Nem sempre sabemos a sorte que temos. Por vezes, podemos ter essa noção passados muitos anos sem antes repararmos nas evidências. Sendo que a sorte que temos é, em grande parte, aquela que sabemos construir ou, mais simplesmente, a que podemos aproveitar nas oportunidades em que se nos oferece.
Eu e a minha mulher somos profundamente diferentes. Tão diferentes que temi, um dia, como é que íamos construir um percurso juntos. Medo maior só o tive quando me anunciou a gravidez do filho mais velho: era um contentamento interior cheio de gratificante expectativa e de susto, que traduzia para mim próprio na interrogação que, então, registei assim: “que raio de pai vou eu saber ser”? Felizmente, nascido o rapaz, as sensações de medo pela minha subida condição volatizaram-se face às novas e compensadoras preocupações e funções que passei a ter.
Porém, neste momento, quero confessar algo sobre a minha mulher. Olhando e vendo a (ir)realidade por perspectivas diferentes ou opostas às minhas, levou-me a descobrir o significado desta frase, que ouvi a alguém: “um casamento deve ser uma consagração de contrários”. Desse modo, à monotonia e pobreza dos sentimentos e pensamentos redundantes ou submissos, a vida trouxe-me a riqueza do diverso e a beleza e a grandeza e a conveniência do complementar.
A minha mulher é ela, antes de ser a minha mulher. Sendo ela, na condição de minha mulher, esteve sempre no seu “posto”, o que me fez admirá-la cada vez mais, por ambas as razões.
Professora como eu, avessa ao grito e à imposição radical, impressionou-me sempre como é que alunos terríveis, de 13-14 anos, acabavam mansamente no ponto a que os sabia levar. E esses, não raro, entregavam-lhe no final do ano lectivo, às vezes muito discretamente, presentes simples que ela conserva ciosamente, não como troféus, mas como testemunhos de afecto.
Em casa e consigo mesma, a quaisquer objectos de luxo, que não tem nem usaria, prefere definitivamente gestos ou actos de carinho e amizade e oferendas simbólicas. Não é materialista nem exibicionista. Bastam-lhe afectos, a prática da amizade e o amor dos próximos.
Por sorte, ainda tenho mãe. Sinto pânico ao imaginá-la depositada num lar como os que conheço (pelo que, a leitura do livro «Misericórdia» de Lídia Jorge, merecedor de um Nobel, não me trouxe surpresas de conteúdo). Ora, eu desejava aproveitar enquanto posso a companhia da minha mãe. A Lurdes percebeu-o. Vai daí, temos a minha mãe comigo e dela cuidamos, mais a Lurdes do que eu. E fá-lo com a mesma generosidade, calor e afeição que sempre dedicou aos familiares – especialmente aos filhos – e aos outros.
Por tudo, desde há muitos anos, o meu pobre coração é cheio de agradecimento.
Obrigado, querida Lurdes.
José Batista d’Ascenção

Um texto sublime. Fiquei sem palavras. Nem consigo escrever o que estou a pensar - sois uma família humanamente brilhante. Como sou grata por vos ter como amigos.
ResponderEliminarObrigado, querida Júlia. Somos apenas assim, humildemente imperfeitos. O privilégio é nosso. Beijinhos e um grande abraço.
ResponderEliminarCom muita alegria e fé na vida com maiúscula, um grande abraço ao casal e à Mãe...
ResponderEliminarMuito obrigado, a quem fez este comentário. Um grande abraço.
EliminarAdorei ler o teu testemunho e reconheci a Lurdes em cada uma das tuas palavras. Beijinhos para ambos.
ResponderEliminarObrigado. Assim fico mais certo de que não alterei a verdade. Beijinhos nossos, embora não saibamos quem deixou tão simpático comentário.
EliminarMaravilha! 🧡
ResponderEliminarUm abracinho para vocês os dois 🧡🧡
À Lurdes pelo seu aniversário 🥂
E a ti meu querido Zezinho por seres esse LINDO ser humano 😍
Obrigado. Na realidade, a Lurdes não faz anos este mês, mas as felicitações sabem bem todos os dias. Maravilhados, agradecemos. Beijinhos.
EliminarObrigada Zé Batista por este post
ResponderEliminarConheci te a trabalhar, não como professor mas como aluno. Lidei contigo de perto uns poucos anos. Não conheço a Lurdes, mas como te conheci a ti, devem ser uma família especial.
Um abracinho muito carinhoso, Zé e obrigada por este teu comentário.
Eu é que agradeço. Não estou a ver quem é a autora deste comentário, mas isso não diminui o sentimento profundo com que o li. Somos uma família humildemente imperfeita, muito sensível à bondade com que nos tratam. Um grande abraço.
EliminarQue lindo texto . Parabéns José Batista. Beijinhos meus e um abraço do Carlos
ResponderEliminarLuísa p
Obrigado, Luisinha. Beijinhos. Um abraço para todos.
EliminarSem palavras, Zé! Parabéns a ambos pela família maravilhosa que construíram! Enquanto houver seres humanos como vós, podemos acreditar que o Mundo será com certeza melhor! Beijinhos
ResponderEliminarEu é que fico sem palavras, Teresinha. Obrigado. Beijinhos. Um grande abraço para todos os teus.
EliminarConheço bastante bem a Lurdes, por isso o teu lindo texto dedicado à tua querida mulher, não me trouxe nuvidade, apenas confirmou o que de facto conheço da Lurdes. As qualidades são muitas, defeitos não recordo!
ResponderEliminarUm casal que respeito e admiro e que nós (Quim e Júlia) temos o privilégio de sermos amigos.
Beijinhos
Obrigado, querida Júlia. O privilégio é nosso. Beijinhos, de nós ambos, e um abraço para o Quim. Com muito carinho e amizade.
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