terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O estilo e o ritmo de vida actuais e a produção de resíduos. Abordagem ligeira do problema dos plásticos

Imagem obtida aqui
Nas últimas três-quatro décadas, a produção de resíduos aumentou assustadoramente: desperdícios da indústria, invólucros e revestimentos de embalagens ou presentes adquiridos no comércio, lixos resultantes do ramo agrícola, do sector desportivo, do movimento turístico e dos espaços públicos, sobretudo urbanos, ou da actividade doméstica, parecem ocupar todos os espaços e «submergem-nos», seja pela sua volumosa e incomodativa presença, seja, principalmente, pelos prejuízos e malefícios que causam no ambiente e na nossa saúde, alguns deles, porventura, desconhecidos ainda.
Barragem Vacha, perto da cidade de Krichim em 25 de abril de 2009
O caso dos plásticos, no que respeita à sua produção e acumulação na natureza, dado que são muito lentamente degradados (tempos que podem se de quatro ou cinco centenas de anos), assume proporções dantescas. Nos oceanos, especialmente no Pacífico, mercê das correntes marítimas, formam-se ilhas flutuantes de plásticos acumulados com dimensões várias vezes superiores à superfície de Portugal (mais de sete vezes, fazendo o cálculo a partir de dados da Wikipédia). Animais marinhos e terrestres engolem objectos de plástico e morrem em consequência: há dias, o Professor Pedro Gomes, da Universidade do Minho, referia, numa conferência, que havia encontrado o esqueleto de uma raposa com um saco de plástico enrolado na zona da faringe (o animal teria ingerido ossos contidos no saco de plástico e morreu asfixiado). Há zonas costeiras que estão repletas de garrafas, sacos, caixas, tampas, entre muitos outros detritos de plástico. Nalguns casos, os frascos plásticos deitados fora continham produtos tóxicos que aumentam a contaminação do ambiente, exponenciando o perigo. E os rios são cada vez mais correntes de transporte de plásticos diversos, sendo que muitos deles ficam nas margens, enterrados nos sedimentos, podendo permanecer ali por muito tempo ou retomar a via descendente, a caminho do mar. Em certos países, como acontece na Índia, resíduos de plástico cobrem a superfície aquática dos rios de uma forma chocante e perturbadora. Nos campos em que há (ainda) actividade humana, o problema não é menor. E as bermas das estradas são muitas vezes faixas de acumulação de lixo, principalmente de plástico.
Lixo acumulado na costa de Manila Bay, Filipinas
Mas o problema maior dos plásticos talvez não resida principalmente no que está à vista. Na realidade, os plásticos vão-se fragmentando e as águas dos oceanos (de todos eles!) encontram-se repletas de micropartículas de polímeros que entram nas cadeias alimentares, não sabemos se e com que consequências, que neste momento não estamos em condições de prever quanto mais de prevenir. O que já sabemos é que mais tóxicos do que as unidades constitutivas dos próprios polímeros podem ser os aditivos químicos que se intercalam entre elas, desde corantes de tintas a outros componentes. E quanto mais pequenas são as partículas de plástico maior é a sua área relativamente ao volume, pelo que mais facilmente aquelas substâncias se libertam. Com que custos na fisiologia, na saúde e na sobrevivência dos organismos vivos, ainda estamos para saber.
Ora, há que reduzir a produção e utilização de plásticos por proibição legal, se o apelo à mudança de hábitos não fizer efeito, como não tem feito até aqui. Temos que reaprender a viver com menos plástico e a proibição, como aconteceu com os sacos de supermercado, tem que ser equacionada, pelo menos até se conseguir produzir polímeros para as mesmas funções, mas facilmente biodegradáveis, ou optimizar com grande eficácia a sua reciclagem.
De resto, exemplos como a proibição de fumar em recintos fechados ou de conduzir sem cinto de segurança mostra(ra)m a eficácia da via proibitiva legal.
Se queremos manter a «casa» (planeta) em condições humanamente habitáveis.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Curiosidades interessantes do livro «Todo o mundo é composto de mudança, considerações sobre o clima e a sua história», de João Alveirinho Dias.

Étimo de «clima»
Etimologicamente «o termo “clima” derivou do grego κλίμα [Klima] que significava inclinação do Sol.» Hoje, «a acepção do termo é algo diferente». (pg.2)

Dificuldade em definir «clima»
Em citação de um artigo do «insigne geofísico e meteorologista português, José Pinto Peixoto (1922-1996)», que adaptara uma frase de Sto Agostinho (354-430) sobre o conceito de tempo, surge na página 1 (em latim e logo depois traduzida para português) a seguinte frase: «O que é o clima? Se ninguém me perguntar o que é, eu sei! Se me perguntarem e eu quiser explicar, não sei!»

