domingo, 7 de janeiro de 2018

Aqueles que partindo permanecem no íntimo de nós mesmos

Felizes os que na vida encontram quem lhes queira e faça bem sem que se descortine algum motivo especial para que isso aconteça. Eu também tive essa sorte: quando, no início da década de 80 do século passado chegava à universidade, em Coimbra, oriundo do interior profundo, metido comigo, e olhando à volta sem deslumbramentos, tão reconfortante como a amizade de uns quantos colegas de curso foi o carinho e protecção que logo senti em casa dos pais de uma querida amiga desde esses tempos, daquelas que o são para sempre. Refiro-me ao Senhor Hilário Figueiredo e à D. Elisa Rocha Assis, Figueiredo pelo lado do marido, que logo me «adoptaram», como fizeram com outros, ali vizinhos ou vindos de longe como eu.
O Senhor Hilário era um alentejano bem-disposto, de sorriso aberto, coração grande e gesto largo, incapaz de alimentar conversas sobre os defeitos de quem quer que fosse, na razão inversa das qualidades que sentia prazer em destacar. O gosto de sentar alguém à sua mesa, a amizade franca e a facilidade de conversar sobre quaisquer temas eram tão autênticos, envolventes e transbordantes que os convivas sentiam um à-vontade sereno e agradável e reconfortante a partilhar uma espécie de doce camaradagem. Para isso contribuía igualmente a D. Elisa, cozinheira de gabarito, muito atenta à mesa e ao prato dos comensais, que fartamente servia, acentuando sempre a frugalidade de cada um, mesmo quando já haviam sido servidos por ela segunda e terceira vez, como se adivinhasse quanto alimento pode caber na barriga de crianças em crescimento ou jovens de muita sustância. Então, quando chegavam as sobremesas, não havia glutão que não se desse por saciado.
Ao longo do curso, um grupo de seis colegas, três rapazes e três raparigas (a Cristina, a Teresinha, a Teresita, que o cancro nos roubou pouco depois da licenciatura, o Aires, o Licínio e eu – que saudades, queridos Amigos!) passámos a dar-nos bem e, aquando das provas de frequência e exames, combinávamos umas sabatinas, depois de cada um ter estudado sozinho as matérias, sendo que boa parte das sessões foram em cada da Cristina, ou seja, da D. Elisa e do Sr Hilário. Após horas de discussão das dúvidas de cada um, a maior parte das quais não eram comuns e por isso eram esclarecidas logo ali, por quem soubesse, para além do proveito do estudo e do prazer de estar juntos, nunca faltava a D. Elisa com os seus cuidados, fazendo-nos chegar tabuleiros bem recheados, à maneira de merenda ou ceia, se não descíamos nós, por insistência dela e do Sr Hilário, à mesa posta.
Por essas e por outras, muitas vezes me sentei à mesa destes meus amigos. Mas ali, o bom não era restrito às refeições. Eu era capaz de falar gratamente com aquele casal sobre qualquer assunto, de uma forma muito fluida e gratificante. E também podia ficar em silêncio sentindo o mesmo bem-estar, sem nenhuma contrariedade. Isso acontecia, por exemplo, quando ficava a ler os jornais, que, por sinal, eram exactamente os que eu gostava de ler, inteirando-me de notícias e reflexões pelo menor dispêndio.
Esses jornais morreram. Há anos morreu também o Sr Hilário, o que foi para mim uma perda imensa. Como precisava muito dele, esforcei-me por esquecer em que ano, mês e dia partiu e, quando voltei à sua casa, nunca referi a sua ausência, nem me demorei a senti-la, porque a D. Elisa, a Cristina, a minha querida amiga, sua filha, o marido dela, mais um amigo do peito que ganhei, e a filha destes, a Ana Rita, menina da idade do meu filho mais novo, fizeram sempre uma festa de cada uma das minhas visitas e estadias (não escrevo estadas…), sozinho ou com a minha mulher ou com a minha mulher e com os meus filhos. Naquela casa, em Santo António dos Olivais, em Coimbra, senti-me sempre invariavelmente muito bem, não sei se por ali poder ser profundamente igual a mim próprio e por me sentir tão estimado e acarinhado. A D. Elisa, então, tratava-me com uma veneração que, a meus olhos, nunca, em tempo algum, mereci. Com sinceridade, disse-lhe, mais que uma vez, que ela via em mim as qualidades que não tenho. E ela ignorava, simplesmente. Por via da sua casa, a minha estima alargara-se aos vizinhos próximos (à D. Fernanda e família, à D. Maria José e ao marido, o Sr Joaquim, à D. Rosa e ao seu marido, o Sr Manuel), pessoas bondosas que, penosamente, deixei de visitar. E ainda havia as crianças e jovens das suas casas, como o Huguito e a Raquel, a Belita e a Fernanda e a Manelinha, entre outros, que eram uma doçura e uma alegria, entrando e saindo respeitosamente mas sem cerimónia pela porta daqueles amigos, ora uns ora outros e por vezes todos.
Foram tempos. Agora, foi a vez de a D. Elisa partir. Sinto-me mais só. Tive sensação idêntica quando a minha avó materna morreu. A minha avó, como se dizia lá na aldeia, era minha mãe duas vezes e eu creio que era mais do que isso. A D. Elisa foi outra mãe que tive, já crescido.
Mas sou pessoa de sorte: pela insubstituível mãe que tenho e pelas outras mães que tive e que ninguém substituirá.
Guardo-as estremecidamente.
Obrigado. Para sempre.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Bebedor de Horizontes

