domingo, 25 de março de 2018

Homenagem (singela) aos enfermeiros do meu país

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Até 2009 eu não tinha da profissão de enfermeira(o) qualquer noção extraordinária. Parecia-me apenas (mais) uma entre muitas, embora com requisitos particulares, dada a necessária sensibilidade para lidar com o sofrimento das pessoas, a degradação por vezes irremediável do corpo e, frequentemente, a própria morte.
Até esse ano, sabia também que era uma profissão a que eu não podia ter aspirado. Como a de médico de qualquer especialidade, aliás. A doença sempre me afligiu, fosse a minha ou a das pessoas próximas. Esta fragilidade vem-me desde menino: lembro-me de que ir a um hospital era para mim absolutamente penoso. O cheiro intenso a desinfectante desagradava-me profundamente e nada, ali, me parecia convidativo. E com o tempo, esta minha fraqueza não melhorou.
Nunca em mim, portanto, houve qualquer aspiração a fazer um (qualquer) curso de saúde, embora me fascinasse a fisiologia animal, incluindo a humana e tudo o mais na área das Ciências Naturais. E os meus filhos, desde cedo, pareceram herdar aquela minha tendência, mas sem manifestarem qualquer apetência especial para o estudo particular dos seres vivos ou da Natureza.
Como ia dizendo, em 2009, após vários exames: ecografias, tomografias e ressonâncias, por esta ordem, fui encarando o ar fechado dos técnicos e dos médicos com a serenidade de quem não tem qualquer sintoma doloroso nem sente desconforto ou qualquer desconformidade funcional. Sabia a raiz etimológica dos termos usados nos resultados, mas lia-os e eram apenas palavras exteriores ao que sentia. O cirurgião foi muito sério e eu concordei que era melhor agir(mos) rapidamente. Corria o mês de Abril, fizemos o internamento, ocorreu a intervenção, durante sete longas horas (sobretudo para a minha mulher, em ansiosa espera) e eu saí da bruma depois disso, sentindo uma voz difusa, provinda de uma «nuvem verde» (a cor das batas da equipa médica) a gritar como que de muito, muito longe: Benigno! Benigno!, Fora esse o diagnóstico do patologista que, no momento, dissecava e observava ao microscópio a «carne» a mais que crescia no meu corpo, depois de extraída. Já em mim, pensei nos meus filhos, com a mesma intensidade com que o fizera antes de seguir para o bloco cirúrgico. E senti-me grato e aliviado. Que eram lá os eléctrodos que tinha no peito, o soro que entrava por um braço, não sei o que mais que entrava pelo outro, a algália que me prendia a um saco e o dreno que saindo de um furo do abdómen escoava para um frasco? Sentia-me como um tronco em que tivessem enxertado uma infinidade de tubos e cabos. Mas não tinha dores, de modo que, estando quietinho, era como se não tivesse corpo.
Foi então que pude apreciar o trabalho dos enfermeiros. Eram todos bastante jovens, mais mulheres do que homens (só dois, os que lidaram comigo). A primeira sensação de acanhamento e de surpresa surgiu quando me foi dito, em tom suave, que íamos tomar banho. Como é que eu ia tomar banho com aquela floresta de tubos? Disfarcei o que pude, sem saber se, involuntariamente, terei feito algum olhar de súplica e misericórdia. Se assim tiver sido, nada perturbou a técnica, que tratou de mim de forma eficiente e confortável, com o desembaraço e segurança de quem sabe o que faz e com uma suavidade tal que era como se o meu corpo não tivesse peso. Depois, ela e as outras, foram irrepreensíveis ao longo dos dias de internamento. Lembro-me que na primeira e na segunda noites do pós-operatório entravam no quarto como que levitando na penumbra, observando-me e olhando os painéis dos instrumentos numa acção que gerou em mim grande tranquilidade, confiança e apreço crescentes.
Passaram os dias. Horas antes da alta, pedi umas folhas onde pudesse, em meia dúzia de linhas, deixar uma nota de apreço e gratidão pelo trabalho das equipas médica e de enfermagem que cuidaram de mim.
Como a empresa se revelara grande e difícil para ser fazer todo o trabalho de cirurgia de uma vez só, fui para casa recuperar e voltei ao bloco operatório em Julho, para nova intervenção do lado oposto. Nessa altura já sabia ao que ia. O tratamento foi similar e eu não pude deixar de, novamente, agradecer por escrito ao Dr Sérgio Haddad e aos seus colaboradores e à equipa de enfermagem.
«Partido ao meio», nunca mais fui o mesmo, desde então. Mas ter-se-ão evitado males maiores, pelo que vou vivendo tanto e tão bem como e quanto posso. E a minha admiração por médicos e enfermeiros, que já era grande, só podia aumentar. No entanto, como foram as(os) enfermeiras(os) que passaram mais tempo junto de mim, fiquei-lhes com um carinho muito especial, desde então e para sempre, enquanto viver.
Este meu sentimento não pode ser (meramente) subjectivo, pois que têm sido inúmeros os profissionais de enfermagem formados em Portugal que têm emigrado para exigentes países europeus, como a Inglaterra ou a Irlanda, onde são muito bem recebidos e tratados e… pagos. O que só pode ser merecido.
Aduzo ainda, em abono da isenção e objectividade da minha opinião, o facto de não ter interesses próprios ou próximos nesta matéria, porquanto ninguém da minha família é profissional de enfermagem. E, das minhas relações, só a minha amiga Ceci é enfermeira (há décadas), sendo que nunca a ouvi queixar-se do seu trabalho, que desempenha com suave doçura e dedicação, facto que se me afigura como mais uma prova do que afirmo.
Como adversativa, acrescentaria apenas que, no nosso país, profissionais como professores, médicos e enfermeiros talvez centrem excessivamente a tónica reivindicativa nos vencimentos em vez de a fazerem incidir no conjunto de condições necessárias ao bom desempenho das suas funções, com proveito próprio mas sobretudo daqueles que lhes cabe servir. Sendo que essas condições (que são muito mais e de maior importância do que o que ganham ao fim de cada mês) têm que ser gratas, estimulantes e compensadoras para cada profissional.
Mas não quero afastar-me do motivo deste texto, que é o de prestar humilde, mas sentida homenagem pessoal aos enfermeiros de Portugal. A eles, um grande obrigado.
Com especial carinho.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 22 de março de 2018

