quinta-feira, 2 de abril de 2026

Páscoa florida num mundo agressivo e inflacionário


O Sol brilha. As plantas florescem e reverdecem profusamente. Os animais estão activos, cumprindo o ciclo natural. Ontem, à tardinha, o cuco aplicava-se demoradamente no seu canto, como se soubesse que alguém o escutava rememorando tempos de criança.

As crianças, que deviam brincar e ouvir o canto das aves, nesta altura de interrupção lectiva, estarão provavelmente agarradas aos telemóveis, como os algoritmos determinam e os pais aceitam, vítimas que são, grande parte deles, de idêntica dependência.

Os que mandam no mundo fazem guerras, ganham rios de dinheiro e destroem a vida de muitas pessoas e os bens de todos.

Os preços sobem. Muitos acorrem a comprar o que supõem que amanhã já terá preço mais alto (como aconteceu antes de ontem com o gás de botija).

Nas culturas de raiz cristã, o tempo é de Páscoa, da Páscoa da ressurreição.

E o Sol brilha, como deviam brilhar os sorrisos das crianças em tempo de paz, para contentamento de pais e avós.

José Batista d’Ascenção

domingo, 29 de março de 2026

O pensamento dos principais líderes do mundo

Destes e doutros, tantos que não cabem aqui.

Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro.

Petróleo. Petróleo. Petróleo.

Poder. Poder. Poder.

Manipulação. Manipulação. Manipulação.

Guerra. Guerra. Guerra.

Destruição. Destruição. Destruição.

Luxo. Luxo. Luxo.

Consumismo. Consumismo. Consumismo.

Poluição. Poluição. Poluição.

É isto ou parecido.

Que valemos nós, os que não desistem de acreditar na ressurreição da decência?

A Natureza Viva ainda respira. Mal, mas respira.

Boa Páscoa. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 21 de março de 2026

O conceito de orgulho e a singularidade de cada um de nós

Várias vezes vejo o conceito de orgulho associado à condição de género (sexual) humano, à nacionalidade, aos filhos, aos pais, à profissão, etc.

Em qualquer destes casos há em mim discrepância no sentir. No sentir e no sentido. É-me estranho sentir orgulho em ser homem, por exemplo. Se é essa a minha condição biológica intrínseca, e se o facto não é mérito meu, que razão justificaria o meu sentimento de orgulho?

Gosto, prazer, conforto, harmonia, sentimento de realização com condições próprias ou acções realizadas ou procedimentos tidos é coisa diferente. Agora, orgulho, orgulho causa-me espécie…

Enquanto conceito exagerado de si, com o significado de soberba ou vaidade, termos que meto no mesmo saco, é algo que dispenso, na condição de sujeito. Por via das dúvidas, não tendo a associar à palavra orgulho sinónimos comuns como autoestima, brio ou dignidade, palavras benquistas à minha sensibilidade.

É assim que penso e sinto e sou.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 17 de março de 2026

Aprender com as cegonhas

No segundo dia a seguir à queda de parte do tabuleiro da autoestrada A1, na margem direita do Mondego, em Coimbra, devia eu atravessar aquele viaduto. Em vez disso tive de seguir o percurso alternativo.

Dias depois, em comentário sobre a violência da tempestade que tinha ocorrido e do rasto de destruição que deixou, alguém me dizia que, no meio dos destroços, os ninhos das cegonhas, em grande número nos postes da rede eléctrica de alta tensão, naquela zona, permaneciam lá. Então, não o pude confirmar objectivamente.

O que sei é que em tempos não muitos remotos (menos de cem anos), as margens do Baixo Mondego eram arborizadas e as cegonhas não dispunham dos postes de electricidade para nidificar nem deles precisavam. O «progresso» dos humanos obrigou-as a solução de recurso, de que, aparentemente, se saem bem.

Ontem, dia 17 de Março, voltei a fazer a A1 nos dois sentidos entre Porto e Leiria e pude reparar que as torres metálicas da rede eléctrica estão repletas de ninhos de cegonha, com as aves por perto, tão diligentes como sempre as vi.

Ainda não sei se os ninhos são realmente os que já lá estavam ou se foram (re)construídos entretanto. Seja como for, enalteço a «engenharia» e a «resiliência» das cegonhas, que me parecem uma lição. Para os comuns mortais e, também, para a engenharia nacional.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 13 de março de 2026

O mundo em fanicos

Entre portas, além da preocupação com a escalada do preço dos combustíveis, que vai agravar inexoravelmente a inflação, parece sobrar muito tempo e espaço para a discussão de motivos tão fúteis como a vestimenta de cerimónia da mulher do novel presidente da república. Somos assim.

Para lá do nosso «quintal», o mundo está submetido a brutal «pirotecnia» de engenhos mortíferos e destrutivos que riscam os céus - «espectáculo» que alguns descrevem como «interessante»! - e fazem em pedaços estruturas, edifícios e… pessoas.

Os indivíduos mais poderosos do mundo são loucos e alguns deles são frios assassinos.