Livro três de «As Areias do Imperador», uma trilogia moçambicana, de Mia Couto

Na sequência do livro um, «Mulheres de Cinza», e do livro dois, «A Espada e a Azagaia», o livro três, «O Bebedor de Horizontes» completa a mais recente obra literária de Mia Couto.
O conteúdo geral versa sobre o fim do chamado Estado de Gaza, dirigido por Gungunhana, imperador dos territórios da metade Sul de Moçambique, às mãos de Mouzinho de Albuquerque, nos finais do século XIX (1895).
Este terceiro livro incide sobre a viagem de deportação de Gungunhana, com o filho, um tio e conselheiro, mais o cozinheiro e sete das suas (mais de trezentas!) esposas. Noutro local da margem do rio Limpopo foi preso outro chefe tribal, de nome Zixaxa, que é igualmente deportado com três das suas mulheres. A narradora é uma jovem negra, muito inteligente e belíssima, chamada Imani Nsambe, que havia estudado numa missão católica e que fala e escreve perfeitamente a língua portuguesa, tão bem ou melhor que qualquer distinto português. Por isso serve como tradutora das autoridades portuguesas, desde Mouzinho de Albuquerque aos comandantes dos navios da viagem de exílio. Esta viagem tinha por motivo exibir os prisioneiros, mostrando ao mundo que Portugal dominava efectivamente os territórios africanos, em tempos do ultimato de Inglaterra.
Imani Nsambe viaja grávida de um sargento português que fica em África. Tem apenas 15 anos. Nascido o filho, perde-o para a própria sogra, que lho tira como se fora seu por ser filho do seu filho (ainda por cima «clarinho!») e a mãe preta não ter quaisquer direitos sobre ele. Imani, mesmo grávida, é alvo e objecto dos apetites sexuais dos homens com quem viaja, que incluem o permanentemente embriagado, enlouquecido e impotente (!) Gungunhana (com intervalos de lucidez: «as batalhas ganham-se com armas. Mas as guerras ganham-se com mentiras» pág. 97) e um odioso sargento com poder e instintos cruéis. Mas também é admirada e respeitada, quer pelo capitão rival de Mouzinho de Albuquerque, quer pelo comandante do navio África, que faz a viagem de Lourenço Marques para Lisboa, que a estima com profundo carinho e amizade (escreve, este: «se não há futuro tornamo-nos iguais aos bichos. E não há melhor para as guerras que um bicho fardado de soldado.» (pág. 248). Imani terá uma vida longa, mas afastada do filho, e nunca mais vê Germano de Melo, que é o pai dele. Germano fez questão de ficar em Lourenço Marques, afastado da sua terra, da mãe, de Imani, e do filho de ambos e com as mãos decepadas por um tiro disparado pela própria Imani. Isso havia acontecido num gesto de desespero, para defender o seu irmão, um diminuído mental que seguia à frente de uma turba que marchava sobre o posto