quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Gastos dois terços de Agosto

Foi um rápido. Passou e soube bem. Os mais jovens, filhos e netos regressam agora aos países que os acolhem. São emigrantes, os meus descendentes (todos). Não são emigrantes como foram, noutros tempos, tias e tios meus. Mas são emigrantes, mesmo os que têm dupla nacionalidade. Eu assim os considero.

Sobre a emigração dos meus tempos de meninice e juventude, retenho relatos fragmentários de viagens «a salto», sobretudo para França, relembro fragmentos de conversas sobre «passadores» e, principalmente, guardo referências ao trabalho intenso e ao esforço de poupança dos que se foram por negra necessidade, na intenção de um dia regressarem para a casa nova que, entretanto, mandaram construir, bem diferente do «ninho de pedras» coberto de telha vã, sem água nem electricidade, nem casa de banho que deixaram ao partir.

Os regressos para o Natal ou para os meses de Verão, em cada ano, eram uma festa ao chegar e um aperto no peito na hora de voltar.

Os emigrantes ajudaram a fazer de Portugal outro país. Há pouco mais de meio século, antes do «25 de Abril», as condições de vida eram paupérrimas para mais de três quartos das pessoas: mortalidade infantil, analfabetismo, carências alimentares, falta de assistência médica e ausência de liberdade de pensamento faziam uma paisagem humana e social cinzenta e triste, não obstante o escape (compreensível) do folclore e a acção da propaganda política.

Os nossos emigrantes também deram muito aos países a que aportaram.

Honra lhes seja e à sua condição.

Obrigado, meus filhos.

José Batista d’Ascenção.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Golos que valem por dois

Não há na minha biografia vestígios que indiquem que fui uma promessa não cumprida no desporto, em particular no mundo do pontapé na bola.

Conto no currículo com a prática em jogos de rua e mesmo em campos (pelados) de medidas regulamentares, em que fui (demasiadas vezes) um elemento desequilibrador (em desfavor da minha equipa), e orgulho-me de nunca, enquanto jovem, ter perdido por mais de dez (que me lembre).

Actualmente, várias décadas decorridas, ainda sou escolhido pelos meus netos para ficar à baliza, suponho que com dois generosos objectivos: envolver proximamente o avô e valorizar-lhe o talento.

No jogo desta tarde apliquei-me quanto pude na defesa da baliza à minha guarda, tanto que sofri (apenas) 21 golos. O resultado, no entanto, ficou em 22-6.

Para abreviar o tempo do massacre, que não a dimensão da derrota, o Artur, petiz de cinco anos, marcador do último golo, considerando a perícia do remate e o falhanço aparatoso do guarda-redes, gritou:

- Terminou o jogo, este golo valeu por dois!

E eu pude então descansar, com uma sensação de ternurenta vitória. 

José Batista d’Ascenção.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Coisas que permitimos que aconteçam em Portugal e não devíamos

É da (nossa) cultura, mas não apenas. Nós, os portugueses, ou muitos de nós, esperamos mais por milagres ou que alguém faça o que nos cabe do que investimos nos procedimentos pessoais e colectivos adequados à prevenção dos riscos mais diversos. Lembro os que conduzem sem abstinência alcoólica, mas penduram um terço no espelho retrovisor. As limpezas de vegetação seca à volta das nossas casas, que, podendo, não fazemos, por admitirmos que alguém – das autarquias aos bombeiros - o fará por nós. Os foguetes que se lançam em honra de santos em festejos de Verão, como se daí decorresse alguma protecção contra incêndios. Isto ao nível do cidadão comum.

Mas os nossos governantes são filhos da mesma cultura. Donde, morreram pessoas por falta de assistência médica urgente, mas a ministra da pasta aguardou pelos inquéritos que mandou fazer para concluir que o seu lugar não estava em causa. Nos exames nacionais aconteceu o que não podia ter acontecido, de que resultaram prejuízos irremediáveis e injustiças definitivas para muitos alunos, que o senhor ministro foi justificando com razões diversas, algumas espúrias, sem o desassombro de assumir, ele mesmo, à cabeça, a responsabilidade primeira. Os exemplos podiam continuar…

A nível intermédio, nas organizações, o panorama é coerente: em quem manda, em muitos dos executores ou praticantes e nos cidadãos destinatários ou elementos do público. Veja-se a organização da «Volta a Portugal em Bicicleta»: Um cidadão, certamente sem intenção, provocou a morte a um jovem atleta. Há muitos anos, um cão fez cair o maior de todos os ciclistas portugueses, de que veio a resultar a sua morte. Este ano o percurso da corrida incluiu a passagem por um sector do único Parque Natural do país, no Gerês, com parecer favorável do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas!

E nós aceitamos. Ninguém nos mete na cabeça que o que pode correr mal, em alguma altura corre mesmo mal.

Ainda há quem lhe chame destino.

José Batista d’Ascenção.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Livros de ajuda que ajudam muito

Filipa Dias (que não tenho o privilégio de conhecer) é uma técnica habilitada e especializada (por instituições portuguesas e estrangeiras), que ajuda «a compreender melhor o processo de envelhecimento, a lidar com as mudanças trazidas pela doença e a organizar o cuidado…

Trabalha nas áreas de gestão de comportamentos, adaptação da casa, estimulação cognitiva e funcional e estratégias de autocuidado» … A sua prática inclui «vivência pessoal próxima com a doença de Parkinson e a demência» …

O que Filipa Dias também tem é uma excelente capacidade de comunicação por escrito com clareza, autenticidade, objectividade e precisão. Além disso, fá-lo com humanismo tocante e encorajador, especialmente nos casos em que aumentam exponencialmente os aspectos deprimentes da demência e da fisiologia, causadores de sofrimento extenuante e arrasador de quem cuida, pessoa que precisa igualmente de protecção, antes de esquecer-se de si e agravar dramaticamente toda a situação.

O livro «Os meus pais envelheceram, e agora?» merece o mais alto prémio da minha consideração, por ser extraordinário no esclarecimento e iluminação de tantos aspectos em que sou terrivelmente ignorante, mas também por não ser o livro de uma sabichona com a pretensão de tudo ensinar ao vulgo ignaro.

Como a minha mãe vai fazer noventa e dois anos, e me atormento com o seu conforto, talvez fosse difícil encontrar bibliografia mais a preceito.

Quase (já) não guardo livros depois de os ler, mas este vai permanecer comigo, também para antecipar o que provavelmente me vai acontecer no resto da minha vida.