Os líderes europeus - das democracias que (ainda) restam - entretêm-se nas vacuidades características das respectivas irrelevâncias, grudados nos cargos a que ascenderam pelos votos, que pouco merecem.

Onde e como vamos acabar não o sei eu. Mas temo, sobretudo, pelos meus filhos e netos e por todos os que são das idades próximas das deles.

No resto da minha vida, vou cuidar de encontrar sementes de optimismo, que esforçadamente tentarei semear.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 11 de março de 2026

Húmus, “hummus”, humor triste e divórcio das palavras

Hoje, na aula de biologia de 11º ano, conveio referir a decomposição da matéria orgânica e a formação de húmus nos solos, agrícolas e não só.

A turma é de bons alunos, mas eles não sabiam o significado da palavra «húmus», que confundiam com um alimento de grafia parecida (ou mesmo coincidente).

Ignorantes não são apenas os alunos (na realidade são todos os que ignorantes parecem mais a totalidade dos que não causam essa impressão). Neste caso, o professor desconhecia o termo e o conceito que os alunos trouxeram à colação.

Marcas dos tempos, dos que passaram e dos que fluem no presente.

Tomara que o léxico dos alunos tenha aumentado com o meu esforço.

Pelo meu lado, não me sinto propriamente mais completo nem mais bem preparado com a extensão do que ouvi e fiquei a saber. Sem arrogância o digo.

E também sem contentamento.

José Batista d’Ascenção.

domingo, 8 de março de 2026

Às mulheres

 

Musa. Séc. I d. C. (Mármore)

Às minhas avós, à minha mãe, à minha mulher, às minhas irmãs, às minhas noras/filhas, às minhas sobrinhas, às minhas netas, que ainda não tenho, às minhas colegas e amigas.


A essas e todas as outras.


Pequena e humilde homenagem, imensamente sentida e grata.


Hoje e todos os dias do calendário.


José Batista d’Ascenção

domingo, 1 de março de 2026

Ortografia

Atente-se no título principal da capa do Jornal de Notícias de 28 de Fevereiro de 2026 (ontem).

Veja-se a importância do acento na palavra «pára», a qual, segundo o chamado «novo acordo ortográfico», devia ser grafada «para».

Fez bem o jornal em não cumprir o dito «acordo».

Faria bem o país em livrar-se dele.

Para isso era preciso três condições: gostarmos muito da nossa língua; percebermos a sua grandeza e importância; e termos coragem de mudar o que, manifestamente, não está bem.

Muito tarda o que não acontece. Mas íamos muito a tempo.

De resto, suponho que a imensa maioria dos portugueses nem notava. Infelizmente.

Disse.

José Batista d’Ascenção

sábado, 28 de fevereiro de 2026

«Caça às bruxas» é uma expressão com real e duradoiro fundamento histórico (II)

«Um juíz borgonhez, Henri Boguet (1550-1619) especulou que haveria 300 mil bruxas em França e 1,8 milhões na Europa. A histeria coletiva gerada levou a que, nos séculos XVI e XVII, fossem torturados e executados entre 40 mil e 50 mil inocentes, de diferentes origens e de todas as idades, acusados de bruxaria, incluindo crianças de cinco anos.

Os métodos inquisitoriais recomendados pelo manual de Kramer, Malleus Maleficarum, eram diabólicos. Obtida a confissão, os acusados eram executados e os seus bens repartidos pelo acusador, pelo carrasco e pelos inquisidores. Se o acusado recusasse confessar, tal era visto como obstinação demoníaca e tinham lugar as mais horrendas torturas: partiam-se dedos, mutilava-se a carne com tenazes em brasa, o corpo era esticado até ceder ou mergulhado em água a ferver. Famílias inteiras foram executadas, começando-se por um elemento da família forçado a incriminar outro, indicado pelos torturadores, e assim continuamente.

Em 1600, em Munique, os elementos da família Papphenheimer (o pai, a mãe, dois rapazes e um menino de dez anos), foram todos mortos. Começaram pelo menino, obrigado a denunciar a mãe. Os quatro adultos, mutilados com tenazes em brasa, foram torturados na roda, sendo-lhes partidos os braços e as pernas; o pai foi empalado; os seios da mãe foram cortados, e todos foram queimados vivos. O menino, chamado Hansel, foi obrigado a ver tudo, e quatro meses depois foi executado.»

[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 141-142 p.]

Hoje, as torrentes de informações das vias de comunicação, tal como no passado, depois da invenção da imprensa, não asseguram por si só, o conhecimento e a aproximação geral à verdade. Veja-se o que se passa nas redes sociais. Não se defenda a censura, mas é preciso conter a profusão e difusão de notícias falsas.

Se eu soubesse como, dizia.