militar de Germano. Um acidente de tal monta não impediu a paixão de Germano por Imani e de Imani por ele. Imani regressa a África, primeiro deportada para S. Tomé, onde é posta a servir num bordel para o exército, seguindo, após 15 anos, para a sua aldeia natal. Decorrem mais 63 anos. Aos 95 está enlouquecida e irreal, tão irreal quanto o imaginário surpreendente das tribos africanas, seja na visão da natureza, no íntimo das pessoas ou na convivência entre elas e até no modo de encarar a crueldade e humilhação, para além da mera sobranceria comum nos seres humanos em posição dominante [numa carta, escreve Germano de Melo, sensível à africanidade …«os ingleses pensam de nós (refere-se a portugueses e italianos) aquilo que nós pensamos dos africanos.», pág. 125. Noutra passagem, é Imani que reflecte: «Sucede sempre assim, os humilhados acabam por ficar iguais aos opressores.», pág. 174].
A narrativa é toda ela incisiva e clara e fantástica e maravilhosa, até nas partes mais cruéis. E há valor histórico e factual, imerso no romance. E particularidades objectivas interessantíssimas, por exemplo: “No tempo das caravelas, não eram as tempestades mas as calmarias o que os marinheiros mais temiam. A região do Equador era rica em sol, mas pobre em ventos. Sempre que um navio se imobilizava, não eram apenas os alimentos que se deterioravam: a disciplina e o sentido de hierarquia também se degradavam. Havia que criar uma válvula de escape, uma espécie de carnaval em que todos podiam ser todos. Foi assim que nasceu o ritual da travessia do «espinhaço do Mundo».”, pág. 238.
Notável, a pena de Mia Couto, disseca e expõe a fundura da natureza humana, sem contemplações, nas suas grandezas e misérias, alargando e reinventando a língua portuguesa como mais ninguém nunca o terá feito [Diz uma das mulheres de Gungunhana: … “o vento canta. Porque já foi um pássaro. Em menina eu dizia que o vento «assopiava»”, (pág. 81). Noutra passagem refere-se: “Deve haver um sol dentro deste rio [o Tejo]. Só assim se explica a luz de Lisboa. (…) a cidade deveria chamar-se «Luzboa».” (pág. 261). Ou ainda, em fala de Imani no fim da vida: «Este meu corpo é feito de despedaços», pág. 363].
Ao lê-lo, sinto que se eu tivesse um prémio Nobel da literatura corria a entregar-lho e a agradecer-lhe por, a meus olhos, há muito o merecer. É claro que este meu sentimento pode ser criticável tendo em conta que há muitos bons autores de língua portuguesa que nem sequer li, outros que dificilmente vou ler e também outros que deixei de ler. Mas estou à vontade, por não vir daqui nenhum mal ao mundo – é apenas um sentimento meu e ponto. Mas não digo ponto final, acalentando a esperança de que lho atribuam, algum dia.