O país que temos (a sorte de ter) e as pessoas que somos

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O continente português é um pequeno rectângulo com grande diversidade ambiental. De Norte a Sul viaja-se do verde do Minho - cada vez mais «glauco-verde-brilhante-eucalipto» - e da rudez telúrica de Trás-os-Montes e Alto-Douro até às praias luminosas do Algarve, passando pelas particularidades rústicas das «terras do demo» ou, mais pelo litoral,  até atravessar as campinas ribatejanas e seguindo depois pelas planuras ondulantes do Alentejo. Os relevos são geralmente mais elevados do lado de Espanha e inclinam genericamente para o raso das bordaduras atlânticas. Diversidade paisagística temo-la também desde o mar até à fronteira com Espanha, no «interior» que, entre nós, é o conjunto de terras que distam do oceano entre 30-40 km, ou menos, e um máximo aproximado de 200 km, em linha recta. Este nosso «interior» é, paradoxalmente, atravessado por muitas estradas de construção recente, com bom piso e traçado a convidar a velocidades excessivas, que enegrecem a contabilidade de acidentes. Trata-se de vias de circulação que, ao invés de contribuírem para a fixação de pessoas nessa zona, se converteram em mais um estímulo para a sua desertificação progressiva. Os portugueses em Portugal são (relativamente) poucos e os que não emigram vão-se deslocando para a estreita faixa de terra que debrua o mar…
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As ilhas dos Açores e da Madeira conferem à globalidade do país algum subtropicalismo atlântico húmido e verdejante, aumentando significativamente o leque de variações da paisagem portuguesa.
Acerca das nossas gentes (isto é, de nós próprios), da nossa alma, da nossa disponibilidade e generosidade, também haverá razoável consenso. Mas há em nós traços histórico-culturais e de carácter de que resultam frustrações dolorosas. O coração grande dos portugueses, especialmente em alturas de perigo ou emergência, parece ser avesso à racionalidade da ciência que desconhecemos, desvalorizamos e desprezamos. Os (nossos) grandes poetas não esqueceram o «mal de inveja» que nos corrói e podiam escrever eternamente sobre as responsabilidades que descuramos em nós e exigimos dos outros (que podem ser todos, reais ou imaginários, excepto nós e os que, por alguma razão, julgamos «nossos»). Entre esses «outros» destacam-se os políticos, os poderosos, os que decidem, mesmo que escolhidos/eleitos com o nosso voto. Às vezes, os «outros são os nossos vizinhos ou os nossos colegas ou superiores ou subordinados, no trabalho. E se esses «outros» são atreitos ao zelo excessivo em causa própria, qualquer que seja, não somos eticamente exigentes com eles (porque também não o seríamos connosco próprios), salvo se alguma das suas acções colide com os nossos interesses (caso em que defendemos acerrimamente a ética, os princípios e a honra). Na realidade, se aspiramos a uma sociedade em que os princípios éticos estão acima e antes da redacção das leis e se somos cidadãos contribuintes com os impostos em dia, essa colisão é efectiva e irremediável, mas temos grande facilidade em ignorar o facto, como se o mesmo não implicasse qualquer prejuízo da nossa parte. Por isso, acalentamos implícita ou explicitamente o dito que afirma que «quem parte e reparte e não fica com a maior parte ou é burro ou não tem arte!». Este modo de pensar (e sentir) e (de) agir condiciona grandemente a sociedade portuguesa: como não há referências éticas precisas com estipulada aceitação universal, não há política impoluta, nem justiça que funcione nem escola que valha.
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Segundo cada um de nós, a culpa - a que devíamos chamar responsabilidade - é sempre de terceiros, pelo que o que falha não resulta de prática pessoal assumida ou do incumprimento da palavra dada, já que o nosso sentido de justiça é (demasiado) centrado (e funciona) em (proveito de)… nós mesmos. Em consequência, somos tão diversos em certas tradições e manifestações culturais e sócio-políticas (vejam-se as diferenças Norte-Sul ou entre continente e ilhas), quanto uniformes naquela «ronha» que tão rigorosamente nos caracteriza (e diminui e prejudica).
Não sei, porém, se foi por sermos como somos que sobrevivemos como nação indivisa ao longo de tantos séculos. Neste «nem escapamos nem sucumbimos» a certo mau viver, talvez nos aguentemos «eternamente», mas (suponho que) com prejuízo de (quase) todos, incluindo os que não suspeitam disso.