José Batista d’Ascenção.

sábado, 8 de agosto de 2026

Pão que vale a pena

Sempre que passo pelas Caldas da Rainha e sou obsequiado com o almoço ou o jantar, o que acontece quase sempre, os meus anfitriões, conhecedores da minha gula por certa broinha de milho amarelo divinal têm-na sempre na mesa. É bonita de ver, macia ao tacto, muito gostosa e fatia maravilhosamente (eu gosto muito de cortar o pão, na hora, antes de o comer, quando ele é bom).

Desta vez, o privilégio foi maior. Sobre a mesa, lá estava o magnífico pão. Como se não bastasse, recebi dois de prenda para trazer para minha casa. O aspecto é o que se vê na imagem. O sabor é indescritível. Não sei em que casa o compram (problema que tenho de resolver…), mas é na cidade. Um dia tenho de ir lá eu mesmo, para o acto de aquisição e para felicitar o vendedor(a)/padeiro(a), acção que suponho que, para eles, seja banal.

Gosto muito de pão. O pão de trigo melhor que comi, simples ou com alguma mistura, não sei bem, foi na zona de Torres Vedras, Mafra e Ericeira. É de comer e gritar por mais.

Broa amarela muito boa comi-a faz muito tempo no interior da Beira Baixa, feita para consumo próprio e familiares pela Ti Natividade, mais conhecida por Ti Fòfa, da freguesia de Estreito, Concelho de Oleiros. Depois que ela morreu, há mais de 35 anos, desisti de comer broa por aqueles sítios, o que deve ser injusto para tantas outras senhoras desconhecidas daquelas terras.

Também na Beira Baixa há uma variedade de pão de trigo confecionada pelo padeiro de Cardigos, que faz com que me alambanze em merendas de trás-da-orelha, sobretudo se acompanho com queijo de Malpica (do Tejo), de ovelha ou de cabra ou de mistura. Também pode ser queijo da Soalheira ou as variedades de Castelo Branco, incluindo o picante.

Voltando ao pão: Pão bom devia ser «o pão nosso de cada dia».

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Portugal, um país heterogéneo com forte identidade

Portugal é um país (relativamente) pequeno, em tamanho. Já foi grande, muito grande, em importância mundial, que podia ainda ter, mas que não tem nem terá nas próximas gerações (oxalá estivesse enganado…), principalmente porque (em minha opinião, e por razões intrínsecas e envolventes) o nosso «sistema educativo» é confrangedoramente ineficaz.

Somos um rectângulo(zinho) no extremo ocidental do continente europeu mais uma dúzia de ilhas no Atlântico, de que resulta termos uma imensidão de oceano como zona económica exclusiva, que cuidamos pobremente e não conseguimos vigiar.

O continente português – o tal rectângulo – cujo comprimento alinha na direcção norte-sul, tem características geográficas diversas, quer devido à latitude (zonas mais a norte ou mais a sul), quer devido à orografia (tipo e orientação das montanhas), a que acrescem a proximidade do mar nas extensas orlas costeiras oeste e sul e a continentalidade nas fronteiras com a Espanha, a norte e a leste.

Para um beirão-interior albicastrense ou um alentejano, o dito do Alto Minho «o primeiro de Agosto é o primeiro dia de Inverno» causa espanto, espanto que tem tanta lógica como o próprio ditado, se considerarmos as características de cada uma daquelas regiões, vistas por quem nelas habita.

As ilhas têm também marcas próprias da sua localização.

O clima, a vegetação, e a paisagem moldam as pessoas e a cultura. Contudo, um dos traços mais fortes do nosso país é a profunda identidade nacional, não obstante a diversidade das formas de viver, de sentir e de estar. Creio que tudo assenta nos nove séculos da História de Portugal.

E, sendo um país sempre pobre, de que grande parte das pessoas teve de partir para fugir à fome e à miséria, a diáspora, espalhada por muitos países do mundo, só reforça, à distância, a funda identidade do que é ser português. Ou seja: os emigrantes fazem Portugal mais português.

Sem megalomania, é legítimo e saudável acreditar que, um dia, os portugueses cumprirão Portugal.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Sim, a bondade está nas pessoas

Nas pessoas em geral, mesmo quando não se nota ou parece o contrário. Cada vez dou mais importância ao papel dos líderes, daqueles que entusiasmam, mesmo se não arrastam multidões. Dou-lhes quase tanta como dou às pessoas intrinsecamente boas – aquelas que, sem o pretender ou exibir, dão exemplos maravilhosos.

A maior parte dos líderes políticos actuais parecem-me genericamente baços, gananciosos e pouco inspiradores, e, muitos deles, perigosos: pelo que são e pelo poder que têm. Mas há-os de categoria. Zelensky, por exemplo, tem lutado com coragem e firmeza pelo seu país e pelo seu povo.

Tristemente, as mulheres que ascenderam aos lugares de topo na política mundial não se distinguem dos homens. Neste particular, a igualdade de género tem sido menos fecunda do que eu a supûs (e profundamente desejei). Mas não é por isso que a devemos menosprezar, desde logo porque duplica o universo de escolha dos mais capazes para quaisquer sectores sociais. Cabe-nos a nós, a cada um de nós, saber escolher em função da competência e da dignidade, pois que as sociedades carecem enormemente de quem cuide (bem) delas.

Donde, os líderes são fundamentais, porque congregam e mobilizam.

Não podemos perder a esperança.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Descansemos, por uns dias

Agosto nosso. P’rà família e p’ròs amigos. Para as festas, para as praias ou os campos. Para os abraços. Em celebração e comunhão.

Se a dor não se sobrepuser, que durmam os relatórios médicos.

Viremos costas à imensa confusão do (que devia ser o) nosso ensino (esqueçamos o termo “educação”), à miseranda justiça que temos, à falta de ética e incompetência de (des)governantes e dos políticos da oposição (a quê?, como?, com que objectivos?), particularmente os extremistas patéticos (e perigosos).

Ademais, esperemos que as temperaturas nos poupem à desgraça aterradora dos incêndios.

Não corras demasiado depressa, Agosto. Deixa-nos saborear os teus dias, cada minuto, do início ao fim.

Vinde, filhos e netos, vinde.

Deleita-te coração, que a doçura maior está prestes.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 21 de julho de 2026

Estar calado

Olho e (julgo que) vejo. Penso e chego a conclusões que não me agradam. Sinto e dói-me.

