sábado, 24 de fevereiro de 2018

Por amor às árvores e à floresta

Em Portugal, país com grandes áreas de floresta, que foi variando ao longo dos tempos, (mesmo considerando apenas o período após a sua fundação), temos na actualidade uma má relação com as árvores seja qual for o espaço em que crescem, desde os exemplares que escolhemos para os jardins das nossas casas às espécies que plantamos em meio urbano e muito especialmente à maneira como (não) olhamos (para) o coberto florestal. Creio que a origem do problema radica no facto de não conhecermos «A vida Secreta das Árvores». E esta dificuldade decorre em grande parte de outra, qual seja a pouca apetência e curiosidade pela leitura dos mais variados temas, se exceptuarmos os títulos relativos a questiúnculas do «pontapé na bola».
Pois a minha amiga Adelaide Abreu mostrava-me há dias o seu entusiasmo pela leitura de um livro escrito por um guarda-florestal alemão chamado Peter Wohlleben, com o título que se pode ler na figura ao lado. A edição é da «Pergaminho» e foi traduzida por João Henriques, com a chancela da Bertrand Editora, Lda, em 2016. Peter Wohlleben é o responsável por um «antigo e maravilhoso bosque» do município de Hümmel, no sudoeste da Alemanha. Claro que fiquei com água na boca, pelo que a minha amiga logo me fez chegar o livro, que não tardei a ler.
O conhecimento de Peter Wohlleben sobre árvores e sobre os ecossistemas de floresta, talvez seja apenas ultrapassado pelo amor e zelo que lhes devota e pelo respeito que julga (e bem) que merecem. O autor põe as árvores a «sentir dor», a ter algum tipo de «memória», a «aprender», a «ter medo», a «gritar», etc. Não se pense, no entanto, que é escrita fantasiosa, o próprio autor esclarece: «inteligência, capacidade de memória e emoções nas árvores é atualmente posta em causa pela maioria dos investigadores botânicos» (pág. 88). Mas percebe-se que há ali um conhecimento profundo da fisiologia vegetal, embora sem recurso aos pesados termos da ciência (excepto uma ou outra designação científica em latim de espécies de seres vivos), como convém a um livro que se destina ao grande público, mas deixando tudo bem explicadinho, em termos claros, simples, e… cativantes. Nada li neste livro que contrarie os conhecimentos científicos que adquiri na minha formação académica e que vou actualizando conforme posso.
Peter Wohlleben diz que «as árvores da floresta são seres sociais» (pág. 11), que comunicam entre si, pelo contacto das raízes, e, sendo da mesma espécie, alimentam as que estejam em estado de necessidade, assim como protegem e controlam as jovens descendentes sob a sua copa; e comunicam e actuam também pelo ar, libertando substâncias químicas com várias funções: alertar outras para a presença de pragas, eliminar micróbios indesejáveis, repelir insectos [o espaço debaixo da copa de uma nogueira é bom para instalar um banco de jardim, «pois é o local com menor probabilidade de se ser mordido por mosquitos» (pág. 162)], etc. As plantas são também capazes de estabelecer simbioses com outros seres como é o caso dos fungos, alguns dos quais, no solo florestal, «funcionam como a fibra óptica na internet» (pág. 19, ideia repetida na pág. 59), pois que «um único fungo é capaz de se expandir por vários quilómetros quadrados, interligando florestas inteiras» (pág. 19). Lição por demais sabida, mas nunca suficientemente enfatizada, é a da floresta como ecossistema complexo e denso de biomassa e de diversidade, acima e abaixo do solo. É no solo «que se encontra metade da biomassa de uma floresta. (…) Uma única colher de chá de um solo tem mais de um quilómetro de filamentos fúngicos» (pág. 91). … «A maior árvore do parque nacional da floresta bávara, com 600 anos, 52 metros de altura, 2 metros de diâmetro à altura do peito, tinha na sua copa 2041 animais de 257 espécies» (pág. 137).