José Batista d’Ascenção

«Caça às bruxas» é uma expressão com real e duradoiro fundamento histórico (I)

«A febre europeia da caça às bruxas foi um fenómeno moderno, não medieval. A partir de meados do século XV, aproveitando a invenção da imprensa, eclesiásticos e estudiosos da região dos Alpes coligiram elementos da religião cristã, da tradição local e da herança greco-romana e amalgamaram uma nova teoria da bruxaria, argumentando que as bruxas eram uma ameaça temível, dirigida à sociedade no seu todo. Haveria uma conspiração mundial de bruxas que, adorando Satanás, se constituíam como instituição religiosa anticristã, que visava destruir a ordem social da humanidade. As bruxas matavam crianças, comiam carne humana, faziam orgias e lançavam feitiços que traziam tempestades e epidemias e toda a sorte de catástrofes.

A primeira vaga de caça e julgamento de bruxas foi conduzida por eclesiásticos e nobres da região do Valais, nos Alpes Ocidentais, entre 1428 e 1436, ultrapassando-se as duas centenas de execuções de supostos bruxos e bruxas.

Em 1487, Heinrich Kramer, frade dominicano e inquisidor compilou um manual que ensinava a desmascarar e matar bruxas, intitulado Malleus Maleficarum. Especificamente, recomendava o recurso a métodos de tortura horripilantes aos suspeitos de bruxaria, cujo castigo não podia ser senão a execução. Kramer sexualizou a bruxaria, que seria uma atividade tipicamente feminina. Na sua imaginação transbordante de ódio, Kramer dedicou um capítulo inteiro ao talento das bruxas para o roubo de pénis.

O livro de Kramer encontrou alguma resistência inicial, todavia tornar-se-ia um dos maiores bestsellers do começo da modernidade. Em 1500, Malleus Maleficarum tinha esgotado oito edições. Até 1670 fizeram-se mais vinte e uma edições, a que se somaram várias traduções vernáculas. O livro tornou-se a obra definitiva sobre o tema, e o trabalho de Kramer foi definitivamente acolhido pelos peritos eclesiásticos.»

[in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 136-141 p.]

Retire-se dos factos da história que a disponibilidade e a facilidade da circulação da informação não se traduzem directamente na divulgação e no conhecimento geral da verdade.

(Continua)

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Atenta, a Natureza desperta

Neste fim de Fevereiro, bastaram dois ou três dias de sol e as temperaturas a rondar os vinte graus, a passar do meio-dia, para algumas plantas sorrirem.

Ainda há três semanas de Inverno, pelo calendário, mas a vegetação e os animais selvagens, sobretudo as aves, estão prontas para a renovação festiva da Primavera.

E as almas humanas, desta nossa região do mundo, não estão menos desejosas disso.

Não tarda, o sol vai dourar o nosso ânimo, tão carecido.

Precisamos (muito) disso, antes de regressarem os receios dos estios escaldantes. Preparemo-nos para usufruir. Está quase.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Burocracia = poder da secretária

«Etimologicamente, burocracia significa qualquer coisa como o “poder da secretária”. O termo foi cunhado na França do século XVIII, quando um funcionário público (…) se sentou a uma mesa de trabalho com gavetas – uma escrivaninha (bureau). Assim, no coração da organização burocrática jaz a gaveta. A burocracia tenta resolver o problema do acesso a informação [qualquer que seja e sobre o que quer que seja] compartimentando o mundo em gavetas: a chave está em saber que documentos estão em cada gaveta.

O princípio não se altera seja o documento arrumado numa gaveta ou numa prateleira, num cesto ou numa pasta de ficheiros ou em qualquer outro recetáculo. Isto tem um custo: em vez de se concentrar na compreensão do mundo [ou da matéria ou do assunto] como ele é, a burocracia ocupa-se de impor ao mundo [ou às coisas de que se trata] uma nova ordem, artificial. Os burocratas começam por inventar diferentes gavetas, cada uma dela não correspondendo necessariamente a qualquer divisão objetiva que haja no mundo. E a seguir tentam arrumar o mundo nessas gavetas, nem que seja à força. (…) Basta preenchermos algum tipo de modelo oficial para o percebermos: durante o preenchimento, se nenhuma das opções corresponde à nossa situação, temos de nos adaptar nós ao impresso, e não o contrário. Sendo a realidade complexa, os burocratas reduzem-na a certo número de gavetas estanques e isso ajuda-os a manter a ordem, ainda que em detrimento da verdade. E, concentrados que estão nas suas gavetas – sendo a realidade infinitamente mais complexa -, não raras vezes, os burocratas desenvolvem uma leitura distorcida do mundo.»

O problema é que não podemos funcionar em sociedade, nem estudar nem compreender o mundo, se não desenvolvermos a burocracia necessária. Como consequência, vem o resto.

in: Yuval Noah Harari (2024). «Nexus. História Breve das Redes de Informação». Elsinore. Lisboa. 90-91 p.

José Batista d’Ascenção

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Lixo e luxo

Obra de arte de Iran Martins

A miséria expõe comummente enormes acumulações de detritos, por falta de serviços de saneamento, carência de condições de higiene e recurso a desperdícios para procura de materiais aproveitáveis ou vendáveis. O lixo e a degradação são ostensivos à vista e ao olfacto, bem como pela extensão dos espaços em que se acumulam ou espalham.