É o mundo. É o meu país. Somos nós, os que fazemos ou alimentamos os tumultos agressivos das redes sociais. São os princípios que, em larga escala, só exigimos aos outros. 

O viver emocionalmente compensador, aparentemente, escapa a cada vez maior número de pessoas. Os motivos próximos são a saúde, a habitação, o trabalho digno e a educação, mas o clima afectivo parece provir de mais fundo e de englobar mais do que isso.

Na última dúzia de anos, identifiquei-me socialmente com as mensagens dos papas Francisco e Leão XIV. Para além deles, no tempo deles, nenhum outro líder do país ou do mundo me entusiasmou.

Penso nos meus filhos e netos e no mundo em que vão viver. Uma fracção (minoritária) da juventude só pode ter boas referências. Mas serão (os) suficientes para melhorar o devir da humanidade?

Sobre problemas específicos – e são tantos, nesta altura -, opto pelo silêncio, que talvez ajude.

Que adiantaria o que eu pudesse dizer? 

José Batista d’Ascenção

sábado, 11 de julho de 2026

Um espanto: a política e o futebol, que o resto pouco importa

A pretexto de ir apoiar a equipa de futebol do país, na conquista heróica de um campeonato do mundo, o senhor primeiro-ministro conseguiu ir três vezes aos Estados Unidos em pouco tempo, como se a sua presença nos jogos fosse um factor de peso para as vitórias a haver.

Se, em média, cada viagem (de ida ou de volta) demorasse dez horas, veja-se o tempo que sua excelência gastou por motivos que não se percebem, senão pela vaidade, pela propaganda e pela ausência de noção das prioridades e… do ridículo.

Entretanto, os cidadãos vive(ra)m a angústia dos fogos e as preocupações com os exames nacionais, somadas àquelas que são intrínsecas e permanentes, como as urgências e as maternidades, entre outras.

Mas o que importa isso?

O pontapé na bola é que é.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 7 de julho de 2026

Recursos das notas dos exames sim, mas apenas nos casos justificados

Face aos problemas com a classificação dos exames nacionais, alguns dirigentes políticos têm sugerido que os eventuais recursos sejam gratuitos, e já há uma petição nesse sentido. Cuidado com propostas deste tipo. Com a falta de confiança que o processo de classificação está a incutir, pode dar-se uma avalanche de reclamações, parte das quais não tenha motivo justificado. Vendo a questão do ponto de vista dos classificadores, afogados em trabalho, a uma situação problemática podem somar-se novos e maiores problemas. Até admitia que o pagamento da cota exigida fosse devolvido com acréscimo (digamos mais 25% do custo) aos que tivessem razão, como compensação pelo transtorno sofrido, mas dar curso a uma imensidão de reapreciações sem razões que as validem, dá trabalho e despesas injustificadas, as quais, nesses casos, devem ter custos para quem, indevidamente, pretendeu o que não era legítimo.

Muita prudência, portanto, ou corremos o risco de ter a meada empeçada por muito tempo…

José Batista d’Ascenção

domingo, 5 de julho de 2026

Amor pela língua portuguesa

A minha amiga e colega Fátima Ferraz comentava recentemente o linguajar dos cozinheiros que, com frequência, aparecem nos programas de TV e dizem “gramas” no feminino  [a palavra, enquanto unidade física de massa, é um substantivo masculino, pelo que se deve dizer e escrever «o grama» ou «os gramas», mantendo-se o símbolo «g» invariável, no singular e no plural] e se referem (oralmente) à capacidade volumétrica dos recipientes para líquidos em «éme éle», possivelmente por desconhecerem que o símbolo «ml» se refere a mililitro (a milésima parte de 1 L).

Não ficava mal às televisões serem mais cuidadosas e exigentes no trato da (belíssima, mas degradada) língua portuguesa, e é inadmissível o que se passa nos canais públicos.

Para o vulgo, uma ajuda preciosa ao bem falar e escrever é o recente livro «Em Nome da Língua. Ámen», de Manuel Monteiro. Uma extensão desta matéria específica, e algo mais, consta, de modo muito esclarecedor, nas páginas 110-113.

Porém, todo o livro devia ser de leitura “obrigatória”.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Plantas, alterações climáticas e ar condicionado

As plantas, sobretudo as árvores de maior porte e fronde, são grandes consumidoras de dióxido de carbono (CO2), que transformam em compostos orgânicos (no processo da fotossíntese), os quais se acumulam no seu corpo, formando o que chamamos biomassa vegetal. Ao retirarem CO2 da atmosfera (e também da água, no caso das plantas aquáticas) contribuem para a diminuição do efeito de estufa, já que aquele gás é um dos que potenciam a retenção de calor pela camada gasosa do planeta (o consumo do CO2 dissolvido na água contribui igualmente, pois quando mais for removido da massa líquida, mais moléculas gasosas do mesmo gás provenientes da atmosfera se dissolvem na água).

Devido à queima de combustíveis fósseis (carvão, derivados de petróleo…) e à desflorestação, particularmente a causada por incêndios, não só tem aumentado a libertação de CO2 para a atmosfera como têm diminuído os mais eficazes sumidouros desse gás – precisamente as árvores. Aqui reside um dos factores responsáveis pelo aumento da temperatura média da atmosfera terrestre.

Temos, portanto, o clima a aquecer, em parte devido à actividade antrópica (humana). As ondas de calor sucedem-se, com aumento de frequência e de duração, causando desertificação e grandes problemas de saúde e mesmo de sobrevivência humana e de outras espécies.

Uma boa medida seria florestar, florestar, florestar. Não é isso que a humanidade está a fazer – está a fazer precisamente o contrário: a desertificar, desertificar, desertificar… áreas cada vez maiores.

Ao mesmo tempo reclamam-se melhores condições, principalmente no espaço urbano. Porém, aqui, queremos solos empedrados e asfaltados e acusamos as árvores (infundadamente) de causarem alergias e de exigirem a remoção de folhagem, assim como apontamos o risco de se arrancarem ou partirem causando danos. Ao mesmo tempo instalam-se ares condicionados onde se pode e por quem possui recursos para pagar os acréscimos (muito significativos) do consumo de energia.

