sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Imprudência e azar

Cheias. Cheias. Cheias.

Falhas de prevenção. Impreparação. Descoordenação. Falta de recursos.

Felizmente, nas últimas horas em Coimbra não foi assim. E noutras regiões também não. Parabéns a todos os protagonistas.

Mas não destoaria se fosse. O que está a acontecer, depois da tempestade mais violenta de há duas semanas e meia, não é novo nem irrepetível. E o mesmo é válido para as condições meteorológicas opostas: elevadas temperaturas, seca e incêndios, que ocorreram há escassos seis meses e que são previsíveis dentro do próximo meio ano.

Há quem negue veementemente as alterações climáticas como consequência das acções humanas. A evidência não o é para todos. E o valor da ciência também não. Este problema é mais grave quando afecta visceralmente os líderes políticos. E quando os seus aficcionados os seguem acriticamente.

Imagine-se que tinha feito vencimento a ideia de adiar as eleições presidenciais. Este fim-de-semana adiávamo-las outra vez. E quem sabe o que se proporia no seguinte…

Que preparação temos nós? E que preparação e sentido de responsabilidade têm aqueles que escolhemos para nos governar?

Esses são problemas maiores, Parece-me.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Três perguntas a Cotrim

Ponto prévio: A vida particular de Cotrim não me interessa. Nem a dele nem a de nenhum político. Muito menos a vida íntima, dele ou de qualquer outro.

Mas, como cidadão, tenho o direito de saber quem são os executantes da política no meu país, para poder fazer opções fundamentadas.

Primeira pergunta: Sendo Cotrim uma pessoa ambiciosa (no sentido político, tanto mais que, sendo deputado europeu, se candidatou à presidência da república), qual foi a razão (ou as razões) concreta(s) por que saiu da liderança do partido «Iniciativa Liberal»? Mais directamente: essa saída pode ter-se devido a motivos de importunação a alguma senhora que desempenhasse funções políticas com ele ou para ele, nessa altura?

É que, recentemente, pareceu tão amofinado com acusações dessa natureza, que ameaçou que recorreria aos tribunais para esclarecer judicialmente a questão. Já o fez? Por via das dúvidas, eu gostava de saber a decisão judicial elementar a haver, apenas isso e não os prolegómenos ou as fundamentações.

Terceira questão: No meu percurso diário para o trabalho passo por vários mega-cartazes de Cotrim (dele e doutros, na realidade), em que aparece a exibir e a elogiar o próprio perfil ou então de olhar vulpino como se tivesse lobrigado a salvação do mundo. Ora, tendo já passado algum tempo desde a 1ª volta das eleições, em que não passou; havendo algum risco de queda de obstáculos na via pública; desfeando aquelas lonas descomunais o espaço urbano; e tendo Cotrim tempo de sobra para aparecer como comentarista político de coturno suficiente (embora eu me lembre de como embatucou confrangedoramente por largos segundos a uma pergunta simples de Seguro em debate a dois na TV), sobra-me a pergunta: porque não se apressa a dar o exemplo de mandar tirar os retratos do passeio público?

Se fizer o obséquio.

José Batista d’Ascenção

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Humanismo imprescindível

Homenagem singela a Cavaco Silva e a Paulo Portas

Há valores fundamentais que todos deviam defender e respeitar – os consignados na declaração universal dos direitos humanos.

Em certos momentos da vida das democracias, ninguém na plenitude das suas capacidades de cidadania e dos seus direitos devia eximir-se a tomar posição.

A ideologia política, as opções religiosas e as práticas sociais de cada um, quando conformes com os princípios éticos, são matéria de liberdade individual e carecem de ser respeitadas, desde logo pelos poderes instituídos. E não podem tolerar-se atropelos ao seu usufruto precisamente pelas instituições do poder nem por organizações que se constituam com o objectivo de as cercear.