Grandes captadoras de luz, fonte de energia para produzirem alimento e madeira, num processo conhecido por fotossíntese, é muito importante a possibilidade e o modo de exposição ao sol e o somatório da superfície das folhas, razão por que uma árvore caducifólia pode ter uma «enorme superfície folhosa de 1200 m2» (pág. 146). No processo fotossíntético liberta-se oxigénio molecular (O2), gás fundamental para a respiração dos animais (e das próprias plantas): «Num dia de Verão, as árvores libertam 10 000 kg de O2 por km2. Tendo em conta que cada pessoa utiliza 1 kg por dia, isso chega para abastecer 10 000 pessoas.» (pág. 223). Fundamentais para o sustento dos animais, de que são alimento por via directa ou indirecta (os carnívoros ou comem herbívoros ou comem carnívoros que comeram herbíboros…) e fonte de oxigénio, as árvores são também importantes factores de saúde [«O ar em jovens bosques de pinheiros é quase isento de germes, devido às fitoncidas libertadas pelas agulhas» (pág. 162); «há verificação científica de que a pressão arterial de quem passeia pela floresta sobe debaixo de coníferas e, pelo contrário, baixa em zonas de carvalhos» (pág. 222)]; as árvores são ainda e sempre factores de embelezamento e harmonia do ambiente e estímulo ou travão para a ocorrência de incêndios [«As (…) caducifólias não se deixam atear, pois a sua madeira não contém resina ou óleos essenciais. (…) Os sobreiros em Portugal ou em Espanha» (…) têm casca grossa que «protege do calor de fogos de superfície, permitindo que os rebentos que estão por baixo voltem mais tarde a brotar.» (pág. 208).
Muito rico, este livro, e com algumas surpresas: … «quanto mais velhas são as árvores, mais depressa elas crescem. (…) O lema de rejuvenescer as florestas para vitalizá-las deve ser no mínimo considerado falacioso», pelo que, «caso desejemos utilizar as florestas como meio de combate contra as alterações climáticas, então devemos deixá-las envelhecer». (pág. 103). Relacionado com factores do clima, é referido que «as florestas de coníferas do hemisfério norte libertam terpenos que originalmente funcionavam como defesa contra parasitas. Quando estas moléculas chegam à atmosfera, a humidade condensa-se nelas, o que faz com que se formem nuvens»… (págs 112-113).
Lá mais para o fim, um exemplo a seguir para não deixar morrer a esperança: «Existe entre os partidos alemães o consenso de que pelo menos 5% dos bosques devem ser deixados em paz, para que deles possam surgir as florestas ancestrais do futuro» (pág. 233). Tenho dúvidas se cá por Portugal alguma vez se terá falado em tal matéria nas conversações entre partidos ou no parlamento.
E a terminar, nos agradecimentos, a chave de muitos problemas, em frase que adapto: «Só quem conhece bem os segredos das árvores será capaz de as proteger» (pág. 245).
Ah, se houvesse em Portugal guardas das florestas como este!
Mas nem serviços florestais temos. E, curiosamente, já tivemos…