José Batista d’Ascenção

domingo, 18 de março de 2018

Sobre o meu amigo António Leite Bastos, notas ao correr da pena

Com o meu amigo Bastos eu poderia conversar horas seguidas. Na realidade, talvez devesse deixá-lo falar do que muito bem entendesse, sem intervir, só pelo gosto e pelo proveito de o ouvir. Quando me pronuncio, fica-me a dúvida sobre se não estou a perder algo mais que dissesse. O Bastos viveu muito. É um minhoto de gema, das terras de Basto, mas a vida e o mundo caldearam-no de modo tal que o vejo como um bom cidadão português de todos os lugares, um homem de princípios éticos irrepreensíveis e de opções e posições claras, mas nunca ostensivas ou impositivas.
Tem uma memória invejável de que não é possível duvidar. Da sua meninice e juventude abre, às vezes, o baú de histórias deliciosas, com pormenores tão realistas que as ouvimos como se nelas estivéssemos a participar. Sirva de exemplo o daquele professor que, perante os erros calamitosos que uma aluna (que nem era das piores) escrevera no quadro, já no final da aula, lhe ordenou: - tem paciência, ou apagas ou assinas! E a menina, atarantada, assinou, tendo o quadro ficado assim após a aula.
Sabe de cor as datas de todos os aniversários dos seus muitos convivas e dos filhos deles, e das pessoas das suas relações. Ou de outras, como é o caso de políticos e de dirigentes desportivos. E o mesmo se passava com números de telefone, quando os dispositivos não gravavam as listas de contactos. E também é assim com matrículas de carros (da última vez que troquei o meu carro velhinho, a brincar, enviei logo a matrícula nova ao Bastos, para o caso provável de, nalgum momento, me esquecer dela ou me baralhar!).
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Feito o secundário, o Bastos rumou a Coimbra, para frequentar a Faculdade de Letras, onde se licenciou em Filologia Românica. Docente do grupo de português/francês, profissão que foi a sua, vinham-lhe de longe o gosto e a aptidão para línguas, de modo que ainda hoje nos explica termos e frases em árabe, que chegou a estudar com um professor que admirava. A maneira como esclarece a origem de certas palavras, caso lhe perguntemos, é sucinta e clara e agradável. Coimbra ficou-lhe no imaginário (leia-se, no peito) de forma tão profunda e comovente que, hoje, quinze anos depois de se ter aposentado, está sempre disponível para lá voltar em romagem de saudade e gratidão. Com entusiasmo percorre os espaços na universidade e pela cidade, e leva-nos à rua e à casa onde viveu e ao café, no «quebra-costas», que frequentava com os amigos da mesma casa e do seu ou de outros cursos. E indica-nos a mesa que ocupavam normalmente, a metro e meio daquela outra, lugar de homens de gabardine e ar fechado, que ninguém conhecia da academia e que todos tinham por agentes da «PIDE». Ali nos sentámos, há coisa de um ano, a saborear o tempo e a liberdade e foi muito bonito ver o balconista, senhor já calvo e com falhas de dentes, reconhecer o Bastos e falar-lhe dos seus outros colegas «doutores». O senhor Arsénio, muito jovem nesses tempos, arranjara ali emprego e viria a ficar, anos mais tarde, dono do estabelecimento. Pelo aspecto, não enriqueceu, mas preservou a humilde gentileza e disponibilidade de então. O Bastos viveu com interesse as manifestações da praxe académica, excluídas bizarrias animalescas como as do presente, e as actividades culturais coimbrãs: há tempos fiquei-lhe com alguns «cedês», para ouvir e oferecer, de um fadista de Coimbra seu contemporâneo que, por exigência e perfeccionismo, recusou, mais do que devia, e com prejuízo próprio e alheio, a prática da arte musical. Ouviu-o com apreço, in illo tempore, Vinicius de Morais, durante uma noite, na república «Baco», mas nem esse estímulo evitou o apagamento voluntário. É jurista, chama-se Fernando Gomes Alves e é um deleite, através da sua voz, imergir na beleza e matar saudades dos sons de Coimbra.
A seguir a Coimbra, após a formatura, veio a «guerra colonial», que o Bastos fez na Guiné-Bissau. O dia libertador chegaria enfim, mas o meu amigo cumpriu no mato, com a patente de alferes, todo o tempo de serviço. Hoje, o Bastos fala-nos da guerra com uma placidez tocante. É a única pessoa, entre familiares meus e meus conhecidos que viveram essa experiência, que é capaz de o fazer desse modo (nem António Lobo Antunes). Foi uma dura prova, em que a sua formação e o trato com as pessoas lhe granjearam a consideração dos superiores e o respeito dos subordinados. Respeitava e procurava compreender os nativos, quaisquer que fossem as tribos a que pertencessem: balantas, papéis, manjacos, bijagós, nalus… Com os elementos das milícias fazia uso do seu tacto particular: pedia-lhes as informações que supunha que eles conheciam, dando tanta atenção à expressão que imediatamente assumiam como às palavras que articulavam, e assim ficava com uma ideia mais próxima dos perigos com que era preciso lidar. Sabia gerir o medo, o seu e o dos seus homens, mesmo nas situações (mais) adversas, como naquela ocasião fatídica em que um deles pisou uma mina antipessoal e ficou reduzido a pedacinhos que couberam num pequeno saco de plástico. Relativamente aos oficiais com quem conviveu salienta, na qualidade de militar, a estima que sentia pelo general António de Spínola.
Veio da guerra sem mazelas físicas e foi racionalizando sobre as marcas que sempre ficam. Com sucesso. Depois começou uma longa carreira de professor de português, francês e literatura portuguesa. Por amor à docência e por não se identificar com o regime político de antes de 1974, fugiu como pôde dos cargos de direcção. Até os inspectores do tempo da ditadura, que lhe apareceram de surpresa à porta da sala de aula, por mais que uma vez, lhe reconheceram o mérito, e isso deu-lhe grande satisfação pessoal. Já em tempos de liberdade, para além da docência, aceitou orientar professores em estágio e fê-lo bem. No café, onde tenho o privilégio de me sentar com ele e outros amigos, é muito bonito ver chegar tantas pessoas mais ou menos jovens que, carinhosamente, o querem cumprimentar. E fazem-no com um misto de alegria e gratidão nada comuns. São quase sempre seus ex-alunos.
O meu amigo Bastos até na sua opção clubística é tão delicado e superior que desarma com um simples sorriso qualquer dito (mais) provocador de qualquer membro da tertúlia que se reúne à sua volta.
Em relação a ele só uma pena sinto: a de que não reduza a escrito tantas histórias com interesse e algumas particularmente saborosas que protagonizou ou de que foi testemunha.