A segunda volta das eleições presidenciais que, por ora, vivemos enquadram-se, a meu ver numa dessas escolhas fundamentais para o país (de Abril) e para a sociedade (democrática) que queremos ser.

Para isso, contribuiu a opção maioritária dos eleitores, obviamente, e dentre esses, os que, opondo-se desde sempre ao partido de que é oriundo o novel presidente, mas tendo em vista o principal, quiseram, anteriormente ao acto, manifestar-lhe o seu apoio de forma clara, digna e corajosa.

Foram muitos, e todos são dignos de apreço. Permito-me destacar dois deles: Cavaco Silva e Paulo Portas.

Como aos demais, a ambos felicito e agradeço.

José Batista d’Ascenção

A desventura não é irremediável

Saturado de água, o país foi a votos para o seu representante máximo. Como era previsível e tudo indica, a moderação ganhou larguissimamente.

Ainda bem.

Mas não foi só a moderação que ganhou, ganhou também a recusa da falsidade, da maldade e da crueldade. Foram muitos os que, revoltados ou dominados pelo ódio, seguiram um líder sem princípios, que se afirma cristão, mas cuja prática ofende obscenamente os evangelhos. O problema dos que votaram nele não fica resolvido, mas os resultados contribuirão decisivamente para que o mal de que sofrem não contamine mais pessoas nem se abata sobre os que não perderam os eixos nem as referências.

Ainda bem.

Os males dos tempos a que chegámos derivam em enorme medida da incompetência e da irresponsabilidade das sucessivas assembleias de deputados - que deviam ser em menor número e mais bem selecionados - e dos governos que temos tido.

Por isso, é necessário que a generalidade dos cidadãos se torne mais exigente com a qualidade da democracia, desde logo reclamando um sistema de justiça digno do nome.

Para bem de todos.

Parabéns a António José Seguro e ao país que votou nele.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os troféus dos professores

Estava eu no supermercado, entre as batatas e as cebolas, e, à distância, uma cara sorria abertamente, com a expressão e o olhar. Duvidoso, tentei perceber se se dirigia para alguém ao meu lado, antes de compor, também eu, o melhor sorriso.

Então, já a menina estava à minha frente, em cumprimento amistoso e serenamente efusivo.

Pedi desculpa por, finalmente, reconhecer os traços, mas, ao contrário do desejo, não recordar o nome.

Primeiro “bónus”: era a Carla Daniela, minha aluna há cerca de vinte anos, na escola onde ainda trabalho.

E que fazia agora, como ia a sua vida? - Perguntei.

É enfermeira no Hospital Público de Braga e tem um bebé rapaz, com cerca de um ano, disse-me.

Estava contente com a profissão? - Arrisquei.

Com a função sim, com as condições… pôs uma cara triste.

Curioso, ainda perguntei se não chegara a pensar emigrar, até pela elevadíssima competência da enfermagem portuguesa, como eu pude comprovar abundantemente, na primeira pessoa, em 2009.

Que sim, que tivera um bilhete na mão, mas que era tanta a tristeza, na hora de partir, que a própria mãe lhe pedira que não fosse.

Felicitei-a, de todo o modo.

Segundo “bónus”: que às vezes se lembrava do professor de biologia, que sempre a incentivou e que lhe chamava Carlinha.

Terceiro “bónus”: que tentara orientar-se por outro conselho desse professor: que nunca deixasse de ser como era.

Devo ter ficado emotivamente confuso e rubicundo.

Apertei-lhe nas minhas as suas mãos e desejei-lhe as maiores felicidades, especialmente para ela e para o seu bebé.

Com o mesmo sorriso doce e belo foi à sua vida.

“Bónus” adicional: ao meu lado, a Lurdes, minha mulher, felicitou-me também.

Há dias assim.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Primavera que há-de chegar

Inverno, Inverno é o que temos tido: Muita chuva, ventos ciclónicos, neve e frio. Os solos estão saturados de água, os rios galgaram as margens e o mar enfureceu-se.

