quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Salgueiro Maia

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Em homenagem a Salgueiro Maia, figura maior da Revolução de Abril, recorrendo à poesia incisiva e clara e límpida de Sophia. Com infinita gratidão ao herói e à poet(is)a, extensiva a todos «os capitães» que desejaram e fizeram de Portugal um país livre, e, bem assim, a todos os que amam a liberdade.


A Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que «Foi fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.

Sophia de Mello Breyner Andresen


José Batista d'Ascenção

terça-feira, 24 de abril de 2018

25 de Abril no coração

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O 25 de Abril é uma data memorável, no coração e no pensamento da maioria dos portugueses que eram jovens ou adultos ao tempo do «Estado Novo». Memorável foi necessariamente a acção dos militares protagonistas daquele dia, apesar de o conceito de democracia não ser o mesmo para todos eles, e de alguns se terem desviado do que era o objectivo principal de tão legítima revolta. E memoráveis seriam esses militares nos dias de hoje, se quase todos não tivessem sido tragados pelo evoluir da revolução que levaram a cabo (leia-se o romance «Os Memoráveis», de Lídia Jorge, para sublimada elucidação). Em comemoração da data e como homenagem aos capitães de Abril que nunca se afastaram da nobreza dos ideais da democracia autêntica, recorro às palavras de Onésimo Teotónio Almeida, no livro «A Obsessão da Portugalidade», publicado pela Quetzal em 2017, palavras que, melhor do que as minhas, nos transportam ao simbolismo e aos efeitos daquele marco grande e bonito da História de Portugal.
Sobre a transição de regime:
«Foi largo o salto de Abril, e quase 30 anos de revolução sacudiram-nos de um antigo e prolongado torpor» (pág. 21), em que o país pareceu adormecido durante os 48 longos anos da ditadura salazarista.
Acerca de como surgiu a revolução, das intenções e da reacção que desencadeou:
«O 25 de Abril surge como utopia forjada e alimentada no marxismo, ele próprio criador da maior utopia do século XX. Portugal embarca tardiamente na sua peugada e crê-se detentor da capacidade coletiva de materializar o anunciado homem novo, construtor de um mundo igualmente novo.» (pág. 295)
Antes, na página 241: «O período utópico da nossa Revolução de Abril, se foi uma explosão reativa contra o autoritarismo salazarista, foi também uma avalanche de naïveté [injenuidade] embalada pelo rousseaunismo marxista que imaginou ser possível implantar na nossa terra, ainda não secularizada, o céu do socialismo original que nem a China conseguira alcançar.»
Sobre a terrível ignorância histórica e sociológica da faixa mais jovem da população portuguesa:
«Os portugueses que emergiram depois [do 25 de Abril,] (…) data-clivagem (como nenhuma outra na cultura portuguesa,…), com frequência exibem um total desconhecimento de como era o Portugal dos seus pais.» (pág. 253)
Uma forma pessoal, emotiva e simbólica, de ver a data:
«O 25 de Abril foi um evento bíblico (…) algo inexplicável, inexpressável, irrepetível, intransmissível, inefável. Quer dizer: o 25 de Abril, a festa alargada, celebrada em crescendo e em sete dias com o seu apogeu em 1 de Maio, o sétimo dia, passara definitivamente à História, transformada em mito. No caso, um mito de génese (…), o mito do surgir do homem novo, que nem seria português. (…) Portugal virara o Éden do finalmente purificado homem moderno e ia agora anunciar e revelar ao mundo como se vivia o socialismo original. Agarrou o slogan utópico do Maio parisiense de 68 – “Sejamos realistas, peçamos o impossível!” – e acreditou deveras nessa possibilidade.» (págs. 288-289)
Sobre os sentimentos e a nostalgia poética de quem viveu a revolução e a indiferença dos que nasceram já em tempo de liberdade:
«A narrativa poética […], vivida em pleno por milhões de compatriotas, foi, mês após mês, ano após ano, década após década, ficando colada a um passado cada vez mais longínquo, mitificada a ponto de hoje estar envolta no manto diáfano de uma nova lusa saudade e, pelas gerações nascidas posteriormente, associada a um sentimento nostálgico da gente já grisalha e quase toda aposentada (…). E, no entanto, essas gerações nadas e crescidas já na liberdade tomaram como dado adquirido as conquistas de Abril, não parecendo por isso sentir necessidade de lhe reconhecer essa dádiva. Mas é mesmo assim que as gerações enterram as precedentes.» (pág. 289)
Acerca da legitimidade da esperança fundada na construção permanente e efectiva do 25 de Abril:
[…] «Abril deve animar-nos, acalentar-nos o dia a dia, mas os pés no chão em movimento para diante são a única garantia de que não acabaremos assados na areia escaldante do deserto, mesmo à beira da água fresca do Atlântico que abraça o Rectângulo e a sua extensão insular no meio dele.» (pág. 290)

