quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

«D. Afonso VI – O Indesejado», livro de Nuno Galopim, da editora «a esfera dos livros»

Terminei há dias a leitura do romance de Nuno Galopim publicado em Setembro último. É um livro escrito «a régua e esquadro», numa linguagem muito precisa e clara [contrariando, e bem, a tendência de muitos escritores para a complexificação do discurso e das ideias, como se – suprema ilusão, deles e dos leitores, em perspectivas múltiplas e diversas – não quisessem ser entendidos. Uma tal complexidade impõe-se(-me) em obras com a envergadura de um «Ulisses» de J. Joyce, mas não consigo sofrê-la em genialidades da escrita que - ideia minha – não resistirão à passagem do tempo], sem perda de fluência, de coerência, de criatividade e da curiosidade que desperta no leitor, o qual progride com gosto e se surpreende até às derradeiras páginas.
Muito estudou o autor: sobre os assuntos da História sócio-política, entendida nas linhas e nas entrelinhas da intriga que lhe subjaz; sobre a linguagem e os modos de vida da época e das figuras históricas que tomou como protagonistas (veja-se a referência ao …«hábito antigo de [o rei] comer apenas uma refeição por dia. Uma refeição interminável»…, páginas 161 e 162); sobre a caracterização de ambientes e de espaços exteriores e interiores, onde a narrativa faz decorrer as acções, assim como sobre os locais, as paisagens e a geografia em que os humanos se inscrevem, de modo característico, realística e consistentemente documentado. Pelo livro perpassa e transparece o estado de conhecimentos científicos da época, assim como a mentalidade dos tempos, manifesta, por exemplo, nas multidões que assistem gulosamente aos autos-de-fé. A personagem principal, em toda a sua desventura, resultante da sua psicologia e do seu desinteresse mais que da sua incapacidade de governação, é bem vincada. Assim, o infeliz D. Afonso VI, libertino e irresponsável, mas cheio de humanidade, nos defeitos e no sentir profundo de algumas prerrogativas e coordenadas próprias da função que devia desempenhar, acaba, mercê da mestria do autor, por cativar a simpatia do leitor.
Lê-se o livro e parece que assistimos ao desenrolar da História real – não da História que é a versão dos ganhadores («O vencedor escreve habitualmente a História a seu gosto», página 231, ideia que já havia sido referida antes e que volta a sê-lo depois) – feita das grandezas e misérias do género humano, em que se sucedem as cenas impressivas e dinâmicas no interior de palácios, igrejas ou tabernas, nas praças ou nas ruas, nas viagens por terra ou por mar, nos diálogos entre as personagem e na tessitura fisionómica e caracterológica de cada uma delas, de modo que em todo o entretetecer dos fios do enredo se revela, sobretudo, o fundo inescapável da natureza e da alma humana e das condicionantes que as podem afectar.
Os títulos de cada capítulo limitam-se invariavelmente a indicar o ano e o local, situando o leitor no tempo e no espaço. Os diferentes capítulos e a sequência em que se organizam poderiam funcionar como o guião preciso de um filme baseado na obra, que bem o merece. Afirmo-o sem autoridade na matéria, que parca é a minha cultura cinéfila, mas porque foi o que senti, e por me aborrecerem filmes de que adivinho o fim às primeiras imagens. Além disso, justifico o meu atrevimento com a convicção de que o livro e um filme que se fizesse sobre ele poderiam, considerada a aversão dos portugueses pela leitura, complementar-se no que respeita ao estímulo do prazer de ler e de conhecer e gostar da História de Portugal.
O motivo da história romanceada neste livro é a investigação sobre se o rei D. Afonso VI, que ficou para a História como impotente, que nem sequer consumou o seu casamento, e viu a rainha sua mulher desfazer a união [fazendo uso desse argumento, tornado acusação, dirimida num tribunal «constituído para discutir o corpo de um rei» (página 108)], para casar com o próprio cunhado, irmão mais novo de D. Afonso VI – o infante D. Pedro –, teria, afinal, deixado descendência fora do casamento. D. Pedro prendeu e desterrou o rei seu irmão, tempo durante o qual foi regente, até ele morrer e lhe herdar a coroa. A razão de uma investigação sobre a possível descendência de D. Afonso VI relacionava-se com a importância vital de aumentar as possibilidades legítimas de sucessão ao trono num quadro político (ainda) sequente à restauração da independência de Portugal, enquanto não fosse seguro que viessem a nascer e chegassem à idade de poder reinar filhos varões de D. Pedro II.
Os meandros da narrativa, na sua riqueza e precisão, exigem naturalmente a leitura do livro, de que não é possível alguém vir a arrepender-se. Como «prova» não deixo de referir a que me pareceu a sua frase mais bela, personificando a ilha Terceira e o Monte Brasil: «Um imponente monte (…) que saía da ilha como um braço com uma mão aberta se lança de um corpo quando acena a alguém.» (página 146) Quem tem sensibilidade e recursos para escrever algo assim, tem seguramente possibilidades de escrever muito mais com igual valia literária.
Boas leituras.