Nota: este texto é apenas um leve apontamento, algo indefinido, sobre aspectos que aprecio no meu amigo. Conhecer a sua vida e o modo como a viveu daria muitos textos, de que não estou à altura, nem cabem aqui. 

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 1 de março de 2018

O facto maravilhoso de cada ser humano ser único e irrepetível, exceptuando os gémeos verdadeiros e a horrenda possibilidade de clonagem

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Entre familiares, amigas e amigos meus (que, em situação similar, comovidamente felicito), são vários os casos de exaltação e entusiasmo perante o nascimento recente ou próximo de netos, nalguns casos pela primeira vez. E, havendo em Portugal tantas pessoas de mais idade e proporcionalmente tão poucas crianças, talvez esse facto contribua de algum modo para a expectativa dos meses de espera e para a festa com que se vive cada natividade.
Um facto maravilhoso fácil de constatar, e com que procuro cativar os meus alunos, é referir-lhes a improbabilidade de que, numa família, um nascimento traga a cópia de alguém que tenha nascido dos mesmos pais em datas anteriores, e muito menos de quaisquer outros pais do presente ou do passado, desde que a humanidade existe. E, para adensar o espanto, pode sempre referir-se, como costumo fazer, que, nos tempos futuros, por mais ou menos gerações que a espécie humana dure, não é provável que surja uma cópia exacta de alguém que hoje vive.
Ora, as nossas características biológicas, por assim dizer, são o resultado da expressão de um código que existe no núcleo das nossas células, inscrito numa substância (uma macromolécula) chamada ácido desoxirribonucleico (sigla ADN), muito longa e por isso muito condensada num certo enrolamento (à volta de proteínas), com muitos sectores (genes), correspondentes ao código das nossas características hereditárias (genéticas). Como não seria prático ter todos os milhares de genes humanos num só filamento, cada célula humana possui 46. Esses filamentos chamam-se cromossomas (porque se podem corar facilmente com certas tintas usadas para facilitar a observação ao microscópio óptico), e vinte e três desses cromossomas são herdados do pai e os outros vinte e três são herdados da mãe. Já as nossas características não hereditárias (desde o corte de cabelo às formas de convivência) resultam da influência do meio, em que se inclui a acção educativa.
Aqui, falamos de variabilidade genética. De onde surge essa variabilidade, quando e como?
Para os seres vivos se reproduzirem e originarem descendentes com variabilidade (genética) é que surgiu a reprodução sexuada, o único modo de multiplicação possível nos animais ditos superiores (uma planta, além da reprodução sexuada, pode reproduzir-se assexuadamente por «estaca», por exemplo, originando outra ou outras geneticamente iguais à primeira - o que corresponde à formação de clones, facto que o Homem aproveita há milénios). A reprodução sexuada exige a formação de células germinais (gâmetas) que têm que se fundir entre si, num processo chamado fecundação.