José Batista d’Ascenção

Adenda: Este resumo é nada comparado com o livro. Por isso me alarguei um tanto, sem receio de que a alguém bastasse para economia de esforço: o que seria um erro estúpido, felizmente improvável, tão pequeno é o número dos que o hão-de ler.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Quando um bebé vem a caminho

Aquando da gravidez de que nasceria o meu primeiro filho, à medida que o termo se aproximava, dava comigo apreensivo e mesmo aflito. Por um lado sentia uma sensação de engrandecimento como não havia outra. Dava um sentido especial à (minha) vida. Era reconfortante. Era desafiante. Era qualquer coisa que não se traduz por palavras. Mas, por outro lado, sentia preocupação. Ou medo. Creio que era medo. Perguntava-me: Que pai vou eu ser? Vou estar à altura? Como é que um homem se prepara para ser pai? Há alguma preparação? As sugestões e conselhos de livros e afins pareciam-me mecânicas, longe das minhas dúvidas mais profundas. Disto mesmo dei conhecimento numa carta a amigos do peito, de Sto António dos Olivais, em Coimbra, pessoas com quem sou capaz de pensar em voz alta. A resposta que dava a mim próprio e que mais me sossegava era, basicamente, a seguinte: - se fizeres tudo o que podes sempre com a melhor intenção, por mais que erres (e errarás!), não afectas o essencial. Pensava assim, mas nunca completamente tranquilo. Nos últimos meses pude, em diversas alturas, pôr a mão sobre o ventre dilatado da mãe e sentir os movimentos, bem bruscos, por sinal, do rapaz. E sentia-me algo assombrado. Pensava até que, antes de nascer, uma criança é mais da mãe do que do pai, porque ela o sente por dentro, intimamente, e continuamente, lá, nas brumas de que há-de emergir. Um homem, durante esse tempo apenas vê, olha, supõe, imagina e pensa, mas está algo por fora, expectante.
No dia do nascimento foi uma agitação dentro do peito. O acto ocorreu em Viana do Castelo, no hospital público, e foi-me permitido assistir ao parto. Tudo preparado, haviam-me vestido uma bata, o momento estava prestes, mas na hora, iniciados os trabalhos, conduziram-me para a salinha ao lado. Foi muito difícil. Se me mandavam sair é porque algo ia correr mal. Com a mãe? Com o filho? Com ambos? Eu ia ter um filho? Ou não chegava a ter? E a mãe, continuaria a tê-la? E estive assim uma eternidade (que depois me disseram que foram apenas uns minutos), até que ouvi choro. Pelo menos havia nascido. Pouco depois vieram chamar-me. Podia ir. E tinha filho. E tinha a mãe. E tudo parecia estar bem. Então porque me haviam posto fora? Ora, porque era o meu aspecto que não inspirava segurança. O meu aspecto, fiquei a saber…
Depois foi a infância que acompanhei de perto, todos os dias. E o sábado reservei-o quase exclusivamente para esse fim durante uma dúzia de anos. Observei e vi e vivi tudo o que os meus olhos permitiram e a minha sensibilidade captou. Muitas vezes com espanto, outras com divertimento ou com preocupação, e todas com uma gratidão profunda pelos filhos que a sorte me destinou. Com eles, por eles ou a pensar neles encontrei o sentido mais profundo da (minha) vida: um contínuo entre os testemunhos que se herdam, os que se presenciam ou se protagonizam e os que se transmitem aos que hão-de vir, num papel em que contará tanto o involuntário e informal quanto o que se tem por objectivo consciente.
E o tempo passou. Hoje, adultos, (bem-)formados, capazes, definem e realizam os seus percursos, consoante podem. São cada vez mais remotos os tempos em que os acompanhei nas idas e vindas à escola, nas consultas médicas, nas ocupações lúdicas dos fins-de-semana, nos tempos de férias e nas múltiplas vivências do dia-a-dia, sempre partilhadas e mais ou menos bem resolvidas. Chegou o tempo a que então chamava de «amanhã e depois disso».
No sentido positivo que gosto de atribuir ao termo, estou e sinto-me velho (e no sentido menos positivo também). Já posso ser avô. O meu amigo José Coimbra anda que nem um cuco, a transbordar contentamento, porque a sua filha Inês vai ter um bebé. Também a minha querida amiga e colega Cândida anda exultante porque o seu filho, Luís, em tempos meu aluno, como o seu irmão mais velho, Daniel, antes dele, sendo ambos muito bons (o Daniel, então, era portentoso), vai ser pai. A Cândida, que não cabe em si, um dia destes há-de mostrar-nos algum poema sobre a neta como só ela é capaz: toda sensibilidade e expressão irradiando do fundo da alma e do coração para encantar quem a lê. Ou então escreve em suposta prosa que não será mais que um poema disfarçado a ocupar toda a largura das linhas. Tenho estado à espera desse texto da minha amiga, na incerteza sobre se não o terá escrito já, sob várias formas, até. Um texto assim, que imagino sem imaginar, para além do prazer que me proporcionaria, havia de iluminar a minha preparação para um futuro papel de avô.
Ficam de alma cheia, as pessoas que vão ser avós. E é bonito. Eu partilho dos sentimentos delas.
E espero, com a serenidade de que sou capaz.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Direito a serviços públicos de qualidade, mormente os que pagamos caro

