento, quero confessar algo sobre a minha mulher. Olhando e vendo a (ir)realidade por perspectivas diferentes ou opostas às minhas, levou-me a descobrir o significado desta frase, que ouvi a alguém: “um casamento deve ser uma consagração de contrários”. Desse modo, à monotonia e pobreza dos sentimentos e pensamentos redundantes ou submissos, a vida trouxe-me a riqueza do diverso e a beleza e a grandeza e a conveniência do complementar.

A minha mulher é ela, antes de ser a minha mulher. Sendo ela, na condição de minha mulher, esteve sempre no seu “posto”, o que me fez admirá-la cada vez mais, por ambas as razões.

Professora como eu, avessa ao grito e à imposição radical, impressionou-me sempre como é que alunos terríveis, de 13-14 anos, acabavam mansamente no ponto a que os sabia levar. E esses, não raro, entregavam-lhe no final do ano lectivo, às vezes muito discretamente, presentes simples que ela conserva ciosamente, não como troféus, mas como testemunhos de afecto.

Em casa e consigo mesma, a quaisquer objectos de luxo, que não tem nem usaria, prefere definitivamente gestos ou actos de carinho e amizade e oferendas simbólicas. Não é materialista nem exibicionista. Bastam-lhe afectos, a prática da amizade e o amor dos próximos.

Por sorte, ainda tenho mãe. Sinto pânico ao imaginá-la depositada num lar como os que conheço (pelo que, a leitura do livro «Misericórdia» de Lídia Jorge, merecedor de um Nobel, não me trouxe surpresas de conteúdo). Ora, eu desejava aproveitar enquanto posso a companhia da minha mãe. A Lurdes percebeu-o. Vai daí, temos a minha mãe comigo e dela cuidamos, mais a Lurdes do que eu. E fá-lo com a mesma generosidade, calor e afeição que sempre dedicou aos familiares – especialmente aos filhos – e aos outros.

Por tudo, desde há muitos anos, o meu pobre coração é cheio de agradecimento.

Obrigado, querida Lurdes.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O “interior deserto”

Deserto de gente jovem. Deserto da energia contagiante das crianças. Deserto de casais recentes, de mulheres grávidas e de bebés. Carente de renovação das gerações.

Um “interior” a cento e cinquenta quilómetros do mar em linha recta. Um “interior” geograficamente próximo das praias a abarrotar de gente, de Junho a final de Setembro. Para mais, reticulado de estradas com bom piso, a facilitar o acesso e o trânsito em todas as direcções. As tais estradas que haviam de atrair os nativos deslocados e outros, mas que funcionaram como vias de fuga dos poucos que ainda permaneciam.

É estranho. É confuso. Tanto mais que as pessoas que restam são acolhedoras. Os sabores são deliciosos. As paisagens são bonitas. As cores primaveris são um conforto para a vista e para a alma. O canto das aves não esmoreceu e as águias cirandam demorada e silenciosamente nos céus. Os corços correm gráceis pelas encostas. E até os javalis, individualmente ou em grupo, indiferentes aos carros que passam, têm alguma graça.

Para quem nasceu nas montanhas, a saudade e a nostalgia do retorno são vencidas na efusão dos abraços por que os corações anseiam.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Páscoa florida num mundo agressivo e inflacionário


O Sol brilha. As plantas florescem e reverdecem profusamente. Os animais estão activos, cumprindo o ciclo natural. Ontem, à tardinha, o cuco aplicava-se demoradamente no seu canto, como se soubesse que alguém o escutava rememorando tempos de criança.

As crianças, que deviam brincar e ouvir o canto das aves, nesta altura de interrupção lectiva, estarão provavelmente agarradas aos telemóveis, como os algoritmos determinam e os pais aceitam, vítimas que são, grande parte deles, de idêntica dependência.

Os que mandam no mundo fazem guerras, ganham rios de dinheiro e destroem a vida de muitas pessoas e os bens de todos.

Os preços sobem. Muitos acorrem a comprar o que supõem que amanhã já terá preço mais alto (como aconteceu antes de ontem com o gás de botija).