As zonas de luxo, socialmente belas e agradáveis, não são parcas na produção de lixos. A sua remoção ou reciclagem comporta muitos efeitos deletérios, grande parte dos quais não são directamente percepcionados: a reciclagem é sempre parcial e consome energia e o acondicionamento de resíduos, mesmo que nas condições mais adequadas, não anula a sua existência nem possíveis efeitos negativos, a médio ou longo prazo.

Acontece que, para alimentar o luxo da pequena fracção de humanos que o podem pagar, se consomem recursos materiais e energia em grande escala e se produzem novos materiais ou químicos contaminantes (sólidos, líquidos ou gasosos).

Some-se o “luxo guerreiro” das grandes potências bélicas, traduzido na produção de armamento, na destruição dos alvos transformados em destroços, que sepultam ou afugentam as populações, e, claro, na produção de mais armas, com repetição dos ciclos de terror, e tente-se medir ou calcular o total dos prejuízos, se tal for possível.

Donde, o mundo carece de (mais) simplicidade no viver, de menos predação de bens materiais e imateriais e da máxima reutilização possível, para verdadeiramente reduzirmos as consequências nefastas (sanitárias, sociais, ambientais e climáticas) decorrentes do consumismo desenfreado, que nos coloca entre o lixo, cada vez mais abundante, e o luxo, de usufruto cada vez mais restrito.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Imprudência e azar

Cheias. Cheias. Cheias.

Falhas de prevenção. Impreparação. Descoordenação. Falta de recursos.

Felizmente, nas últimas horas em Coimbra não foi assim. E noutras regiões também não. Parabéns a todos os protagonistas.

Mas não destoaria se fosse. O que está a acontecer, depois da tempestade mais violenta de há duas semanas e meia, não é novo nem irrepetível. E o mesmo é válido para as condições meteorológicas opostas: elevadas temperaturas, seca e incêndios, que ocorreram há escassos seis meses e que são previsíveis dentro do próximo meio ano.

Há quem negue veementemente as alterações climáticas como consequência das acções humanas. A evidência não o é para todos. E o valor da ciência também não. Este problema é mais grave quando afecta visceralmente os líderes políticos. E quando os seus aficcionados os seguem acriticamente.

Imagine-se que tinha feito vencimento a ideia de adiar as eleições presidenciais. Este fim-de-semana adiávamo-las outra vez. E quem sabe o que se proporia no seguinte…

Que preparação temos nós? E que preparação e sentido de responsabilidade têm aqueles que escolhemos para nos governar?

Esses são problemas maiores, Parece-me.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Três perguntas a Cotrim

Ponto prévio: A vida particular de Cotrim não me interessa. Nem a dele nem a de nenhum político. Muito menos a vida íntima, dele ou de qualquer outro.

Mas, como cidadão, tenho o direito de saber quem são os executantes da política no meu país, para poder fazer opções fundamentadas.

Primeira pergunta: Sendo Cotrim uma pessoa ambiciosa (no sentido político, tanto mais que, sendo deputado europeu, se candidatou à presidência da república), qual foi a razão (ou as razões) concreta(s) por que saiu da liderança do partido «Iniciativa Liberal»? Mais directamente: essa saída pode ter-se devido a motivos de importunação a alguma senhora que desempenhasse funções políticas com ele ou para ele, nessa altura?

É que, recentemente, pareceu tão amofinado com acusações dessa natureza, que ameaçou que recorreria aos tribunais para esclarecer judicialmente a questão. Já o fez? Por via das dúvidas, eu gostava de saber a decisão judicial elementar a haver, apenas isso e não os prolegómenos ou as fundamentações.

Terceira questão: No meu percurso diário para o trabalho passo por vários mega-cartazes de Cotrim (dele e doutros, na realidade), em que aparece a exibir e a elogiar o próprio perfil ou então de olhar vulpino como se tivesse lobrigado a salvação do mundo. Ora, tendo já passado algum tempo desde a 1ª volta das eleições, em que não passou; havendo algum risco de queda de obstáculos na via pública; desfeando aquelas lonas descomunais o espaço urbano; e tendo Cotrim tempo de sobra para aparecer como comentarista político de coturno suficiente (embora eu me lembre de como embatucou confrangedoramente por largos segundos a uma pergunta simples de Seguro em debate a dois na TV), sobra-me a pergunta: porque não se apressa a dar o exemplo de mandar tirar os retratos do passeio público?

Se fizer o obséquio.

José Batista d’Ascenção

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Humanismo imprescindível

Homenagem singela a Cavaco Silva e a Paulo Portas

Há valores fundamentais que todos deviam defender e respeitar – os consignados na declaração universal dos direitos humanos.

Em certos momentos da vida das democracias, ninguém na plenitude das suas capacidades de cidadania e dos seus direitos devia eximir-se a tomar posição.

