sábado, 9 de dezembro de 2023

Dezembro, cai chuva miudinha

Dia cinzento e molhado, no Minho. Há quem deteste, eu aceito e penso nas vantagens. O tempo assim convida(-me) à reflexão. Precisamos de chuva (bem chovida) e temo-la, como devia ser próprio da época. E, chovendo, nem o frio é tão extremado. Talvez esta aguinha sirva para retardar os queixumes de seca, como é costume, daqui por seis meses, ou antes.

Por outro lado, os meus netos e filhos e filhas (as mulheres deles) estão quase a chegar. Cuido que o desejo deles não é inferior ao meu e ao da mulher. E, se continuar a chover, quando vierem, tanto dá: ficamos em casa e (ainda) estamos mais juntos. Se fizer bom tempo vamos passear e divertir-nos em espaço amplo, o que também sabe bem. Está quase! Na escola, as aulas vão interromper-se dentro em pouco. Os resultados dos meus cachopos são bastante razoáveis, pese aqueles (poucos) casos que não me deixam descansado. Mas estou cheio de sorte este ano. E é isso que interessa.

Venham os jovens e os mais jovens, não surjam problemas maiores de saúde ou outros e o Natal vai ser bom e feliz.

Boas Festas, de que tanto precisamos.

Eu já estou a saboreá-las.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

O enigma da cultura

Menos imerso em leituras do que há tempos atrás, tenho lido os textos de Oliveira Martins, no livro «A cultura como enigma». É um homem de profunda cultura, o autor. E são interessantes os seus artigos, reveladores de muito saber, muitas vivências e muita(s) leitura(s). Tantas leituras que Oliveira Martins refere logo na primeira página: «Penso que o vício dos livros veio no meu código genético».  Uma frase de sentido forte e nítido, afectivamente (muito) verdadeira, mas factualmente falsa. Ninguém nasce com quaisquer genes para a leitura. É preciso berço favorável e uma infância com estímulo para o amor aos livros. Ninguém ama o que desconhece. Infelizmente, o ambiente familiar da maioria das crianças portuguesas não reúne as condições necessárias, e, por isso, globalmente, os portugueses não lêem. E, como não lêem, não gostam de ler. Como podia ser de outro modo?

A escola devia quebrar este ciclo, mas não é fácil consegui-lo. E cada vez parece mais difícil.

Por outro lado, a cultura não se dissemina por «osmose», de tal (má) sorte que a erudição e o saber, não raro, isolam os que os detêm num «espaço» a que as grandes massas são «refractárias», quando não mesmo algo hostis.

As democracias, para o serem, e para promoverem o humanismo e a cidadania, deviam tratar o assunto com toda a dedicação e cuidado. E firmeza.

A nossa, como outras, não tem sabido fazê-lo.

A responsabilidade é nossa.

Já o livro, esse vale a pena lê-lo.

José Batista d’Ascenção

Tempo de plantar

O Outono tem trazido chuva abundante, na metade norte do país continental.

Nas Ilhas não há problemas de seca. Há dúvidas sobre se gerimos bem os recursos hídricos: o excesso de água pluvial que não conseguimos reter; a falta de água na zona sul (onde chove pouco), que não conseguimos colmatar; a exploração excessiva de água subterrânea na orla algarvia; acrescendo a poluição de solos e cursos de água, tudo agravado pelos incêndios de Verão, que potenciam a erosão dos solos, o assoreamento das barragens e a contaminação das águas das albufeiras.

Porém, o tempo vai bom para plantar. Há cidadãos (individuais) que estão sensibilizados e fazem (muito bem) a sua parte. Mas falta política global, ordenamento florestal e ampliação e gestão da(s) área(s) de coberto vegetal autóctone.

Ocorrem algumas iniciativas simbólicas de plantação de árvores ou arbustos, quase sempre associadas à comemoração de «dias mundiais», que ficam bem na fotografia, por assim dizer, mas que convinha converter em algo que seja mais sistemático e efectivo (não importando que seja discreto e, desejavelmente, banal).

Ou plantamos diversificadamente os espécimes convenientes em cada região (basta de monocultura extensiva de eucalipto em qualquer sítio) ou os nossos filhos e netos não terão condições de sobrevivência.