O bom disto tudo são as albufeiras cheias até mais não ser possível. O mau são os casos de morte e os prejuízos que tem havido, alguns dos quais se vão prolongar no futuro, como é o caso da perda de empregos…

Creio que, quando vierem uns dias de sol, os portugueses vão expor-se à luz e à (maior ou menor) quentura com particular satisfação.

E a Natureza pode reagir de modo análogo, como que para compensar e suplantar os rigores do tempo e o cinzentismo ambiental com que temos (con)vivido.

Nessa altura, a “explosão” de flores há-de colorir o meio ambiente, como que pondo-o em festa. E a festa, assim sentida e agradecida, por certo encherá de júbilo e esperança as (nossas) almas em hibernação sombria.

Quem sabe se essa bonomia do tempo entrará no calendário pelo Entrudo?

Bem-vinda seja, quando vier.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Sucedem-se as tempestades, mas tardam a bonança preventiva e a remediação efectiva

A eleição presidencial, pela sua natureza e significado, devia consumar-se no seu objectivo. Atingido este, adiante. Não sendo assim, os candidatos pretendem outros fins, que não os da eleição propriamente dita.

Ressalve-se, porém, que, em democracia, todos os movimentos políticos que não a neguem ou destruam são legítimos, mesmo que inconvenientes.

As presidenciais que decorrem tiveram um número recorde de candidatos e o país encheu-se de anúncios propagandísticos de grandes dimensões nas praças e arruamentos urbanos e nas bermas das estradas. A esses somam-se os que nos impingem apelos ao consumismo comercial.

Para a impressão de tais anúncios, estruturas de suporte e afixação, instrumentos e mão-de-obra, aparentemente, não falta dinheiro.

Acontece que a profusão e dimensão das imagens ofende a vista, degrada a paisagem e o ambiente e distrai condutores a quem convém toda a atenção.

Passou a primeira volta das presidenciais e sobrevieram temporais seguidos. Os que diligentemente afixaram os materiais de propaganda deixaram os monos agora inúteis a agredir os espaços e à mercê das intempéries. Mais ou menos esfrangalhados, parte deles permanecem.

Alguns dos candidatos que ficaram pelo caminho foram lestos a anunciar movimentos políticos, mas não se mexeram para que se removam e limpem quanto antes os detritos de que são responsáveis.

Se tivéssemos bons deputados e bom governo, em tempo oportuno far-se-iam normas mais apertadas e restritivas de afixação de megacartazes, também pelo risco que podem constituir para quem circula nas estradas.

Mas isso só aconteceria se os cidadãos exigissem que assim fosse.

José Batista d’Ascenção

sábado, 24 de janeiro de 2026

Casamento, divórcio e relações sexuais (curiosidades históricas, em resultado de leitura)

O livro «Imaginação» é uma obra de fôlego da autoria de Francisco Louçã. Lê-la vale por muitos motivos, que esta anotação não revela, limitando-se aos aspectos referidos no título, os quais achei curiosos e interessantes e por isso merecedores de registo.

«Aristóteles dedicou um capítulo da sua Política a instituir normas para o casamento, aconselhável aos 18 anos para as mulheres e aos 37 ou pouco antes para os homens, e para o momento da união reprodutiva, no inverno e de preferência com vento norte»… (p 398).

[…] Para os primeiros cristãos, a proibição do casamento de sacerdotes era absurda. Pedro era casado e Paulo admitia mesmo que esses matrimónios fossem normais e pedia unicamente aos bispos que fossem maridos fiéis. Só trezentos anos depois foi estabelecido que os bispos não podiam casar (p. 411).