A ideologia política, as opções religiosas e as práticas sociais de cada um, quando conformes com os princípios éticos, são matéria de liberdade individual e carecem de ser respeitadas, desde logo pelos poderes instituídos. E não podem tolerar-se atropelos ao seu usufruto precisamente pelas instituições do poder nem por organizações que se constituam com o objectivo de as cercear.

A segunda volta das eleições presidenciais que, por ora, vivemos enquadram-se, a meu ver numa dessas escolhas fundamentais para o país (de Abril) e para a sociedade (democrática) que queremos ser.

Para isso, contribuiu a opção maioritária dos eleitores, obviamente, e dentre esses, os que, opondo-se desde sempre ao partido de que é oriundo o novel presidente, mas tendo em vista o principal, quiseram, anteriormente ao acto, manifestar-lhe o seu apoio de forma clara, digna e corajosa.

Foram muitos, e todos são dignos de apreço. Permito-me destacar dois deles: Cavaco Silva e Paulo Portas.

Como aos demais, a ambos felicito e agradeço.

José Batista d’Ascenção

A desventura não é irremediável

Saturado de água, o país foi a votos para o seu representante máximo. Como era previsível e tudo indica, a moderação ganhou larguissimamente.

Ainda bem.

Mas não foi só a moderação que ganhou, ganhou também a recusa da falsidade, da maldade e da crueldade. Foram muitos os que, revoltados ou dominados pelo ódio, seguiram um líder sem princípios, que se afirma cristão, mas cuja prática ofende obscenamente os evangelhos. O problema dos que votaram nele não fica resolvido, mas os resultados contribuirão decisivamente para que o mal de que sofrem não contamine mais pessoas nem se abata sobre os que não perderam os eixos nem as referências.

Ainda bem.

Os males dos tempos a que chegámos derivam em enorme medida da incompetência e da irresponsabilidade das sucessivas assembleias de deputados - que deviam ser em menor número e mais bem selecionados - e dos governos que temos tido.

Por isso, é necessário que a generalidade dos cidadãos se torne mais exigente com a qualidade da democracia, desde logo reclamando um sistema de justiça digno do nome.

Para bem de todos.

Parabéns a António José Seguro e ao país que votou nele.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os troféus dos professores

Estava eu no supermercado, entre as batatas e as cebolas, e, à distância, uma cara sorria abertamente, com a expressão e o olhar. Duvidoso, tentei perceber se se dirigia para alguém ao meu lado, antes de compor, também eu, o melhor sorriso.

Então, já a menina estava à minha frente, em cumprimento amistoso e serenamente efusivo.

Pedi desculpa por, finalmente, reconhecer os traços, mas, ao contrário do desejo, não recordar o nome.

Primeiro “bónus”: era a Carla Daniela, minha aluna há cerca de vinte anos, na escola onde ainda trabalho.

E que fazia agora, como ia a sua vida? - Perguntei.

É enfermeira no Hospital Público de Braga e tem um bebé rapaz, com cerca de um ano, disse-me.

Estava contente com a profissão? - Arrisquei.

Com a função sim, com as condições… pôs uma cara triste.

Curioso, ainda perguntei se não chegara a pensar emigrar, até pela elevadíssima competência da enfermagem portuguesa, como eu pude comprovar abundantemente, na primeira pessoa, em 2009.

Que sim, que tivera um bilhete na mão, mas que era tanta a tristeza, na hora de partir, que a própria mãe lhe pedira que não fosse.

Felicitei-a, de todo o modo.

Segundo “bónus”: que às vezes se lembrava do professor de biologia, que sempre a incentivou e que lhe chamava Carlinha.

Terceiro “bónus”: que tentara orientar-se por outro conselho desse professor: que nunca deixasse de ser como era.

Devo ter ficado emotivamente confuso e rubicundo.

Apertei-lhe nas minhas as suas mãos e desejei-lhe as maiores felicidades, especialmente para ela e para o seu bebé.

Com o mesmo sorriso doce e belo foi à sua vida.

“Bónus” adicional: ao meu lado, a Lurdes, minha mulher, felicitou-me também.

Há dias assim.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Primavera que há-de chegar

Inverno, Inverno é o que temos tido: Muita chuva, ventos ciclónicos, neve e frio. Os solos estão saturados de água, os rios galgaram as margens e o mar enfureceu-se.

O bom disto tudo são as albufeiras cheias até mais não ser possível. O mau são os casos de morte e os prejuízos que tem havido, alguns dos quais se vão prolongar no futuro, como é o caso da perda de empregos…

Creio que, quando vierem uns dias de sol, os portugueses vão expor-se à luz e à (maior ou menor) quentura com particular satisfação.

E a Natureza pode reagir de modo análogo, como que para compensar e suplantar os rigores do tempo e o cinzentismo ambiental com que temos (con)vivido.

Nessa altura, a “explosão” de flores há-de colorir o meio ambiente, como que pondo-o em festa. E a festa, assim sentida e agradecida, por certo encherá de júbilo e esperança as (nossas) almas em hibernação sombria.