Nas culturas de raiz cristã, o tempo é de Páscoa, da Páscoa da ressurreição.

E o Sol brilha, como deviam brilhar os sorrisos das crianças em tempo de paz, para contentamento de pais e avós.

José Batista d’Ascenção

domingo, 29 de março de 2026

O pensamento dos principais líderes do mundo

Destes e doutros, tantos que não cabem aqui.

Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro.

Petróleo. Petróleo. Petróleo.

Poder. Poder. Poder.

Manipulação. Manipulação. Manipulação.

Guerra. Guerra. Guerra.

Destruição. Destruição. Destruição.

Luxo. Luxo. Luxo.

Consumismo. Consumismo. Consumismo.

Poluição. Poluição. Poluição.

É isto ou parecido.

Que valemos nós, os que não desistem de acreditar na ressurreição da decência?

A Natureza Viva ainda respira. Mal, mas respira.

Boa Páscoa. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 21 de março de 2026

O conceito de orgulho e a singularidade de cada um de nós

Várias vezes vejo o conceito de orgulho associado à condição de género (sexual) humano, à nacionalidade, aos filhos, aos pais, à profissão, etc.

Em qualquer destes casos há em mim discrepância no sentir. No sentir e no sentido. É-me estranho sentir orgulho em ser homem, por exemplo. Se é essa a minha condição biológica intrínseca, e se o facto não é mérito meu, que razão justificaria o meu sentimento de orgulho?

Gosto, prazer, conforto, harmonia, sentimento de realização com condições próprias ou acções realizadas ou procedimentos tidos é coisa diferente. Agora, orgulho, orgulho causa-me espécie…

Enquanto conceito exagerado de si, com o significado de soberba ou vaidade, termos que meto no mesmo saco, é algo que dispenso, na condição de sujeito. Por via das dúvidas, não tendo a associar à palavra orgulho sinónimos comuns como autoestima, brio ou dignidade, palavras benquistas à minha sensibilidade.

É assim que penso e sinto e sou.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 17 de março de 2026

Aprender com as cegonhas

No segundo dia a seguir à queda de parte do tabuleiro da autoestrada A1, na margem direita do Mondego, em Coimbra, devia eu atravessar aquele viaduto. Em vez disso tive de seguir o percurso alternativo.

Dias depois, em comentário sobre a violência da tempestade que tinha ocorrido e do rasto de destruição que deixou, alguém me dizia que, no meio dos destroços, os ninhos das cegonhas, em grande número nos postes da rede eléctrica de alta tensão, naquela zona, permaneciam lá. Então, não o pude confirmar objectivamente.

O que sei é que em tempos não muitos remotos (menos de cem anos), as margens do Baixo Mondego eram arborizadas e as cegonhas não dispunham dos postes de electricidade para nidificar nem deles precisavam. O «progresso» dos humanos obrigou-as a solução de recurso, de que, aparentemente, se saem bem.

Ontem, dia 17 de Março, voltei a fazer a A1 nos dois sentidos entre Porto e Leiria e pude reparar que as torres metálicas da rede eléctrica estão repletas de ninhos de cegonha, com as aves por perto, tão diligentes como sempre as vi.

Ainda não sei se os ninhos são realmente os que já lá estavam ou se foram (re)construídos entretanto. Seja como for, enalteço a «engenharia» e a «resiliência» das cegonhas, que me parecem uma lição. Para os comuns mortais e, também, para a engenharia nacional.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 13 de março de 2026

O mundo em fanicos

Entre portas, além da preocupação com a escalada do preço dos combustíveis, que vai agravar inexoravelmente a inflação, parece sobrar muito tempo e espaço para a discussão de motivos tão fúteis como a vestimenta de cerimónia da mulher do novel presidente da república. Somos assim.

Para lá do nosso «quintal», o mundo está submetido a brutal «pirotecnia» de engenhos mortíferos e destrutivos que riscam os céus - «espectáculo» que alguns descrevem como «interessante»! - e fazem em pedaços estruturas, edifícios e… pessoas.

Os indivíduos mais poderosos do mundo são loucos e alguns deles são frios assassinos.

