quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Simone Biles! Simone Biles! Tu és deste mundo, Simone Biles?

A tua condição é mas não parece humana. O arrojo e a perfeição são contigo. Pareces desafiar a força da gravidade e dominas as leis do equilíbrio, da graça e da harmonia dos movimentos do corpo. As tuas capacidades estão além e acima das de todas as tuas colegas competidoras. Uma maravilha que as palavras não podem traduzir.

Fiquei preso à TV, hipnotizado com as tuas prestações.

E depois há o teu sorriso largo e o aplauso às concorrentes, quando fazem bem. Também nisso és grande.

E és maior ainda, pela coragem e humanidade com que mexeste nas dores, tuas e de todos os ginastas e atletas, para revelar males que é preciso debelar - isso foi há quatro anos.

E voltaste, ressuscitada, para mostrares que o mundo vale a pena.

Vale a pena, sim. Por ti e por nós.

Muito obrigado, Simone Biles.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 29 de julho de 2024

O (sor)riso de Kamala Harris

O mundo precisa de (voltar a) sorrir. As pessoas precisam de sorrisos francos e esperançosos. A política também.

Na(s) dúvida(s) e no cinzentismo bélico, frio e preocupante dos dias que correm, os sorrisos de bondade são (talvez) mais necessários do que nunca.

A face de quaisquer líderes mundiais é triste ou preocupada (vejam-se António Guterres ou o Papa) ou aterradoramente sombria (caso de Putin) ou assustadoramente expansiva, violenta e boçal (como em Trump ou Maduro) ou hipocritamente serena (no caso do líder chinês). E há outros que tais, numa longa lista.

Felizmente surgiu, espero que duradouramente, Kamala Harris. Li algures que os seus risos podem ser comprometedores. A mim parecem-me libertadores. Uma pessoa (uma mulher) bonita, de sorriso aberto e sincero.

Que a vida, pessoal e política, lhe sorria.

Haja esperança.

José Batista d’Ascenção

domingo, 7 de julho de 2024

Tempos de estridência

Por estes dias, sempre que, sozinho, vi um pouco de futebol na TV, optei por desligar o som. E, contrariamente a toda a gente, prefiro. No carro costumo sintonizar a RDP antena 1, mas desligo ou mudo de canal logo que surgem comentaristas ou relatadores de futebol: a fala aos borbotões, o atropelo, a elisão ou o prolongamento gutural das sílabas e a guincharia quando há golos, são-me insuportáveis. Curiosamente, a falta de audição agrava o (meu) problema.

Desde há alguns anos, vejo com prazer as transmissões televisivas da Volta à França. Não tanto por me interessar quem ganha, mas pelas paisagens e monumentos e pela observação do comportamento dos espectadores. Aprecio imenso o saber e a ponderação de Marco Chagas, mas vou desgostando do falar ininterrupto de João Pedro Mendonça, que parece recear o vazio de palavras, quando as imagens são (mais do que) suficientes.

Não sei quantos mais anos vão decorrer até passar (ou atenuar-se) a moda do «todos aos berros», em casa, na rua, nas escolas, nas televisões, na política e em (quase) tudo o mais.

Nos tempos que correm, uma das minhas divisas começa a ser «o silêncio é ouro» ou «escutemo-nos serenamente uns aos outros».

Mas sei que cada vez vou ficar mais fora de moda.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Vicissitudes pedagógicas de tempos idos, sentimentos de tristeza, de confortáveis lembranças e de esperança no futuro, tudo revivido num… funeral

Hoje mesmo soube do luto da minha muito estimada colega, Margarida Araújo, que não vi durante o 3º período, por estar a acompanhar o marido na sua longa doença, como tantas vezes fizera. Pessoa e Professora de armas, sempre muito doce com toda a gente, ela própria com um rosário de problemas de saúde de que nunca a ouvi queixar-se. Meticulosa e firme, ia dar as suas aulas, até quase à hora dos seus próprios internamentos, com a mala sempre pronta para seguir para os hospitais, regressava imediatamente após cada alta e era vê-la aplicada e entusiasta, sempre preocupada com cada aluno, para quem era de uma disponibilidade total.

Menos de meia hora antes do funeral cheguei à Capela de S. Brás, em Gualtar (Braga). Caminhei até ao pé da urna e demorei-me num abraço à Guida. Ao seu lado, uma bela mulher, ainda jovem, e grávida, esperava que a cumprimentasse, como fiz. Era a Sofia, filha da Margarida, de quem fui professor, nos idos de 1999/2000. Infelizmente, não a reconheci, embora a cara não me fosse desconhecida. Ela mesma me lembrou de quem sou e de algo que disse que nunca esqueceu: Numa aula em que explicava a formação do núcleo férrico do nosso planeta, matéria que então se dava no 10º ano, em «ciências da terra e da vida», eu tinha levado uma embalagem de granulado de cera (da que as senhoras usavam para depilação), um saquinho de pregos pequeninos (de cerca de 0,5 cm) e uma chávena de vidro «pyrex» transparente. Enchera a chávena da cera fria, espalhara sobre ela os preguinhos, agitara levemente e pedira aos alunos que imaginassem ali uma mistura razoavelmente homogénea (tal como era mais ou menos homogéneo o nosso planeta, antes de aquecer no seu interior, até à fusão, o que desencadeou fenómenos de diferenciação em zonas de densidades desiguais). A seguir, pus a aquecer a chávena com o conteúdo. A cera fundiu e os pregos, por acção da gravidade, caíram para o fundo, onde formaram uma camada, tal como aconteceu com o ferro e o níquel do núcleo terrestre. A Sofia disse que isto a marcou…

Notável é que a humilde e discreta Margarida nunca me disse, nem então nem depois, durante todos os anos que passaram, que eu tinha sido professor da sua filha. Soube-o hoje à tarde, no funeral do pai.