Finda a tarde de ontem, já noite, antes de jantar, no bairro onde moro, a energia eléctrica faltou uns bons 40 minutos. Foi um tempo longo de espera, só com duas luzes de presença em casa, sem saber o que fazer… Depois de reposta, a corrente voltaria a falhar por alguns minutos, mais do que uma vez, uma hora depois. Ora isto é em Braga, uma cidade com pergaminhos. E acontece mais vezes do que o desejável, motivo por que, já em tempos, apelei, sem resultado, a que a junta de freguesia fizesse seguir reclamação para a empresa fornecedora. Noutra altura, antes dessa, tinha reclamado eu, enquanto consumidor, junto da EDP, de quem obtive uma resposta insatisfatória…
Na condição de contribuinte sem quaisquer falhas nos descontos, feitos à cabeça, e pelo limite superior, e com os pagamentos de serviços como o da energia feitos atempadamente, sinto-me prejudicado e mal servido. E também não me sinto protegido nem pelo Estado nem perante o Estado, mediante o que devia ser a vigilância e acção consequente de entidades específicas, em situações diversas, de que são exemplo:
- o fornecimento de energia pela EDP e a facturação (preço - acabo de receber «mail» a informar de actualização para 2018 - e taxas associadas);
- a disponibilidade de certas consultas de especialidades em hospitais públicos: a lista de espera para otorrino, no hospital público de Braga, mediante solicitação do médico de família é de mais de duzentos e sessenta dias;
- a cobrança de comissões diversas em quantias exageradas e com aumentos escandalosos pelos bancos, sem diferenciação positiva de um banco público como é a Caixa Geral de Depósitos;
- a exorbitância de preços nas portagens de auto-estradas e vias rápidas (em comparação com vários países da Europa, agravada pelo nível do rendimento médio dos cidadãos portugueses);
- os valores do imposto municipal sobre imóveis: a injustiça na heterogeneidade da sua aplicação, o escândalo de certos aumentos e a indecência de, pelo menos o índice de vetustez (velhice das casas), não ser de aplicação automática pelo sistema informático das finanças, sendo preciso requerê-lo para fins de actualização (se for para subir, não é preciso requerimento nenhum…);
- o papel ridículo e certos ares a que se dá a «protecção civil», recomendando cuidados dispensáveis (os habitantes das zonas frias já sabem que precisam de agasalhar-se no inverno, assim eles tivessem dinheiro para comprar boa roupa…) ou alarmando as pessoas inutilmente com avisos a fazerem temer o pior, mas com carência de definição geográfica (mais) precisa, limitando-os às pessoas a quem interessam, e sem descredibilizar as previsões junto das restantes. Sobre acções concretas de prevenção de incêndios florestais, a avaliação é inaplicável, por ausência de matéria susceptível…
- as falhas num serviço que sempre mereceu as minhas simpatias como era o dos CTT, antes de serem privatizados.
O nosso exercício da cidadania é muito fraquinho. Falha o desempenho das instituições e das empresas públicas e a superintendência/supervisão do Estado, que não cumpre nem faz cumprir. Falham os cidadãos funcionários públicos que, mais vezes que o desejável, se desleixam no seu trabalho, porque o patrão não está ali. Falham os cidadãos que não exigem o tratamento que lhes devem, e que, quando protestam, o fazem mal ou sem razão, e, sobretudo, falham quando eles próprios são relapsos ou gananciosos ou usam de artimanhas para não cumprirem os deveres (leia-se, obrigações). E falham criminosa e impunemente as empresas parasitas do Estado.
Não fôssemos assim e os serviços públicos eram um brinquinho. Éramos mais bem servidos, o país poupava, e as empresas privadas só eram viáveis com gente de espírito realizador e cumpridora de leis, contribuindo para aumentar a oferta de emprego, sem, também elas, sugarem o Estado e o bem comum e, tal como ele, irem, por todos os meios, ao bolso dos que trabalham e produzem riqueza.
No balanço que faço, defendo serviços públicos prestados por bons servidores, preferencialmente pelo Estado no que respeita aos ditos essenciais, como água, energia eléctrica, saneamento e recolha de lixos, telecomunicações e serviços postais, bem como outros como a saúde e a educação, reservando um papel supletivo para os privados, com todos os prestadores sujeitos ao controlo rigoroso e transparente de instituições formais e à exigência esclarecida e responsável do público que devem servir.
Isto não deve ser impossível, mesmo em Portugal. Pois não?

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Reordenamento da floresta. Reordenamento?