Os líderes europeus - das democracias que (ainda) restam - entretêm-se nas vacuidades características das respectivas irrelevâncias, grudados nos cargos a que ascenderam pelos votos, que pouco merecem.

Onde e como vamos acabar não o sei eu. Mas temo, sobretudo, pelos meus filhos e netos e por todos os que são das idades próximas das deles.

No resto da minha vida, vou cuidar de encontrar sementes de optimismo, que esforçadamente tentarei semear.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 11 de março de 2026

Húmus, “hummus”, humor triste e divórcio das palavras

Hoje, na aula de biologia de 11º ano, conveio referir a decomposição da matéria orgânica e a formação de húmus nos solos, agrícolas e não só.

A turma é de bons alunos, mas eles não sabiam o significado da palavra «húmus», que confundiam com um alimento de grafia parecida (ou mesmo coincidente).

Ignorantes não são apenas os alunos (na realidade são todos os que ignorantes parecem mais a totalidade dos que não causam essa impressão). Neste caso, o professor desconhecia o termo e o conceito que os alunos trouxeram à colação.

Marcas dos tempos, dos que passaram e dos que fluem no presente.

Tomara que o léxico dos alunos tenha aumentado com o meu esforço.

Pelo meu lado, não me sinto propriamente mais completo nem mais bem preparado com a extensão do que ouvi e fiquei a saber. Sem arrogância o digo.

E também sem contentamento.

José Batista d’Ascenção.

domingo, 8 de março de 2026

Às mulheres

 

Musa. Séc. I d. C. (Mármore)

Às minhas avós, à minha mãe, à minha mulher, às minhas irmãs, às minhas noras/filhas, às minhas sobrinhas, às minhas netas, que ainda não tenho, às minhas colegas e amigas.


A essas e todas as outras.


Pequena e humilde homenagem, imensamente sentida e grata.


Hoje e todos os dias do calendário.


José Batista d’Ascenção

domingo, 1 de março de 2026

Ortografia

Atente-se no título principal da capa do Jornal de Notícias de 28 de Fevereiro de 2026 (ontem).

Veja-se a importância do acento na palavra «pára», a qual, segundo o chamado «novo acordo ortográfico», devia ser grafada «para».

Fez bem o jornal em não cumprir o dito «acordo».

Faria bem o país em livrar-se dele.

Para isso era preciso três condições: gostarmos muito da nossa língua; percebermos a sua grandeza e importância; e termos coragem de mudar o que, manifestamente, não está bem.

Muito tarda o que não acontece. Mas íamos muito a tempo.

De resto, suponho que a imensa maioria dos portugueses nem notava. Infelizmente.

Disse.

José Batista d’Ascenção

sábado, 28 de fevereiro de 2026

«Caça às bruxas» é uma expressão com real e duradoiro fundamento histórico (II)

«Um juíz borgonhez, Henri Boguet (1550-1619) especulou que haveria 300 mil bruxas em França e 1,8 milhões na Europa. A histeria coletiva gerada levou a que, nos séculos XVI e XVII, fossem torturados e executados entre 40 mil e 50 mil inocentes, de diferentes origens e de todas as idades, acusados de bruxaria, incluindo crianças de cinco anos.

Os métodos inquisitoriais recomendados pelo manual de Kramer, Malleus Maleficarum, eram diabólicos. Obtida a confissão, os acusados eram executados e os seus bens repartidos pelo acusador, pelo carrasco e pelos inquisidores. Se o acusado recusasse confessar, tal era visto como obstinação demoníaca e tinham lugar as mais horrendas torturas: partiam-se dedos, mutilava-se a carne com tenazes em brasa, o corpo era esticado até ceder ou mergulhado em água a ferver. Famílias inteiras foram executadas, começando-se por um elemento da família forçado a incriminar outro, indicado pelos torturadores, e assim continuamente.

Em 1600, em Munique, os elementos da família Papphenheimer (o pai, a mãe, dois rapazes e um menino de dez anos), foram todos mortos. Começaram pelo menino, obrigado a denunciar a mãe. Os quatro adultos, mutilados com tenazes em brasa, foram torturados na roda, sendo-lhes partidos os braços e as pernas; o pai foi empalado; os seios da mãe foram cortados, e todos foram queimados vivos. O menino, chamado Hansel, foi obrigado a ver tudo, e quatro meses depois foi executado.»