José Batista d’Ascenção

Adenda: O que fica escrito é apenas um pequeno conjunto de impressões subjectivas sobre um livro que (me) agradou. Os motivos de interesse e de curiosidade são muitos e muito interessantes. A riqueza profunda da obra só é apreendida por quem a ler na íntegra.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Por falta de amor às árvores e à floresta

A autoridade tributária fez-me chegar via e-mail, a mim como a outros contribuintes, uma mensagem de esclarecimento e apelo à limpeza obrigatória de matos e árvores na proximidade de casas e povoações. A mesma mensagem está também a ser divulgada em redes sociais como o facebook. Fundamentalmente, reza o seguinte:
…«limpe o mato 50 metros à volta da sua casa e 100 metros nos terrenos à volta da aldeia. (…) Se não o fizer até 15 de março, pode ser sujeito a processo de contraordenação. (…) as Câmaras Municipais podem substituir-se aos proprietários na limpeza do mato. Os proprietários são obrigados a permitir o acesso aos seus terrenos e a ressarcir a Câmara do valor gasto na limpeza.»
Por praticamente não ver televisão, desconheço se aquela mensagem está a ser divulgada através RTP. Também não sei se estará a sê-lo via RDP.
Tenho pena que as acções preventivas de incêndios não tenham sido iniciadas há meses, mas mais vale tarde do que nunca. A pressa não é boa conselheira e as medidas propostas são um procedimento de emergência, com fundamentação questionável até do ponto de vista ambiental.
Isso me transmitiu o meu querido e estimado Professor de sempre, Jorge Paiva, antes de mais uma partida para os trópicos onde vai ficar vários dias. Referia ele, com tristeza e alguma revolta, o trabalho de longo alcance e de longa duração (muitas décadas…) que é preciso realizar para termos florestas sustentáveis ecológica e economicamente, em contraste com o improviso e sempre o economicismo imediato e rapace ou o mero oportunismo ignorante dos agentes que deviam estar interessados numa outra gestão agro-florestal mais amiga das pessoas, da biodiversidade (sem a qual os humanos não vão sobreviver) e de um desejável equilíbrio ambiental de que dependemos estritamente. É que a Natureza não precisa do ser humano, nem deixa de existir nem de evoluir sem a espécie humana que (como qualquer espécie biológica) não é eterna. E tempo não lhe faltará para isso, ao invés da satisfação das exigências que a cada momento se colocam à sobrevivência das pessoas: alimento, disponibilidade de água e de oxigénio, condições de temperatura e de humidade atmosférica, etc. Alerta-nos, e bem, o Professor Jorge Paiva, de que precisamos de «serviços florestais», que já tivemos e deixámos de ter, como precisamos de plantar árvores e de (re)florestar com perspectivas de futuro (o que esbarra em interesses económicos imediatos), abandonando regimes monoespecíficos de pinheiros (chegámos a ter a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa) e de eucaliptos (que atingiram já a maior densidade de exemplares em termos mundiais relativamente à superfície do país), plantas estas que são altamente inflamáveis. Também é preciso que as populações possam lidar e viver com a (e da) floresta, enquanto fonte de recursos diversos, desde os imprescindíveis à fisiologia e à saúde aos económicos, mas respeitando sempre as leis da Natureza.
Assim mesmo, dado o desleixo a que chegámos e o perigo que matos, pinhais e eucaliptais representam para a vida das pessoas que vivem no interior ou viajam pelas suas estradas no Verão, é preciso começar por algum lado, pelo que dou por bem-vindas aquelas medidas, enquanto procedimento de emergência. E bom seria que os autarcas que as põem em dúvida, reclamando dinheiro, equipamento e tempo, pusessem mãos à obra e fizessem tudo o que seja possível enquanto o Verão não chega. De resto, se há tanto por fazer, isso também se deve à indiferença a que têm votado o assunto, só comparável ao desprezo e incúria dos governantes por uma tão grande área do país e pelas poucas e envelhecidas gentes que (ainda) lá habitam.
À minha amiga Aida Reis, que foi engenheira agrária dos quadros do ministério da agricultura, técnica competente e dedicada, e que morreu precocemente há não muitos meses, ouvi um dia dizer que «os portugueses não gostam de árvores». Realmente, quem olha para as nossas florestas ou repara nas margens de estradas nacionais ou nas «podas» (!) que se fazem nas árvores das nossas vilas e cidades, não pode deixar de concordar. Desbaratamos e desperdiçamos o que é uma riqueza fundamental, no presente e no futuro.
Os portugueses em geral parecem não relacionar as árvores com ar puro, temperaturas amenas, humidade do ar e dos solos, protecção contra a erosão, abrigo e habitat de imensa biodiversidade, senão como fonte de rendimento material imediato o qual, se não for materialmente lucrativo, dá lugar a abandono radical. Em consequência, resta a exploração intensiva de madeiras e a «indústria do fogo», que proporcionam negócios rendíveis que levam ao esgotamento dos recursos e à exaustão e destruição do território, em termos paisagísticos, ambientais e económicos.
Qual a eficácia com que vamos lidar com tamanho problema nos meses próximos é pergunta para que não temos resposta, mas que inspira as maiores preocupações, porquanto, ainda ontem, nas notícias das 08.00 horas, na rádio «Antena Um», se referia com ênfase e preocupação o estado de seca, nalguns casos severa, em que se encontram os solos do país e a baixa do armazenamento de água em barragens, devido à falta de chuva que precisávamos que ocorresse continuamente durante meses.
Como vai ser o próximo Verão, em matéria de incêndios?