Diferença entre «clima» e «tempo»
Frequentemente confunde-se «clima» e «tempo» (estado meteorológico). «Tempo é o que acontece na atmosfera em determinado momento; clima é o que as estatísticas nos dizem que ocorre, em média, ao longo de muitos anos, o que nos permite deduzir o que acontecerá nos anos seguintes. Assim, clima é, de certa forma, uma construção estatística.» (pg. 5)

Desníveis da superfície oceânica
Devido às variações da força gravítica em resultado das diferenças de densidade das rochas do fundo oceânico, «a superfície livre do oceano tem (…) relevo, havendo uma diferença de mais de 150 m entre o ponto mais alto e o mais baixo.» (pg. 20). Porém, como o valor da gravidade é o mesmo em todos os pontos da superfície, este tipo de variação do nível das águas não causa qualquer corrente «(apenas induziria um fluxo hídrico se houvesse diferenças no valor da gravidade, como acontece nos rios).» (pg. 21)

Superfície média do nível do mar baseada em
16 anos de dados altimétricos satelitários (pg. 21)
O desníveis da superfície oceânica derivados de outros factores, como o vento, as variações de pressão ou a radiação solar, actuam cada um por si ou conjugados, dando origem a correntes ocasionais, com influência no clima regional.







Correntes oceânicas – importância fundamental no clima, e não só…
Como «a energia que o oceano recebe do Sol varia consoante a latitude, criam-se gradientes térmicos que impulsionam movimentos da água do oceano num fluxo contínuo, isto é, correntes marítimas. […] Os ventos de superfície, os gradientes de salinidade, as marés e a rotação da Terra são também geradores importantes de correntes marítimas.» (pg. 19)
As grandes correntes oceânicas superficiais recebem o nome de «giros» e modelam o clima do planeta. Um dos giros mais importantes das águas oceânicas é o «Giro do Atlântico Norte», que transporta calor das regiões tropicais para latitudes mais elevadas. Esta corrente oceânica tem uma componente chamada «Giro de Recirculação» que faz reter materiais levados à superfície no Mar dos Sargaços, acumulando aí uma grande quantidade de lixo produzido pelo Homem, designadamente plásticos. «O ciclo de circulação (ou giro) do Atlântico Norte (…) demora cerca de dez anos a percorrer». (pg.24)
Giro do Atlântico Norte. As setas vermelhas representam
 correntes de águas quentes, e as azuis, de águas frias. (pg. 24)
As grandes correntes oceânicas ocorrem também na coluna de água ou junto ao fundo, influenciadas pelas variações de densidade, que dependem da temperatura e da salinidade. Por isso, essas correntes se designam «termohalinas».

A circulação termohalina global tem um ciclo «que demora várias centenas de anos, apontando várias estimativas para valores da ordem dos 1000 a 2000 anos.» (pg. 31) Como estas águas circulantes movimentam também os nutrientes minerais, as zonas de proveniência de águas profundas, ricas em nutrientes, constituem zonas de excelência piscatória.
Circulação termohalina global, apelidada “conveyor belt”
 ou “correia transportadora” (de calor). (pg. 30)

A circulação termohalina global ter-se-á mantido desde a última glaciação, há 10 ou 12 mil anos, mas «é vulnerável a modificações rápidas e significativas» (pg. 32) com influência directa na regulação global dos climas.





José Batista d’Ascenção

Adenda: As curiosidades referidas são apenas algumas das que o livro contém. Maior precisão dos conceitos usados neste texto requerem a leitura do original.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Alterações climáticas e senso comum. O livro «Todo o mundo é composto de mudança, considerações sobre o clima e a sua história», de João Alveirinho Dias, faz luz sobre o tema.