Ora, as árvores dão sombra e libertam vapor de água (por transpiração), amenizando muito as temperaturas, ao mesmo tempo que renovam o ar que respiramos [porque produzem oxigénio (O2) no tal processo da fotossíntese]. E dispensam a instalação de canalizações e vaporizadores e gasto de água nas artérias citadinas. Além disso ainda embelezam e perfumam os espaços, não apenas na Primavera. Acresce que os aparelhos de ar condicionado gastam energia para deslocar o calor de certos espaços (normalmente interiores) para outros na envolvência (normalmente o exterior). Sendo que, ao funcionarem, esses equipamentos produzem calor, que se acrescenta ao que transferem de um espaço para outro. Ou seja, também contribuem para o aumento da temperatura.

Devíamos pensar (mais) no assunto.

As árvores são nossas amigas.

José Batista d'Ascenção.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Houvesse na política líderes com a dimensão e o humanismo dos últimos papas

Homens monumentais: foi-o o papa Francisco e está a sê-lo o papa Leão XIV. Os líderes políticos dos principais países democráticos europeus das três últimas décadas foram ou são, em geral, baços, nada inspiradores e pouco eficazes. Enunciam princípios mas não lutam com denodo por eles. Parecem (e são) mais funcionários bem pagos e acomodados do que representantes eleitos dedicados a causas e esforçados na sua execução. Ainda pus esperanças nas mulheres das actuais chefias, mas ficaram iguais aos seus colegas masculinos. Temos uma massa dirigente indistinta, amorfa e desinteressante.

O mundo caminha mal. Torcionários frios e assassinos (Putin, Kim Jong-un), ditadores calculistas de face serena (Xi Jinping) ou narcisistas doentios espalhafatosos e amorais (Trump) querem tomar conta do mundo e conduzem-no para a negrura dos seus instintos e interesses materiais.

Poderosos como eles (ou mais ainda) são os donos das empresas gigantes digitais e dos sistemas de inteligência artificial (IA), alguns deles com afinidades hitlerianas, pelo menos em certos gestos e atitudes (Elon Musk).

No meio disto há referências de humanismo que devíamos divisar, quais âncoras de lucidez e compaixão, sem o que a espécie humana terá triste fim.

A encíclica «Laudato Si» mostra-nos lúcida e esperançosamente o melhor a fazer pela Casa Comum. Acabada de sair, a encíclica «Magnifica Humanitas» aponta corajosamente o caminho para fugirmos ao horror da escravatura dos algoritmos e ao atroz belicismo tecnológico apoiado na IA.

Pudesse o mundo católico de base multiplicar e tornar claras aos olhos do vulgo praticante a beleza, a bondade e a iluminação das propostas de Leão XIII, João XXIII, Francisco e Leão XIV, assim como recusar a profanação dos Evangelhos por líderes extremistas que se fazem filmar prostrados e de mãos postas frente aos altares.

Os humanos pertencem todos a uma só espécie e cada um de nós tem a mesma dignidade de quaisquer outros, sem excepções.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Azul

Certinhas, as minhas hortênsias – as mais belas da minha rua – correspondem anualmente, mesmo quando passam mal.

O fim-de-semana passado foi uma dessas alturas em que, sem serem regadas, murcharam, entristecidas, no alto da floreira em que enfeitam a entrada e podem ser contempladas da rua.

Mas, dois regadores de água depois, agradecidas, embelezaram-se como deve ser.

E ficaram assim, humildemente bonitas.   

José Batista d’Ascenção

De Curação a Curaçau?

Ilha Curaçau

Em saboroso artigo no jornal «Público», do dia 10 de Junho, Miguel Esteves Cardoso fala da presença da selecção de futebol de Curaçau no mundial. O que podia ter dito é que o nome «Curaçau», segundo algumas opiniões, é uma "corruptela" do termo "curação", com significado de "curar", dado pelos portugueses àquela ilha. No tempo das navegações dos europeus pela conquista do mundo, o escorbuto, resultado da falta do consumo de verduras (ricas em vitamina C) em viagens de meses sobre as ondas, dizimava os marinheiros. Sempre que aportavam em ilhas onde pudessem comer citrinos, por exemplo, a cura do escorbuto era rápida e (aparentemente) milagrosa. Ora, portugueses de então, esfaimados, teriam chegado àquela ilha e devoraram limões selvagens que rapidamente lhes proporcionaram francas melhoras. Por isso, lhes chamaram "ilha da curação", da curação do escorbuto.

Posteriormente, os holandeses tomaram posse dessa ilha, e como devem ter (tido) dificuldade em pronunciar o «ão», tão nosso, passaram a chamar-lhe «Curaçau».

E esse nome teria permanecido até à actualidade.

José Batista d'Ascenção

domingo, 31 de maio de 2026

Ter ou não ter talento

Há alguns anos, quando Luísa Sobral apareceu nas televisões (ou quando eu dei por isso…), impressionou-me a sua aptidão para a música. Mesmo a sua voz nasalada era uma originalidade de que gostava. Quando compôs a canção que fez do seu irmão uma estrela, pareceu-me natural, e revelou outra faceta dela: a sensibilidade e a solidariedade para com o outro, mesmo que familiar próximo. Antes disso, um dia fui ouvi-la ao Theatro Circo, em Braga, e já então confirmara, presencialmente, as suas qualidades artísticas e pessoais, ao enriquecer o seu concerto com a participação do irmão.

Na escrita não tinha, até este fim-de-semana, lido nada dela. Na Quinta-feira passada, ao fim da tarde, comprei o livrinho «Da Minha Janela» e o volume já não me largou mais até o terminar, ontem de manhãzinha.

Escrita simples, escorreita, expressiva, sobre as coisas comuns da vida, com humor, acutilância e incisão. Só fui ao «Google» duas vezes, para saber o que é «Push Pop» e «eneagrama». Tudo fácil e agradável, sensível e bonito. 

Bonitas e reveladoras de outro talento são as (pequenas) ilustrações, precedendo cada uma das crónicas. Pena ficarem tão pequeninas, “pormenor(es)” que não deve ser difícil trocar “por maiores”.

A última crónica, «Há dois anos que a morte me ensina a viver», é particularmente bela e emocionante.

Contrariamente ao que senti quando li livros de músicos cantores portugueses ou brasileiros consagradíssimos (há muito e muito merecidamente), apetece-me dar parabéns à autora.   

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Inda agora

O retrato é espelho de muita coisa, nenhuma delas boa. Fi-lo sem autorização nem conhecimento do sujeito.

Bolas para a sociedade que somos!

É este o fim-de-semana de recolhas do «banco alimentar», que mobiliza muitos, e ainda bem, mas não resolve a vida dos que precisam.

