quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Como os banqueiros fizeram desaparecer o dinheiro dos portugueses

Imagem obtida aqui

Avesso ao que se refere por “engenharia financeira”, ignorante do jargão em que se expressa e jamais praticante do seu exercício, tem-me cabido, no entanto, a espinhosa tarefa de ser “ministro das finanças” cá da casa, ao longo de décadas.
Nessa função, agarrei-me a um princípio muito simples, que aprendi cedo, qual seja o de não gastar mais do que se tem ou é certo que venha a possuir-se. E sofri a valer quando, há alguns anos, procedendo à moda antiga, exigi amortizar até ao total a dívida que contraira para pagar a casita onde moro, ao contrário da força que fazia uma “gestora de conta” que eu não pedira para ter, e que me convidava a adquirir cartões, “produtos”, joias e outras tralhas que não me interessavam. Fiz valer a minha vontade, não sem algumas hesitações de amigos e familiares que então me olharam como mau investidor. Nunca me arrependi.
Fora do estranho mundo do dinheiro, não deixei de adquirir o livro “A vida e a morte dos nossos bancos”, de Helena Garrido, editado pela “Contraponto”, e de o ler de uma vez. É um espanto. E uma revolta. Afinal, o que o livro nos diz não podia deixar de ser o que é, mas é inusitadamente brutal a descrição das voltas que os nossos “banqueiros” têm dado nas últimas duas décadas. Eis algumas citações:

“A CGD, o BCP e o BES são exemplos do que se fez (e não se fez) na banca portuguesa. O BPP e o BPN podem ser basicamente considerados casos de polícia. O Banif, uma história que se aproxima do BES”… (pág. 26);
[Em 1999], “pela primeira vez, os créditos concedidos pelos bancos ultrapassam os depósitos. A economia entretanto começou a crescer menos” (pág. 36) (…) “Usa-se o financiamento dos bancos para mobilar a casa, comprar carro, ir de férias e entrar na Bolsa.” (páginas 37 e 60); (…) “A Grande Farra segue em crescendo (…) é o tempo em que se defende o endividamento como virtuoso” (pág. 37);
Foram “publicadas notícias sobre financiamentos [do BCP] ao filho de Jardim Gonçalves, o perdão de 28,5 milhões de euros de dívidas a offshores [sociedades com sedes em paraísos fiscais] de um seu antigo aliado e (…) o caso das 17 offshores com acções do BCP e financiamentos da ordem dos 589 milhões de euros” (pág. 53);
“Nascer, crescer e fazer-se milionário quase sem capital, com apoio financeiro e através do mercado de capitais, foi uma receita de sucesso“… (pág. 56);
“… alguns caíram na tentação de usar financiamento para aplicar em acções.” (pág. 60);
…”assistimos (…) ao envolvimento do cidadão comum, desafiado e muitas vezes convencido pelos bancos a endividar-se para comprar acções das empresas que estavam a ser vendidas pelo Estado.” (pág. 60);
“A incapacidade de as famílias norte-americanas pagarem os empréstimos das suas casas teve o poder imprevisível de fazer cair um país como a Islândia.” (pág. 63);
“Quando a realidade se começa a impor, cria-se a ilusão de que Portugal conseguirá controlar a onda financeira da crise com um reforço do investimento público. Em finais de 2008, estavam planeadas auto-estradas, comboios de alta velocidade, um novo aeroporto para Lisboa e a terceira travessia do Tejo.” (pág. 64);
“Em Dezembro de 2008, o Governo liderado por José Sócrates anuncia que vai lançar concursos para a construção de mais oito auto-estradas.” (pág. 66);
“Os bancos estavam muito dependentes de empréstimos externos. O crédito que tinham concedido representava, em 2010, cerca de 160% dos depósitos.” (pág. 67);
“Entre finais de 2009 e 2010, a expansão do crédito é movida pelo Estado. É desta altura que datam as novas auto-estradas, em parcerias-público-privadas que são mais dívida do que parcerias.” (pág. 70);
…”de repente, os supervisores descobrem que há bancos que foram geridos por malfeitores…  (…) com a nacionalização do BPN, (…) a administração do Banco de Portugal percebe – ou deixa de fingir que não percebe – que, na sua estratégia (…), tinha pactuado com fraudes.” (pág. 77);
“No seu conjunto, a banca já registou (…) imparidades [perdas potenciais] no montante de 44 mil milhões de euros desde o início da crise, em 2007.” (pág. 97);
“O BES colapsa dois meses após a saída da troika. Um ano e meio depois, acaba o Banif. Dois anos passados, o novo governo de António Costa identifica necessidades de capitalização da CGD da ordem dos 5 mil milhões de euros. O segundo maior banco do sistema, o BCP, é alvo de sucessivos rumores… O Montepio Geral é mais um problema por resolver” (pág. 98);
“No cemitério de bancos, o que encontramos é uma mistura de gestão incompetente com cumplicidades entre alguns banqueiros, alguns empresários e alguns governos, numa lógica de poder e ganância e não de negócio e protecção do dinheiro dos depositantes.” (pág. 102);
“Nunca passou pela cabeça de ninguém que um governo tivesse coragem de deixar cair o grupo do Dono Disto Tudo. (…) Se as leis eram feitas no BES, como é que se podia esperar que ninguém apoiaria Ricardo Salgado?” (pág. 116);
“O Estado gasta 2,4 mil milhões de euros para vender o banco por 150 milhões pelo Banif.” (pág. 125);
“Gestores incompetentes, fracos ou corruptos trabalham para accionistas que usam os depósitos para financiarem os seus negócios ou os dos seus amigos em bancos onde os auditores são cegos e os supervisores inactivos ou incapazes.” (pág. 127);
“Continuam em análise os fundamentos jurídicos para perda do estatuto de idoneidade por causa da (…) comissão de 14 milhões de euros que Ricardo Salgado recebeu do construtor da Amadora José Guilherme”… (págs. 132-133);
“José Oliveira e Costa (…) é, até agora, o único banqueiro que esteve numa cela.” (pág. 148);
“O banco [BPN] é vendido e, para receber 40 milhões, «pagam-se» 600. A história repete-se em 2015,… [com a venda do] banco Efisa […]. Mais tarde veremos a mesma história no Banif”… (pág. 154);
“A presença da Caixa nos mais variados negócios é o espelho das escolhas de sucessivos governos. «O governo mandava e a Caixa fazia, não tinha outro remédio», (…). Os negócios mais ruinosos aconteceram no consulado de José Sócrates,” (…) Os empresários e banqueiros tinham na CGD a ferramenta para serem «donos» de empresa quase sem dinheiro. (pág. 159);
“Durante pelo menos década e meia, a Caixa foi instrumentalizada pelo accionista Estado.” (pág. 166);
BCP: “Um banco que vivia numa lógica redistributiva de tipo subdesenvolvida: bons salários, bons dividendos e elevado estatuto para colaboradores e accionistas convidavam a cumplicidades implícitas, (…) (pág. 168). A ambição e a ganância, marcas de guerra no BCP, transformaram-se em prejuízos para o banco (pág. 169);
“A ausência de responsabilização é (…) o que causa maior revolta. Até agora, e em sete anos, desapareceu 20% do sistema bancário. Apenas um gestor esteve, até agora, preso. Como é possível que ninguém seja responsabilizado? (pág. 181);
“A conta da incompetência, ganância ou fraude (…) está a ser paga. Pelos accionistas, por aqueles que têm poupanças aplicadas em acções dos bancos que sobreviveram, mas especialmente pelos contribuintes. E os problemas que existem e que estão por resolver antecipam mais contas por pagar.” (páginas 181-182);
“Os projectos em zonas protegidas, de reserva agrícola ou ecológica para os quais se abriram excepções, ou simplesmente os empreendimentos comerciais ou habitacionais em locais onde é difícil encontrar uma racionalidade económica, justificam (…) a hipótese de alguns bancos terem estado envolvidos em processos de corrupção.” (pág. 187);
“Com as novas regras da União Bancária, cada um [cada cidadão] tem de ser capaz de perceber se o seu banco está a ser bem gerido.” (pág. 192).

Chega como amostra de um cortejo de horrores. A conta, essa ainda não acabou de ser paga, vai crescer e… nós a pagaremos.
Mas estamos avisados.