Quem sabe se essa bonomia do tempo entrará no calendário pelo Entrudo?

Bem-vinda seja, quando vier.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Sucedem-se as tempestades, mas tardam a bonança preventiva e a remediação efectiva

A eleição presidencial, pela sua natureza e significado, devia consumar-se no seu objectivo. Atingido este, adiante. Não sendo assim, os candidatos pretendem outros fins, que não os da eleição propriamente dita.

Ressalve-se, porém, que, em democracia, todos os movimentos políticos que não a neguem ou destruam são legítimos, mesmo que inconvenientes.

As presidenciais que decorrem tiveram um número recorde de candidatos e o país encheu-se de anúncios propagandísticos de grandes dimensões nas praças e arruamentos urbanos e nas bermas das estradas. A esses somam-se os que nos impingem apelos ao consumismo comercial.

Para a impressão de tais anúncios, estruturas de suporte e afixação, instrumentos e mão-de-obra, aparentemente, não falta dinheiro.

Acontece que a profusão e dimensão das imagens ofende a vista, degrada a paisagem e o ambiente e distrai condutores a quem convém toda a atenção.

Passou a primeira volta das presidenciais e sobrevieram temporais seguidos. Os que diligentemente afixaram os materiais de propaganda deixaram os monos agora inúteis a agredir os espaços e à mercê das intempéries. Mais ou menos esfrangalhados, parte deles permanecem.

Alguns dos candidatos que ficaram pelo caminho foram lestos a anunciar movimentos políticos, mas não se mexeram para que se removam e limpem quanto antes os detritos de que são responsáveis.

Se tivéssemos bons deputados e bom governo, em tempo oportuno far-se-iam normas mais apertadas e restritivas de afixação de megacartazes, também pelo risco que podem constituir para quem circula nas estradas.

Mas isso só aconteceria se os cidadãos exigissem que assim fosse.

José Batista d’Ascenção

sábado, 24 de janeiro de 2026

Casamento, divórcio e relações sexuais (curiosidades históricas, em resultado de leitura)

O livro «Imaginação» é uma obra de fôlego da autoria de Francisco Louçã. Lê-la vale por muitos motivos, que esta anotação não revela, limitando-se aos aspectos referidos no título, os quais achei curiosos e interessantes e por isso merecedores de registo.

«Aristóteles dedicou um capítulo da sua Política a instituir normas para o casamento, aconselhável aos 18 anos para as mulheres e aos 37 ou pouco antes para os homens, e para o momento da união reprodutiva, no inverno e de preferência com vento norte»… (p 398).

[…] Para os primeiros cristãos, a proibição do casamento de sacerdotes era absurda. Pedro era casado e Paulo admitia mesmo que esses matrimónios fossem normais e pedia unicamente aos bispos que fossem maridos fiéis. Só trezentos anos depois foi estabelecido que os bispos não podiam casar (p. 411).

[…] Os textos bíblicos autorizavam o divórcio, pelo menos em alguns casos. Mateus admitia uma única justificação para o divórcio, o adultério (p. 411) e Paulo, que tratou a questão em cartas conhecidas antes da redação dos evangelhos, afirmou que o divórcio devia ser impedido, mas não de forma absoluta (idem). Constantino, o primeiro imperador que se declarou seguidor do cristianismo promulgou em 331 leis que determinavam as condições do divórcio (se o marido fosse bêbado ou jogador, se a mulher o envenenasse e, para qualquer dos dois, a invocação do adultério) (ibidem).

[…] Martinho Lutero considerou, como Calvino, que o casamento não era um sacramento, pois não é mencionado como tal na Bíblia, e, portanto, os padres podiam casar-se – o que ele e muitos dos que o seguiam fizeram. (p 420)

[…] Na Cantábria, em Espanha, a poucos quilómetros de Santander, uma pequena igreja – a Colegiata de San Pedro de Cervatos, construída entre 1129 e 1199, tem profusa decoração exterior com estátuas simbolizando a luxúria sexual, o que permanece um mistério, tanto nessa igreja como noutras, de outros lugares de Espanha, mas também de países como Alemanha, França, Inglaterra, Irlanda, Itália… (p 421).

[…] S. Tomás de Aquino, o teólogo que alcançou mais fama e influência na fixação do cânone sexual (…) fê-lo de modo explícito na sua Summa Theologiae, escrita no final da vida, entre 1267 e 1273 (…). Para cumprir os preceitos, o coito só devia ser a penetração vaginal na posição do homem sobre a mulher, sendo negadas outras formas de relação sexual. (p 414)

[…] Desde o concílio de Trento, no séc. XVI, o casal devia estar sob a égide da igreja e as regras da sua vida sexual deviam ser definidas pela autoridade eclesiástica.» (p. 422)

José Batista d’Ascenção

Tanta água

Chuva, neve, inundações, albufeiras a transbordar. É uma maré cheia do precioso líquido. Também temos o frio e o vento e o mar furiosamente encapelado, pronto a atacar a costa, ante a impotência da prevenção possível, após décadas de imprudência, ambientalmente criminosa.