A Europa tem vivido estes dias sob uma vaga de frio que, mesmo sendo Inverno, não deixa de ser acentuada. Portugal, mais a sul e próximo do oceano apresenta temperaturas não tão extremas, mas ainda assim um pouco baixas para o que estamos (ou passámos a estar) habituados.
Acontecimentos deste tipo levam alguns, por razões diversas (em que se incluem lutas desenfreadas de competição económica), a questionar e até a ironizar sobre o chamado «aquecimento global». O caso mais preocupante será o do presidente dos EUA., pelo cargo que ocupa, pela influência que tem e pelo poder que representa. Opostamente, outros vêem em qualquer extremo climático pontual uma consequência directa da ação humana. Convém que estudemos um pouco.
E sobre esta matéria há informação disponível bem compilada e bem analisada, em termos científicos e em termos linguísticos, pelo que podemos compreender o fundamental de certos fenómenos associados ao clima e às suas variações. O livro intitulado «Todo o mundo é composto de mudança, considerações sobre o clima e a sua história. I Sistema Climático Terrestre. CIMA. Faro. Portugal. 2016», de João Alveirinho Dias, a que acedi usando o mural do facebook do autor e que descarreguei, em versão PDF, cumpre bem essas funções. Este livro, com 77 páginas, foi o meu entretém dos últimos dias, nos intervalos que a «correcção» de testes me deixou livres e muito dele aproveitei. Por essa razão, julgo-o particularmente útil para professores de biologia e geologia, de geografia ou mesmo de história, mas também para outras pessoas com formação académica superior ou não.
Logo no prefácio, surge a ideia de que «o clima está sempre a modificar-se», pelo que «para entendermos o clima actual e podermos perspectivar o futuro é preciso conhecermos como foi o clima no passado». Ora, hoje, o clima «é um tema que desperta paixões e polémicas (…), principalmente no que respeita à influência do Homem na modificação climática em curso». «O clima é a média de diferentes parâmetros ao longo de um período alargado (algumas décadas).» E quando se trata de médias é preciso certo cuidado, para não cairmos em erros fáceis: basta lembrar que «anos em que o Inverno foi muito frio mas o Verão foi muito quente podem ter a mesma temperatura média anual de outros anos em que o Inverno foi ameno e o Verão foi moderado». Estando o clima sempre a modificar-se, hoje como no passado, temos que contrariar a tendência para «ver modificações climáticas em ocorrências singulares. […] [que] não traduzem qualquer tipo de modificação climática». Além de que, «uma das características constantes do clima é a sua grande variabilidade, atingindo por vezes valores extremos que só se voltam a repetir passados muitos anos.» Por isso, «a introdução do termo “normal”, no léxico meteorológico e climatológico revelou não ser o mais adequado». O «clima é uma entidade complexa» que não se define de forma simples e objectiva, porque não é constante (contrariamente à «noção que perdurou até por volta dos anos 60 do séc. XX»), «não se sabendo bem qual é o melhor período [temporal] para [o] definir»… 
A finalidade do livro é «sabermos como é que o clima funciona e quais são os múltiplos factores que o influenciam». A modificação climática actual sofre, naturalmente, a influência das actividades humanas: «cidades com extensas superfícies impermeabilizadas, com múltiplos aparelhos de regulação térmica, que as transformam em ilhas de calor, criação de grandes corpos hídricos, como a barragem do Alqueva, que aumentam a humidade nas regiões vizinhas», por exemplo. E o livro progride com informações sobre a complexidade do sistema climático terrestre e sobre os diversificados factores que o afectam: astronómicos (como os movimentos da Terra, a obliquidade do seu eixo, a excentricidade da órbita e outros), geológicos (tectónica de placas, vulcanismo) e biológicos (cobertura vegetal do solo, fotossíntese).»
«Diferentes reconstruções das variações de temperatura nos últimos dois milénios»,
segundo autores diferentes. «Anomalias referentes a médias (nem sempre as mesmas)
 da 2ª metade do século XX.» (Mais especificações no original)
Os factores que governam o clima «actuam em escalas temporais diversificadas, que vão das décadas aos milhões de anos e interagem frequentemente de forma não linear, [n]uma intrincada rede de processos físicos que só agora começamos a perceber»… Sabemos que o clima é uma manifestação atmosférica, mas esquecemo-nos de que «a atmosfera, tal como a conhecemos […] nem sempre existiu.» Em termos de análise, o clima é uma resultante estatística de estados do tempo (estados meteorológicos em certos momentos), e não deve confundir-se com eles.
Reconstrução das temperaturas a partir de testemunho de gelo
(ver especificações no original), entre há 5 000 anos e há 95 anos.
Marcaram-se os períodos frios a azul e os quentes a vermelho,
separados pela média das temperaturas no período. Em baixo, a
azul claro, representa-se o forçamento climático devido à actividade
vulcânica, estimada com base na presença de sulfatos.
Este livro está redigido de forma clara (até com recurso à poesia!) mas densa e com informação técnica tão precisa, que, tentar resumi-lo, daria um «resumo» (cópia) com a mesma extensão do original.
Em consequência, por agora, acrescenta-se apenas que «quanto ao que se passa actualmente com o clima sabe-se que, em média, as temperaturas estão a subir», mas não podemos (ainda) saber se se trata de variação climática ou se é uma modificação (mudança) do clima, sendo que que há imensa confusão de termos usando-se «variação» climática e «modificação» climática como se fossem sinónimos, e não são…

José Batista d’Ascenção.