José Batista d’Ascenção

domingo, 10 de dezembro de 2017

Resumo da história promissora de um menino a quem não podia faltar nada

Os membros daquele casal eram de origens humildes. Com grande esforço, depois de uma escolaridade que não lhes foi fácil, onde venceram como puderam as dificuldades de percurso, e se conheceram no muito que tinham em comum, começando a namorar, conseguiram uns empregos modestos, pelo que, feitas contas à vida, decidiram casar-se. O governo da casa e as contas a pagar em cada mês obrigavam a gestão apertada dos fracos proventos, que geriam com racionalidade. Como não havia folga, decidiram-se por terem apenas um filho. Era importante ter um filho e dar-lhe as condições de que eles próprios e tantos como eles não haviam beneficiado. Passaria a ser o seu objectivo maior.
Nascida a criança não haviam de faltar-lhe amor e cuidados. Sempre tinham ouvido dizer, a pais e avós, que as pessoas se fazem desde pequeninas e que dificilmente alguém não seria bom tendo uma infância afectivamente rica e protegida.
Gostavam um do outro, felizmente, e não viam mais nada que o seu menino. Que mais e melhor podiam fazer? Estava escolhido o caminho.
Aquele menino foi crescendo com tudo o que os pais lhe podiam dar: da alimentação ao conforto, dos brinquedos às vontades que expressava ou que simplesmente adivinhavam. Desde o jardim infantil e dos primeiros anos da escola, a que em tempos se chamou «primária», procuraram que ao seu menino não faltasse o que os outros tinham, mesmo aqueles que tinham posses que não eram as suas. E o menino cresceu, manifestando e pedindo cada desejo, primeiro, e exigindo-o caprichosamente com o passar do tempo, cada vez com mais veemência, fosse na comida, no calçado e na roupa, no computador e artefactos associados ou no modelo caro de telemóvel. Os pais esforçavam-se por compreender: os tempos eram outros, todos os meninos tinham, como podia o seu não ter também? E passaram a poupar ainda mais nos gastos para si próprios ou em aquisições para a casa, agora que também já ganhavam mais um bocadinho, em favor das facilidades para o seu jovem em crescimento.
Na escola, o rapaz, que não era falho de inteligência, no dizer dos professores, era pouco atreito ao trabalho, tendia para a batota, especialmente copianços, que via como um direito e executava exemplarmente, e valia-se do seu franco desenvolvimento físico para mandar nos colegas, que receavam a capacidade de manipulação de que sabia revestir as suas exigências. Quando havia trabalho de grupo, uma técnica que alguns professores usavam, arranjava maneira de não colaborar muito mais do que apor o nome e reclamar mais na classificação final. Capaz de argumentos frontais, tanto mais afirmativos quanto menos verdadeiros, passou a ser visto como dotado de recursos particulares e chegou mesmo a ser proposto como líder de equipas escolares que debatiam nos «parlamentos dos jovens» e na propaganda para as listas das associações de estudantes, à maneira dos políticos adultos com traquejo. E aqueles, mais discretos, que não deixaram de referir certas falhas de legitimidade de algumas posições foram ignorados pelos restantes, quais fracos, com falta de garra e de vontade imperturbável. O rapaz era visto como um líder. E só não aceitava ser eleito delegado de turma, porque não estava para esse trabalho, porquanto, aliás, qualquer que desempenhasse o cargo fazia o que ele queria.
Cada vez mais desenvolto, o jovem ganhava protagonismo, dentro e fora da escola, pelo que foi com gosto que se inscreveu na claque de apoio ao clube de futebol da sua cidade. Em breve se destacou e era com vivo prazer que desfilava com dezenas de outros, que lhe reconheciam a bravura, no meio de centenas de polícias, muito cuidadosos, não fosse acontecer alguma coisa àqueles jovens, por alturas dos desafios. Dentro e fora dos recintos dos jogos, sentia-se bem ante a perspectiva de poder aplicar murros e pontapés, debaixo de insultos, se não fosse possível o uso de objectos contundentes, contra aqueles insossos que se permitiam ir ver futebol sem qualquer adrenalina…
E porque a escola age sempre com muito cuidado em não perturbar o crescimento livre dos meninos, compensando qualquer vestígio de hipotética capacidade, o rapaz fez o ensino secundário e conseguiu entrar na universidade. Foi um orgulho para os seus pais, que nunca, eles mesmo, ali se haviam podido imaginar. Tinham valido a pena os seus sacrifícios.
Na universidade, o nosso jovem, depressa se impôs nas manifestações da «praxe». Enquanto caloiro, aquilo a que o sujeitaram eram brincadeiras de criança. Quase se ria de tais infantilidades. Pelo que, nos anos seguintes, passou a mostrar como se fazia. Os que tinham iguais instintos apreciaram-no ainda mais e os que a ele se sujeitavam tomavam os insultos e as tiranias como o rigor de uma praxe a valer. Pois se é assim, nas nossas universidades…
Com o decorrer dos anos, cadeira agora e outra depois, aproximava-se o fim do curso. Não eram grandes as notas, mas quantos foram os grandes homens que fizeram cursos com mediania? - Pensaram os pais e pensava, principalmente, o filho.
Como, desde os tempos da escola, naquela altura em que se se treinara na argumentação «filosófico-política», entrara numa juventude partidária, onde fizera furor, por motivos óbvios, era objectivo dele, curso feito, chegar a secretário de estado. Também era essa a convicção de correligionários e colegas. E a partir daí logo se veria.
Havia de ser o cúmulo do orgulho para os seus pais, aquele (sempre) jovem cidadão com formação tão completa.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Ainda em matéria de incêndios: quais são os planos de acção das direcções dos bombeiros, antes do próximo Verão?

