terça-feira, 25 de abril de 2023

25 de Abril de 1974, o dia da liberdade

Trabalhos de alunos da Escola Francisco Sanches - Braga

Ao fim de quase meio século de ditadura, que se instalou facilmente na sequência da desorganização e penúria de dúzia e meia de anos da «república», que substituíra a «monarquia» em 1910, a imensa maioria dos portugueses dos meios urbanos rejubilaram. O «salvador» Oliveira Salazar, que governou com mão de ferro, não se compadecia com a miséria dos pobres e prezava a ignorância dos simples, que preferia analfabetos ou, quando muito, que soubessem apenas ler, escrever e contar: que vivessem da agricultura de subsistência, não soubessem de leis nem de direitos e nunca contestassem a autoridade (“se soubesses o que custa mandar, querias obedecer toda a vida” era dito seu afixado em paredes de escolas e liceus de antigamente). As mulheres eram “propriedade” dos maridos (não podiam ir ao estrangeiro sem a sua autorização) e não havia assistência médica nem segurança social para os portugueses do mundo rural, que eram a maior parte, e até foi preciso ser portador de licença para poder ter um isqueiro. Não havia direito de manifestação nem de discordância política, que a polícia do regime – a PIDE – vigiava continuamente, perseguindo, encarcerando, torturando e deportando por delito de opinião.

Para fugir à mais vil miséria, os portugueses emigravam para países como a França (Paris chegou a ser a “segunda cidade portuguesa”…); outros haviam saído para as colónias africanas, principalmente Angola e Moçambique. Manter as “províncias ultramarinas” (só Angola era maior do que o continente português catorze vezes e Moçambique nove) exigia a mobilização de todos os jovens mancebos para a guerra colonial, iludindo ou tentando iludir, estupidamente, os colonos idos da metrópole de que era possível aguentar a situação militar indefinidamente. Na Guiné-Bissau a guerra de guerrilha nunca foi controlada, desde o seu início, em 1963-65, e frequentemente chegavam à metrópole os caixões com os (supostos) cadáveres dos que caíam em combate. Os retornados do pós-25 de Abril muito viriam a sofrer em consequência da cegueira do regime deposto, que culminou na avalanche trágica do regresso, e que os erros do processo agravaram.

A queda do regime ocorreu à segunda tentativa (a primeira, infrutífera, ocorreu em 16 de Março de 1974, no quartel das Caldas da Rainha), quando os militares de patente intermédia levaram a efeito uma revolta vitoriosa pouco depois, no dia 25 de Abril.

Pela acção dos «Capitães de Abril», em que se destacou admiravelmente Salgueiro Maia, os sonhos libertaram-se numa torrente de alegria e de esperança. Uma festa de liberdade, em que os canos das espingardas dos militares se encheram de cravos vermelhos.

Desde então não conseguimos concretizar os sonhos, mas continua na nossa mão trabalhar para o conseguir. O 25 de Abril franqueou as portas para a liberdade, a justiça e a democracia. Exijamos de cada um de nós e dos nossos concidadãos a assunção desse dever e dessa responsabilidade.

Viva o 25 de Abril.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 18 de abril de 2023

«Os Anos», de Annie Ernaux

Não sei se é boa literatura, mas é um livro extraordinário de análise psicológica, sociológica e política. De uma autenticidade que só a lucidez e a honestidade tornam possível. O que somos e o que (não) fazemos. O egoísmo e a força das crenças. As ilusões consumistas. A fragilidade dos ignorantes (que todos somos) e dos sábios. A passagem do tempo e a trituração indiferente de cada um. O progresso que não torna as pessoas mais felizes. O registo permanente (desmesurado, excessivo e irrelevante) de tudo nos «gadgets», próprios e alheios, que cada indivíduo atulha para si e prodigaliza a potentíssimas bases de dados. A tecnologia que não espera por ninguém. O tédio e o desinteresse. A indiferença do mundo face à irrelevância do indivíduo. A solidão irresolúvel. O fim e o inevitável esquecimento - a morte inexorável que, em poucas gerações, tudo apaga(rá) da memória vívida dos que nos sucedem .

Concluo eu: só há verdadeira grandeza de alma na bondade das acções e nos corações que estimam sem cobrar, sendo que esta riqueza preciosa não é objectivo maior da autoformação humana.

José Batista d’Ascenção


sábado, 15 de abril de 2023

Lisboa de passagem, um dia destes

Luminosa. Linda. Larga. E limpa, nesta zona.

O lince ali, o olhar felino numa expressão doce, de frente para o líquido azul. Arte maior em tamanho multi L, executada com lixo.

O autor é Bordalo II, um grafiteiro e artista plástico nascido em Lisboa em 1987.

Muito bonita, a capital do país. Assim fosse fácil para os portugueses viverem nela. Esses (nós) estão (estamos) lixados. Não sem culpas no cartório, porque somos da mesma massa dos que escolhemos para nos governarem/representarem ou lhes fazerem oposição, uns e outros tão idênticos, como se não houvesse alternativa (que, se calhar, nem há).