[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 141-142 p.]

Hoje, as torrentes de informações das vias de comunicação, tal como no passado, depois da invenção da imprensa, não asseguram por si só, o conhecimento e a aproximação geral à verdade. Veja-se o que se passa nas redes sociais. Não se defenda a censura, mas é preciso conter a profusão e difusão de notícias falsas.

Se eu soubesse como, dizia.

José Batista d’Ascenção

«Caça às bruxas» é uma expressão com real e duradoiro fundamento histórico (I)

«A febre europeia da caça às bruxas foi um fenómeno moderno, não medieval. A partir de meados do século XV, aproveitando a invenção da imprensa, eclesiásticos e estudiosos da região dos Alpes coligiram elementos da religião cristã, da tradição local e da herança greco-romana e amalgamaram uma nova teoria da bruxaria, argumentando que as bruxas eram uma ameaça temível, dirigida à sociedade no seu todo. Haveria uma conspiração mundial de bruxas que, adorando Satanás, se constituíam como instituição religiosa anticristã, que visava destruir a ordem social da humanidade. As bruxas matavam crianças, comiam carne humana, faziam orgias e lançavam feitiços que traziam tempestades e epidemias e toda a sorte de catástrofes.

A primeira vaga de caça e julgamento de bruxas foi conduzida por eclesiásticos e nobres da região do Valais, nos Alpes Ocidentais, entre 1428 e 1436, ultrapassando-se as duas centenas de execuções de supostos bruxos e bruxas.

Em 1487, Heinrich Kramer, frade dominicano e inquisidor compilou um manual que ensinava a desmascarar e matar bruxas, intitulado Malleus Maleficarum. Especificamente, recomendava o recurso a métodos de tortura horripilantes aos suspeitos de bruxaria, cujo castigo não podia ser senão a execução. Kramer sexualizou a bruxaria, que seria uma atividade tipicamente feminina. Na sua imaginação transbordante de ódio, Kramer dedicou um capítulo inteiro ao talento das bruxas para o roubo de pénis.

O livro de Kramer encontrou alguma resistência inicial, todavia tornar-se-ia um dos maiores bestsellers do começo da modernidade. Em 1500, Malleus Maleficarum tinha esgotado oito edições. Até 1670 fizeram-se mais vinte e uma edições, a que se somaram várias traduções vernáculas. O livro tornou-se a obra definitiva sobre o tema, e o trabalho de Kramer foi definitivamente acolhido pelos peritos eclesiásticos.»

[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 136-141 p.]

Retire-se dos factos da história que a disponibilidade e a facilidade da circulação da informação não se traduzem directamente na divulgação e no conhecimento geral da verdade.

(Continua)

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Atenta, a Natureza desperta

Neste fim de Fevereiro, bastaram dois ou três dias de sol e as temperaturas a rondar os vinte graus, a passar do meio-dia, para algumas plantas sorrirem.

Ainda há três semanas de Inverno, pelo calendário, mas a vegetação e os animais selvagens, sobretudo as aves, estão prontas para a renovação festiva da Primavera.

E as almas humanas, desta nossa região do mundo, não estão menos desejosas disso.

Não tarda, o sol vai dourar o nosso ânimo, tão carecido.

Precisamos (muito) disso, antes de regressarem os receios dos estios escaldantes. Preparemo-nos para usufruir. Está quase.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Burocracia = poder da secretária

«Etimologicamente, burocracia significa qualquer coisa como o “poder da secretária”. O termo foi cunhado na França do século XVIII, quando um funcionário público (…) se sentou a uma mesa de trabalho com gavetas – uma escrivaninha (bureau). Assim, no coração da organização burocrática jaz a gaveta. A burocracia tenta resolver o problema do acesso a informação [qualquer que seja e sobre o que quer que seja] compartimentando o mundo em gavetas: a chave está em saber que documentos estão em cada gaveta.