O Inverno está a ser Inverno, no calendário natural. Minimizando os riscos e estragos possíveis, devíamos ser capazes de potenciar as vantagens que possa haver.

Gostava eu que, chegados a Julho e Agosto, não tivéssemos de lamentar eventuais secas e prejuízos decorrentes. Para isso seria preciso uma gestão da água entretanto armazenada que, nessa altura, nos poupasse preocupações e danos. Temos soluções, das mais simples, e não propriamente dispendiosas, como o simples armazenamento de águas pluviais dos telhados em contentores de polietileno, a outras que exigem estudo e investimento, como represas e condutas mais ou menos extensas. Algo paralelo, e igualmente decepcionante, acontece com a necessidade de planeamento, acção e despesa na prevenção de incêndios.

Se os holandeses empurram e sustêm eficazmente o mar, porque não retemos nós a bendita água que fartamente nos cai do céu? Assim, no Verão, podíamos hidratar animais e plantas e apagar os fogos que houvesse.

Digo eu.

José Batista d’Ascenção

domingo, 18 de janeiro de 2026

O (tri)salazarismo recauchutado (ainda) não venceu

Para quem preza a democracia e não prescinde da liberdade, os tempos estão sombrios.

As condições de vida antes do 25 de Abril libertador eram paupérrimas para a imensa maioria dos portugueses, em quaisquer aspectos que possamos considerar.

Porém, as lamentáveis e persistentes falhas dos governantes desde então, os maus exemplos de políticos incompetentes ou corruptos, que a justiça não responsabilizou nem puniu, o chamado «sistema educativo», que falhou na sua missão básica, e algumas tendências intrínsecas dos humanos (da falta de empenho na prevenção dos incêndios à má escolha dos líderes políticos) – que nenhuma ciência elucidou, até hoje – fazem-nos aproximar de catástrofes naturais e sociais, como se, enquanto sociedade, abdicássemos do (muito) bem (ou bom) de que dispomos (ou que desperdiçamos) e voluntariamente nos atolássemos em situações de caos de que poucos beneficiarão.

Se assim não for, tanto melhor. De momento, os resultados eleitorais sustêm o pior, em minha opinião.

Precisamos de luz, e de trilhar sendas mais auspiciosas.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sobre candidatos presidenciais, falar de barriga cheia


Alguns dos candidatos presidenciais
Segundo algumas opiniões, os actuais candidatos à presidência da república são de quinta categoria. Não concordo.

Nem mesmo por comparação com os ocupantes do cargo eleitos no pós-25 de Abril. Genericamente, desde logo porque com esses hiperdotados políticos chegámos ao tempo actual com a democracia em regressão. Eles não contrariaram suficientemente a tendência “universal” nesse sentido e podem ter contribuído para ela.

Lembro-me dos tempos em que Ramalho Eanes era denegrido como pouco inteligente por vozes políticas. E do ódio que lhe votavam políticos de eleição como Francisco Sá Carneiro e Mário Soares.

Lembro-me do desprezo geral com que Mário Soares era tratado e considerado quando se candidatou ao cargo da primeira vez.

Lembro-me também da forte depreciação de Jorge Sampaio, acusado precisamente de ter um discurso redondo por figuras gradas de então, entre as quais António Barreto.

E lembro-me (muito) de como Cavaco Silva terminou o seu segundo mandato de presidente da república indesejado pela maioria dos portugueses.

No presente, todos podemos testemunhar que Marcelo Rebelo de Sousa, apesar da sua imensa cultura e inteligência, foi delapidando o elevado capital político que granjeou. E é (para mim) certo que extravasou os poderes constitucionais ao dissolver a assembleia da república em que uma maioria parlamentar sustentava um governo legítimo – embora incompetente – por razões que ainda hoje são obscuras.

Para desempenhar razoavelmente a função há entre os candidatos mais do que um com capacidades aceitáveis.

Eu vou votar em António José Seguro.

José Batista d’Ascenção

sábado, 10 de janeiro de 2026

Num mundo instável, que papel para os humildes cidadãos?

Velho que me sinto há anos, olho perplexo a humanidade. O mundo é como é (e nunca foi melhor, nem sequer tão bom para uma larga fatia de seres humanos), apenas está cada vez mais tóxico (em múltiplos sentidos) e imprevisível, o que impõe esforços de serenidade e lucidez. Que podem fazer os cidadãos comuns?