Imagem obtida aqui
Ontem, na sua mensagem de Natal, o senhor primeiro-ministro falou em reordenamento da floresta?
Reordenamento? Se os dicionários não estão enganados, reordenar é ordenar outra vez. E nós tínhamos ou temos, por acção dos cidadãos, das autarquias, do governo, ou de qualquer outra instituição (deixo de lado o plantio de eucaliptais, estimulado pelas celuloses) algum ordenamento florestal, digno do nome, até agora?
A dificuldade com o sentido das palavras afecta-nos em grande medida. Não andaríamos mal se nos tornássemos mais amigos dos (velhinhos) dicionários. Digo eu, que também sinto necessidade disso…

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Para os que hoje não têm Natal. Nem ontem. Nem amanhã.

Refugiados da guerra na Síria. Foto: ACNUR / Guardacosteira italiana / Massimo Sestini.
Hoje quase poderia dizer que nada me falta: não tenho dores, os filhos estão connosco, abundam as provisões de comida, a casa é confortável, a saúde dos membros da família e amigos é globalmente razoável (os que mais padecem compõem nesta quadra um ar mais terno e mais doce), vão-se gerindo com mais ou menos dificuldade as carências materiais de um ou outro mais próximo, de modo que até é legítimo pensar: antes assim que pior.
Mas há os muitos que passam fome e sofrem os rigores do frio e da solidão gelada da alma; os que perderam familiares e haveres por via de catástrofes, nem sempre inevitáveis, como os incêndios que não curamos de prevenir; os que perderam o emprego e desesperam por um modo de vida minimamente digno, para si e para os seus filhos; aqueles a quem a doença retira o prazer da vida, pelo sofrimento excruciante ou pela perspectiva da morte próxima; os que, emigrados, estão longe da família e dos amigos, em consequência das voltas da vida e, na maior parte dos casos, com o fim de resolver situações de precariedade ou penúria; os pais que fogem em desespero com crianças pequeninas, porque os sanguinários do poder e da guerra não dão tréguas nem têm contemplações; as crianças que, perdidas dos pais, fogem sozinhas ou com outras crianças, de que procuram tomar conta; e também aqueles que, sem culpa própria, caíram nas garras da (in)justiça, ou que se vêm em situação prisional por actos de revolta ou de loucura humanamente compreensíveis (em Portugal nem tanto…); e os que, nas sociedades da abundância e mesmo do luxo, são explorados ou escravizados e desprezados por gente de egoísmo transbordante e barriga farta, mas pobre de princípios e de sentimentos.
E, entre todos, há aquelas (muitas) crianças a quem (re)tiramos a possibilidade de serem adultos com futuro e cidadãos de pleno direito, agrilhoados que vão ficar ao analfabetismo e à ignorância.
A todos esses dedico estas linhas, como se fora uma prece, inspirado na figura do Menino Jesus, primeiro do presépio e depois do evangelho, que me marcou desde pequenino.
Esforço-me por alimentar a esperança de que a humanidade evolua no sentido do respeito por por cada pessoa em si mesma, pelos outros seres vivos e pelo lugar a que pertencemos - o planeta que tanto maltratamos - num tempo que não sei quando chegará. E homenageio os que não desistem de pensar e desejar que não pode deixar de ser assim e procedem com essa intenção.
Por isso, a todos os (que se sentem) desprotegidos (que somos quase todos em diferentes momentos da vida) ofereço o meu abraço humilde e fraterno.