[…] Os textos bíblicos autorizavam o divórcio, pelo menos em alguns casos. Mateus admitia uma única justificação para o divórcio, o adultério (p. 411) e Paulo, que tratou a questão em cartas conhecidas antes da redação dos evangelhos, afirmou que o divórcio devia ser impedido, mas não de forma absoluta (idem). Constantino, o primeiro imperador que se declarou seguidor do cristianismo promulgou em 331 leis que determinavam as condições do divórcio (se o marido fosse bêbado ou jogador, se a mulher o envenenasse e, para qualquer dos dois, a invocação do adultério) (ibidem).

[…] Martinho Lutero considerou, como Calvino, que o casamento não era um sacramento, pois não é mencionado como tal na Bíblia, e, portanto, os padres podiam casar-se – o que ele e muitos dos que o seguiam fizeram. (p 420)

[…] Na Cantábria, em Espanha, a poucos quilómetros de Santander, uma pequena igreja – a Colegiata de San Pedro de Cervatos, construída entre 1129 e 1199, tem profusa decoração exterior com estátuas simbolizando a luxúria sexual, o que permanece um mistério, tanto nessa igreja como noutras, de outros lugares de Espanha, mas também de países como Alemanha, França, Inglaterra, Irlanda, Itália… (p 421).

[…] S. Tomás de Aquino, o teólogo que alcançou mais fama e influência na fixação do cânone sexual (…) fê-lo de modo explícito na sua Summa Theologiae, escrita no final da vida, entre 1267 e 1273 (…). Para cumprir os preceitos, o coito só devia ser a penetração vaginal na posição do homem sobre a mulher, sendo negadas outras formas de relação sexual. (p 414)

[…] Desde o concílio de Trento, no séc. XVI, o casal devia estar sob a égide da igreja e as regras da sua vida sexual deviam ser definidas pela autoridade eclesiástica.» (p. 422)

José Batista d’Ascenção

Tanta água

Chuva, neve, inundações, albufeiras a transbordar. É uma maré cheia do precioso líquido. Também temos o frio e o vento e o mar furiosamente encapelado, pronto a atacar a costa, ante a impotência da prevenção possível, após décadas de imprudência, ambientalmente criminosa.

O Inverno está a ser Inverno, no calendário natural. Minimizando os riscos e estragos possíveis, devíamos ser capazes de potenciar as vantagens que possa haver.

Gostava eu que, chegados a Julho e Agosto, não tivéssemos de lamentar eventuais secas e prejuízos decorrentes. Para isso seria preciso uma gestão da água entretanto armazenada que, nessa altura, nos poupasse preocupações e danos. Temos soluções, das mais simples, e não propriamente dispendiosas, como o simples armazenamento de águas pluviais dos telhados em contentores de polietileno, a outras que exigem estudo e investimento, como represas e condutas mais ou menos extensas. Algo paralelo, e igualmente decepcionante, acontece com a necessidade de planeamento, acção e despesa na prevenção de incêndios.

Se os holandeses empurram e sustêm eficazmente o mar, porque não retemos nós a bendita água que fartamente nos cai do céu? Assim, no Verão, podíamos hidratar animais e plantas e apagar os fogos que houvesse.

Digo eu.

José Batista d’Ascenção

domingo, 18 de janeiro de 2026

O (tri)salazarismo recauchutado (ainda) não venceu

Para quem preza a democracia e não prescinde da liberdade, os tempos estão sombrios.

As condições de vida antes do 25 de Abril libertador eram paupérrimas para a imensa maioria dos portugueses, em quaisquer aspectos que possamos considerar.

Porém, as lamentáveis e persistentes falhas dos governantes desde então, os maus exemplos de políticos incompetentes ou corruptos, que a justiça não responsabilizou nem puniu, o chamado «sistema educativo», que falhou na sua missão básica, e algumas tendências intrínsecas dos humanos (da falta de empenho na prevenção dos incêndios à má escolha dos líderes políticos) – que nenhuma ciência elucidou, até hoje – fazem-nos aproximar de catástrofes naturais e sociais, como se, enquanto sociedade, abdicássemos do (muito) bem (ou bom) de que dispomos (ou que desperdiçamos) e voluntariamente nos atolássemos em situações de caos de que poucos beneficiarão.