Em discurso pessoal, renovo o meu “obrigado” de sempre aos que fizeram o 25 de Abril.
No firme desejo de que sempre se cumpram os motivos de comemoração da data e de modestamente contribuir para que assim seja. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 21 de abril de 2018

Cães e gatos sem dono em meio urbano

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Cães e gatos sem dono vagueiam pelas ruas (de algumas) das nossas cidades. Os recipientes do lixo são muitas vezes os locais em que procuram comida.
Os cães são mais dependentes e, como só podem deslocar-se em chão raso, parecem entristecer em percursos repetidos, traumatizados pelo medo, passando fome ou ingerindo restos degradados, facilmente ficando doentes, escanzelados e cheios de parasitas.
Os gatos, mais esquivos, dotados de grande agilidade e sentido de equilíbrio e capazes de acrobacias impressionantes, se há edifícios mais antigos, de pequena altura e volumetria, e espaços com quintais, ainda que murados, movimentam-se de modo mais independente e podem caçar, contribuindo até para conter a propagação de pragas como as dos ratos.
Porém, as cidades são cada vez mais «florestas» de grandes edifícios, de paredes verticais intransponíveis, chão duro e poucos espaços verdes. Não são, por isso, espaços amigos de cães e de gatos sem donos, que deles cuidem, providenciando alimento, condições de higiene, espaços aceitáveis, e dedicando-lhes o afecto e o tempo que merecem.
Pessoas há que, sensibilizadas para a condição precária dos bichos, e condoídas, e talvez tão solitárias como eles, colocam na rua restos de comida em recipientes improvisados ou no chão, no intuito de lhes valer. Contudo, sendo boa a intenção não o é o resultado: dá mau aspecto, a higiene fica diminuída e podem surgir problemas de saúde. Por outro lado, como a reprodução acontece facilmente, o número de animais desvalidos tende a aumentar, o que agrava a situação.
O melhor remédio é as pessoas perceberem que têm a obrigação, que é ética, antes de ser legal, de tratar dos seus animais e de não os abandonar, sob pena de serem punidas e censuradas por isso. Para os animais abandonados não há procedimento mais adequado do que a sua recolha pelos serviços municipais competentes, a fim de que possam ser adoptados ou esterilizados.
Os animais são nossos amigos. Ganhamos se soubermos ser amigos dos animais.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A solidão e as tecnologias de comunicação

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Nunca, nas sociedades desenvolvidas, foi mais fácil e imediata a comunicação entre as pessoas. Os dispositivos tecnológicos e as aplicações digitais permitem a criação e o alargamento de redes sociais abrangendo cada vez mais pessoas, desde crianças muito pequenas a uma (cada vez mais) grossa fatia das mais idosas.
Há quem se torne dependente dos instrumentos digitais e se isole mesmo quando em presença de familiares, amigos ou conhecidos. Há crianças que dormem com os «telefones inteligentes», de que não se separam nas aulas nem nos espaços públicos nem nos transportes nem em casa. E, entre os adultos, são muitos os casos de indivíduos que passam horas e horas mais ou menos inutilmente em frente de monitores. É a realidade dos dias que correm, com tendência aparente para se acentuar. Naturalmente, há aspectos muito positivos decorrentes de uma tal facilidade comunicativa e de acesso a fontes de informação, mas ainda não sabemos gerir as desvantagens que podem estar-lhe associadas, nem sequer ter uma noção exacta dos perigos inerentes.
Ainda muito pequenas, as crianças ficam sujeitas (e praticam) a crueldade do «bullying» digital, ampliando o que sempre aconteceu fisicamente nas escolas. O acesso às redes digitais para estudo e obtenção de informação cria a ideia falsa de que não é preciso esforço pessoal para aprender, uma vez que todo o conhecimento está disponível e até é fácil copiá-lo sem referência aos autores. Em geral, as consultas tendem a ser rápidas e ligeiras, porque parece que não é preciso sobrecarregar os neurónios com a pesquisa aturada, a reflexão e a memória, já que as máquinas disponibilizam, calculam, resolvem e guardam os conteúdos de que a qualquer momento se necessita. Em casa, na escola, ou com familiares ou amigos, crianças e jovens estão «online», mas sós ou sem interacção pessoal directa, a conversar, a rir, a conviver, a interagir «olhos nos olhos». Alguma coisa devem perder…
Os adultos, enquanto cidadãos comuns, andam algo perdidos entre a gestão dos recursos e o cuidado com os filhos, se são pais, e os afazeres profissionais, se têm emprego, ou a falta de ocupação profissional, se estão desempregados, e buscam nas redes sociais o conforto que, muitas vezes, não sentem nas suas vidas, procurando alguma descontracção e prazer, sujeitos ao risco, nem sempre sabiamente evitado, de se isolarem dos seus familiares próximos (sendo que o objectivo pode ser precisamente esse…) e daquele pequeno grupo de amigos que são os que verdadeiramente possuem, com mais ou menos defeitos que lhes conhecem.
Uns e outros ficam expostos à publicidade específica dirigida, às notícias falsas e às correntes de opinião manipuladoras de comportamentos colectivos (parece que foi assim que Trump foi eleito e que os ingleses se pronunciaram pelo abandono da União Europeia), fornecendo todos os dados pessoais necessários aos algoritmos e operações dos programas informáticos que os condicionam sem que disso se apercebam. De certo modo, as pessoas tornam-se (mais que) voluntariamente manipuladas e sentem grande satisfação nisso.
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Entre os de mais idade, há aqueles, e são muitos, embora com tendência necessariamente decrescente, por razões óbvias, que são infoexcluídos e que, por essa razão, salvo raras excepções, estão pior ainda: sofrem a solidão de não ter fisicamente ninguém próximo com afinidades pessoais e estão isolados do mundo por uma horrível barreira de incapacidade pessoal. Tendo alguma saúde, vivem como que emparedados à margem da sociedade, e é difícil avaliar as dores do seu isolamento. Dos que acedem às redes sociais, há-os que trazem a sua sabedoria, a sua serenidade, a sua sensibilidade e a sua cultura para partilhar com quem interage com eles. Não sendo muitos, são, para mim, do melhor que há nas redes sociais, porque não precisam de exibir-se, nem de impressionar, nem procuram o elogio fácil ou condescendente e são capazes de (nos) ensinar sem sobranceria, apenas por gostarem de comunicar com bondade serena o muito que aprenderam e que a vida lhes ensinou. São um bem inestimável, com um único problema: nas nossas sociedades fúteis, que não valorizam devidamente os avós e o seu papel, muitos jovens fogem dos sítios e das redes onde predominam pessoas com mais idade. Este fenómeno é, em certa medida, compreensível, mas só em certa medida, porquanto muitos destes jovens aprofundam, sem o saber, o mar das suas dúvidas e o fosso da sua solidão.
Todos somos sós, mas não é saudável que o sejamos mais que o mínimo necessário. 

