quarta-feira, 10 de março de 2021

Lombos de frango ou a desvalorização das palavras

Há dias fiquei surpreso por, na lista das compras, me mandarem incluir “lombinhos de frango”. Entrei em conflito cognitivo. Fui ao dicionário confirmar: lombo significa «costas; parte carnuda pegada à espinha dorsal; lombada». Ora, ao dorso das aves associo eu uma armação óssea revestida de pele com escassa substância alimentar. Mas no supermercado havia, bem etiquetado. Ou as galinhas estão muito modificadas ou são peitos (de frango) “transmutados” em pedaços de “lombo”.

Faz-se isso com coisas, ideias, intenções, procedimentos e… palavras. Muito para além do “marketing”. E como as palavras condicionam o pensamento (é com elas que pensamos), ou respeitamos as palavras ou deixamos de (saber) pensar.

Às vezes é só desleixo. Outras vezes é importante perturbar a organização do pensamento. Conta-se que, em incerto país, um ministro diligente perguntava a um seu assessor se determinado normativo já estaria redigido de modo suficientemente confuso para poder ser publicado! 

Para além das leis e da política, também na pseudociência, nos contratos comerciais ou no argumentário do pontapé na bola se caldeia o discurso com contorcionismos de qualquer espécie para se poder afirmar tudo e o seu contrário. E assim, “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira” e vice-versa.

Sobra ainda a ignorância, mesmo que revestida daquele verniz que o dinheiro compra. Donde poder-se propor que se façam “prognósticos” no fim de qualquer acto, desde o resultado de um jogo ao desfecho de alguma tragédia. Também se ouve falar em mergulho “sobre” um assunto, tal seja o estudo, como que a contribuir para a impossibilidade do facto.

No campo da economia, há entendidos que quanto mais contraditados pela realidade, mais se afirmam prenhes de razão e coerência nas suas análises em todo o tempo.

E certos especialistas da política dizem-se retirados dela para, nos blocos “informativos”, perorarem sobre motivos do seu interesse, ante jornalistas auto-apoucados, nunca se enganando, mesmo quando as suas antevisões não têm adesão ou se opõem à verdade dos acontecimentos.

A adulteração dos termos também é muito comum em tudo o que seja moda. Assim, a agricultura boa passou a ser “biológica” como se qualquer tipo de agricultura pudesse fugir a essa condição intrínseca. Podiam ter-lhe chamado “agricultura ecológica”, mas isso era ceder à lógica de uma expressão feliz.

A mim faz-me alguma pena por variadas razões, de que posso dar mais um exemplo: como sempre tive problemas de audição e, mais tarde sofri de vertigens, o “ótico” foi um domínio de que sempre fui cliente (área de “otologia”), e não têm conta as consultas que tive de “otorrino”, não só por causa de “otites”, como para averiguar o funcionamento dos “otólitos”. Depois vieram uns senhores muito sabedores e fundiram o “óptico”, em que também passei à condição de paciente, com o “ótico” e ficou tudo no mesmo saco. Como ninguém dá por nada, isto não deve ter importância nenhuma.

Pior está quem passa fome, dir-me-ão, e concordo. Esperando que nunca ninguém sugira alimentação farta à base de uivos de canídeo ou se condescenda em bifes de testa de boi.

José Batista d’Ascenção

domingo, 7 de março de 2021

A pedagogia é uma arte

Imagem obtida aqui.

Mais que uma ciência (que nunca foi nem será) ou um conjunto de técnicas (a que não pode limitar-se), a pedagogia é uma arte (como nunca deixou de ser).

E como qualquer arte deve beneficiar dos conhecimentos científicos sobre a natureza, as características e as capacidades dos humanos, enquanto seres que aprendem, e sobre as técnicas que facilitam as aprendizagens. Imprescindíveis são a vastidão de saber de quem ensina e os seus dotes de empatia, de entusiasmo e de exemplo. Mas não há fórmulas nem receitas, porquanto as condições que se exercem sobre cada pessoa ao longo da sua vida são infinitas e variam segundo os contextos, pelo que extrair, em cada caso, o que determina a capacidade de ensinar e de aprender não é absolutamente claro e definido. Conhecemos, embora, muitos factores determinantes da aprendizagem: o conforto psico-fisiológico, o bem-estar afectivo e social (impossíveis na pobreza), mas desconhecemos tantos outros e o efeito e o peso das suas múltiplas interacções.