Quando os gâmetas se formam (na mulher começam a formar-se nos ovários, ainda antes do nascimento!, e nos homens formam-se nos testículos, a partir da puberdade), por divisão de células com 46 cromossomas, ocorre uma divisão celular especial em que as células-filhas ficam com apenas metade dos cromossomas da célula-mãe (divisão por meiose, que quer dizer «reduzir a metade»). Estas células produzidas aos milhões nos testículos e contando algumas centenas nos ovários adultos, podem encontrar-se na fecundação, originando então a primeira célula de um novo ser, chamada «ovo» ou «zigoto». Acontece que quando os gâmetas se formam, a partir de células com 23 pares de cromossomas [22 desses 23 pares dizem-se homólogos porque têm o mesmo tipo de informação genética, mas eventualmente não coincidente, por exemplo o carácter liso ou encaracolado do cabelo num e noutro dos cromossomas do mesmo par; e o vigésimo terceiro par corresponde aos cromossomas sexuais, que não têm o mesmo tamanho nem conteúdo genético equivalente], ocorre a separação aleatória dos cromossomas de cada par – recorde-se, um deles herdado da mãe e o outro do pai – de modo independente de cada um dos outros 22 pares. Assim, cada gâmeta recebe 23 cromossomas, mas tanto podem ser 12 de origem materna e 11 de origem paterna como o inverso ou ocorrer uma distribuição em qualquer outra proporção possível, por exemplo, 15 de origem materna e 8 de origem paterna. Portanto, cada gâmeta tem só metade do número de cromossomas das células do corpo (células somáticas), mas baralhados entre os que são herdados do pai e os que são herdados da mãe da pessoa em que são produzidos, num número de combinações que é de 2 elevado a 23, em que 23 se refere ao número de pares de cromossomas. Este número, no caso humano, corresponde a uma de 8.388.608 possibilidades para cada gâmeta formado, seja ele masculino (espermatozoide) ou feminino (ovócito II). Se não houvesse outra fonte de variabilidade genética (e há), a probabilidade de um dado espermatozoide, com uma das combinações de entre as mais de oito milhões e trezentas e oitenta e oito mil possíveis (precisamente aquele e não outro), se encontrar com um dado ovócito II (de entre um número igual de possibilidades), seria uma de 8 338 608 x 8 338 608 = 70 368 740 000 000 000 000. Ou seja, o inverso de um número mais de nove mil vezes superior à população actual da Terra!
Acontece porém que, antes ainda da separação dos cromossomas de cada par, há um fenómeno de permuta entre os genes dos seus cromossomas, recombinando os genes de procedência materna de um dos cromossomas com os genes de origem paterna do outro cromossoma, pelo que, após a separação, cada cromossoma, embora portador do mesmo número de genes, já os leva numa dada combinação, entre os que foram herdados do lado da mãe e os que foram herdados do lado do pai. Esse fenómeno chama-se «sobrecruzamento» e aumenta a variabilidade genética num factor cuja ordem de grandeza nem sabemos calcular.
Produzidos os gâmetas, todos «originais», o encontro entre espermatozoide e ovócito, em condições naturais, não se pode prever (quem casa com quem e quando e em que altura vai ser gerado um bebé?) e aí reside outra fonte de variabilidade.
Aqui, chegados, percebe-se que cada ser humano é fruto de uma «improbabilidade», de uma lotaria que saiu uma vez e não volta a acontecer (por comparação, acertar no totoloto, vezes repetidas, deve ser muito mais provável!). Podíamos dizer, por isso, que cada pessoa é um «milagre», uma preciosidade única, merecedora de um respeito profundo, só por existir, e de um maravilhamento afinal extensivo a cada criatura do planeta.
Há que ter alguma sensibilidade na análise, porém, pois que, em certo ano, em que eu, com todo o entusiasmo, explicava isto numa turma de alunos, verifiquei que uma menina ficara consternada: aproximou-se no final e disse-me desapontada: - «sotôr» eu acredito na reencarnação!

José Batista d’Ascenção

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Por amor às árvores e à floresta