Adenda 1: O uso de aspas corresponde a citação literal do texto da obra em apreço.

Adenda 2: Se, porventura, o autor do livro passar os olhos por este escrito, e o mesmo não lhe agradar por algum ou por vários motivos, o que seria normal, faça o favor de manifestar a discordância sincera e severa que julgue merecer e que antecipadamente se agradece.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Conhecimento básico e qualidade de vida

Imagem colhida neste sítio
A formação dos indivíduos e a sua preparação em domínios básicos do conhecimento científico alteram para muito melhor a qualidade de vida das sociedades, seja em termos de satisfação pessoal no dia-a-dia, seja em poupança económica, seja na saúde e na prevenção de acidentes, não raro mortais. Por isso reputo de fundamental a aprendizagem escolar, entendida no sentido (mais clássico) da aquisição de conhecimentos teóricos e da sua (conveniente e necessária) aplicabilidade prática concreta.
Lembro-me do cuidado de um colega estudante universitário, já quase licenciado em matemática, para que tinha uma inclinação notória e um gosto especial, que conheci quando fui morar para uma residência de estudantes, ao tempo em que também eu andava na universidade, sempre que o frio o obrigava a ligar à tomada eléctrica um irradiador de resistências: o seu medo era que o aparelho ligado lhe consumisse o oxigénio do quarto, motivo por que abria a porta ou uma fresta da janela. Espantado, disfarcei como pude e tentei explicar-lhe que o calor proveniente das resistências ao rubro não correspondia a uma combustão e que, por isso, era infundado o seu receio. Não me adiantei no esclarecimento do que é uma combustão e da propriedade comburente do oxigénio. E pareceu-me que não o convenci…
Imagem retirada daqui
De outra colega com quem partilhei a cozinha de uma casa, quando ambos iniciávamos a vida de professores, recordo a sua preocupação de que a panela ao lume do fogão (a gás) fervesse sempre a bom ferver, para o que mantinha a boca no máximo, o que exigia que estivesse sempre alerta para que a água em alta ebulição não saltasse da panela e apagasse a própria chama. Um dia tentei dizer-lhe que, estando o cozido em franca fervura, fenómeno que ocorria a uma dada temperatura, não valia a pena gastar mais gás, com a boca no máximo, porquanto aumentava o consumo, sem aumentar a temperatura de cozedura, e aumentava também o (meu) trabalho a arrumar a cozinha no final (erro meu, porque, nabo em culinária, já nessa altura me remetia às tarefas de limpeza e arrumo após as refeições, condição que não contribuía para valorizar o meu «estatuto» e, por consequência, a minha opinião…).
A algumas pessoas de família procurei (com diplomacia…) convencer de que o zelo em lavarem a boca e escovarem os dentes antes de tomar o pequeno-almoço, não o fazendo a seguir, era um trabalho incompleto e mal feito, tal como se lavássemos as mãos antes de ir à casa de banho e não depois. Se «sujamos» os dentes ao comer é imediatamente depois disso que os devemos lavar, para que não fiquem «sujos» e para evitar que a fermentação dos restos produza ácidos que os vão corroer. E aqui tive sucesso. Também os meus filhos entenderam, aceitaram e praticaram isso desde sempre, com a mesma receptividade e concordância que sinto nos alunos quando tenho oportunidade de lhes falar nisso.
Imagem obtida aqui
Um fenómeno que me impressiona, especialmente quando vem de pessoas cultas com formação universitária é a convicção de que, tendo bebido às refeições, é possível escapar à eficácia dos balões das polícias na estrada. Com uma crença inabalável, referem mais do que um modo de escapar à detecção, por exemplo mediante a prévia ingestão de café sem açúcar, que «corta o álcool», dizem! Acabrunhado, discordo com suavidade, referindo, quando me é dada a oportunidade, que o álcool absorvido para a corrente sanguínea é eliminado fundamentalmente por  metabolização no fígado, que é a via principal (90%), e pela contínua evaporação nos pulmões (motivo por que as pessoas embriagadas cheiram a etanol) e alguma excreção renal e pelo suor, donde não haver maneira de iludir a sua presença no organismo… Mas é desconfortável desdizer as “certezas” das pessoas, tanto quanto é gratificante a receptividade com que os alunos recebem esclarecimentos deste tipo.
E há mesmo situações que, de tão comumente esclarecidas, como em tempos foi feito com certos anúncios publicitários de prevenção em organismos públicos de comunicação social, espanta que continuem a verificar-se: é o caso daqueles que, tomando bebidas como o uísque, estão convencidos ou insistem em convencer-se de que, se lhe juntarem uma água mineral ou várias pedras de gelo, diluem o álcool e por isso lhes faz menos mal. Ora, como o álcool é muito eficazmente absorvido no intestino, todo ele passa para o sangue, quer tenha sido bebido mais concentrado ou mais diluído…
E há muitos, muitos casos parecidos, como a ideia de que um café «comprido» tem menos cafeína, ou que um acrescento de água na panela da sopa faz diminuir o sal em excesso que se lhe juntou, etc.
Infelizmente, erros como estes e outros, repetidos ao longo de vidas têm consequências severas na saúde, na carteira das pessoas, na economia do país e, tantas vezes, na própria vida. A prevenção de acidentes em casa ou nas estradas, e dos incêndios (na floresta, em espaços abertos como aconteceu num festival de Verão no início de Agosto de 2016, em edifícios onde funcionam associações, etc.) ou o cumprimento de certas normas de higiene pública e de ecologia, também passam por aqui, porque diminuem a ignorância e a inconsciência, vulgo irresponsabilidade, das pessoas, melhorando a percepção do perigo e do risco inerentes a certos actos e procedimentos.
Por isso, o papel da escola é tão importante, sendo erro indesculpável desvalorizá-la ou prejudicar a sua função.