Clarificando: uma criança não aprende bem se tem fome, se passa frio, se não tem saúde, se vive com medo ou se procede sem regras. São determinantes espaços habitacionais, escolares e ambientais não degradados e afectivamente saudáveis, com condições de higiene, de disciplina, de responsabilidade e de humanismo.

Sobre esse lastro devia assentar a acção pedagógica. O desejo de melhorar a aprendizagem e aperfeiçoar os cidadãos conduziu, compreensivelmente, a estudos diversos e a especializações da psicopedagogia. O que é bom. Mas, a imposição de teorias e práticas descurando as condições reais, específicas e particulares, cedo produziu efeitos indesejáveis.

Olhando para trás, nas quase quatro décadas que levo de ensino, posso referir três ou quatro aspectos que redundaram em fracassos que continuam a não ser reconhecidos:

- A ideia do «bom selvagem» de Rosseau, por exemplo. Não só é errada, como permanece inerente à formação e à acção de muitos professores - uma espécie de âncora de que não se conseguiram libertar. Ora, um "selvagem" (ou vários, em cada turma), embora "bom", tende facilmente para a "selvajaria", como se verificou em demasiados casos, (sempre desvalorizados como não sendo a regra, o que não era verdade) em muitas turmas de várias escolas, durante anos sucessivos (na realidade, décadas), e continua a acontecer. Para crescer e se educar, cada criança tem de interiorizar normas e cumpri-las, não sendo legítimo nem aceitável que prejudique reiteradamente a sua aprendizagem e, sobretudo, a dos outros;

- A aprendizagem em “espiral”, que consiste basicamente em abordar certas matérias, de tempos a tempos (de dois em dois anos, por exemplo), com níveis de aprofundamento e de exigência diferentes, de acordo com uma suposta maturidade e capacidade crescentes dos alunos. Sendo isto possível, não significa que seja universalmente desejável nem justificável. Nas minhas disciplinas, por exemplo, não consigo saber em que ano é que os “especialistas” propõem que se estudem os modelos de actividade enzimática ou os factores que a afectam. E não conheço ninguém que saiba, porque nada é proposto, a não ser que se estudem enzimas. Donde resulta que no nono ano não se dão porque é matéria de décimo. E no décimo também não porque talvez tenha sido dada no nono. Já no décimo segundo, esta matéria é considerada como tendo sido dada. É assunto (mal) arrumado. Ora, quando uma criança está em condições de compreender uma matéria, a mesma deve ser ensinada da forma clara e suficientemente completa, de tal modo que ela própria a possa aprofundar em qualquer altura posterior;

- A dispensabilidade de fazer muitos exercícios, de preferência à mão e usando cálculo mental. O mesmo para o treino da escrita e da leitura. O que é tremendamente nefasto. A consequência é que muitos alunos terminam cada ciclo de ensino empurrados pelas estatísticas de sucesso, até ao fim do secundário, sem mínimos indispensáveis: demasiados odeiam o cálculo e a leitura e detestam escrever (e não poucos lêem e escrevem muito deficientemente), o que também é escondido, porque devemos ser “positivos” e não insistir na referência aos fracassos, especialmente na documentação oficial. Alheios a isso, em vez da redacção de texto, estimulamos os alunos a construírem esquemas conceptuais e há até quem os leve (sempre esporadicamente) ao teatro ou lhes recomende filmes como estímulo à leitura de bons livros (função que estas nobres artes não têm por finalidade nem podem cumprir);

Há ainda a investigação em educação. Muito necessária, mas dispersa, etérea e longe da prática concreta da sala de aula. As bibliotecas estão cheias de teses não raro de dimensão gigantesca que justificam progressões académicas, mas são de utilidade prática irrelevante. Ora a incidência em aspectos concretos e objectivos: saúde, alimentação, certos comportamentos e hábitos, factores que predispõem à concentração ou à distracção, entre outros, merecem investigação e estudo exaustivo. Castelos no ar e palmas de uns para outros, em “circuitos endogâmicos”, dispensam-se.