A seguir fui dar aulas e interroguei-me sobre o que (e para que) aprendem os jovens meus alunos.

Daqui a 10-15 anos o «banco alimentar» continuará «banco alimentar» ou terá mudado de nome ou (já) não existirá organismo equivalente? Por falta de necessidades não será…

Que evolução é a nossa, a das pessoas?

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Canícula e factores humanos responsáveis

Ainda Maio não terminou e já se sucedem dias de temperaturas infernais, a que se chama «onda de calor», e prevê-se que o fenómeno aumente a sua frequência com o decorrer dos anos.

As pessoas e muitos outros seres vivos não estão naturalmente adaptados a ambientes de fornalha sucessivos.

Acontece que as actividades humanas directas e indirectas contribuem em muitos casos para o aquecimento global, desde o consumo de combustíveis fósseis (carvão, gasolina, gasóleo, querosene…), à desflorestação e aos «negócios» dos incêndios.

A piorar, os líderes das maiores potências mundiais, ou porque loucos ou criminosos ou uma coisa e outra, negam ou pouca importância dão às alterações climáticas e promovem a guerra com mentalidade troglodita.

Ora, os recursos energéticos consumidos na produção de material bélico, o tráfego de navios e aviões de guerra, a deflagração das bombas e a destruição de infraestruturas são igualmente factores de elevação da temperatura e causadores de poluição diversa. As guerras produzem mortos, feridos, perturbação e destruição.

Nos países livres que (ainda) restam, e que tendem a ser cada vez menos, os cidadãos que amam a liberdade e possuem formação têm o dever de, independentemente de ideologias políticas (os crimes são igualmente crimes, se cometidos pela direita, pela esquerda ou pelo centro) e de nacionalidades, se organizarem para denunciar a demência, a irracionalidade e o delito criminal (que deve incluir os danos infligidos ao ambiente) e para exigirem a punição dos responsáveis, quaisquer que sejam, de onde sejam ou dos cargos que ocupem.

Universidades, centros de saber, religiões pacíficas, organizações governamentais e outros devem colaborar nesse sentido.

Enquanto são/somos livres.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 19 de maio de 2026

A pomba João

Observação: Esta não é a pomba João

A inteligência animal, seja isso o que for, deixa-nos por vezes agradável e ternamente impressionados. Há poucas horas, estava eu no café «Os Coelhos» (em Braga), saboreando uma xícara de café e concentrado em artigo longo de jornal, quando oiço o Sr Miguel, muito enfático, entre as mesas, a chamar carinhosamente pelo João, que estaria na zona de dentro do balcão, onde eu não via ninguém. O Sr Miguel repetia o chamamento e encaminhava-se para a porta, que dá para a esplanada. Foi então que baixei os olhos e vi sair a pomba muito direita, em marcha firme e bem direcionada para a voz que a convidava. Saiu e ficou momentos à espera de alguma compensação (que o Sr Miguel sabe que não lhe deve dar), imperturbável perante quem estava, sentado ou de pé, a olhar como eu.

No acto de pagamento felicitei o Sr Miguel pela comunicação muito humana com a pomba e por ela tão bem correspondida. Na resposta, fiquei a saber que mesmo ao Domingo, quando o estabelecimento está fechado, a ave vem plantar-se à porta à espera que o dono a abra.

São reflexos condicionados, talvez banais, bem sei, mas é, provavelmente, um bocadinho mais do que isso. Estas interacções dos bichos com os humanos não são possíveis com quaisquer pessoas. E os animais conseguem distinguir isso, parece-me.

Num tempo de violência e desregramento do mundo - que nunca foi pacífico, reconheça-se, mas em que o poder de destruição dos humanos era, também ele, limitado - ver a compatibilidade harmoniosa entre espécies tão díspares dispõe bem.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Líderes políticos de más intenções e a facilidade com que arrastam multidões

A natureza psicológica e social dos humanos ou evolui(u) pouco ou nota-se pouco que evolui(u).

As sociedades que sofrem os horrores da guerra geram pessoas com vontades/necessidades férreas de paz e acentuam tendências para a solidariedade e generosidade nos tempos sequentes aos conflitos bélicos. Também há recalcamentos e desejos de vingança, mas estes tornam-se mais subterrâneos nessas alturas.

Passadas décadas, novas gerações, sem memória vivida das guerras, desvalorizam a possibilidade de que voltem a acontecer, iniciando-se mais ou menos aceleradamente o recrudescimento dos factores capazes de as desencadear.

Desde sempre, em vários lugares, a humanidade esteve e está em guerra. Os estados de guerra são inexoráveis? Não se podem evitar?

Devemos acreditar que sim. E lutar para que assim seja. Mas isso implica doses infinitas de humildade, de generosidade, de reflexão e de estudo (da História e de algo mais). E não apenas por uma pequena fracção de cada população. Em termos de organização social, isso significa que a educação (boa formação) é fundamental, assim como são indispensáveis sistemas de (recta) justiça. As democracias dignas do nome não resistem sem qualquer dessas vertentes.

Por isso, líderes de péssima extracção encontram sempre pasto favorável para as suas tenebrosas ideias, preparando o terreno para as acções que lhes fazem ferver o sangue, dada a facilidade de disseminação do ódio e da mentira, que a tecnologia transformou em armas de eficacíssima manipulação.

O mundo nunca teve tantos aliciantes como na actualidade, mas também nunca esteve tão perigoso.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 24 de abril de 2026

25 de Abril sempre

Celeste Caeiro - a mulher que fez florescer Abril

Um filho, dois netos, um cunhado, duas tias e um sobrinho fazem anos em Abril. São datas emocionalmente festivas que celebramos discretamente, só nós, os mais chegados da família.

Mas o dia grande do mês de Abril, aquele dia a que Sophia, a nossa poeta contemporânea mais conhecida, talvez, chamou «dia inicial inteiro e limpo» é o dia 25 de Abril de 1974.

Foi inteiro, sim. E longo. E esperançoso. E belo. Nunca a Primavera, de todas as que teve o século XX em Portugal, teve um dia tão florido e entusiasmante.

Vivam os cravos vermelhos de Abril.

Vivam os homens democráticos, corajosos e generosos que fizeram a justa revolução, sem derramarem sangue, revolução luminosa que pôs fim à longa e tenebrosa “noite” salazarista.

Destaco um desses homens, já morto, em representação de todos: Salgueiro Maia.

Depois fomos vivendo a democracia consoante a fomos construindo. Podíamos ter feito melhor? Podíamos, mas a responsabilidade foi e é nossa.