José Batista d’Ascenção

domingo, 14 de janeiro de 2018

A prevenção de incêndios que (não) fazemos

No dia 07 deste mês, no jornal «Público», Frei Bento Domingues faz incidir o seu artigo habitual de domingo sobre a tragédia dos incêndios em Portugal. E fá-lo com muita clareza e pertinência, segundo julgo. Nesse artigo Frei Bento Domingues diz «voltarei ao assunto», motivo por que esperei pelo jornal de hoje, curioso sobre o tema. Mas aquele «voltarei» não indica quando, e o tema de que se ocupa nesta data é outro. Aguardarei.
Não deixo, no entanto, de registar o que, nesta matéria, propõe aquele membro do clero, tão sensível e preocupado quanto lúcido e prático. Depois de apelar a um envolvimento da igreja, de toda a igreja, a exemplo do Papa Francisco, nesse documento ecológico que é a encíclica Laudato Si (livro de leitura obrigatória para todos os professores de ciências naturais, em minha opinião), em que se acentua «a responsabilidade de todos no cuidado da Casa comum», Frei Bento Domingues pergunta, relativamente ao tema, que acções ou iniciativas desenvolve(ra)m os bispos nas suas dioceses, os párocos nas suas  paróquias e que fizeram os responsáveis pela orientação ecológica da catequese e quais são os programas dos colégios católicos, da Universidade Católica, dos movimentos diocesanos, da Rádio Renascença e das congregações religiosas, finalizando do seguinte modo:
«Aqui vai uma sugestão que precisa de diferentes desenvolvimentos. Começaria por desenhar, com alertas bem visíveis, em cada lugar, um mapa que assinalasse o que é urgente e possível fazer já, ao nível da prevenção, pelas próprias populações, com a ajuda do poder local, regional ou nacional, se for o caso. Nesta sugestão, ao referir em cada local, é para se ter, de norte a sul do país, todo o território marcado de tal forma que não se continue com a conversa fiada sobre o nosso crónico défice democrático. Como fazer? Voltarei ao assunto, mas a prática para que este texto aponta não precisa de esperar.»
A meio da semana, quarta-feira, dia 10, no telejornal do Canal 1 da RTP, pude ver e ouvir, de fugida, vários autarcas queixando-se do que entendem ser a transferência de responsabilidades do governo para si próprios, quando lhes falta dinheiro (sempre a mesma ideia, a de atirar dinheiro para cima dos problemas, que não é mais nem diferente do que o que inutilmente se tem feito até agora) e tempo. Acontece que os autarcas têm precisamente nesta matéria uma enorme responsabilidade que nunca vi nenhum assumir. E têm-na na sua condição de autarcas e na de membros formais dos organismos da «protecção civil» que, nas zonas do interior florestal, têm sido praticamente inúteis. Por outro lado, gastam-se enormes quantias em rotundas, não raras vezes enfeitadas com «obras de arte» de gosto questionável e dispendiosas, em festas mais ou menos comicieiras e excursões (gratuitas!) com os mesmos objectivos, mas não se limpam os matos que quase cobrem as habitações de velhinhos solitários e desprotegidos ou fazem de estradas e caminhos túneis de vegetação meia seca meia verde, à espera de uma chispa de lume… O papel destes autarcas deve (também) incidir no envolvimento e responsabilização das pessoas, designadamente os proprietários de fracções florestais ou de terrenos incultos próximos de habitações, nas acções de limpeza e no ordenamento que é preciso executar.
Na sexta-feira, 12, à noite, ouvi palavras do ministro da administração, na rádio Antena 1, referindo a necessidade de tempo (creio que falou em dois anos) para se fazer toda a prevenção desejável.
Nesta matéria convém que as populações sejam chamadas à sua imprescindível participação e que os autarcas, a «protecção civil» e o governo não se especializem em empurrar responsabilidades uns para os outros e que todos façam(os) alguma coisa mais efectiva. E não vejo nada de mais necessário do que proceder, primeiro, a acções de limpeza nos sítios identificados como mais perigosos e prioritários, ao uso de fogo controlado (que os bombeiros devem estar capacitados e autorizados a realizar), nos casos necessários, e depois, à actualização dos cadastros dos terrenos e ao ordenamento florestal.
Desgraçadamente, no próximo Verão o que ardeu no Verão passado não oferece perigo. Mas não podemos viver irresponsavelmente como o temos feito nas últimas quatro décadas. Tudo o que gastámos a tentar combater incêndios creio que daria para termos as nossas aldeias e cidades protegidas e tínhamos ainda a riqueza dos produtos florestais e da qualidade do ar e da paisagem.
Ainda vamos a tempo de fazer muito antes do Verão. Há muito que devíamos ter começado, mas cada dia que passa é menos um dia que temos para cuidarmos de nós e dos que hão-de vir.
Não nos resta outro caminho.