O nevoeiro permanece e não é desejável que o tornem(os) mais denso.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 4 de março de 2021

A “objectividade” ao longo dos tempos – pequeno exemplo e registo de algumas dificuldades extraídos da obra de Garcia d’Orta

Excepto no domínio da matemática e das ciências experimentais, em observância estrita da coerência lógica do raciocínio e sob o controlo efectivo de variáveis isoladas, o rigor das observações, do pensamento e do saber é bastante “volátil”, por assim dizer, em todos os tempos e também na actualidade.

Tendo-me decidido pela leitura do livro «Colóquios dos Simples» (fac-símile da obra publicada em Abril de 1563, que verti para o português que escrevo aqui), detive-me no que o autor designa como as suas «verdades, ditas sem cores retóricas: porque a verdade se pinta nua» (colóquio 7, verso da página 20); mais adiante refere «falsas informações que se deram a Avicena e Serapião, de longas vidas longas mentiras» (colóquio 12, verso da pg. 40); noutra parte, Garcia d’Orta cita Temístio: «o nosso saber é a mais pequena parte do que ignoramos» (colóquio 13, verso da pg. 48); sobre a velocidade de produção do conhecimento, o autor afirma: «digo que se sabe mais em um dia agora pelos Portugueses do que se sabia em 100 anos pelos Romanos» (colóquio 12, pg. 60); e no início do colóquio 17 (verso da pg. 69) damos com a fortíssima frase: «Eu não tenho ódio senão aos errores nem tenho amor senão à verdade».

Vejamos agora um pequeno mas saboroso excerto (no colóquio 20, verso da pg. 83) das longas linhas em que Garcia d’Orta se pronuncia sobre as qualidades do elefante: «o elefante não lhe falece mais que falar para ser animal racional […] e não tendo que comer lhe disse o seu mestre [a que chamam (…) naire] que não tinha a caldeira boa para lhe cozer o arroz, e que levasse a caldeira ao almoxarife, e que ele lha mandara consertar ao qual o elefante foi com a caldeira na tromba, e o almoxarife disse ao naire que levasse ao caldeireiro, e ele a consertou no fundo somente onde estava danada [estragada] e o elefante a levou a casa e cozendo nela o arroz saía dela água por não estar bem soldada então lha deu o naire, e o elefante a tornou a levar ao caldeireiro o qual a tomou, e consertou, e de indústria a deixou pior que estava primeiro dando-lhe algumas marteladas, e o elefante a levou ao mar, e a meteu na água, e olhou se deitava água pelo fundo, e como viu que a deitava a tornou a levar ao caldeireiro dando à porta muitos urros como que se queixava, e o caldeireiro lha concertou e soldou muito bem, e o elefante o foi provar ao mar, e achou muito boa então a levou a casa, e lhe fizeram de comer com ela vede se haveria homem que mais tino tivesse isto passou[-se] assim, e hoje neste dia há testemunhas que o viram, e outras maiores que por comum as deixo de dizer.»

Mais adiante, referindo-se a Serapião, Orta diz dele …«havia medo de dizer coisas contra os Gregos, e não vos maravilheis disto porque estando eu em espanha: não ousaria de dizer coisa alguma contra Galeno, e contra os Gregos:» (colóquio 32, verso da pg. 130).

Assim e muito mais, pelo merecidamente grande Garcia d’Orta. Em 1563.

Transponha-se o que possa entender-se por objectividade dos humanos comuns de todos os tempos, antes e depois daquela data. E enquanto houver gente.

José Batista d’Ascenção

sábado, 20 de fevereiro de 2021

A ladainha dos malefícios futuros da pandemia sobre os jovens

Fonte da imagem: aqui.

Tenho lido vários escritos sobre os males terríveis que aguardam crianças e jovens na sequência das limitações ao convívio e à socialização por que passam(mos) há (quase) um ano. Não me identifico com o pessimismo desses textos nem creio no rigor das previsões que anunciam. Admito até que correspondam mais ao estado de espírito (de alguns) dos seus autores, eles próprios afectados pela situação que vivemos, a que ninguém escapa, das crianças pequenas aos mais idosos.