Sem pretender expor receitas - tomara eu «azeite para a minha candeia» - nem ser exaustivo ou hierárquico, parece-me que:

- não podemos descrer da humanidade, da parte boa das muitas pessoas que procuram o melhor para si e para o próximo;

- é preciso ter princípios, respeitá-los e não ter receio de os assumir (no meu caso, os valores dos evangelhos são a matriz fundamental, de que dispenso a prática ritualizada de convenções socio-religiosas);

- é imprescindível educar as crianças pelo exemplo e segundo normas democráticas de deveres e direitos, com elevado respeito pelos direitos humanos consignados na carta das Nações Unidas;

- cada cidadão deve obrigar-se a um desempenho profissional dedicado e com rectidão;

- devemos ser compassivos e valorizar a humildade nas acções em proveito próprio e/ou de outros;

- não se deve desistir daquilo em que se acredita, pessoal e socialmente, da verdade dos factos e da lisura de procedimentos, mesmo (ou sobretudo) em situações de fragilidade ou desvantagem;

- a relação com a Natureza e as comunidades vivas deve ser de integração harmónica para não degradar o planeta, que é a (única) casa comum em que as espécies, incluindo a humana, poderão continuar a viver (ou não).

E quando a morte me levar, que reste algum contributo meu para um mundo melhor do que o que encontrei quando nasci.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A lei dos mais fortes num mundo sem princípios nem compaixão

De modo geral, os movimentos sociais não ocorrem por princípios nem por boas intenções, o mundo das pessoas (e os ideários políticos) move(m)-se por interesses e por paixões. Já escrevi isto várias vezes e não consigo desmentir-me a mim próprio.

Mesmo a democracia, o menos mau de todos os sistemas políticos, parece ter saturado as pessoas, que descrêem dela, a contrariam nas suas práticas e optam em liberdade por regimes autoritários.

Claro que há razões objectivas que contribuem para que assim seja, mas isso não explica tudo. É como se no âmago das pessoas houvesse alguma tendência para o abismo e a violência, tantas vezes expressa cegamente em raiva e ódio destruidores da harmonia mínima vantajosa para todos.

As experiências traumáticas ensinam, mas a força desses ensinamentos só tem eficácia preventiva sobre a maioria dos que os sofreram e deles guardam memória: casos das guerras mundiais, das explosões das bombas nucleares, da guerra do Vietname, etc.

As gerações vindas a seguir, que pais e avós protegem tanto quanto podem e que são educadas em ambientes que cultivam a paz, tornam-se algo insensíveis, como se os relatos ouvidos, os filmes vistos ou o que devia ser a aprendizagem nas escolas se tornasse longínquo e pouco real ou credível, deixando de ser relevante.

E então, de novo, as sementes da agressividade germinam, crescem e desenvolvem-se, qual pasto para futuras chamas de ódios e guerras ferozes, que podem começar no exercício livre de escolhas políticas mediante eleições.

Pela parte que me toca, e com muita pena, porque diz respeito à profissão que escolhi e a que me dediquei, vejo na educação formal e no papel da escola um enorme falhanço. Tendencialmente, as teorias da aprendizagem desenharam realidades fictícias, propuseram metodologias absurdas, denegriram a memória, cultivaram a falta de humildade e diplomaram a ignorância. Professores, pais, avós e a comunidade começaram a pagar o “preço”. E as vítimas finais são os adultos que foram crianças que não soubemos ensinar.

Obviamente, há uma minoria que escapou aos efeitos deletérios.

Será que esses vão conseguir resgatar a massa restante?

José Batista d’Ascenção

domingo, 4 de janeiro de 2026

Novo ano, novos danos, nova esperança no(s) ser(es) humano(s)

Para aonde vai o mundo?

Na Ásia, o criminoso Putin está cada vez mais ancho. A vida sorri-lhe, para mal dos que domina e dos que pretende vir a subjugar.

Mais a Sul, a China desenvolve-se económica, técnica e cientificamente e estende-se cheia de confiança. Macau é “fagocitado” e nele cada vez menos vestígios lusófonos restarão, muito menos resquícios de democracia. Taiwan será incluída na China sem apelo nem agravo. Da Coreia do Norte nem vale a pena falar.

Além Atlântico, o megalómano e mentiroso Trump faz da América Latina o seu quintal. Não englobará Brasis e Argentinas, até pela dimensão, mas aniquilará Venezuelas e «arredores». Ameaça despudoradamente o México, “deglutirá” (também) a Gronelândia e o mais a que a demência o conduzir.

A Europa parece um continente abúlico, incapaz de proclamar e defender bem alto os seus valores, com líderes baços e acobardados.

As Nações Unidas são uma organização pobre e triste, bloqueada pelos poderosos membros permanentes do conselho de segurança, à vez, consoante os interesses de cada um, no retalhar impune do mundo.

Portugal é um grão irrelevante no desconcerto das nações.

E até eu, hoje, ao sair de casa apressado, para chegar a tempo ao almoço com familiares, despedi sumariamente um pedinte jovem de tez morena, que já não é a primeira vez que vejo à minha porta. Nada lhe dei. Enquanto saboreava a comida, lembrei-me dos olhos tristes daquele indivíduo e senti-me menos merecedor do pão de cada dia.

A humanidade tem remédio? Penso nos meus netos e digo (a mim) que sim.

Mas não tenho a certeza.

José Batista d’Ascenção