Plantar - isto, que é óbvio, devia ser linear.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Pedagogia de outros tempos (II)

Reflectir/Recordar (*)

(continuação)

[...] 

Se não tivesse existido este estabelecimento de ensino [Colégio de S. Miguel de Refojos, Cabeceiras de Basto, em que ingressei em 1955], muitos jovens teriam ficado apenas com a 4ª classe do ensino primário, perdendo-se, assim, potenciais talentos.

Concluído o 5º ano liceal, uns por aí se ficaram. Com uma formação académica que lhes permitiu o exercício de profissões, nos sectores público e privado, em diversas regiões do país. Outros ingressaram na Escola do Magistério Primário de Braga, tendo desempenhado, nas suas vidas, o importantíssimo papel de professores do Ensino Primário. Alguns prosseguiram estudos, 6º e 7º anos do liceu (actual ensino secundário), tendo como objectivo ingressar na Universidade. De lá saíram licenciados nos mais diversos cursos.

No meu caso pessoal, frequentei o liceu Sá de Miranda, em Braga. Concluído este ciclo, ingressei na Universidade de Coimbra, onde me licenciei em Filologia Românica, na Faculdade de Letras, tendo enveredado pela docência no ensino liceal.

Durante toda a minha carreira profissional, fui professor do liceu Sá de Miranda, em Braga, tendo leccionado as disciplinas de Português, Francês e Literatura Portuguesa. E desempenhei vários cargos: director de turma, delegado da disciplina de Português, membro do Conselho Directivo e Orientador de Estágio Pedagógico.

Nunca é de mais salientar a importância do Colégio, numa zona rural, distante dos centros urbanos.

Os meus pais tiveram perfeita noção dessa importância, o que levou o meu pai, Américo Teixeira Leite Bastos, Tesoureiro da Fazenda Pública em Celorico de Basto, onde não havia colégio, a pedir a transferência para Cabeceiras de Basto, sua terra natal.

Recordo, saudosamente, a minha passagem pelo Colégio.

Recordo os meus colegas de estudo e de lazer. Formávamos uma «família», pois, ao longo do tempo, granjearam-se amizades que perdurariam para sempre.

Guardo, religiosamente, uma fotografia, onde figura o Gaspar, Dr Gaspar Miranda Teixeira, que, como eu, após a conclusão do 5º ano, se deslocou para Braga, com a finalidade de frequentar o 6º e 7º anos do liceu. Fomos colegas no liceu Sá de Miranda, embora frequentando cursos diferentes. Separámo-nos na ida para a universidade. A nossa amizade perdurou através dos tempos. O Dr Gaspar tem um currículo riquíssimo, abrangendo a Educação e a Política, tendo sido  professor, Presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto e deputado da Assembleia da República, entre outras funções. Estão presentes também o Fernando Raposo, professor do Ensino Primário,  o Dr Duarte Nuno, o Elias, engenheiro Elias de Almeida, infelizmente já falecido, e o João Manuel Gonçalves Pereira com quem mantenho um regular contacto.

Tenho impressivamente gravada, na minha memória, a figura do Joaquim Barreto, engenheiro Joaquim de Almeida Barreto, de Eiró, cujos discursos, plenos de humor requintado, ouvíamos deliciados no recreio.

Continuo a contactar com o engenheiro Joaquim Barreto, pois, actualmente, habita, como eu, em Braga, e continuamos a recordar «peripécias» do Colégio que gravámos, de forma indelével, na nossa memória.

Recordo as agradáveis actividades lúdicas que praticávamos no recreio: futebol e voleibol. O que ajudava a descontrair o ambiente um tanto exigente das aulas e do salão de estudo.

Recordo, ainda, os passeios pela quinta do mosteiro, em contacto com a natureza verdejante e o cantar álacre do ribeiro, a sugerir uma espécie de beleza primordial.

É a saudade do tempo que passa, de um tempo que não se pode prender. Não há cabelos a que nos possamos agarrar e retroceder. Mas fica a recordação de vivência plena que nos preenche a alma e contribui para o bem-estar absoluto.

António Augusto Carvalho Leite Bastos

(*) In: «Cabeceiras de Basto. Miscelânia Monográfica». Associação Antigos Alunos do Colégio SMR. 2023. Pg 12-14.