O princípio não se altera seja o documento arrumado numa gaveta ou numa prateleira, num cesto ou numa pasta de ficheiros ou em qualquer outro recetáculo. Isto tem um custo: em vez de se concentrar na compreensão do mundo [ou da matéria ou do assunto] como ele é, a burocracia ocupa-se de impor ao mundo [ou às coisas de que se trata] uma nova ordem, artificial. Os burocratas começam por inventar diferentes gavetas, cada uma dela não correspondendo necessariamente a qualquer divisão objetiva que haja no mundo. E a seguir tentam arrumar o mundo nessas gavetas, nem que seja à força. (…) Basta preenchermos algum tipo de modelo oficial para o percebermos: durante o preenchimento, se nenhuma das opções corresponde à nossa situação, temos de nos adaptar nós ao impresso, e não o contrário. Sendo a realidade complexa, os burocratas reduzem-na a certo número de gavetas estanques e isso ajuda-os a manter a ordem, ainda que em detrimento da verdade. E, concentrados que estão nas suas gavetas – sendo a realidade infinitamente mais complexa -, não raras vezes, os burocratas desenvolvem uma leitura distorcida do mundo.»

O problema é que não podemos funcionar em sociedade, nem estudar nem compreender o mundo, se não desenvolvermos a burocracia necessária. Como consequência, vem o resto.

in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 90-91 p.

José Batista d’Ascenção

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Lixo e luxo

Obra de arte de Iran Martins

A miséria expõe comummente enormes acumulações de detritos, por falta de serviços de saneamento, carência de condições de higiene e recurso a desperdícios para procura de materiais aproveitáveis ou vendáveis. O lixo e a degradação são ostensivos à vista e ao olfacto, bem como pela extensão dos espaços em que se acumulam ou espalham.

As zonas de luxo, socialmente belas e agradáveis, não são parcas na produção de lixos. A sua remoção ou reciclagem comporta muitos efeitos deletérios, grande parte dos quais não são directamente percepcionados: a reciclagem é sempre parcial e consome energia e o acondicionamento de resíduos, mesmo que nas condições mais adequadas, não anula a sua existência nem possíveis efeitos negativos, a médio ou longo prazo.

Acontece que, para alimentar o luxo da pequena fracção de humanos que o podem pagar, se consomem recursos materiais e energia em grande escala e se produzem novos materiais ou químicos contaminantes (sólidos, líquidos ou gasosos).

Some-se o “luxo guerreiro” das grandes potências bélicas, traduzido na produção de armamento, na destruição dos alvos transformados em destroços, que sepultam ou afugentam as populações, e, claro, na produção de mais armas, com repetição dos ciclos de terror, e tente-se medir ou calcular o total dos prejuízos, se tal for possível.

Donde, o mundo carece de (mais) simplicidade no viver, de menos predação de bens materiais e imateriais e da máxima reutilização possível, para verdadeiramente reduzirmos as consequências nefastas (sanitárias, sociais, ambientais e climáticas) decorrentes do consumismo desenfreado, que nos coloca entre o lixo, cada vez mais abundante, e o luxo, de usufruto cada vez mais restrito.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Imprudência e azar

Cheias. Cheias. Cheias.

Falhas de prevenção. Impreparação. Descoordenação. Falta de recursos.

Felizmente, nas últimas horas em Coimbra não foi assim. E noutras regiões também não. Parabéns a todos os protagonistas.

Mas não destoaria se fosse. O que está a acontecer, depois da tempestade mais violenta de há duas semanas e meia, não é novo nem irrepetível. E o mesmo é válido para as condições meteorológicas opostas: elevadas temperaturas, seca e incêndios, que ocorreram há escassos seis meses e que são previsíveis dentro do próximo meio ano.

Há quem negue veementemente as alterações climáticas como consequência das acções humanas. A evidência não o é para todos. E o valor da ciência também não. Este problema é mais grave quando afecta visceralmente os líderes políticos. E quando os seus aficcionados os seguem acriticamente.