Já bastam as dificuldades que enfrentamos. Não indo mais atrás, penso na geração dos meus pais e tios, por exemplo, e nos terrores que viveram com a guerra colonial, que deixou marcas profundas, claro, mas que eles suportaram (tantas vezes no silêncio da dor inexprimível); penso na minha geração e na quantidade de emigrantes que partiram deixando as crianças entregues à mãe, ou aos avós ou a familiares, o que perturbou o crescimento de muitas, mas não foi dramático na maior parte dos casos; penso ainda na vaga enorme de “retornados” que, em 1974-75, trouxe meio milhão de portugueses das ex-colónias, com pouco mais do que a roupa do corpo, e eles integraram-se no corpo da sociedade, que se renovou sem sobressaltos catastróficos, não obstante o sofrimento de muitos. São exemplos.

Em contraponto, lembro-me do optimismo das teorias pedagógicas, em cujo estudo me apliquei na minha formação para a docência, já lá vão várias décadas, e na frustração (surda ou nem tanto) da sua aplicação à realidade, que nos conduziu à escola doente dos tempos presentes. O investimento foi fruste, porque o conhecimento e a visão do futuro não eram sólidos e estavam enviesados. Ironicamente, a pandemia está a valorizar o papel da escola. Senão para aprender, pelo menos para socializar e para os professores tomarem conta dos alunos. Fosse esta uma janela de esperança.

Hoje como então, há muitos que pensam que sabem, mas que sabem pouco, tanto mais que ignorantes são todos os que ignorantes parecem mais a (quase) totalidade dos que não causam essa impressão, face à infinita diversidade do que se sabe e do que se desconhece.

Suponho que seja mais ou menos isto: temos medo; há muito “nevoeiro”; não sabemos o caminho; e, pior, não temos preparado bem grande parte das crianças.

Assim mesmo, com humildade, seriedade, serenidade, estudo e trabalho, mas também com a alegria possível, resolveremos, tanto quanto pudermos, a fome, a saúde e o prazer de viver a que todos têm/temos direito.

O que não será pouco. E é dever de cada um.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

«Pensar, depressa e devagar»

Há livros que nos surpreendem. Suporá o comum dos mortais que o que tem na memória é um registo objectivo do que se passou, que os acontecimentos históricos se deve(ra)m a causalidade determinada (que não a casualidade estatística), que os executivos influenciam decisivamente o desempenho das grandes empresas ou que um médico ou um juiz, de ordinário, fazem diagnósticos ou produzem sentenças seguindo com a maior coerência as perícias ou as provas de que dispõem. Ou seja, um indivíduo normal julga-se um ser racional e admite que os seres humanos que são como ele procedem comummente com racionalidade. Os bons publicitários sabem que não é bem assim. Os políticos hábeis também. E os negociantes eficazes, a mesma coisa. É pois provável que tal indivíduo tenda a relativizar ou a não considerar a enorme importância do acaso e da sorte nos acontecimentos da vida das pessoas. 

Ou seja: as coisas e os fenómenos diferem das ideias que temos deles. Daniel Kahneman, psicólogo, galardoado com o prémio nobel da economia, baseado em conhecimento produzido por si e por outros, mostra-o abundantemente neste livro. Impressionei-me. Eis algumas razões:

«Podemos ser cegos ao óbvio e somos também cegos à nossa cegueira.» (p.35) E «a inteligência elevada não torna as pessoas imunes aos enviesamentos». (p. 68)

«Os nossos pensamentos e o nosso comportamento são influenciados, muito mais do que sabemos ou desejamos, pelo meio a cada momento». (p. 172) «Estímulos não notados no nosso ambiente têm uma influência substancial nos nossos pensamentos e ações. Estas influências variam de momento a momento». (p. 297)

«As pessoas […] procuram dados que serão provavelmente compatíveis com as crenças que detêm». (p. 112) Os professores, por exemplo, tendem a inflacionar a pontuação de uma resposta deficiente se antes dessa tiverem avaliado outra resposta muito boa do mesmo aluno, o que se compreende: se o aluno se saiu bem no primeiro caso não cometeria erros idiotas no segundo. Se a ordem de classificação for a inversa, a classificação total é penalizadora (lê-se na p. 114)

«Quando lhes pedem para reconstruir as suas antigas crenças, as pessoas reproduzem, em vez disso, as suas crenças atuais […] e muitas não conseguem acreditar que alguma vez tenham achado outra coisa.» (p. 267)