Um grande «Obrigado» a Helena Garrido. 

José Batista d’Ascenção

domingo, 20 de novembro de 2016

“Civismo” à portuguesa (baixa)


Com o avançar da idade, por razões preventivas, e mais tarde devido a recomendação médica, comecei, como tantas pessoas, a fazer algum exercício físico, especialmente ao fim de semana: uma corrida em ritmo (muito) lento, umas flexões mal feitas e pouco mais. Com um amigo, primeiro, e com familiar, mais tarde, procurei sítios agradáveis, onde a actividade fosse (mais) convidativa.
Actualmente, e desde há algum tempo (dois anos, talvez…), vou acompanhado de familiar até um local magnífico na margem do rio Cávado, onde uma junta de freguesia terá gasto uns trocos para compor uma pista de terra batida, à beira-rio, num percurso de cerca de um quilómetro. O rio largo e cheio naquele local, as árvores sobre o trilho de corrida, muitas aves: melros, gaios, corvos, patos selvagens e uma ou outra garça dão um toque de natureza autêntica nas imediações da cidade [ontem e há oito dias pude apreciar umas quantas dezenas de patos formados em V e não pude deixar de pensar sobre durante quantos anos mais será (ainda) possível observar este fenómeno naquele sítio].
Ali andam muitas pessoas, umas caminhando apenas, cá e lá, lá e cá e outras, como eu, a fazer que correm. Há quem aproveite para passear os cães: uns com apenas um exemplar, outros com dois ou com três. Quase todos os levam soltos, excepção aos passeantes mais jovens que preferem segurá-los pela trela, cumprindo as recomendações afixadas num e no outro extremo do circuito (ver imagem acima). A maioria dos animais é perfeitamente pacífica, o que dá certo sossego aos que apenas ali vão praticar exercício, mas não é assim em todos os casos, infelizmente, para mim.
Há um senhor que gosta de passear com o seu cão, sendo que o cão não gosta de mim. Particularmente quando visto fato de treino, cujo tecido sintético faz um ruído característico sempre que corro, o animal investe comigo de forma ameaçadora. Paro, até o senhor acorrer e acalmar o bicho e só depois prossigo. Incomodado por ver que me incomoda, o homem faz questão de jurar que o animal não me morderia, que só reage por brincadeira, mesmo quando tem o pelo eriçado e as dentuças arreganhadas. E, por mais que uma vez, recomendou-me enfaticamente: «bòte-l’a mão! bòte-l’a mão!, supondo eu que isso significaria afagar fisicamente o cão, sem compreender como me seria possível fazê-lo. Limitando-me a ficar quieto e calado, mas sempre de frente para a “fera”, devo ter decepcionado repetidamente dono tão extremoso. Outro é o caso de uma senhora que costuma passear com dois cães: o maior deles ladra furiosamente em direcção a mim, a senhora desata aos gritos (com o cão), aproxima-se, agarra-o e coloca-lhe a trela. A cena acaba aqui. Até à próxima vez. Um destes dias encarei-a nos olhos e saiu-me de forma seca: «minha senhora, um dia destes zango-me e então não sei quem de nós vai ficar pior». Ficou encabulada. Mas sem emenda.
Estas pessoas que procedem assim passam da meia-idade e aparentemente não aprendem. Penso no assunto e interrogo-me sobre se alguns animais não reagem como reagem devido aos donos que têm, talvez por algum curioso modo de influência… não sei. Nas vezes em que isto me deixa mais aborrecido chego a desejar que houvesse algum organismo que verificasse e impedisse certas pessoas de terem animais.
Outro aspecto desagradável é quando durante ou após o “treino” me apercebo da porcaria e do fedor na sola das sapatilhas, de que custosamente procuro libertar-me. Tudo porque há gente pior que os animais. Ressalvo, no entanto, que os jovens têm uma atitude bem diferente, e ainda bem.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Resultado(s) das eleições presidenciais nos EUA – e agora?