José Batista d’Ascenção

domingo, 7 de janeiro de 2018

Aqueles que partindo permanecem no íntimo de nós mesmos

Felizes os que na vida encontram quem lhes queira e faça bem sem que se descortine algum motivo especial para que isso aconteça. Eu também tive essa sorte: quando, no início da década de 80 do século passado chegava à universidade, em Coimbra, oriundo do interior profundo, metido comigo, e olhando à volta sem deslumbramentos, tão reconfortante como a amizade de uns quantos colegas de curso foi o carinho e protecção que logo senti em casa dos pais de uma querida amiga desde esses tempos, daquelas que o são para sempre. Refiro-me ao Senhor Hilário Figueiredo e à D. Elisa Rocha Assis, Figueiredo pelo lado do marido, que logo me «adoptaram», como fizeram com outros, ali vizinhos ou vindos de longe como eu.
O Senhor Hilário era um alentejano bem-disposto, de sorriso aberto, coração grande e gesto largo, incapaz de alimentar conversas sobre os defeitos de quem quer que fosse, na razão inversa das qualidades que sentia prazer em destacar. O gosto de sentar alguém à sua mesa, a amizade franca e a facilidade de conversar sobre quaisquer temas eram tão autênticos, envolventes e transbordantes que os convivas sentiam um à-vontade sereno e agradável e reconfortante a partilhar uma espécie de doce camaradagem. Para isso contribuía igualmente a D. Elisa, cozinheira de gabarito, muito atenta à mesa e ao prato dos comensais, que fartamente servia, acentuando sempre a frugalidade de cada um, mesmo quando já haviam sido servidos por ela segunda e terceira vez, como se adivinhasse quanto alimento pode caber na barriga de crianças em crescimento ou jovens de muita sustância. Então, quando chegavam as sobremesas, não havia glutão que não se desse por saciado.
Ao longo do curso, um grupo de seis colegas, três rapazes e três raparigas (a Cristina, a Teresinha, a Teresita, que o cancro nos roubou pouco depois da licenciatura, o Aires, o Licínio e eu – que saudades, queridos Amigos!) passámos a dar-nos bem e, aquando das provas de frequência e exames, combinávamos umas sabatinas, depois de cada um ter estudado sozinho as matérias, sendo que boa parte das sessões foram em cada da Cristina, ou seja, da D. Elisa e do Sr Hilário. Após horas de discussão das dúvidas de cada um, a maior parte das quais não eram comuns e por isso eram esclarecidas logo ali, por quem soubesse, para além do proveito do estudo e do prazer de estar juntos, nunca faltava a D. Elisa com os seus cuidados, fazendo-nos chegar tabuleiros bem recheados, à maneira de merenda ou ceia, se não descíamos nós, por insistência dela e do Sr Hilário, à mesa posta.
Por essas e por outras, muitas vezes me sentei à mesa destes meus amigos. Mas ali, o bom não era restrito às refeições. Eu era capaz de falar gratamente com aquele casal sobre qualquer assunto, de uma forma muito fluida e gratificante. E também podia ficar em silêncio sentindo o mesmo bem-estar, sem nenhuma contrariedade. Isso acontecia, por exemplo, quando ficava a ler os jornais, que, por sinal, eram exactamente os que eu gostava de ler, inteirando-me de notícias e reflexões pelo menor dispêndio.
Esses jornais morreram. Há anos morreu também o Sr Hilário, o que foi para mim uma perda imensa. Como precisava muito dele, esforcei-me por esquecer em que ano, mês e dia partiu e, quando voltei à sua casa, nunca referi a sua ausência, nem me demorei a senti-la, porque a D. Elisa, a Cristina, a minha querida amiga, sua filha, o marido dela, mais um amigo do peito que ganhei, e a filha destes, a Ana Rita, menina da idade do meu filho mais novo, fizeram sempre uma festa de cada uma das minhas visitas e estadias (não escrevo estadas…), sozinho ou com a minha mulher ou com a minha mulher e com os meus filhos. Naquela casa, em Santo António dos Olivais, em Coimbra, senti-me sempre invariavelmente muito bem, não sei se por ali poder ser profundamente igual a mim próprio e por me sentir tão estimado e acarinhado. A D. Elisa, então, tratava-me com uma veneração que, a meus olhos, nunca, em tempo algum, mereci. Com sinceridade, disse-lhe, mais que uma vez, que ela via em mim as qualidades que não tenho. E ela ignorava, simplesmente. Por via da sua casa, a minha estima alargara-se aos vizinhos próximos (à D. Fernanda e família, à D. Maria José e ao marido, o Sr Joaquim, à D. Rosa e ao seu marido, o Sr Manuel), pessoas bondosas que, penosamente, deixei de visitar. E ainda havia as crianças e jovens das suas casas, como o Huguito e a Raquel, a Belita e a Fernanda e a Manelinha, entre outros, que eram uma doçura e uma alegria, entrando e saindo respeitosamente mas sem cerimónia pela porta daqueles amigos, ora uns ora outros e por vezes todos.
Foram tempos. Agora, foi a vez de a D. Elisa partir. Sinto-me mais só. Tive sensação idêntica quando a minha avó materna morreu. A minha avó, como se dizia lá na aldeia, era minha mãe duas vezes e eu creio que era mais do que isso. A D. Elisa foi outra mãe que tive, já crescido.
Mas sou pessoa de sorte: pela insubstituível mãe que tenho e pelas outras mães que tive e que ninguém substituirá.
Guardo-as estremecidamente.
Obrigado. Para sempre.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Bebedor de Horizontes