Se assim não for, tanto melhor. De momento, os resultados eleitorais sustêm o pior, em minha opinião.

Precisamos de luz, e de trilhar sendas mais auspiciosas.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sobre candidatos presidenciais, falar de barriga cheia


Alguns dos candidatos presidenciais
Segundo algumas opiniões, os actuais candidatos à presidência da república são de quinta categoria. Não concordo.

Nem mesmo por comparação com os ocupantes do cargo eleitos no pós-25 de Abril. Genericamente, desde logo porque com esses hiperdotados políticos chegámos ao tempo actual com a democracia em regressão. Eles não contrariaram suficientemente a tendência “universal” nesse sentido e podem ter contribuído para ela.

Lembro-me dos tempos em que Ramalho Eanes era denegrido como pouco inteligente por vozes políticas. E do ódio que lhe votavam políticos de eleição como Francisco Sá Carneiro e Mário Soares.

Lembro-me do desprezo geral com que Mário Soares era tratado e considerado quando se candidatou ao cargo da primeira vez.

Lembro-me também da forte depreciação de Jorge Sampaio, acusado precisamente de ter um discurso redondo por figuras gradas de então, entre as quais António Barreto.

E lembro-me (muito) de como Cavaco Silva terminou o seu segundo mandato de presidente da república indesejado pela maioria dos portugueses.

No presente, todos podemos testemunhar que Marcelo Rebelo de Sousa, apesar da sua imensa cultura e inteligência, foi delapidando o elevado capital político que granjeou. E é (para mim) certo que extravasou os poderes constitucionais ao dissolver a assembleia da república em que uma maioria parlamentar sustentava um governo legítimo – embora incompetente – por razões que ainda hoje são obscuras.

Para desempenhar razoavelmente a função há entre os candidatos mais do que um com capacidades aceitáveis.

Eu vou votar em António José Seguro.

José Batista d’Ascenção

sábado, 10 de janeiro de 2026

Num mundo instável, que papel para os humildes cidadãos?

Velho que me sinto há anos, olho perplexo a humanidade. O mundo é como é (e nunca foi melhor, nem sequer tão bom para uma larga fatia de seres humanos), apenas está cada vez mais tóxico (em múltiplos sentidos) e imprevisível, o que impõe esforços de serenidade e lucidez. Que podem fazer os cidadãos comuns?

Sem pretender expor receitas - tomara eu «azeite para a minha candeia» - nem ser exaustivo ou hierárquico, parece-me que:

- não podemos descrer da humanidade, da parte boa das muitas pessoas que procuram o melhor para si e para o próximo;

- é preciso ter princípios, respeitá-los e não ter receio de os assumir (no meu caso, os valores dos evangelhos são a matriz fundamental, de que dispenso a prática ritualizada de convenções socio-religiosas);

- é imprescindível educar as crianças pelo exemplo e segundo normas democráticas de deveres e direitos, com elevado respeito pelos direitos humanos consignados na carta das Nações Unidas;

- cada cidadão deve obrigar-se a um desempenho profissional dedicado e com rectidão;

- devemos ser compassivos e valorizar a humildade nas acções em proveito próprio e/ou de outros;

- não se deve desistir daquilo em que se acredita, pessoal e socialmente, da verdade dos factos e da lisura de procedimentos, mesmo (ou sobretudo) em situações de fragilidade ou desvantagem;

- a relação com a Natureza e as comunidades vivas deve ser de integração harmónica para não degradar o planeta, que é a (única) casa comum em que as espécies, incluindo a humana, poderão continuar a viver (ou não).

E quando a morte me levar, que reste algum contributo meu para um mundo melhor do que o que encontrei quando nasci.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A lei dos mais fortes num mundo sem princípios nem compaixão

De modo geral, os movimentos sociais não ocorrem por princípios nem por boas intenções, o mundo das pessoas (e os ideários políticos) move(m)-se por interesses e por paixões. Já escrevi isto várias vezes e não consigo desmentir-me a mim próprio.