Depois de uma campanha presidencial americana em muitos aspectos repugnante, eis o péssimo resultado que tantos temiam. É claro que Clinton não entusiasmava, talvez porque é ou parece manhosa, pouco autêntica, fria e interesseira. Estas são características que muitos apreciam ou julgam necessárias nos líderes políticos. Não é líquido que tenha que ser assim: provam-no tantas pessoas autenticamente generosas dedicadas à causa pública, sem ser preciso invocar exemplos excepcionais como os de Nelson Mandela ou do Papa Francisco. Mas os seres humanos, individualmente considerados ou como elementos de pertença a quaisquer grupos ou massas de votantes, reúnem o belo e o horrível, a nobreza e a indignidade, o bom e o mau. Daí que a resultante dos factores que determinam o “movimento” das sociedades não seja previsível, exigindo, para se progredir em sentido minimamente (e alargadamente) benigno, trabalho árduo, atento, dedicado, persistente e permanente. A escola (para todos) devia ser uma variável importante da equação, mas basta ver o estado a que chegou nos países ditos desenvolvidos (sendo que em muitos dos outros nem sequer existe…), para percebermos quão grande é a sua ineficácia. E, não raro, em níveis mais elevados de escolaridade não são menores os motivos de choque e decepção: veja-se a boçalidade do que se passa (incontrolavelmente?) com as praxes (ditas académicas!) nas universidades portuguesas.
Saiu-nos Trump. E agora? Para onde caminhamos? O mundo parece cada vez mais louco e perigoso. Para compensar, fico-me na esperança de que, em próximas eleições presidenciais americanas, surja novamente, pelo menos, uma mulher candidata, mas negra, como Michelle LaVaughn Robinson Obama. Até lá, que não sejam apenas o horror e as dores da humanidade a alimentar a esperança.
Donde, pesa em nós a obrigação permanente de pensarmos no que podemos ou devemos fazer, no imediato e a prazo, para que os seres humanos se tornem cada vez mais cidadãos esclarecidos, responsáveis, exigentes, conscienciosos e participativos. Assim também no exercício do voto.  

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Medidas na Grécia Antiga

Ainda como resultado da leitura do tratado “Teofrasto, História das Plantas” (tradução de Fátima Silva e Jorge Paiva), registam-se algumas medidas usadas na Grécia Antiga, antes do nascimento de Cristo, convertidas para unidades actuais. Nas notas explicativas dos tradutores da obra, ao fundo de cada página, são indicados os valores aproximados do total das unidades referidas em cada caso, por exemplo: «uma terça parte de uma mina» (página 325) equivalia a «cerca de 200 gramas», segundo a anotação 1860, em rodapé, nessa página; e «uns vinte pletros» (página 327), correspondiam a «cerca de 1, 75 hectares», como consta na nota 1865, dessa página. A redução dos valores para a unidade respectiva e a sua comparação com as unidades de medidas actuais apresenta-se a seguir. 

Medidas de comprimento
«meio-pé» - cerca de 15 centímetros.
«palmo» - 
«pé» - cerca de 30 centímetros.
«côvado» - cerca de 44 centímetros.
«passo» - medida que estaria compreendida entre os 65 e os 90 centímetros.
«orgia» - [«Treze orgias corresponde, segundo uns, a cerca de 23 metros, segundo outros a 38», lê-se na nota 1261 da página 231] pelo que, convertendo em unidades, teríamos, segundo uns, cerca de 1,77 metros e segundo outros cerca de 2,92 metros.
«braça ou braçada» - cerca de 1,80 metros.
«estádio» - cerca de 180 metros.

Medidas de capacidade
«sesteiro» - [«cerca de meio sesteiro» (página 112) correspondia a «cerca de quatro litros e meio» (nota 507)], pelo que um sesteiro seriam aproximadamente 9 litros.

Medidas de peso
«dracma» - «Antes de ser uma moeda, a dracma era uma medida de peso equivalente a 3, 40 gramas.», (nota 1967, da página 337).
«mina» - cerca de 600 gramas

Medidas de área
«pletro» - cerca de 0,0875 hectares

José Batista d’Ascenção

domingo, 30 de outubro de 2016

Livros que (nos) enriquecem

“Teofrasto, História das Plantas”, tradução portuguesa, de Maria de Fátima Sousa Silva e Jorge Paiva, publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra 