Considere-se «a história de como a Google se transformou num gigante da indústria tecnológica. Dois estudantes criativos de Ciência Informática da Universidade de Stanford apareceram com uma forma superior de procurar informação na internet. Procuram e obtêm financiamento para iniciar uma empresa e tomam uma série de decisões que resultam bem. […] Numa ocasião memorável tiveram sorte […]: um ano depois de terem formado a Google estavam dispostos a vender a sua empresa por menos de um milhão de dólares, mas o comprador achou o preço demasiado elevado» (p. 264)

«A existência de mais de cinquenta anos de pesquisa é conclusiva: para uma grande maioria dos gestores de fundos, a seleção de ações é mais parecida com o lançamento de dados do que com um jogo de póker.» (p. 283)

«A imagem frequentemente usada da “marcha da História” implica ordem e direção. […] A ideia de que os grandes acontecimentos históricos são determinados pela sorte é profundamente chocante, apesar de ser demonstravelmente verdadeira.» Evoquemos o papel de Hitler, de Estaline e de Mao Zedong, no século XX: […] «houve um momento no tempo, precisamente antes de um óvulo ser fertilizado, em que havia uma hipótese de 50 por cento de o embrião que se tornou Hitler poder ter sido feminino. Combinando os três acontecimentos, havia uma probabilidade de um oitavo [12,5%] de um século XX sem qualquer dos três grandes vilões»… (p. 287)

«Radiologistas experientes, que classificam radiografias ao tórax como “normais” ou “anormais” contradizem-se 20% das vezes, quando veem a mesma chapa em ocasiões separadas» (p. 296)

Warren Gamaliel Harding foi o vigésimo nono Presidente dos Estados Unidos da América (1921-1923), sendo que a «única qualificação para esse cargo era ter uma figura que parecia talhada para a função. Com queixo quadrado e de elevada estatura, era a imagem perfeita de um líder […] As pessoas votaram em alguém que parecia forte e decidido»… [311-312 p.] Este fenómeno não é restrito ou datado, e não apenas na América…

Sobre o optimismo, que se considera essencial para o sucesso, diz o autor: «ainda estou para conhecer um cientista com sucesso a quem falte a habilidade para exagerar o significado daquilo que está a fazer e acho que alguém a quem falte um sentido ilusório de importância esmorecerá perante as repetidas experiências de múltiplos pequenos fracassos e raros sucessos, que é o destino da maioria dos investigadores.» [351 p.]

Os nossos sentidos enganam-nos frequentemente. «O mesmo som será experimentado como muito elevado ou bastante ténue, dependendo de ter sido precedido por um sussurro ou por um rugido. […] De igual modo, é preciso conhecer a cor de fundo para saber se uma faixa cinzenta numa página parecerá escura ou clara.» (p. 363)

Resumindo: a mente humana é muito curiosa (na p. 187 há uma referência a António Damásio) e estamos longe de abarcar a totalidade do seu funcionamento. Este livro, extenso, profundo e revelador, muitíssimo para além dos excertos referidos, aproxima-nos da sua compreensão. Embora parte significativa do seu conteúdo não seja acessível a um público muito vasto, qualquer pessoa ganha em lê-lo.

José Batista d’Ascenção

domingo, 7 de fevereiro de 2021

O primeiro "comboio" português – à vela ou puxado por burros

[Preciosidade do conhecimento, retirada há momentos do mural do "facebook" do Professor Galopim de Carvalho]

Origem da imagem: aqui

«Salreu, perto de Estarreja, conserva a memória de antigas salinas, do mesmo modo que Sal Rei, uma vila da ilha da Boa Vista, em Cabo Verde, arquipélago onde os primeiros colonos baptizaram como Ilha do Sal a ilha Llana (antigo nome dado pelo seu descobridor, António Noli, em 1460) de grande secura e planura, propiciando a formação de salinas naturais. . Para comercializar (exportar) este sal, foi ali construída a primeira via-férrea portuguesa, desde a grande salina da Pedra de Lume até ao ancoradouro, onde barcos ingleses o carregavam. O comboio era à vela, aproveitando a energia do vento. Na falta deste, a tracção era feita por burros.»

Afixado por José Batista d'Ascenção

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Importância das vacinas e do conhecimento científico

Origem da imagem: aqui.