Em Portugal, país com grandes áreas de floresta, que foi variando ao longo dos tempos, (mesmo considerando apenas o período após a sua fundação), temos na actualidade uma má relação com as árvores seja qual for o espaço em que crescem, desde os exemplares que escolhemos para os jardins das nossas casas às espécies que plantamos em meio urbano e muito especialmente à maneira como (não) olhamos (para) o coberto florestal. Creio que a origem do problema radica no facto de não conhecermos «A vida Secreta das Árvores». E esta dificuldade decorre em grande parte de outra, qual seja a pouca apetência e curiosidade pela leitura dos mais variados temas, se exceptuarmos os títulos relativos a questiúnculas do «pontapé na bola».
Pois a minha amiga Adelaide Abreu mostrava-me há dias o seu entusiasmo pela leitura de um livro escrito por um guarda-florestal alemão chamado Peter Wohlleben, com o título que se pode ler na figura ao lado. A edição é da «Pergaminho» e foi traduzida por João Henriques, com a chancela da Bertrand Editora, Lda, em 2016. Peter Wohlleben é o responsável por um «antigo e maravilhoso bosque» do município de Hümmel, no sudoeste da Alemanha. Claro que fiquei com água na boca, pelo que a minha amiga logo me fez chegar o livro, que não tardei a ler.
O conhecimento de Peter Wohlleben sobre árvores e sobre os ecossistemas de floresta, talvez seja apenas ultrapassado pelo amor e zelo que lhes devota e pelo respeito que julga (e bem) que merecem. O autor põe as árvores a «sentir dor», a ter algum tipo de «memória», a «aprender», a «ter medo», a «gritar», etc. Não se pense, no entanto, que é escrita fantasiosa, o próprio autor esclarece: «inteligência, capacidade de memória e emoções nas árvores é atualmente posta em causa pela maioria dos investigadores botânicos» (pág. 88). Mas percebe-se que há ali um conhecimento profundo da fisiologia vegetal, embora sem recurso aos pesados termos da ciência (excepto uma ou outra designação científica em latim de espécies de seres vivos), como convém a um livro que se destina ao grande público, mas deixando tudo bem explicadinho, em termos claros, simples, e… cativantes. Nada li neste livro que contrarie os conhecimentos científicos que adquiri na minha formação académica e que vou actualizando conforme posso.
Peter Wohlleben diz que «as árvores da floresta são seres sociais» (pág. 11), que comunicam entre si, pelo contacto das raízes, e, sendo da mesma espécie, alimentam as que estejam em estado de necessidade, assim como protegem e controlam as jovens descendentes sob a sua copa; e comunicam e actuam também pelo ar, libertando substâncias químicas com várias funções: alertar outras para a presença de pragas, eliminar micróbios indesejáveis, repelir insectos [o espaço debaixo da copa de uma nogueira é bom para instalar um banco de jardim, «pois é o local com menor probabilidade de se ser mordido por mosquitos» (pág. 162)], etc. As plantas são também capazes de estabelecer simbioses com outros seres como é o caso dos fungos, alguns dos quais, no solo florestal, «funcionam como a fibra óptica na internet» (pág. 19, ideia repetida na pág. 59), pois que «um único fungo é capaz de se expandir por vários quilómetros quadrados, interligando florestas inteiras» (pág. 19). Lição por demais sabida, mas nunca suficientemente enfatizada, é a da floresta como ecossistema complexo e denso de biomassa e de diversidade, acima e abaixo do solo. É no solo «que se encontra metade da biomassa de uma floresta. (…) Uma única colher de chá de um solo tem mais de um quilómetro de filamentos fúngicos» (pág. 91). … «A maior árvore do parque nacional da floresta bávara, com 600 anos, 52 metros de altura, 2 metros de diâmetro à altura do peito, tinha na sua copa 2041 animais de 257 espécies» (pág. 137).
Grandes captadoras de luz, fonte de energia para produzirem alimento e madeira, num processo conhecido por fotossíntese, é muito importante a possibilidade e o modo de exposição ao sol e o somatório da superfície das folhas, razão por que uma árvore caducifólia pode ter uma «enorme superfície folhosa de 1200 m2» (pág. 146). No processo fotossíntético liberta-se oxigénio molecular (O2), gás fundamental para a respiração dos animais (e das próprias plantas): «Num dia de Verão, as árvores libertam 10 000 kg de O2 por km2. Tendo em conta que cada pessoa utiliza 1 kg por dia, isso chega para abastecer 10 000 pessoas.» (pág. 223). Fundamentais para o sustento dos animais, de que são alimento por via directa ou indirecta (os carnívoros ou comem herbívoros ou comem carnívoros que comeram herbíboros…) e fonte de oxigénio, as árvores são também importantes factores de saúde [«O ar em jovens bosques de pinheiros é quase isento de germes, devido às fitoncidas libertadas pelas agulhas» (pág. 162); «há verificação científica de que a pressão arterial de quem passeia pela floresta sobe debaixo de coníferas e, pelo contrário, baixa em zonas de carvalhos» (pág. 222)]; as árvores são ainda e sempre factores de embelezamento e harmonia do ambiente e estímulo ou travão para a ocorrência de incêndios [«As (…) caducifólias não se deixam atear, pois a sua madeira não contém resina ou óleos essenciais. (…) Os sobreiros em Portugal ou em Espanha» (…) têm casca grossa que «protege do calor de fogos de superfície, permitindo que os rebentos que estão por baixo voltem mais tarde a brotar.» (pág. 208).
Muito rico, este livro, e com algumas surpresas: … «quanto mais velhas são as árvores, mais depressa elas crescem. (…) O lema de rejuvenescer as florestas para vitalizá-las deve ser no mínimo considerado falacioso», pelo que, «caso desejemos utilizar as florestas como meio de combate contra as alterações climáticas, então devemos deixá-las envelhecer». (pág. 103). Relacionado com factores do clima, é referido que «as florestas de coníferas do hemisfério norte libertam terpenos que originalmente funcionavam como defesa contra parasitas. Quando estas moléculas chegam à atmosfera, a humidade condensa-se nelas, o que faz com que se formem nuvens»… (págs 112-113).
Lá mais para o fim, um exemplo a seguir para não deixar morrer a esperança: «Existe entre os partidos alemães o consenso de que pelo menos 5% dos bosques devem ser deixados em paz, para que deles possam surgir as florestas ancestrais do futuro» (pág. 233). Tenho dúvidas se cá por Portugal alguma vez se terá falado em tal matéria nas conversações entre partidos ou no parlamento.
E a terminar, nos agradecimentos, a chave de muitos problemas, em frase que adapto: «Só quem conhece bem os segredos das árvores será capaz de as proteger» (pág. 245).
Ah, se houvesse em Portugal guardas das florestas como este!
Mas nem serviços florestais temos. E, curiosamente, já tivemos…