A educação dos portugueses é a que é e que tem sido. Dela, na parte que me coube, também eu procurei ser um obreiro digno. Mas falhámos muito. Falhámos tanto que agora temos, ufanos, e em grande número, os que pretendem subverter (ou ignoram) os factos da História e as regras fundamentais do viver democrático.

O sistema de justiça também andou e anda mal.

E sem educação e sem justiça nenhuma sociedade pode ser justa e democrática.

Porém, a oportunidade tivemo-la e temo-la todos os dias: foi-nos dada no dia 25 de Abril de 1974.

Estas são opiniões minhas, muito sentidas, que posso expressar - por enquanto - porque sou livre.

Viva a Liberdade.

José Batista d’Ascenção

domingo, 19 de abril de 2026

Homenagem à minha mulher

Nem sempre sabemos a sorte que temos. Por vezes, podemos ter essa noção passados muitos anos sem antes repararmos nas evidências. Sendo que a sorte que temos é, em grande parte, aquela que sabemos construir ou, mais simplesmente, a que podemos aproveitar nas oportunidades em que se nos oferece.

Eu e a minha mulher somos profundamente diferentes. Tão diferentes que temi, um dia, como é que íamos construir um percurso juntos. Medo maior só o tive quando me anunciou a gravidez do filho mais velho: era um contentamento interior cheio de gratificante expectativa e de susto, que traduzia para mim próprio na interrogação que, então, registei assim: “que raio de pai vou eu saber ser”? Felizmente, nascido o rapaz, as sensações de medo pela minha subida condição volatizaram-se face às novas e compensadoras preocupações e funções que passei a ter.

Porém, neste momento, quero confessar algo sobre a minha mulher. Olhando e vendo a (ir)realidade por perspectivas diferentes ou opostas às minhas, levou-me a descobrir o significado desta frase, que ouvi a alguém: “um casamento deve ser uma consagração de contrários”. Desse modo, à monotonia e pobreza dos sentimentos e pensamentos redundantes ou submissos, a vida trouxe-me a riqueza do diverso e a beleza e a grandeza e a conveniência do complementar.

A minha mulher é ela, antes de ser a minha mulher. Sendo ela, na condição de minha mulher, esteve sempre no seu “posto”, o que me fez admirá-la cada vez mais, por ambas as razões.

Professora como eu, avessa ao grito e à imposição radical, impressionou-me sempre como é que alunos terríveis, de 13-14 anos, acabavam mansamente no ponto a que os sabia levar. E esses, não raro, entregavam-lhe no final do ano lectivo, às vezes muito discretamente, presentes simples que ela conserva ciosamente, não como troféus, mas como testemunhos de afecto.

Em casa e consigo mesma, a quaisquer objectos de luxo, que não tem nem usaria, prefere definitivamente gestos ou actos de carinho e amizade e oferendas simbólicas. Não é materialista nem exibicionista. Bastam-lhe afectos, a prática da amizade e o amor dos próximos.

Por sorte, ainda tenho mãe. Sinto pânico ao imaginá-la depositada num lar como os que conheço (pelo que, a leitura do livro «Misericórdia» de Lídia Jorge, merecedor de um Nobel, não me trouxe surpresas de conteúdo). Ora, eu desejava aproveitar enquanto posso a companhia da minha mãe. A Lurdes percebeu-o. Vai daí, temos a minha mãe comigo e dela cuidamos, mais a Lurdes do que eu. E fá-lo com a mesma generosidade, calor e afeição que sempre dedicou aos familiares – especialmente aos filhos – e aos outros.

Por tudo, desde há muitos anos, o meu pobre coração é cheio de agradecimento.

Obrigado, querida Lurdes.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O “interior deserto”

Deserto de gente jovem. Deserto da energia contagiante das crianças. Deserto de casais recentes, de mulheres grávidas e de bebés. Carente de renovação das gerações.

Um “interior” a cento e cinquenta quilómetros do mar em linha recta. Um “interior” geograficamente próximo das praias a abarrotar de gente, de Junho a final de Setembro. Para mais, reticulado de estradas com bom piso, a facilitar o acesso e o trânsito em todas as direcções. As tais estradas que haviam de atrair os nativos deslocados e outros, mas que funcionaram como vias de fuga dos poucos que ainda permaneciam.

É estranho. É confuso. Tanto mais que as pessoas que restam são acolhedoras. Os sabores são deliciosos. As paisagens são bonitas. As cores primaveris são um conforto para a vista e para a alma. O canto das aves não esmoreceu e as águias cirandam demorada e silenciosamente nos céus. Os corços correm gráceis pelas encostas. E até os javalis, individualmente ou em grupo, indiferentes aos carros que passam, têm alguma graça.

Para quem nasceu nas montanhas, a saudade e a nostalgia do retorno são vencidas na efusão dos abraços por que os corações anseiam.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Páscoa florida num mundo agressivo e inflacionário


O Sol brilha. As plantas florescem e reverdecem profusamente. Os animais estão activos, cumprindo o ciclo natural. Ontem, à tardinha, o cuco aplicava-se demoradamente no seu canto, como se soubesse que alguém o escutava rememorando tempos de criança.

As crianças, que deviam brincar e ouvir o canto das aves, nesta altura de interrupção lectiva, estarão provavelmente agarradas aos telemóveis, como os algoritmos determinam e os pais aceitam, vítimas que são, grande parte deles, de idêntica dependência.

Os que mandam no mundo fazem guerras, ganham rios de dinheiro e destroem a vida de muitas pessoas e os bens de todos.

Os preços sobem. Muitos acorrem a comprar o que supõem que amanhã já terá preço mais alto (como aconteceu antes de ontem com o gás de botija).

Nas culturas de raiz cristã, o tempo é de Páscoa, da Páscoa da ressurreição.

E o Sol brilha, como deviam brilhar os sorrisos das crianças em tempo de paz, para contentamento de pais e avós.

José Batista d’Ascenção

domingo, 29 de março de 2026

O pensamento dos principais líderes do mundo

Destes e doutros, tantos que não cabem aqui.

Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro.

Petróleo. Petróleo. Petróleo.

Poder. Poder. Poder.

Manipulação. Manipulação. Manipulação.

Guerra. Guerra. Guerra.

Destruição. Destruição. Destruição.

Luxo. Luxo. Luxo.

Consumismo. Consumismo. Consumismo.