Mas nada disto diminui a lindeza de Lisboa.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 14 de março de 2023

Eça de Queirós, por Jorge Luís Borges - um génio pela pena de outro génio

[…] «Famoso na sua pequena e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época.

Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre. Em 1869 acompanhou o seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egipto para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações lêem e relêem. Três anos depois ingressou na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnasso e, nos seus muito diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary […]

Cada oração que Eça de Queirós publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica. Uma das personagens é um demónio; a outra, a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.

No final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Óscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente.»

In: Jorge Luís Borges, Biblioteca Pessoal. Quetzal Editores. Lisboa, PORTUGAL, 2022. 23-24 p.

Nota 1: Digitado de novo, o texto foi reescrito segundo a ortografia pré-acordo ortográfico de 1990.

Nota 2: Jorge Luís Borges, um gigante da literatura mundial de todos os tempos, nasceu em Buenos Aires, em Agosto de1899 e morreu em Genebra, em Junho de 1986.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 9 de março de 2023

O brilhantismo do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa

Acabei de ver e ouvir a entrevista do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas Manuel Carvalho e António José Teixeira, na RTP1. Impressionante. Os jornalistas até podiam não ter feito qualquer pergunta, que Marcelo Rebelo de Sousa exporia o que tinha a expor sobre cada uma delas com uma preparação política e de princípios irrepreensível, servido por uma clareza e poder de incisão exemplares. Excelente sobre todos os temas. E terminou pronunciando-se sobre os abusos sexuais por padres da igreja de uma forma extraordinariamente feliz.

Sou dos que sentem algum cansaço com os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa sobre tudo a todo o tempo, mas hoje, agora, sinto um grande orgulho em ter votado nele.

Muitos parabéns.

E obrigado.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Que fins serve o desporto nos nossos dias?

Imagem colhida na Wikipédia

Em abstracto, que importância tem um humano fazer um salto em altura de 2.44 ou de 2,45m?, percorrer 100 m em 10 s ou conseguir fazê-lo em 09,58 s? Há macacos ou gazelas que poderiam saltar bastante mais, de forma natural e com muito mais elegância. E um galgo ou um felino de médio porte facilmente alcançariam velocidades superiores, com menos cansaço. Há ainda desportos que integram várias modalidades, consoante o interesse, a criatividade e o poder de quem os propõe, organiza e publicita. Matéria que me interessa é verificar que os grandes atletas/desportistas de diversas áreas, somam mazelas que lhes limitam grandemente a saúde, passada a época áurea, e abreviam a esperança de vida.

O atrevimento destes pensamentos valer-me-ia seguramente a classificação de ingénuo ou de esquisito pelos menos pacientes, se acaso lessem este escrito. Obviamente, há o egoísmo natural de querer ser melhor do que os outros, seja no que for, associado às grandes maquias que os beneficiados da sorte e do acaso conseguem obter, normalmente com dedicação e esforço. O que é inteiramente legítimo.

Mas não há aqui alguma falha na educação que tivemos e que damos às crianças?

Porque não há-de competir cada um essencialmente consigo próprio, para fazer o seu melhor em cada momento? Evidentemente que o que os outros conseguem, nas tarefas que eu desempenho, serve de contraponto à qualidade das minhas performances e ajuda-me a definir aquelas a que posso dedicar-me ou em que posso melhorar. Assim mesmo, mais cooperação e menos competição, parece-me, haviam de trazer mais compensação emocional e riqueza, até material.

Ou será que o ser humano não pode viver sem competição, sem alguma violência ou mesmo ódio, ainda que disfarçado? Seria (mais) perigoso? Responda quem souber.

O que vejo em relação a muitos desportos, nos praticantes, nos dirigentes, nos treinadores, nos negociantes, nos comentaristas e no público (agora enriquecido pelo envolvimento, igualmente fanático, de muitas mulheres) é, a meus olhos, a cultura do ódio. Ganância pura. Irracionalidade estreme. Ou antes a libertação de emoções? Com que custos?

E nas escolas, entre os alunos, vejo cada vez mais crianças e jovens com peso excessivo e destreza física (algo) limitada aos polegares (que usam com proficiência nos telemóveis). Faz-me espécie que não seja possível pô-los a dar uso à musculatura. Na realidade, há aulas de «educação física» (assim lhe chamam…) que são dadas em sessões teóricas, dentro de salas de aulas comuns, por não haver espaço disponível no recreio ou nos ginásios/pavilhões. Eu olho e fico com pena de que não haja uma disciplina com o nome de “exercício físico”, “ginástica” ou “desporto”. Sem esperança. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Fuga à realidade

Hoje interessava-me ver a abertura dos jornais televisivos das 20.00 horas por causa da manifestação de professores, em Lisboa. Vi e senti tristeza. De seguida vieram as tragédias da Turquia e da Síria, e foi uma dor. Juntando à criminosa guerra da Ucrânia, apercebi-me de que não aguentava.

Carreguei no botão e “viajei” para o canal 2. “Aterrei” na música de Joana Gama e foi um bálsamo. Uns minutos de bem-estar. Uma sensação de esperança.

Um obrigado singelo, à qualidade e à beleza da arte de Joana Gama.

José Batista d’Ascenção