Sinto um enorme apreço pelas mulheres e homens que se dedicam, muitos deles voluntariamente, ao combate a incêndios, em tantos casos com a perda da própria vida (o que me faz duvidar se têm a preparação necessária e a exacta noção do perigo que correm), mas tenho as maiores reservas relativamente ao modo como têm sido dirigidos desde sempre, e muito especialmente nas últimas quatro décadas.
E pergunto às direcções de todas as corporações:
O que estão a preparar agora com vista à prevenção de incêndios no próximo Verão? Não podem colaborar com o governo e as autarquias na limpeza das zonas laterais das vias de trânsito terrestre, incluindo vias férreas? Será que não poderiam ser desenhados mapas das zonas mais sensíveis relativamente à deflagração de incêndios em tempo seco? E porque não utilizar o fogo preventivo, nas zonas onde outras acções não sejam mais eficazes, talvez em colaboração e com a presença das forças de segurança, como a GNR ou os guardas florestais?
Aflige-me ver tantos bombeiros dedicados a correr riscos inutilmente, com perigo de vida dos próprios e das outras pessoas, para além do montante colossal dos prejuízos materiais e ambientais, com repercussões no presente e duradoiramente no futuro.
É preciso dizer claramente que o «modelo» de ataque aos incêndios nos moldes em que tem funcionado é não só estupidamente ineficaz como irresponsavelmente perigoso.
Por que haveríamos de insistir em erros de tal monta?

José Batista d’Ascenção

Em matéria de incêndios: que pretendem fazer as autarquias, enquanto não chega o Verão?

Era importante sabermos o que pretendem fazer em concreto as juntas de freguesia e as câmaras municipais no mesmo sentido.
Lembro-me de que, no Verão passado, alguns autarcas reclamaram do governo quer por falta de medidas preventivas quer pela demora na aplicação de medidas de compensação ou remediação. Não me pareceu que tivessem razão no que respeita ao primeiro aspecto. É a eles que cabe a limpeza das bermas das vias de trânsito municipais e locais e, sobretudo, a criação de zonas de contenção à volta das casas e na envolvência das povoações. As leis existem, mas não são cumpridas, e a protecção civil, de que juntas de freguesia e câmaras municipais fazem parte, tem sido ausente, em matéria de prevenção eficaz dos incêndios, em toda a vastidão do «deserto» interior do país, e  não só. Incompreensivelmente e inaceitavelmente.
Pela minha parte, gostaria que pusessem de lado tantos eventos desnecessários ou mesmo inúteis e dispendiosos (jantaradas e passeios inteiramente gratuitos, subsídios para festivais diversos, acções de campanha, etc.) e se dedicassem um pouco mais à protecção das pessoas e do ambiente em que vivem, estabelecendo uma ordem de prioridades que o permita.
E talvez até houvesse, finalmente, boas razões para que as pessoas que trabalham precariamente para as autarquias passassem a quadros efectivos no desempenho de uma função imprescindível, a que não podemos eximir-nos. Seria muito mais barato pagar a essas pessoas do que fazer a despesa que temos feito mais os prejuízos que temos tido, a que é preciso somar a destruição do património ambiental e as perdas de vidas que já sofremos e que, inevitavelmente, continuaremos a sofrer, se permanecermos de costas viradas para o problema.
Exige-se que façamos alguma coisa. E já ontem era tarde.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Incêndios. Governo diz que vai limpar faixa de 10 metros em 3 mil quilómetros de estradas

«07 dez, 2017 - 19:39
Incêndios. Governo limpa faixa de 10 metros em 3 mil quilómetros de estradas.

