Quem, educado a respeitar princípios éticos de humanismo e empatia, presta alguma atenção ao que dizem e fazem muitos políticos nacionais e estrangeiros, de todos os continentes, sente perplexidade, revolta e temor pelo futuro. Faz-se gala na mentira mais atroz, na defesa da crueldade sobre indefesos ou na insensibilidade perante a violência e a guerra, dirigidas contra populações inocentes. Parece que o crime compensa.
E o que mais impressiona não é a actividade ou as acções dos criminosos e a violação que, com gáudio, fazem das leis e das normas, como sejam as da «Declaração Universal dos Direitos Humanos» ou das religiões que, não raro, cada um diz professar. Não, o que é mais perturbador é a quantidade de pessoas, que julgávamos de carácter recto, que os seguem, que neles votam e que os elegem.
Perplexidade enorme reside também em saber como chegámos aqui: falharam as famílias, falharam as escolas e falhou a sociedade por não terem conseguido educar no sentido de domar a barbárie que parece residir no âmago da natureza humana. E também terá falhado a capacidade de previsão do que nos havia de esperar ou que, infelizmente, íamos “cultivando” ao longo do tempo. Ou não. Talvez o problema esteja em não darmos ouvidos às vozes luminosas que, em cada tempo, se pronunciam clarividentes e quase "proféticas".
Em Portugal houve no século passado um homem notável, sintomaticamente pouco conhecido hoje, que viu o problema e sobre ele falou e escreveu. Trata-se do padre jesuíta Manuel Antunes (1918-1985), pensador da complexidade do ser humano do século XX português.
Carlos Fiolhais, na obra «Deus e a Ciência», concretiza o pensamento de Manuel Antunes tomando três questões: «o progresso, que é um facto, mas também um mito; o humanismo, que é um facto, mas também pode ser um mito; e a irracionalidade, que é mais um facto do que um mito».
Considerando a misericórdia como uma das heranças do humanismo antigo, Manuel Antunes conclui: «se a conciliação da misericórdia e da técnica é uma possibilidade muito concreta, a sua reconciliação é um dever. […] Sem ciência e sem técnica a Humanidade não pode subsistir; sem misericórdia ela não pode subsistir humana».
Sobre a questão da irracionalidade, percebendo sinais apenas latentes, Manuel Antunes fez, na década de 1970, uma “profecia” muito curiosa – a da invasão da irracionalidade. Os sinais eram precisamente a irracionalidade e a desinformação, a que vieram somar-se explosivamente a “internet” e as redes sociais. Ele registou-o assim: «Sentimo-la vir, impetuosa e avassaladora, temível e perniciosa. Trazida nas ondas da contestação global e indiscriminada, da utopia sem base, da violência, do erotismo ou do arbitrário passional, essa maré ameaça ir submergindo os espaços de racionalidade que, ao longo dos milénios, o esforço do homem custosamente foi separando das águas do irracional, […]»
Num texto de 1970, intitulado «Informação – Deformação», Manuel Antunes dizia o que é manifesto neste tempo de «fake news»: «Através de cadeias de jornais, rádio e TV, todo um vasto mundo realiza um desejo secreto: ser enganado».
José Batista d’Ascenção
in: «Deus e a Ciência, Diálogos Para a Salvação do Mundo», Carlos Fiolhais. D. Quixote. 1ª Ed. 2026. Pg: 231-241.

Um bom texto que partilhei!
ResponderEliminarMuito obrigado. Um abraço.
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