Imagine-se que tinha feito vencimento a ideia de adiar as eleições presidenciais. Este fim-de-semana adiávamo-las outra vez. E quem sabe o que se proporia no seguinte…

Que preparação temos nós? E que preparação e sentido de responsabilidade têm aqueles que escolhemos para nos governar?

Esses são problemas maiores, Parece-me.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Três perguntas a Cotrim

Ponto prévio: A vida particular de Cotrim não me interessa. Nem a dele nem a de nenhum político. Muito menos a vida íntima, dele ou de qualquer outro.

Mas, como cidadão, tenho o direito de saber quem são os executantes da política no meu país, para poder fazer opções fundamentadas.

Primeira pergunta: Sendo Cotrim uma pessoa ambiciosa (no sentido político, tanto mais que, sendo deputado europeu, se candidatou à presidência da república), qual foi a razão (ou as razões) concreta(s) por que saiu da liderança do partido «Iniciativa Liberal»? Mais directamente: essa saída pode ter-se devido a motivos de importunação a alguma senhora que desempenhasse funções políticas com ele ou para ele, nessa altura?

É que, recentemente, pareceu tão amofinado com acusações dessa natureza, que ameaçou que recorreria aos tribunais para esclarecer judicialmente a questão. Já o fez? Por via das dúvidas, eu gostava de saber a decisão judicial elementar a haver, apenas isso e não os prolegómenos ou as fundamentações.

Terceira questão: No meu percurso diário para o trabalho passo por vários mega-cartazes de Cotrim (dele e doutros, na realidade), em que aparece a exibir e a elogiar o próprio perfil ou então de olhar vulpino como se tivesse lobrigado a salvação do mundo. Ora, tendo já passado algum tempo desde a 1ª volta das eleições, em que não passou; havendo algum risco de queda de obstáculos na via pública; desfeando aquelas lonas descomunais o espaço urbano; e tendo Cotrim tempo de sobra para aparecer como comentarista político de coturno suficiente (embora eu me lembre de como embatucou confrangedoramente por largos segundos a uma pergunta simples de Seguro em debate a dois na TV), sobra-me a pergunta: porque não se apressa a dar o exemplo de mandar tirar os retratos do passeio público?

Se fizer o obséquio.

José Batista d’Ascenção

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Humanismo imprescindível

Homenagem singela a Cavaco Silva e a Paulo Portas

Há valores fundamentais que todos deviam defender e respeitar – os consignados na declaração universal dos direitos humanos.

Em certos momentos da vida das democracias, ninguém na plenitude das suas capacidades de cidadania e dos seus direitos devia eximir-se a tomar posição.

A ideologia política, as opções religiosas e as práticas sociais de cada um, quando conformes com os princípios éticos, são matéria de liberdade individual e carecem de ser respeitadas, desde logo pelos poderes instituídos. E não podem tolerar-se atropelos ao seu usufruto precisamente pelas instituições do poder nem por organizações que se constituam com o objectivo de as cercear.

A segunda volta das eleições presidenciais que, por ora, vivemos enquadram-se, a meu ver numa dessas escolhas fundamentais para o país (de Abril) e para a sociedade (democrática) que queremos ser.

Para isso, contribuiu a opção maioritária dos eleitores, obviamente, e dentre esses, os que, opondo-se desde sempre ao partido de que é oriundo o novel presidente, mas tendo em vista o principal, quiseram, anteriormente ao acto, manifestar-lhe o seu apoio de forma clara, digna e corajosa.

Foram muitos, e todos são dignos de apreço. Permito-me destacar dois deles: Cavaco Silva e Paulo Portas.

Como aos demais, a ambos felicito e agradeço.

José Batista d’Ascenção

A desventura não é irremediável

Saturado de água, o país foi a votos para o seu representante máximo. Como era previsível e tudo indica, a moderação ganhou larguissimamente.

Ainda bem.

Mas não foi só a moderação que ganhou, ganhou também a recusa da falsidade, da maldade e da crueldade. Foram muitos os que, revoltados ou dominados pelo ódio, seguiram um líder sem princípios, que se afirma cristão, mas cuja prática ofende obscenamente os evangelhos. O problema dos que votaram nele não fica resolvido, mas os resultados contribuirão decisivamente para que o mal de que sofrem não contamine mais pessoas nem se abata sobre os que não perderam os eixos nem as referências.

