«A febre europeia da caça às bruxas foi um fenómeno moderno, não medieval. A partir de meados do século XV, aproveitando a invenção da imprensa, eclesiásticos e estudiosos da região dos Alpes coligiram elementos da religião cristã, da tradição local e da herança greco-romana e amalgamaram uma nova teoria da bruxaria, argumentando que as bruxas eram uma ameaça temível, dirigida à sociedade no seu todo. Haveria uma conspiração mundial de bruxas que, adorando Satanás, se constituíam como instituição religiosa anticristã, que visava destruir a ordem social da humanidade. As bruxas matavam crianças, comiam carne humana, faziam orgias e lançavam feitiços que traziam tempestades e epidemias e toda a sorte de catástrofes.
A primeira vaga de caça e julgamento de bruxas foi conduzida por eclesiásticos e nobres da região do Valais, nos Alpes Ocidentais, entre 1428 e 1436, ultrapassando-se as duas centenas de execuções de supostos bruxos e bruxas.
Em 1487, Heinrich Kramer, frade dominicano e inquisidor compilou um manual que ensinava a desmascarar e matar bruxas, intitulado Malleus Maleficarum. Especificamente, recomendava o recurso a métodos de tortura horripilantes aos suspeitos de bruxaria, cujo castigo não podia ser senão a execução. Kramer sexualizou a bruxaria, que seria uma atividade tipicamente feminina. Na sua imaginação transbordante de ódio, Kramer dedicou um capítulo inteiro ao talento das bruxas para o roubo de pénis.
O livro de Kramer encontrou alguma resistência inicial, todavia tornar-se-ia um dos maiores bestsellers do começo da modernidade. Em 1500, Malleus Maleficarum tinha esgotado oito edições. Até 1670 fizeram-se mais vinte e uma edições, a que se somaram várias traduções vernáculas. O livro tornou-se a obra definitiva sobre o tema, e o trabalho de Kramer foi definitivamente acolhido pelos peritos eclesiásticos.»
[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 136-141 p.]
Retire-se dos factos da história que a disponibilidade e a facilidade da circulação da informação não se traduzem directamente na divulgação e no conhecimento geral da verdade.
(Continua)
José Batista d’Ascenção

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