Na “luta pela vida”, os organismos têm que obter alimento, defender-se de predadores, parasitas e competidores, e assegurar a reprodução que perpetua cada espécie. O mutualismo faz também parte das relações entre os seres vivos, mas é apenas, e só em certos casos, uma das interacções possíveis.

Os seres humanos são uma espécie biológica sujeita, como as demais, às leis da natureza. Como há uma infinidade de micróbios (vírus, bactérias, protozoários, fungos…) e mesmo de animais (piolhos, carraças, ténias…) que aproveitam todas as oportunidades para se instalar no nosso corpo, é preciso que tenhamos meios de defesa, quer conscientes e voluntários, como os hábitos de higiene (corporal, alimentar e social), quer intrínsecos e internos, como o (chamado) sistema imunitário.

O sistema imunitário é composto por células sanguíneas (os glóbulos brancos ou leucócitos, de muitos tipos), que viajam pelo sistema circulatório (sanguíneo e linfático) e se demoram mais ou menos tempo nos gânglios, vigiando todas as partes do corpo e detectando e destruindo microrganismos invasores ou neutralizando as suas toxinas. Para isso, há células que fazem previamente o reconhecimento do que é estranho ao próprio organismo. Segue-se o ataque, que é feito directamente por alguns leucócitos, “engolindo” (por fagocitose) os intrusos, ou ocorre mediante a acção de anticorpos, moléculas proteicas desenhadas especificamente para neutralizarem “partículas” estranhas, que tanto podem fazer parte da superfície dos micróbios invasores como ser as toxinas por eles produzidas. A estas partículas chama-se antigénios. Os anticorpos são produzidos contra alvos específicos, por leucócitos especializados, depois do primeiro contacto com cada antigénio, de que é guardada uma memória. Por vezes, o sistema imunitário é tão zeloso que luta contra o que nem nos faria qualquer mal, como alguns pólens, casos em que sofremos de alergias. Em certas disfunções, o sistema imunitário “considera” como estranhos componentes do próprio organismo, passando a atacá-los persistentemente, o que dá origem a doenças auto-imunes.

As vacinas são um acto sanitário que consiste (em termos muito básicos) em inocular no organismo uma quantidade de antigénio em condições em que não desenvolva doença (micróbios mortos ou atenuados ou algumas porções deles, cobertura de vírus, toxinas inactivadas…), de forma a que o sistema imunitário faça o devido reconhecimento, produza alguns anticorpos e guarde memória do(s) antigénio(s). Num contacto posterior do antigénio com o sistema imunitário, este reage de pronto, podendo produzir, em poucas horas, quantidades enormes de anticorpos, o que previne a doença. A descoberta das vacinas ocorreu quando um médico inglês, Edward Jenner (1749-1823), verificou que as vacas, por vezes, apresentavam nas tetas pústulas iguais às das pessoas que sofriam de varíola, mas tinham sintomas mais leves. Verificou também que as mulheres que ordenhavam as vacas contraíam formas suaves da doença. Teve então a intuição de recolher pus das feridas de uma leiteira e inocular um rapazinho de oito anos com esse material (o que hoje não seria admissível; o menino não era filho dele…). A criança manifestou sintomas ligeiros e recuperou rapidamente. Submetido a nova inoculação, agora com material colhido de uma pessoa com varíola, o rapaz não desenvolveu a doença. Estava imunizado. Era a descoberta das vacinas. Vacina (do latim, vaccinu) é uma palavra que deriva da palavra vaca (do latim, vacca).

Conhecido o efeito das vacinas, a saúde humana beneficiou de larga melhoria. Doenças houve que foram erradicadas, por exemplo a varíola, enfermidade causada por um vírus, cujo último caso foi diagnosticado em 1977.

Acontece que muitas pessoas, por ignorarem as lições da História e desconhecerem o valor intrínseco da ciência, contestam o saber disponível que tanto custou a alcançar e lançam-se em campanhas contra a evidência de extraordinários benefícios que a humanidade conseguiu. É o caso dos contestatários das vacinas.

Sirva o atual momento das condições de saúde em Portugal e no mundo, e até o mau exemplo dos que ilegitimamente se fazem vacinar antes de outros em condições de prioridade, para rechaçar as ideias insanas dos que contestam a importância da vacinação.

José Batista d’Ascenção