Ainda bem.

Os males dos tempos a que chegámos derivam em enorme medida da incompetência e da irresponsabilidade das sucessivas assembleias de deputados - que deviam ser em menor número e mais bem selecionados - e dos governos que temos tido.

Por isso, é necessário que a generalidade dos cidadãos se torne mais exigente com a qualidade da democracia, desde logo reclamando um sistema de justiça digno do nome.

Para bem de todos.

Parabéns a António José Seguro e ao país que votou nele.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os troféus dos professores

Estava eu no supermercado, entre as batatas e as cebolas, e, à distância, uma cara sorria abertamente, com a expressão e o olhar. Duvidoso, tentei perceber se se dirigia para alguém ao meu lado, antes de compor, também eu, o melhor sorriso.

Então, já a menina estava à minha frente, em cumprimento amistoso e serenamente efusivo.

Pedi desculpa por, finalmente, reconhecer os traços, mas, ao contrário do desejo, não recordar o nome.

Primeiro “bónus”: era a Carla Daniela, minha aluna há cerca de vinte anos, na escola onde ainda trabalho.

E que fazia agora, como ia a sua vida? - Perguntei.

É enfermeira no Hospital Público de Braga e tem um bebé rapaz, com cerca de um ano, disse-me.

Estava contente com a profissão? - Arrisquei.

Com a função sim, com as condições… pôs uma cara triste.

Curioso, ainda perguntei se não chegara a pensar emigrar, até pela elevadíssima competência da enfermagem portuguesa, como eu pude comprovar abundantemente, na primeira pessoa, em 2009.

Que sim, que tivera um bilhete na mão, mas que era tanta a tristeza, na hora de partir, que a própria mãe lhe pedira que não fosse.

Felicitei-a, de todo o modo.

Segundo “bónus”: que às vezes se lembrava do professor de biologia, que sempre a incentivou e que lhe chamava Carlinha.

Terceiro “bónus”: que tentara orientar-se por outro conselho desse professor: que nunca deixasse de ser como era.

Devo ter ficado emotivamente confuso e rubicundo.

Apertei-lhe nas minhas as suas mãos e desejei-lhe as maiores felicidades, especialmente para ela e para o seu bebé.

Com o mesmo sorriso doce e belo foi à sua vida.

“Bónus” adicional: ao meu lado, a Lurdes, minha mulher, felicitou-me também.

Há dias assim.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Primavera que há-de chegar

Inverno, Inverno é o que temos tido: Muita chuva, ventos ciclónicos, neve e frio. Os solos estão saturados de água, os rios galgaram as margens e o mar enfureceu-se.

O bom disto tudo são as albufeiras cheias até mais não ser possível. O mau são os casos de morte e os prejuízos que tem havido, alguns dos quais se vão prolongar no futuro, como é o caso da perda de empregos…

Creio que, quando vierem uns dias de sol, os portugueses vão expor-se à luz e à (maior ou menor) quentura com particular satisfação.

E a Natureza pode reagir de modo análogo, como que para compensar e suplantar os rigores do tempo e o cinzentismo ambiental com que temos (con)vivido.

Nessa altura, a “explosão” de flores há-de colorir o meio ambiente, como que pondo-o em festa. E a festa, assim sentida e agradecida, por certo encherá de júbilo e esperança as (nossas) almas em hibernação sombria.

Quem sabe se essa bonomia do tempo entrará no calendário pelo Entrudo?

Bem-vinda seja, quando vier.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Sucedem-se as tempestades, mas tardam a bonança preventiva e a remediação efectiva

A eleição presidencial, pela sua natureza e significado, devia consumar-se no seu objectivo. Atingido este, adiante. Não sendo assim, os candidatos pretendem outros fins, que não os da eleição propriamente dita.

Ressalve-se, porém, que, em democracia, todos os movimentos políticos que não a neguem ou destruam são legítimos, mesmo que inconvenientes.