Mesmo a democracia, o menos mau de todos os sistemas políticos, parece ter saturado as pessoas, que descrêem dela, a contrariam nas suas práticas e optam em liberdade por regimes autoritários.

Claro que há razões objectivas que contribuem para que assim seja, mas isso não explica tudo. É como se no âmago das pessoas houvesse alguma tendência para o abismo e a violência, tantas vezes expressa cegamente em raiva e ódio destruidores da harmonia mínima vantajosa para todos.

As experiências traumáticas ensinam, mas a força desses ensinamentos só tem eficácia preventiva sobre a maioria dos que os sofreram e deles guardam memória: casos das guerras mundiais, das explosões das bombas nucleares, da guerra do Vietname, etc.

As gerações vindas a seguir, que pais e avós protegem tanto quanto podem e que são educadas em ambientes que cultivam a paz, tornam-se algo insensíveis, como se os relatos ouvidos, os filmes vistos ou o que devia ser a aprendizagem nas escolas se tornasse longínquo e pouco real ou credível, deixando de ser relevante.

E então, de novo, as sementes da agressividade germinam, crescem e desenvolvem-se, qual pasto para futuras chamas de ódios e guerras ferozes, que podem começar no exercício livre de escolhas políticas mediante eleições.

Pela parte que me toca, e com muita pena, porque diz respeito à profissão que escolhi e a que me dediquei, vejo na educação formal e no papel da escola um enorme falhanço. Tendencialmente, as teorias da aprendizagem desenharam realidades fictícias, propuseram metodologias absurdas, denegriram a memória, cultivaram a falta de humildade e diplomaram a ignorância. Professores, pais, avós e a comunidade começaram a pagar o “preço”. E as vítimas finais são os adultos que foram crianças que não soubemos ensinar.

Obviamente, há uma minoria que escapou aos efeitos deletérios.

Será que esses vão conseguir resgatar a massa restante?

José Batista d’Ascenção

domingo, 4 de janeiro de 2026

Novo ano, novos danos, nova esperança no(s) ser(es) humano(s)

Para aonde vai o mundo?

Na Ásia, o criminoso Putin está cada vez mais ancho. A vida sorri-lhe, para mal dos que domina e dos que pretende vir a subjugar.

Mais a Sul, a China desenvolve-se económica, técnica e cientificamente e estende-se cheia de confiança. Macau é “fagocitado” e nele cada vez menos vestígios lusófonos restarão, muito menos resquícios de democracia. Taiwan será incluída na China sem apelo nem agravo. Da Coreia do Norte nem vale a pena falar.

Além Atlântico, o megalómano e mentiroso Trump faz da América Latina o seu quintal. Não englobará Brasis e Argentinas, até pela dimensão, mas aniquilará Venezuelas e «arredores». Ameaça despudoradamente o México, “deglutirá” (também) a Gronelândia e o mais a que a demência o conduzir.

A Europa parece um continente abúlico, incapaz de proclamar e defender bem alto os seus valores, com líderes baços e acobardados.

As Nações Unidas são uma organização pobre e triste, bloqueada pelos poderosos membros permanentes do conselho de segurança, à vez, consoante os interesses de cada um, no retalhar impune do mundo.

Portugal é um grão irrelevante no desconcerto das nações.

E até eu, hoje, ao sair de casa apressado, para chegar a tempo ao almoço com familiares, despedi sumariamente um pedinte jovem de tez morena, que já não é a primeira vez que vejo à minha porta. Nada lhe dei. Enquanto saboreava a comida, lembrei-me dos olhos tristes daquele indivíduo e senti-me menos merecedor do pão de cada dia.

A humanidade tem remédio? Penso nos meus netos e digo (a mim) que sim.

Mas não tenho a certeza.

José Batista d’Ascenção