Logo após descida do defunto no túmulo, aproximei-me para me despedir de ambas, mãe e filha. A Sofia estava agora rodeada de três amigas: A Raquel, A Diana e a Rita, que pertenceram à mesma turma. A Sofia sorriu docemente, e teve energia para comentar a história da cera e dos pregos, de que as amigas se lembravam.

Deixei a todas o meu desejo de que o futuro lhes sorria, fiz uma carícia na barriga saliente da Sofia, referi com ternura a esperança que nunca morre e o futuro que é sempre amanhã, para os que vivem e para os que vão nascer. E despedi-me carinhosamente com o prémio de múltiplos sorrisos, à beira de uma sepultura.

José Batista d’Ascenção

domingo, 26 de maio de 2024

Banco alimentar contra a fome, que não devia ser preciso, mas é

Entre as oito e as dez, calhou-me estar num hipermercado com a Letícia e a Olívia, meninas que estão a terminar o nono ano de escolaridade, e o Francisco, que conclui o décimo primeiro, a recolher bens alimentares para distribuir por quem nem para se alimentar tem recursos.

Como sinto algum desconforto por fazer pouco pelos outros (a minha profissão devia ser isso, mas está longe do que devia…), aproveitei a oportunidade para dar algum alívio à consciência.

E que bem acompanhado estive: a bondade, a disponibilidade (os meus colaboradores chegaram bastante antes da hora…), a generosidade e o sorriso doce e simples foram (para mim) prémios acrescidos na manhã deste dia.

Há muita gente generosa, como há os mais taciturnos, porventura desencantados e duvidosos, que seguem na sua indiferença aparente.

Amigos meus criticam, em forma de alerta, para possíveis desvios. Porém, tomara eu não me desviar daquele princípio que tanto ouvi a meus pais e avós: fazer o bem sem olhar a quem.

E sobretudo aos que precisam, suponho eu, na minha infinita impotência.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Livros belos que fazem doer

Depois de ter visto referências elogiosas da minha amiga e colega aposentada, Maria de Fátima Ferraz, fiquei com a pulga no ouvido para ler o (pequenino) livro «Longe do Mar», de Paulo Moura (edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com um preço de cerca de 3,00 €, «online»).

Não é tempo perdido. O autor decidiu viajar ao longo da estrada nacional nº2, que corta o rectângulo continental a meio, na direcção Norte-Sul, e relatar as histórias autênticas que lhe parecessem dignas disso. E que bem o fez.

Quem quiser conhecer alguns aspectos reais do interior do país, as condições em que os pobres, que eram quase todos, viviam e sofriam, ainda há poucas décadas, e o modo como resistiam na dura luta contra as dificuldades da vida, por oposição à de alguns ricos, que se davam ao luxo de ir de avioneta da Cova da Beira à Figueira da Foz comprar sardinhas frescas, tem neste livro um auxiliar muito franco e comovente.

Há partes que fazem doer, tal a força com que se impõem e o choque que em nós causam.

Mas porque havia eu de dizer mais? É fácil e barato sabê-lo cada um.

E eu até empresto o livro a quem quiser. 

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Leituras

Há cerca de nove anos, em trinta e um de Maio de dois mil e quinze, deu-me para começar a tomar registo de cada livro que lia, pela sequência temporal.

Decorrido este tempo, li ou reli trezentos livros, dos mais diversos em conteúdo e tamanho, sem ordem pré-estabelecida.

A um escritor sénior da nossa praça ouvi um dia que teria lido milhares de livros na sua juventude. Se a memória não me falha, num texto de J. Pacheco Pereira, consta que uma pessoa pode, durante uma vida (longa), ler não mais que cinco ou seis mil livros.

Contas simples remetem-me para a condição de humilde leitor: objectivamente, em nove anos, li em média um livro por cada onze dias. Extrapolando para um período de sessenta anos eu poderia atingir a modesta soma de dois mil livros, aproximadamente. Longe, portanto, dos números referidos acima por gente do ofício.

Da minha experiência de vida, os factores de aprendizagem mais marcantes parece-me terem sido a educação familiar, o convívio social, os (bons) professores, os livros e as viagens. Há também a «internet», mas a rede global é tanto uma fonte possível de boa formação como um conjunto de incentivos a aprendizagens erradas ou mesmo à desaprendizagem, não obstante ser impossível e de todo indesejável voltar aos tempos anteriores à comunicação digital.

Com tantos bons livros para ler (e falta de tempo de vida para ler todos os que valem a pena), optei, desde cedo, por deixar de lado as obras de escritores desconhecidos ou quase… Sei que é injusto e me traz prejuízo, mas não sinto qualquer vontade de alterar o procedimento.

Porfio, portanto, na minha lenta e curta viagem através de livros que suponho que são garantidamente (?) bons.

E confirmo que, vários deles, o são tanto que algo melhora(ra)m em mim.

José Batista d’Ascenção