José Batista d’Ascenção

sábado, 16 de dezembro de 2017

O Natal que não é Natal e o Natal que (ainda) não há

Imagem obtida aqui.
Por esta altura, quem pode esfalfa-se numa correria a vasculhar quanto lhe é possível para comprar as prendas de Natal. É uma tarefa a que as mulheres se aplicam com particular denodo. Não fosse assim e provavelmente os homens e particularmente as crianças passariam uma quadra menos emotiva e, porventura, sem a chama a que nos habituámos. E, contudo, há algo que falha: os meninos (das famílias que podem) desembrulham freneticamente cada presente para se desinteressarem dele no minuto seguinte, se não mostrarem imediatamente a sua decepção com o que receberam. Os homens consolam-se com o que lhes é ofertado, esquecendo então a preocupação com que pensaram nos gastos uns dias antes. Muitas vezes, uns e outros chegam a não reparar que aquela que tudo providenciou, que deu voltas e fez contas e mais contas, quase nem recebeu nada, ela mesma. Bem entendido, estamos a falar dos que sempre vão podendo dar-se a estes luxos. Somos, os que pertencem a este grupo, uns privilegiados, que podem deleitar-se na noite da consoada, que bem podia chamar-se noite da consolação, sobretudo se não há doenças, mortes ou outras desgraças que a ensombrem, tantas vezes definitivamente.
Mas há também os que nada podem, velhinhos ou mais novos, aqueles a quem a vida «trucidou» ou que nunca acertaram no trilho do remedeio quanto mais no do sucesso que a sociedade de consumo farta e enganosamente anuncia. Neste grupo, as crianças, que vêem, desejam e sonham (se ainda estão em condições disso) são as vítimas mais pungentes. E são-no tanto que, não raro, queremos, no fundo, nem pensar nelas, para não nos confrontarmos com a injustiça do munto nem com a nossa impotência nem, sobretudo, com o nosso egoísmo.
Quando eu era menino, na humildade da nossa casa, quem trazia as prendas era o Menino Jesus. Eram coisas simples que não nos atrevíamos a pedir. Mas sonhávamos com elas silenciosamente, parece-me que com receio de que alguém ouvisse. Sabíamos que o Menino Jesus também tinha nascido pobre e que dava o que entendia com o mesmo contentamento do necessitado que recebe, ainda que seja algo pequenino. Por isso aceitávamos o que quer que fosse com uma alegria imensa, como imenso era o cuidado para que não se estragasse e durasse muito, muito tempo.
Nas últimas décadas, o consumismo passou a comandar a vida de muitas pessoas: doces, roupas, calçado, artefactos analógicos e digitais fazem engordar, atafulham armários e colam miúdos e graúdos frente aos mais diversos mostradores tecnológicos. Em anos sucessivos, impressionava-me ver, pendurado de varandas e fachadas, um boneco vermelho com uma trouxa às cosas, qual bombeiro escalador, enfatizando até à náusea o papel dessa invenção a que chamaram «pai-natal». Era o império da obrigatoriedade da prenda, impingida pelo comércio. O Menino Jesus estava desactualizado.
Nos lares em que havia prendas, finda a festa de distribuição, sobravam papéis, fitas e plásticos, muitos plásticos. No dia seguinte seguiam para a lixeira e, anos mais tarde, para os ecopontos que os despejavam nos aterros sanitários. Por sua vez, nos dias que se seguiam ao Natal, supermercados e outras lojas eram novamente invadidos pelos muitos que ou vinham reclamar de tantas traquitanas já avariadas ou recusadas pela criançada destinatária ou para trocar peças de roupa ou outras que não serviam ou tinham defeito. Um «stress», até porque os «stocks», muitas vezes, haviam sido levados à rotura e por isso era preciso aguardar ou… conformar-se.
E, desde então, no fim da cadeia de consumo, está sempre a Terra-Mãe a albergar o entulho, que há-de demorar centenas ou milhares de anos a reciclar. Os plásticos, quer os que vemos em fragmentos, e matam albatrozes, tartarugas e golfinhos, quer os que estão reduzidos a partículas microscópicas e contaminam todo o volume das águas oceânicas, com consequências que ainda não sabemos prever, crescem no planeta e «afogam-nos» sem que consigamos parar a engrenagem da sua produção, uso e rejeição. E o problema não se resume aos polímeros…
Entretanto, há aqueles – e são tantos! - que, inocentemente, sofrem a fome e a miséria e as consequências da guerra, da xenofobia e do racismo, do ódio e da intolerância religiosa, do comércio da droga ou do tráfico de seres humanos, como se, para eles, não pudesse haver Menino Jesus.
Os optimistas sabem que o Mundo nunca teve tantas possibilidades para dar pão e um módico de conforto a todos os deserdados da sorte, e acreditam que isso é possível. Os pessimistas sabem-no também, mas julgam-se suficientemente conhecedores da natureza humana, para admitirem que alguma vez a humanidade possa abdicar da exploração e da submissão de uma parte de si própria para conforto, mesmo que excessivo e escandaloso, da outra.
Que caminho seguir? Com humildade e despojamento, o papa Francisco esforça-se por sensibilizar o coração dos que têm e podem em favor dos que precisam, com ganho na felicidade de todos. Fez o mais difícil, anunciando que devemos escolher com justiça o lado dos desprotegidos. E dá o exemplo.
Como o Menino Jesus.
Boas Festas: Natal Feliz e Próspero Ano Novo.
  
José Batista d’Ascenção