Afixado por José Batista d'Ascenção

domingo, 5 de novembro de 2023

Pedagogia de outros tempos (I)

O meu amigo António Bastos, professor aposentado do grupo de Português/Francês, foi convidado, em almoço-convívio de antigos alunos, a escrever sobre os tempos em que frequentou o Colégio de S. Miguel de Refojos (Cabeceiras de Basto). O seu texto, intitulado «Reflectir/Recordar» (*), tem interesse afectivo, pedagógico e documental e está escrito primorosamente, numa linguagem clara e precisa. Diz ele: 

À direita: António Augusto Carvalho Leite Bastos

[...]

Com muito gosto, confirmei a minha presença no referido convívio.

E, acto contínuo, começaram a afluir à minha memória, em catadupa, imagens imorredouras, imperecíveis, sobre o meu passado no Colégio, que frequentei até ao 5º ano liceal (actual 9º ano de escolaridade).

Foi um mundo redivivo, ressuscitado, a que «assisti», numa autêntica visão caleidoscópica: alunos, professores, directora do Colégio, funcionários, espaços, paisagens…

Foi uma «peregrinação» pelo passado de indesmentível fascínio, regozijo, que me fez regressar à minha juventude. E sonhei. «Pelo sonho é que vamos», diz o poeta Sebastião da Gama.

Confesso que sou um sonhador.

Chegado o dia [aprazado], lá marquei presença no referido almoço-convívio.

Dia festivo, gratificante, pela oportunidade de, mais uma vez, reencontrar velhos amigos da minha e de outras gerações, muitos dos quais já não via há algum tempo.

Antes evocar a minha passagem pelo Colégio, analisemos, sucintamente, a sua história.

Foi um mosteiro beneditino até à época da implantação do liberalismo, altura em que, por decreto de 1834, Joaquim António de Aguiar extingue as ordens religiosas.

A parte poente do edifício foi destinada aos serviços camarários. A metade nascente e quinta foram deixadas ao abandono.

Posteriormente, o Estado vende, em hasta pública, o mosteiro e quinta adjacente ao comendador A. Fernandes Basto.

Em 1944, o edifício é comprado por José Gonçalves Ferreira aos herdeiros do comendador. A 29 de Setembro desse mesmo ano, o Colégio começou a funcionar como internato, tendo, como director, José Gonçalves Ferreira.

Eram leccionados o ensino primário e o ensino liceal. O internato termina no ano de 1949.

Em 1955, ingressei no Colégio. A directora pedagógica era a Dra Emília Marinho da Mota, pessoa afável, compreensiva, de fino trato e de forte empatia junto dos alunos e de quem, com ela, contactava.

O Colégio era uma instituição particular de ensino, com oferta educativa do 1º ao 5º ano do liceu (actuais 5º a 9º anos de escolaridade).

Os alunos teriam de se submeter aos exames nacionais no 2º e 5º anos (actuais 6º e 9º anos de escolaridade, respectivamente), realizados no liceu Sá de Miranda, em Braga. E os resultados eram dos melhores. O Colégio era uma referência.

No tocante à disciplina, como reflexo da política do Estado Novo, havia um certo rigor, pois os alunos eram «formatados» em ordem a acatar o que lhes era imposto, sem grandes discordâncias ou reclamações. Devia reinar a ordem para o normal funcionamento da instituição escolar. A disciplina acima de tudo.

O Colégio era frequentado por alunos de ambos os sexos. As turmas eram mistas, embora a entrada para o mesmo e os recreios fossem separados.

Maioritariamente, os alunos eram da vila e do concelho de Cabeceiras de Basto. Havia também alunos de concelhos limítrofes, nomeadamente, Ribeira de Pena, Mondim de Basto, Celorico de Basto e de outras paragens, pois, nestes concelhos, não havia estabelecimentos de ensino que os pudessem receber para prosseguimento de estudos, acabada a escola primária (actual 1º ciclo).

Se não tivesse existido este estabelecimento de ensino, muitos jovens teriam ficado apenas com a 4ª classe do ensino primário, perdendo-se, assim, potenciais talentos.