Poluição. Poluição. Poluição.

É isto ou parecido.

Que valemos nós, os que não desistem de acreditar na ressurreição da decência?

A Natureza Viva ainda respira. Mal, mas respira.

Boa Páscoa. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 21 de março de 2026

O conceito de orgulho e a singularidade de cada um de nós

Várias vezes vejo o conceito de orgulho associado à condição de género (sexual) humano, à nacionalidade, aos filhos, aos pais, à profissão, etc.

Em qualquer destes casos há em mim discrepância no sentir. No sentir e no sentido. É-me estranho sentir orgulho em ser homem, por exemplo. Se é essa a minha condição biológica intrínseca, e se o facto não é mérito meu, que razão justificaria o meu sentimento de orgulho?

Gosto, prazer, conforto, harmonia, sentimento de realização com condições próprias ou acções realizadas ou procedimentos tidos é coisa diferente. Agora, orgulho, orgulho causa-me espécie…

Enquanto conceito exagerado de si, com o significado de soberba ou vaidade, termos que meto no mesmo saco, é algo que dispenso, na condição de sujeito. Por via das dúvidas, não tendo a associar à palavra orgulho sinónimos comuns como autoestima, brio ou dignidade, palavras benquistas à minha sensibilidade.

É assim que penso e sinto e sou.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 17 de março de 2026

Aprender com as cegonhas

No segundo dia a seguir à queda de parte do tabuleiro da autoestrada A1, na margem direita do Mondego, em Coimbra, devia eu atravessar aquele viaduto. Em vez disso tive de seguir o percurso alternativo.

Dias depois, em comentário sobre a violência da tempestade que tinha ocorrido e do rasto de destruição que deixou, alguém me dizia que, no meio dos destroços, os ninhos das cegonhas, em grande número nos postes da rede eléctrica de alta tensão, naquela zona, permaneciam lá. Então, não o pude confirmar objectivamente.

O que sei é que em tempos não muitos remotos (menos de cem anos), as margens do Baixo Mondego eram arborizadas e as cegonhas não dispunham dos postes de electricidade para nidificar nem deles precisavam. O «progresso» dos humanos obrigou-as a solução de recurso, de que, aparentemente, se saem bem.

Ontem, dia 17 de Março, voltei a fazer a A1 nos dois sentidos entre Porto e Leiria e pude reparar que as torres metálicas da rede eléctrica estão repletas de ninhos de cegonha, com as aves por perto, tão diligentes como sempre as vi.

Ainda não sei se os ninhos são realmente os que já lá estavam ou se foram (re)construídos entretanto. Seja como for, enalteço a «engenharia» e a «resiliência» das cegonhas, que me parecem uma lição. Para os comuns mortais e, também, para a engenharia nacional.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 13 de março de 2026

O mundo em fanicos

Entre portas, além da preocupação com a escalada do preço dos combustíveis, que vai agravar inexoravelmente a inflação, parece sobrar muito tempo e espaço para a discussão de motivos tão fúteis como a vestimenta de cerimónia da mulher do novel presidente da república. Somos assim.

Para lá do nosso «quintal», o mundo está submetido a brutal «pirotecnia» de engenhos mortíferos e destrutivos que riscam os céus - «espectáculo» que alguns descrevem como «interessante»! - e fazem em pedaços estruturas, edifícios e… pessoas.

Os indivíduos mais poderosos do mundo são loucos e alguns deles são frios assassinos.

Os líderes europeus - das democracias que (ainda) restam - entretêm-se nas vacuidades características das respectivas irrelevâncias, grudados nos cargos a que ascenderam pelos votos, que pouco merecem.

Onde e como vamos acabar não o sei eu. Mas temo, sobretudo, pelos meus filhos e netos e por todos os que são das idades próximas das deles.

No resto da minha vida, vou cuidar de encontrar sementes de optimismo, que esforçadamente tentarei semear.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 11 de março de 2026

Húmus, “hummus”, humor triste e divórcio das palavras

Hoje, na aula de biologia de 11º ano, conveio referir a decomposição da matéria orgânica e a formação de húmus nos solos, agrícolas e não só.

A turma é de bons alunos, mas eles não sabiam o significado da palavra «húmus», que confundiam com um alimento de grafia parecida (ou mesmo coincidente).

Ignorantes não são apenas os alunos (na realidade são todos os que ignorantes parecem mais a totalidade dos que não causam essa impressão). Neste caso, o professor desconhecia o termo e o conceito que os alunos trouxeram à colação.

Marcas dos tempos, dos que passaram e dos que fluem no presente.

Tomara que o léxico dos alunos tenha aumentado com o meu esforço.

Pelo meu lado, não me sinto propriamente mais completo nem mais bem preparado com a extensão do que ouvi e fiquei a saber. Sem arrogância o digo.

E também sem contentamento.

José Batista d’Ascenção.

domingo, 8 de março de 2026

Às mulheres

 

Musa. Séc. I d. C. (Mármore)

Às minhas avós, à minha mãe, à minha mulher, às minhas irmãs, às minhas noras/filhas, às minhas sobrinhas, às minhas netas, que ainda não tenho, às minhas colegas e amigas.


A essas e todas as outras.


Pequena e humilde homenagem, imensamente sentida e grata.


Hoje e todos os dias do calendário.


José Batista d’Ascenção

domingo, 1 de março de 2026

Ortografia

Atente-se no título principal da capa do Jornal de Notícias de 28 de Fevereiro de 2026 (ontem).

Veja-se a importância do acento na palavra «pára», a qual, segundo o chamado «novo acordo ortográfico», devia ser grafada «para».

Fez bem o jornal em não cumprir o dito «acordo».

Faria bem o país em livrar-se dele.

Para isso era preciso três condições: gostarmos muito da nossa língua; percebermos a sua grandeza e importância; e termos coragem de mudar o que, manifestamente, não está bem.

Muito tarda o que não acontece. Mas íamos muito a tempo.

De resto, suponho que a imensa maioria dos portugueses nem notava. Infelizmente.

Disse.

José Batista d’Ascenção

sábado, 28 de fevereiro de 2026

«Caça às bruxas» é uma expressão com real e duradoiro fundamento histórico (II)

«Um juíz borgonhez, Henri Boguet (1550-1619) especulou que haveria 300 mil bruxas em França e 1,8 milhões na Europa. A histeria coletiva gerada levou a que, nos séculos XVI e XVII, fossem torturados e executados entre 40 mil e 50 mil inocentes, de diferentes origens e de todas as idades, acusados de bruxaria, incluindo crianças de cinco anos.