Teofrasto, (c. 371-286 a.C.), filósofo da Grécia Antiga, discípulo de Aristóteles, ensaiou uma primeira classificação das plantas em quatro grandes grupos: árvores, arbustos, subarbustos e ervas, em que “o grau de sistematização conseguido é modesto” (pág. 22), mas o interesse é grande, seja pela visão dos assuntos e pela sua análise (1), seja por aquilo em que o pensamento ou ação de Teofrasto se tornaram precursores (2), seja ainda pelas curiosidades (3), que são imensas. Para quem é professor de ciências do ensino não superior, o rigor da escrita de Fátima Silva, numa tradução espelhada, nada nebulosa, aliado à vastidão, incisão e precisão do conhecimento botânico de Jorge Paiva tornam fluida, agradável e proveitosa a leitura, a que acrescem as 2125 anotações em que são apresentados os nomes científicos dos seres vivos referidos (e não só das plantas), usando criteriosamente o seu nome científico, segundo as regras de nomenclatura, em latim, e em que nos são dadas especificações de cultura e de pensamento (4), assim como se indicam e esclarecem as localizações geográficas e se fornecem explicações ou enquadramentos dos mais diversos conceitos ou assuntos referidos no texto. Dito de outra forma: o tratado (composto pelos livros de I a IX) é bom para qualquer pessoa.
Aos tradutores: parabéns e obrigado.

1) Exemplos da capacidade de observação e análise de Teofrasto:

- “chamar raiz a tudo o que está debaixo da terra é um erro”, pág. 75; … “é pela função natural e não pela localização que a distinção tem que se fazer”, pág. 76;
- …"as mesmas árvores, se crescerem apertadas, são altas e delgadas, se tiverem mais espaço, são mais grossas e baixas”, págs. 81 (ideia repetida na pág. 168);
- “é nas zonas quentes e situadas a sul que as plantas aromáticas se dão”, pág. 184.

2) Algumas ideias ou acções precursoras de Teofrasto:

- trabalho de caracterização, sistematização e classificação das plantas;
- foi “o verdadeiro criador da Botânica”; 
- deu “um primeiro passo na direcção do conceito de ecossistema” nota 860, pág. 162;
- “sendo ele talvez o promotor de um primeiro jardim botânico”, pág. 29.

3) Exemplos de curiosidades interessantes relatadas por Teofrasto (ver nota no fim do texto):

- a chamedriz “é muito eficaz para proteger a roupa contra a traça, pág. 39; “o pólio [Teucrium polium L.] é muito eficaz para proteger a roupa da traça”, pág. 87; 
- “é com o sumagre que os curtidores tingem os couros claros”, pág. 161; 
- “o limão chamado «maçã» da Média ou da Pérsia [Citrus medica L.], a que chamamos «cidreira» e ao fruto «cidra», é útil quando se ingere um veneno letal e produz também um bom hálito, porque produz um aroma agradável”, págs. 177-178; 
- “há uma vegetação abundante e bonita que cresce junto ao litoral, sobre as pedras [é o líquene Lecanora tinctoria, (DC). Czerwiak, nota 1068] com que os Cretenses tingem não só os cintos, como também as lãs e as roupas, pág. 187; 
- “…efeito da couve sobre o vinho, para anular os efeitos da embriaguez”, pág. 214;
- Asplenium trichomanes L. e Asplenium adiantum-nigrum L., são referidas por Teofrasto como duas espécies de adianto, “ambas úteis contra a queda do cabelo, se moídas em azeite … há quem pense que a primeira é boa no tratamento da retenção de urinas», pág. 286;
- “dizem que o trigo e a cevada se transformam em joio, sobretudo o trigo … e ainda o linho, que também, ao que dizem, se transforma em joio”, pág. 304;
- …”no caso da peónia … se se for visto a cortar a raiz fica-se com as nádegas descaídas”, pág. 331 )

4) Exemplos de algumas especificações dos tradutores:

- “a videira, que o cultivo reduziu à dimensão de um arbusto tinha no seu estado selvagem, o porte de uma liana, até 35 metros, nota 48, pág. 65; 
- “o termo ricinus aplicado à planta resulta do facto de a semente ter a forma de uma «carraça», designada por ricinus em latim, nota 267, pág. 85;
- “os antigos serviam-se do rizoma de Narcissus tazetta L. para aromatizar o vinho ou o azeite, este último era usado na higiene pessoal”, nota 404, pág. 95;
- “os vinhos podiam ser aromatizados com pétalas de rosa, mirto, anis, timo e mel”, nota 951, pág. 175; 
- “há mais de 2000 anos, as favas deviam ser ainda de pequeno tamanho, […] pois a faveira ainda não estava tão selecionada como actualmente, de modo a produzir apenas favas de grandes dimensões”, nota 774, pág. 151;

Nota adicional: O livro IX, páginas 317 e seguintes, inclui referências a plantas com capacidades afrodosíacas ou com influência na reprodução. Não se deu nenhum exemplo para não retirar a curiosidade aos interessados e para não estender demasiado este texto.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Gestão das florestas, o que já “ontem” era tarde (com nota de revisão)

De acordo com notícias difundidas esta manhã, o conselho de ministros reunirá hoje na Lousã para tomar decisões relacionadas com a gestão da floresta. Segundo o que é noticiado, e que inclui declarações de Capoulas Santos, Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, passados dois anos (2017 e 2018), sem que se conheçam os responsáveis pela gestão de quaisquer terrenos agrícolas ou florestais, o Estado tomará a seu cargo essa gestão.
Tudo bem. O único receio é que o próprio Estado seja tão mau cuidador quanto os proprietários. E os maus exemplos, relativamente a áreas de mata que são suas e da sua responsabilidade, são conhecidos.
Mas era preciso não esquecer o assunto. Pelo menos isso. Vamos ficar atentos. 

José Batista d’Ascenção

Nota: Esta notícia, que tinha ouvido assim mesmo, na rádio "antena 1", veio a ter desenvolvimentos que revela(ra)m a complexidade do que se tem em vista em múltiplas vertentes, sendo que não se pretende que o Estado venha, ele mesmo, a ser um gestor de floresta. Mantenho, no entanto, o sentido do que escrevi.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Bom-senso e razoabilidade

É muito comum, a (des)propósito das mais variadas situações ou matérias, ver referida a conveniência de se ter (ou de se ter tido) bom-senso. Porém, o (nebuloso) conceito de bom-senso tem pelo menos dois problemas associados:
- ninguém sabe concretamente em que consiste;
- e (praticamente) todos pensam que têm muito, especialmente aqueles a quem mais falta, por razões compreensíveis…
Falta bom-senso a um povo que elege repetidamente políticos medíocres ou corruptos? Ou que ano após anos vê gastarem-se avultados recursos no combate a incêndios florestais em vez de exigir que se invista na sua prevenção? Ou na produção tanta e tal de normativos legais (propositadamente?) mal escritos, confusos e contraditórios, que nem os magistrados os conseguem deslindar e cumprir coerentemente, quanto mais os leigos?
Um professor (do ensino secundário) daqueles que sempre teve gosto em ensinar e que optou por se aposentar quando começou a sentir que o “sistema” não estava interessado nos seus serviços, fazendo habitualmente parte do secretariado de exames, dizia com graça que a norma que os regula, e que é tão extensa, e tão ridiculamente pormenorizada, só pode ter sido feita por pessoas que, enquanto estudantes, devem ter sido horríveis batoteiros - tal a minúcia com que o documento procura prevenir as mais imaginosas infracções susceptíveis de serem cometidas pelos alunos que se apresentam aos exames…
Grande parte dos regulamentos de muitas instituições, em particular das escolas, pecam por defeitos parecidos.
Em tais casos, estamos em presença de bom-senso ou da falta dele?
Não seria mais adequado fazer maior apelo à razoabilidade, conferindo a cada cidadão a autonomia e a liberdade de agir conforme a razão e segundo padrões eticamente aceitáveis, acrescidas da responsabilidade de justificar racionalmente os actos que pratica ou que de si dependam, em vez de o tornar um autómato cumpridor de regras, que falhará com mais probabilidade, desde logo porque age não pela sua cabeça mas por emaranhados de normas que atestam, no fundo, a sua irresponsabilidade?
Sem dispensar e preparação e o cuidado que em tudo são convenientes, a vida seria mais simples e mais compensadora e dificilmente se obteriam piores resultados.

José Batista d’Ascenção