As presidenciais que decorrem tiveram um número recorde de candidatos e o país encheu-se de anúncios propagandísticos de grandes dimensões nas praças e arruamentos urbanos e nas bermas das estradas. A esses somam-se os que nos impingem apelos ao consumismo comercial.

Para a impressão de tais anúncios, estruturas de suporte e afixação, instrumentos e mão-de-obra, aparentemente, não falta dinheiro.

Acontece que a profusão e dimensão das imagens ofende a vista, degrada a paisagem e o ambiente e distrai condutores a quem convém toda a atenção.

Passou a primeira volta das presidenciais e sobrevieram temporais seguidos. Os que diligentemente afixaram os materiais de propaganda deixaram os monos agora inúteis a agredir os espaços e à mercê das intempéries. Mais ou menos esfrangalhados, parte deles permanecem.

Alguns dos candidatos que ficaram pelo caminho foram lestos a anunciar movimentos políticos, mas não se mexeram para que se removam e limpem quanto antes os detritos de que são responsáveis.

Se tivéssemos bons deputados e bom governo, em tempo oportuno far-se-iam normas mais apertadas e restritivas de afixação de megacartazes, também pelo risco que podem constituir para quem circula nas estradas.

Mas isso só aconteceria se os cidadãos exigissem que assim fosse.

José Batista d’Ascenção

sábado, 24 de janeiro de 2026

Casamento, divórcio e relações sexuais (curiosidades históricas, em resultado de leitura)

O livro «Imaginação» é uma obra de fôlego da autoria de Francisco Louçã. Lê-la vale por muitos motivos, que esta anotação não revela, limitando-se aos aspectos referidos no título, os quais achei curiosos e interessantes e por isso merecedores de registo.

«Aristóteles dedicou um capítulo da sua Política a instituir normas para o casamento, aconselhável aos 18 anos para as mulheres e aos 37 ou pouco antes para os homens, e para o momento da união reprodutiva, no inverno e de preferência com vento norte»… (p 398).

[…] Para os primeiros cristãos, a proibição do casamento de sacerdotes era absurda. Pedro era casado e Paulo admitia mesmo que esses matrimónios fossem normais e pedia unicamente aos bispos que fossem maridos fiéis. Só trezentos anos depois foi estabelecido que os bispos não podiam casar (p. 411).

[…] Os textos bíblicos autorizavam o divórcio, pelo menos em alguns casos. Mateus admitia uma única justificação para o divórcio, o adultério (p. 411) e Paulo, que tratou a questão em cartas conhecidas antes da redação dos evangelhos, afirmou que o divórcio devia ser impedido, mas não de forma absoluta (idem). Constantino, o primeiro imperador que se declarou seguidor do cristianismo promulgou em 331 leis que determinavam as condições do divórcio (se o marido fosse bêbado ou jogador, se a mulher o envenenasse e, para qualquer dos dois, a invocação do adultério) (ibidem).

[…] Martinho Lutero considerou, como Calvino, que o casamento não era um sacramento, pois não é mencionado como tal na Bíblia, e, portanto, os padres podiam casar-se – o que ele e muitos dos que o seguiam fizeram. (p 420)

[…] Na Cantábria, em Espanha, a poucos quilómetros de Santander, uma pequena igreja – a Colegiata de San Pedro de Cervatos, construída entre 1129 e 1199, tem profusa decoração exterior com estátuas simbolizando a luxúria sexual, o que permanece um mistério, tanto nessa igreja como noutras, de outros lugares de Espanha, mas também de países como Alemanha, França, Inglaterra, Irlanda, Itália… (p 421).

[…] S. Tomás de Aquino, o teólogo que alcançou mais fama e influência na fixação do cânone sexual (…) fê-lo de modo explícito na sua Summa Theologiae, escrita no final da vida, entre 1267 e 1273 (…). Para cumprir os preceitos, o coito só devia ser a penetração vaginal na posição do homem sobre a mulher, sendo negadas outras formas de relação sexual. (p 414)

[…] Desde o concílio de Trento, no séc. XVI, o casal devia estar sob a égide da igreja e as regras da sua vida sexual deviam ser definidas pela autoridade eclesiástica.» (p. 422)

José Batista d’Ascenção