Os métodos inquisitoriais recomendados pelo manual de Kramer, Malleus Maleficarum, eram diabólicos. Obtida a confissão, os acusados eram executados e os seus bens repartidos pelo acusador, pelo carrasco e pelos inquisidores. Se o acusado recusasse confessar, tal era visto como obstinação demoníaca e tinham lugar as mais horrendas torturas: partiam-se dedos, mutilava-se a carne com tenazes em brasa, o corpo era esticado até ceder ou mergulhado em água a ferver. Famílias inteiras foram executadas, começando-se por um elemento da família forçado a incriminar outro, indicado pelos torturadores, e assim continuamente.

Em 1600, em Munique, os elementos da família Papphenheimer (o pai, a mãe, dois rapazes e um menino de dez anos), foram todos mortos. Começaram pelo menino, obrigado a denunciar a mãe. Os quatro adultos, mutilados com tenazes em brasa, foram torturados na roda, sendo-lhes partidos os braços e as pernas; o pai foi empalado; os seios da mãe foram cortados, e todos foram queimados vivos. O menino, chamado Hansel, foi obrigado a ver tudo, e quatro meses depois foi executado.»

[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 141-142 p.]

Hoje, as torrentes de informações das vias de comunicação, tal como no passado, depois da invenção da imprensa, não asseguram por si só, o conhecimento e a aproximação geral à verdade. Veja-se o que se passa nas redes sociais. Não se defenda a censura, mas é preciso conter a profusão e difusão de notícias falsas.

Se eu soubesse como, dizia.

José Batista d’Ascenção

«Caça às bruxas» é uma expressão com real e duradoiro fundamento histórico (I)

«A febre europeia da caça às bruxas foi um fenómeno moderno, não medieval. A partir de meados do século XV, aproveitando a invenção da imprensa, eclesiásticos e estudiosos da região dos Alpes coligiram elementos da religião cristã, da tradição local e da herança greco-romana e amalgamaram uma nova teoria da bruxaria, argumentando que as bruxas eram uma ameaça temível, dirigida à sociedade no seu todo. Haveria uma conspiração mundial de bruxas que, adorando Satanás, se constituíam como instituição religiosa anticristã, que visava destruir a ordem social da humanidade. As bruxas matavam crianças, comiam carne humana, faziam orgias e lançavam feitiços que traziam tempestades e epidemias e toda a sorte de catástrofes.

A primeira vaga de caça e julgamento de bruxas foi conduzida por eclesiásticos e nobres da região do Valais, nos Alpes Ocidentais, entre 1428 e 1436, ultrapassando-se as duas centenas de execuções de supostos bruxos e bruxas.

Em 1487, Heinrich Kramer, frade dominicano e inquisidor compilou um manual que ensinava a desmascarar e matar bruxas, intitulado Malleus Maleficarum. Especificamente, recomendava o recurso a métodos de tortura horripilantes aos suspeitos de bruxaria, cujo castigo não podia ser senão a execução. Kramer sexualizou a bruxaria, que seria uma atividade tipicamente feminina. Na sua imaginação transbordante de ódio, Kramer dedicou um capítulo inteiro ao talento das bruxas para o roubo de pénis.

O livro de Kramer encontrou alguma resistência inicial, todavia tornar-se-ia um dos maiores bestsellers do começo da modernidade. Em 1500, Malleus Maleficarum tinha esgotado oito edições. Até 1670 fizeram-se mais vinte e uma edições, a que se somaram várias traduções vernáculas. O livro tornou-se a obra definitiva sobre o tema, e o trabalho de Kramer foi definitivamente acolhido pelos peritos eclesiásticos.»

[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 136-141 p.]

Retire-se dos factos da história que a disponibilidade e a facilidade da circulação da informação não se traduzem directamente na divulgação e no conhecimento geral da verdade.

(Continua)

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Atenta, a Natureza desperta

Neste fim de Fevereiro, bastaram dois ou três dias de sol e as temperaturas a rondar os vinte graus, a passar do meio-dia, para algumas plantas sorrirem.

Ainda há três semanas de Inverno, pelo calendário, mas a vegetação e os animais selvagens, sobretudo as aves, estão prontas para a renovação festiva da Primavera.

E as almas humanas, desta nossa região do mundo, não estão menos desejosas disso.

Não tarda, o sol vai dourar o nosso ânimo, tão carecido.

Precisamos (muito) disso, antes de regressarem os receios dos estios escaldantes. Preparemo-nos para usufruir. Está quase.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Burocracia = poder da secretária

«Etimologicamente, burocracia significa qualquer coisa como o “poder da secretária”. O termo foi cunhado na França do século XVIII, quando um funcionário público (…) se sentou a uma mesa de trabalho com gavetas – uma escrivaninha (bureau). Assim, no coração da organização burocrática jaz a gaveta. A burocracia tenta resolver o problema do acesso a informação [qualquer que seja e sobre o que quer que seja] compartimentando o mundo em gavetas: a chave está em saber que documentos estão em cada gaveta.

O princípio não se altera seja o documento arrumado numa gaveta ou numa prateleira, num cesto ou numa pasta de ficheiros ou em qualquer outro recetáculo. Isto tem um custo: em vez de se concentrar na compreensão do mundo [ou da matéria ou do assunto] como ele é, a burocracia ocupa-se de impor ao mundo [ou às coisas de que se trata] uma nova ordem, artificial. Os burocratas começam por inventar diferentes gavetas, cada uma dela não correspondendo necessariamente a qualquer divisão objetiva que haja no mundo. E a seguir tentam arrumar o mundo nessas gavetas, nem que seja à força. (…) Basta preenchermos algum tipo de modelo oficial para o percebermos: durante o preenchimento, se nenhuma das opções corresponde à nossa situação, temos de nos adaptar nós ao impresso, e não o contrário. Sendo a realidade complexa, os burocratas reduzem-na a certo número de gavetas estanques e isso ajuda-os a manter a ordem, ainda que em detrimento da verdade. E, concentrados que estão nas suas gavetas – sendo a realidade infinitamente mais complexa -, não raras vezes, os burocratas desenvolvem uma leitura distorcida do mundo.»

O problema é que não podemos funcionar em sociedade, nem estudar nem compreender o mundo, se não desenvolvermos a burocracia necessária. Como consequência, vem o resto.

in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 90-91 p.

José Batista d’Ascenção