Livro três de «As Areias do Imperador», uma trilogia moçambicana, de Mia Couto

Na sequência do livro um, «Mulheres de Cinza», e do livro dois, «A Espada e a Azagaia», o livro três, «O Bebedor de Horizontes» completa a mais recente obra literária de Mia Couto.
O conteúdo geral versa sobre o fim do chamado Estado de Gaza, dirigido por Gungunhana, imperador dos territórios da metade Sul de Moçambique, às mãos de Mouzinho de Albuquerque, nos finais do século XIX (1895).
Este terceiro livro incide sobre a viagem de deportação de Gungunhana, com o filho, um tio e conselheiro, mais o cozinheiro e sete das suas (mais de trezentas!) esposas. Noutro local da margem do rio Limpopo foi preso outro chefe tribal, de nome Zixaxa, que é igualmente deportado com três das suas mulheres. A narradora é uma jovem negra, muito inteligente e belíssima, chamada Imani Nsambe, que havia estudado numa missão católica e que fala e escreve perfeitamente a língua portuguesa, tão bem ou melhor que qualquer distinto português. Por isso serve como tradutora das autoridades portuguesas, desde Mouzinho de Albuquerque aos comandantes dos navios da viagem de exílio. Esta viagem tinha por motivo exibir os prisioneiros, mostrando ao mundo que Portugal dominava efectivamente os territórios africanos, em tempos do ultimato de Inglaterra.
Imani Nsambe viaja grávida de um sargento português que fica em África. Tem apenas 15 anos. Nascido o filho, perde-o para a própria sogra, que lho tira como se fora seu por ser filho do seu filho (ainda por cima «clarinho!») e a mãe preta não ter quaisquer direitos sobre ele. Imani, mesmo grávida, é alvo e objecto dos apetites sexuais dos homens com quem viaja, que incluem o permanentemente embriagado, enlouquecido e impotente (!) Gungunhana (com intervalos de lucidez: «as batalhas ganham-se com armas. Mas as guerras ganham-se com mentiras» pág. 97) e um odioso sargento com poder e instintos cruéis. Mas também é admirada e respeitada, quer pelo capitão rival de Mouzinho de Albuquerque, quer pelo comandante do navio África, que faz a viagem de Lourenço Marques para Lisboa, que a estima com profundo carinho e amizade (escreve, este: «se não há futuro tornamo-nos iguais aos bichos. E não há melhor para as guerras que um bicho fardado de soldado.» (pág. 248). Imani terá uma vida longa, mas afastada do filho, e nunca mais vê Germano de Melo, que é o pai dele. Germano fez questão de ficar em Lourenço Marques, afastado da sua terra, da mãe, de Imani, e do filho de ambos e com as mãos decepadas por um tiro disparado pela própria Imani. Isso havia acontecido num gesto de desespero, para defender o seu irmão, um diminuído mental que seguia à frente de uma turba que marchava sobre o posto militar de Germano. Um acidente de tal monta não impediu a paixão de Germano por Imani e de Imani por ele. Imani regressa a