António Augusto Carvalho Leite Bastos

(*) In: «Cabeceiras de Basto. Miscelânia Monográfica». Associação de Antigos Alunos do Colégio SMR. 2023. Pg 12-14

(continua)

Afixado por José Batista d'Ascenção

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Siglas - uso e abuso

Nem sei bem porque é que me irrita ouvir dizer «ésse-éne-ésse» em vez de «serviço nacional de saúde». Para mim é como se a instituição, para além de enormíssimas dificuldades, não tivesse direito ao bom nome.

Onde as siglas também me incomodam é no meu domínio profissional. Não digo educação, para não ultrajar o conceito, nem ensino, para não ser mentiroso, direi o sistema escolar que temos. Mas aqui, a multiplicidade, a diversidade e até a variabilidade das siglas fazem jus ao vazio que enfuna os normativos e a língua de pau de actas e afins. Servem para nada, que deve dar jeito a variados interesses, não necessariamente os de formar bem a criançada e juventude.

Nos partidos são úteis. A gente identifica-os rapidamente sem lhes pronunciar o nome, que é pouco agradável no caso de alguns. Dizem que são necessários à democracia, o que deve ser verdade, mas não há prova definitiva de que assim seja. Suspeito que nós, humanos, é que não concebemos o conceito de outro modo. Inventamos condições, convenções e rótulos porque temos que nos encaixar e encaixar os outros nas categorias que introduzimos na cabeça. E não queremos nem sabemos sair dessas gaiolas.

Um dia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, apresentava eu um tema ambiental numa aula do Professor Vitor Madeira, que não era um prodígio de empatia na opinião dos alunos, e referi-me sempre ao dióxido de carbono (CO2) como «cê-ó-dois». Foi forte a reprimenda: acaso gostaria que me tratassem por JB? Bem lhe podia ter dito que houvera antanho um jogador famoso do Vitória de Setúbal a quem sempre ouvi chamar JJ. Mas, a minha discordância foi tão acentuada que não contemplou aquela diplomática observação.

Agora, que estou farto de siglas, isso é verdade.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Adictos dos telemóveis

Hoje e há quarenta anos diferem radicalmente no dia-a-dia comunicacional de cada um de nós. Tirando o tempo de sono, quantos de nós passam(os) sem ter por perto um telemóvel ou de o manter entre os dedos por longos períodos ou com elevada frequência? Precisamos disso? – Passámos a precisar, deixámos criar em nós essa necessidade. Isso é bom? – Talvez a resposta seja: - bom ou menos bom, é a realidade.

E se os mais idosos são, em geral, menos dependentes, entre jovens (e crianças…) viver sem o apêndice em que o telemóvel se tornou (em boa verdade, talvez cada indivíduo se tenha tornado o anexo maior do aparelho…) é inimaginável, particularmente para os próprios.

A comunicação múltipla permanente ou o vício do jogo e o arquivo da intimidade fazem do dispositivo algo indispensável ou quase intrínseco e precioso para os mais novos. Nas escolas, e não apenas, a situação tornou-se um problema, por vários motivos. Pela minha parte, nunca, em altura alguma, me ocorreu tocar no telemóvel de qualquer aluno ou de o guardar e fazer a sua entrega na direcção, como vi alguns colegas fazer. Por um lado, sentia incómodo pessoal em ter na minha posse, ainda que transitoriamente, o repositório da vida íntima de alguém e, por outro, parecia-me uma atitude demasiado arriscada perante a fúria que poderia desencadear nos meninos e nos seus encarregados de educação.

O problema cresce e já há quem sugira terapêuticas para a enfermidade. Não sei se a dita acentua a solidão, mas é um facto que a solidão existe durante a dependência, mesmo que as vítimas se julguem acompanhadas, com mais ou menos ansiedade ou euforia desencadeadas pelo número de «likes» conseguido.

Faz tempo, pessoa amiga, que, a meus olhos, preza a fruição da vida com sabedoria, dizia, com graça, que as pessoas passaram a registar fotograficamente (e a publicar) tudo, a toda a hora, incluindo belíssimas paisagens e monumentos, só lamentando que, nestes casos, elas mesmas não prescindam de se colocar à frente, em grande plano, tapando quase tudo.

Já os direitos de terceiros à privacidade e ao anonimato parece terem deixado de existir, sem que as vítimas involuntárias se apercebam sequer da violação desses seus direitos.

José Batista d’Ascenção