José Batista d’Ascenção

Adenda: O que fica escrito é apenas um pequeno conjunto de impressões subjectivas sobre um livro que (me) agradou. Os motivos de interesse e de curiosidade são muitos e muito interessantes. A riqueza profunda da obra só é apreendida por quem a ler na íntegra.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Por falta de amor às árvores e à floresta

A autoridade tributária fez-me chegar via e-mail, a mim como a outros contribuintes, uma mensagem de esclarecimento e apelo à limpeza obrigatória de matos e árvores na proximidade de casas e povoações. A mesma mensagem está também a ser divulgada em redes sociais como o facebook. Fundamentalmente, reza o seguinte:
…«limpe o mato 50 metros à volta da sua casa e 100 metros nos terrenos à volta da aldeia. (…) Se não o fizer até 15 de março, pode ser sujeito a processo de contraordenação. (…) as Câmaras Municipais podem substituir-se aos proprietários na limpeza do mato. Os proprietários são obrigados a permitir o acesso aos seus terrenos e a ressarcir a Câmara do valor gasto na limpeza.»
Por praticamente não ver televisão, desconheço se aquela mensagem está a ser divulgada através RTP. Também não sei se estará a sê-lo via RDP.
Tenho pena que as acções preventivas de incêndios não tenham sido iniciadas há meses, mas mais vale tarde do que nunca. A pressa não é boa conselheira e as medidas propostas são um procedimento de emergência, com fundamentação questionável até do ponto de vista ambiental.
Isso me transmitiu o meu querido e estimado Professor de sempre, Jorge Paiva, antes de mais uma partida para os trópicos onde vai ficar vários dias. Referia ele, com tristeza e alguma revolta, o trabalho de longo alcance e de longa duração (muitas décadas…) que é preciso realizar para termos florestas sustentáveis ecológica e economicamente, em contraste com o improviso e sempre o economicismo imediato e rapace ou o mero oportunismo ignorante dos agentes que deviam estar interessados numa outra gestão agro-florestal mais amiga das pessoas, da biodiversidade (sem a qual os humanos não vão sobreviver) e de um desejável equilíbrio ambiental de que dependemos estritamente. É que a Natureza não precisa do ser humano, nem deixa de existir nem de evoluir sem a espécie humana que (como qualquer espécie biológica) não é eterna. E tempo não lhe faltará para isso, ao invés da satisfação das exigências que a cada momento se colocam à sobrevivência das pessoas: alimento, disponibilidade de água e de oxigénio, condições de temperatura e de humidade atmosférica, etc. Alerta-nos, e bem, o Professor Jorge Paiva, de que precisamos de «serviços florestais», que já tivemos e deixámos de ter, como precisamos de plantar árvores e de (re)florestar com perspectivas de futuro (o que esbarra em interesses económicos imediatos), abandonando regimes monoespecíficos de pinheiros (chegámos a ter a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa) e de eucaliptos (que atingiram já a maior densidade de exemplares em termos mundiais relativamente à superfície do país), plantas estas que são altamente inflamáveis. Também é preciso que as populações possam lidar e viver com a (e da) floresta, enquanto fonte de recursos diversos, desde os imprescindíveis à fisiologia e à saúde aos económicos, mas respeitando sempre as leis da Natureza.
Assim mesmo, dado o desleixo a que chegámos e o perigo que matos, pinhais e eucaliptais representam para a vida das pessoas que vivem no interior ou viajam pelas suas estradas no Verão, é preciso começar por algum lado, pelo que dou por bem-vindas aquelas medidas, enquanto procedimento de emergência. E bom seria que os autarcas que as põem em dúvida, reclamando dinheiro, equipamento e tempo, pusessem mãos à obra e fizessem tudo o que seja possível enquanto o Verão não chega. De resto, se há tanto por fazer, isso também se deve à indiferença a que têm votado o assunto, só comparável ao desprezo e incúria dos governantes por uma tão grande área do país e pelas poucas e envelhecidas gentes que (ainda) lá habitam.
À minha amiga Aida Reis, que foi engenheira agrária dos quadros do ministério da agricultura, técnica competente e dedicada, e que morreu precocemente há não muitos meses, ouvi um dia dizer que «os portugueses não gostam de árvores». Realmente, quem olha para as nossas florestas ou repara nas margens de estradas nacionais ou nas «podas» (!) que se fazem nas árvores das nossas vilas e cidades, não pode deixar de concordar. Desbaratamos e desperdiçamos o que é uma riqueza fundamental, no presente e no futuro.
Os portugueses em geral parecem não relacionar as árvores com ar puro, temperaturas amenas, humidade do ar e dos solos, protecção contra a erosão, abrigo e habitat de imensa biodiversidade, senão como fonte de rendimento material imediato o qual, se não for materialmente lucrativo, dá lugar a abandono radical. Em consequência, resta a exploração intensiva de madeiras e a «indústria do fogo», que proporcionam negócios rendíveis que levam ao esgotamento dos recursos e à exaustão e destruição do território, em termos paisagísticos, ambientais e económicos.
Qual a eficácia com que vamos lidar com tamanho problema nos meses próximos é pergunta para que não temos resposta, mas que inspira as maiores preocupações, porquanto, ainda ontem, nas notícias das 08.00 horas, na rádio «Antena Um», se referia com ênfase e preocupação o estado de seca, nalguns casos severa, em que se encontram os solos do país e a baixa do armazenamento de água em barragens, devido à falta de chuva que precisávamos que ocorresse continuamente durante meses.
Como vai ser o próximo Verão, em matéria de incêndios?