A promessa foi deixada por Pedro Marques [ministro do Planeamento e das Infraestruturas] e estende-se também à rede ferroviária. A operação deve estar terminada até ao Verão.»


E eu que desesperava... Gosto da intenção. Espero que se cumpra. Por isso fiz o registo.

José Batista d'Ascenção

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

«Boas-Festas», por Jorge Paiva

Recebi hoje, com atraso, via CTT, o postal de «Boas-Festas» do meu querido Professor e Amigo o Doutor Jorge Paiva. Os cartões de Natal do Professor Jorge Paiva são lições de pedagogia, de civismo, de cidadania e de ecologia, com vista à preservação do futuro da humanidade num planeta – a nossa «gaiola» Terra – em que a biodiversidade decresce vertiginosamente pondo em perigo a espécie humana, devido à acção dos indivíduos da... espécie humana.
De modo sucinto e claro, rigoroso, firme e persistente, o texto, com versões em duas línguas (português e inglês), reza o seguinte:


«UMA ÁRVORE DE NATAL ESPECIAL

Vivemos hoje numa sociedade cuja preocupação predominante é produzir cada vez mais e com maior rapidez, de modo a conseguir-se o máximo lucro, no mais curto espaço de tempo. Por isso é que a plantação do eucalipto foi e é tão incentivada, pois o eucalipto é de crescimento muito rápido, o que levou à sua profusa e desordenada expansão, assim como a do pinheirobravo, tendo-se coberto a maior parte de Portugal com formações florestais mono-específicas (eucaliptais e pinhais), contínuas, adjacentes e facilmente inflamáveis pela elevada concentração de produtos aromáticos dos eucaliptos e resina dos pinheiros. Assim, em vez da floresta nativa, os carvalhais, fagosilva (do grego phagós = carvalho e silva = floresta), passámos a ter uma ignisilva (do latim ignis = fogo, ardente e silva = floresta).
Há séculos que temos florestas de produção mono-específicas com árvores nativas, como são os azinhais e os sobreirais. Sabemos como são altamente rendíveis e não inflamáveis os montados de azinho e de sobro. Não é por acaso que o sobreiro (Quercus suber L.) é a nossa “Árvore Nacional” [Resolução da Assembleia da República n.º 15/2012, publicada no Diário da República (artigo 28.º), 1ª série, n.º 30, de 10.01.2012] e não o eucalipto, embora um ministro tenha considerado o eucalipto como o “petróleo verde” de Portugal. Realmente, arde tão bem ou melhor do que o petróleo. Mas um sobreiro e uma azinheira, que são carvalhos (Quercus), crescem muito mais lentamente do que o eucalipto e isso não interessa, pois numa sociedade de mercado, só é relevante o máximo lucro, no mais curto espaço de tempo.
Além disso, devido ao actual “Aquecimento Global”, Portugal está a ter verões mais quentes, mais secos e de maior amplitude. Ora, as únicas árvores que temos, capazes de suportarem estas novas condições, são, precisamente, os sobreiros e as azinheiras.
É, pois, necessário repensar a floresta de produção e ordenar o país. Mas isto levará muitos anos, pois sobreiros e azinheiras são árvores de crescimento lento e o ordenamento do território é muito trabalhoso e demorado. Porém, isso já foi feito no Ribatejo e Alentejo. Os montados de sobro e de azinho demoraram dezenas de anos a formar-se, mas hoje são rendíveis e sempre com o mesmo número de árvores pois, conforme vão morrendo, vão sendo substituídas por outras.
Façamos votos para que a época festiva do final do ano ilumine a consciência dos governantes e políticos de Portugal de modo a não continuarmos a ter “piroverões.”

Feliz Natal e Próspero Ano Novo

Jorge Paiva, 2017»

Um grande obrigado.

Afixado por: José Batista d’Ascenção

domingo, 3 de dezembro de 2017

O que pode a força de vontdade


Esta imagem publicada no jornal «Público» de hoje (página 29), impressiona-me sobremaneira.
Há pessoas que são uma lição de força, de coragem, de perseverança, de dignidade e de exemplo.
Não resisti a trazê-la para o meu cantinho e mostro-a como minha, em que a tornei.
É bom apreciá-la e, sobretudo, merecê-la.
Obrigado a quem a realizou e publicou.

José Batista d'Ascenção