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 3 de abril de 2018

O óbvio enganador e algo mais perigoso ainda

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Talvez pela necessidade de justificar o que nos pesa na consciência, muitas vezes recorremos a banalidades que tortuosamente transformarmos em argumentos aparentemente imbatíveis.
Por exemplo, certos fumadores inveterados agarram-se a um qualquer exemplo de alguém não fumador que padeça de cancro pulmonar, para negar a relação forte entre o fumo do cigarro (vício de fumar) e essa doença (que é muitas vezes consequência do hábito de fumar). Sei de alguém muito dependente de tabaco, a quem (já) foi extraído um pulmão, que defende acerrimamente aquela ideia.
Assim como há indivíduos que não cumprem certas regras de segurança na condução automóvel porque, dizem, há casos de pessoas muito cuidadosas que sofreram acidentes rodoviários e morreram por causa disso.
E do óbvio deturpado, facilmente se passa a defender, com grande assertividade, o que é negado pelas mais elementares evidências científicas. É o caso da posição, terrivelmente perigosa, que despreza as vacinas, sob a acusação de que prejudicam a saúde. Esta moda aparente é promovida por pessoas sadias, pelo menos fisicamente, que têm o privilégio de viver numa sociedade saudável em matéria de doenças infecto-contagiosas, e que estão protegidas precisamente pela vacinação, delas e dos outros, e pelo eventual recurso a antibióticos, em caso de necessidade. Estes são casos que nem sequer se fundamentam no óbvio…
Com o aumento da escolaridade, que em países como o nosso passou a ser obrigatória até quase à maioridade, era difícil prever que as sociedades ditas desenvolvidas pudessem incluir conjuntos de cidadãos de dimensão tão significativa a pensar e a agir assim.
E bem podem homens da ciência como Carlos Fiolhais e David Marçal explicar e re-explicar, rebater e esclarecer certas ideias de pseudo-ciência ou anti-ciência, que muitas pessoas, até com formação superior, pensam e afirmam que o conhecimento científico vale o mesmo (ou menos) que outro qualquer conhecimento.
Mas temos que nos interrogar: qual foi o tipo de saber que trouxe as sociedades humanas até ao pico de desenvolvimento que atingimos? E não vale a pena argumentar que a ciência não tornou a humanidade mais feliz, porque, em primeiro lugar, o estado de felicidade varia em função das expectativas das pessoas, e o grau dessas expectativas depende dos contextos históricos e culturais de cada sociedade; e, em segundo lugar, porque muitos seres humanos viveriam com muito maior qualidade de vida, se não quisermos dizer, mais felizes, se soubessem um pouquinho mais de ciência elementar. 

José Batista d’Ascenção