África, primeiro deportada para S. Tomé, onde é posta a servir num bordel para o exército, seguindo, após 15 anos, para a sua aldeia natal. Decorrem mais 63 anos. Aos 95 está enlouquecida e irreal, tão irreal quanto o imaginário surpreendente das tribos africanas, seja na visão da natureza, no íntimo das pessoas ou na convivência entre elas e até no modo de encarar a crueldade e humilhação, para além da mera sobranceria comum nos seres humanos em posição dominante [numa carta, escreve Germano de Melo, sensível à africanidade …«os ingleses pensam de nós (refere-se a portugueses e italianos) aquilo que nós pensamos dos africanos.», pág. 125. Noutra passagem, é Imani que reflecte: «Sucede sempre assim, os humilhados acabam por ficar iguais aos opressores.», pág. 174].
A narrativa é toda ela incisiva e clara e fantástica e maravilhosa, até nas partes mais cruéis. E há valor histórico e factual, imerso no romance. E particularidades objectivas interessantíssimas, por exemplo: “No tempo das caravelas, não eram as tempestades mas as calmarias o que os marinheiros mais temiam. A região do Equador era rica em sol, mas pobre em ventos. Sempre que um navio se imobilizava, não eram apenas os alimentos que se deterioravam: a disciplina e o sentido de hierarquia também se degradavam. Havia que criar uma válvula de escape, uma espécie de carnaval em que todos podiam ser todos. Foi assim que nasceu o ritual da travessia do «espinhaço do Mundo».”, pág. 238.
Notável, a pena de Mia Couto, disseca e expõe a fundura da natureza humana, sem contemplações, nas suas grandezas e misérias, alargando e reinventando a língua portuguesa como mais ninguém nunca o terá feito [Diz uma das mulheres de Gungunhana: … “o vento canta. Porque já foi um pássaro. Em menina eu dizia que o vento «assopiava»”, (pág. 81). Noutra passagem refere-se: “Deve haver um sol dentro deste rio [o Tejo]. Só assim se explica a luz de Lisboa. (…) a cidade deveria chamar-se «Luzboa».” (pág. 261). Ou ainda, em fala de Imani no fim da vida: «Este meu corpo é feito de despedaços», pág. 363].
Ao lê-lo, sinto que se eu tivesse um prémio Nobel da literatura corria a entregar-lho e a agradecer-lhe por, a meus olhos, há muito o merecer. É claro que este meu sentimento pode ser criticável tendo em conta que há muitos bons autores de língua portuguesa que nem sequer li, outros que dificilmente vou ler e também outros que deixei de ler. Mas estou à vontade, por não vir daqui nenhum mal ao mundo – é apenas um sentimento meu e ponto. Mas não digo ponto final, acalentando a esperança de que lho atribuam, algum dia.

José Batista d’Ascenção

Adenda: Este resumo é nada comparado com o livro. Por isso me alarguei um tanto, sem receio de que a alguém bastasse para economia de esforço: o que seria um erro estúpido, felizmente improvável, tão pequeno é o número dos que o hão-de ler.