José Batista d’Ascenção

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pensamento suave (e em voz alta) num dia de sol

Imagem do rio Cávado. Foto de José António Barbosa. Novembro de 2017
Dias como o de hoje, pela sua luz e amenidade, vencido que está o meio de Fevereiro, e depois de uns dias cinzentos e húmidos, aqui na cidade onde moro, fazem pensar na Primavera que se aproxima e são um estímulo a apreciar a Natureza, sentindo-nos parte dela, e, ao mesmo tempo, a pensar em nós, na nossa vida, nos que trazemos no peito, no que nos é próximo e na nossa maior ou menor comunhão com o mundo.
Esta manhã, a margem do Cávado, onde fiz o meu humilde exercício, estava tão luminosa e bela e serena, que nem a música dos pássaros, que ali ainda há muitos, além de outros bichos, mas esses silenciosos e discretos, desafinava da placidez de todo o ambiente e da paz de espírito que proporcionava. Por quanto tempo aquele lugar e aquela paisagem vão ser mantidos e cuidados assim, hoje não me assustou particularmente, como se a desmesura de harmonia e beleza do sítio, sob um manto de luz benfazeja do sol, fosse indestrutível e intemporal só por existir assim e assim poder ser maravilhosamente contemplada. Como se a fugacidade do tempo e a alterabilidade do espírito não afectassem a importância subjectivamente vivida daqueles momentos, naquelas circunstâncias e naquele local.
Fiquei assim, hoje. Os filhos vão bem, como (me) dizem sempre? Os netos, quando vierem (eu espero, expectante) hão-de ser cheios de energia e de esperança e de condições de viver (como gostaria)? Os familiares próximos, especialmente os de mais idade, em quem os cancros lavram e obrigam à luta, nalguns casos já muito desigual, vão curar-se (como me é tão necessário) ou resistir por quanto tempo? E aquelas pessoas de idade avançada a quem muito quero e que me são tão imprescindíveis, e que tomo como referência e exemplo, quanto tempo ainda vão poder continuar a inspirar e ajudar (efectivamente) pessoas como eu? A minha importância comparada com a delas é quase nenhuma. Elas fazem muita falta. Eu só faço falta a umas quantas pessoas, entre familiares e amigos, que me têm no peito (e como eu me sinto bem lá, dentro do peito delas), mas muitas pessoas (até sem emprego) podiam fazer o trabalho que eu faço (e melhor do que eu), e nada faço a ninguém nem por ninguém de verdadeiramente imprescindível que outros não pudessem fazer. Certo que aquelas pessoas deixam aos vindouros uma obra que continuará a ser útil e bela, mas se partirem antes de mim, fico como que perdido e desprotegido e, de algum modo, órfão. Isto normalmente perturba-me, mas hoje consigo escrevê-lo sem dificuldade.
O mundo das coisas e das pessoas é belo (muito belo) com reversos (quase permanentes) incrivelmente assustadores e feios. É injusto quase sempre, mas, de quando em vez, recto e imparcial. As pessoas são a consciência (humana) do mundo (tanto quanto podemos saber, por enquanto…) e o problema (sentido) do mundo (na realidade são apenas o problema de si próprias e/ou dos seus semelhantes). Progredimos? Temos progredido e muito. Mas o progresso não tem aproveitado a todos nem (muitas vezes) à maioria. E até onde vamos? Ou para onde vamos? Nem sequer sabemos bem como vamos… Como não sabemos racionalmente de onde viemos nem sabemos exactamente o que somos.
Mas hoje, estas e outras perguntas, tendo-me ocorrido, não me atormentaram (até agora). Creio que por ter sido um dia de sol. 
Às vezes é intensamente grato e bom e belo viver. Cabe-nos pugnar por isso até ao limite e partilhá-lo, por prazer e por dever ético.

José Batista d’Ascenção