José Batista d’Ascenção

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pensamento suave (e em voz alta) num dia de sol

Imagem do rio Cávado. Foto de José António Barbosa. Novembro de 2017
Dias como o de hoje, pela sua luz e amenidade, vencido que está o meio de Fevereiro, e depois de uns dias cinzentos e húmidos, aqui na cidade onde moro, fazem pensar na Primavera que se aproxima e são um estímulo a apreciar a Natureza, sentindo-nos parte dela, e, ao mesmo tempo, a pensar em nós, na nossa vida, nos que trazemos no peito, no que nos é próximo e na nossa maior ou menor comunhão com o mundo.
Esta manhã, a margem do Cávado, onde fiz o meu humilde exercício, estava tão luminosa e bela e serena, que nem a música dos pássaros, que ali ainda há muitos, além de outros bichos, mas esses silenciosos e discretos, desafinava da placidez de todo o ambiente e da paz de espírito que proporcionava. Por quanto tempo aquele lugar e aquela paisagem vão ser mantidos e cuidados assim, hoje não me assustou particularmente, como se a desmesura de harmonia e beleza do sítio, sob um manto de luz benfazeja do sol, fosse indestrutível e intemporal só por existir assim e assim poder ser maravilhosamente contemplada. Como se a fugacidade do tempo e a alterabilidade do espírito não afectassem a importância subjectivamente vivida daqueles momentos, naquelas circunstâncias e naquele local.
Fiquei assim, hoje. Os filhos vão bem, como (me) dizem sempre? Os netos, quando vierem (eu espero, expectante) hão-de ser cheios de energia e de esperança e de condições de viver (como gostaria)? Os familiares próximos, especialmente os de mais idade, em quem os cancros lavram e obrigam à luta, nalguns casos já muito desigual, vão curar-se (como me é tão necessário) ou resistir por quanto tempo? E aquelas pessoas de idade avançada a quem muito quero e que me são tão imprescindíveis, e que tomo como referência e exemplo, quanto tempo ainda vão poder continuar a inspirar e ajudar (efectivamente) pessoas como eu? A minha importância comparada com a delas é quase nenhuma. Elas fazem muita falta. Eu só faço falta a umas quantas pessoas, entre familiares e amigos, que me têm no peito (e como eu me sinto bem lá, dentro do peito delas), mas muitas pessoas (até sem emprego) podiam fazer o trabalho que eu faço (e melhor do que eu), e nada faço a ninguém nem por ninguém de verdadeiramente imprescindível que outros não pudessem fazer. Certo que aquelas pessoas deixam aos vindouros uma obra que continuará a ser útil e bela, mas se partirem antes de mim, fico como que perdido e desprotegido e, de algum modo, órfão. Isto normalmente perturba-me, mas hoje consigo escrevê-lo sem dificuldade.
O mundo das coisas e das pessoas é belo (muito belo) com reversos (quase permanentes) incrivelmente assustadores e feios. É injusto quase sempre, mas, de quando em vez, recto e imparcial. As pessoas são a consciência (humana) do mundo (tanto quanto podemos saber, por enquanto…) e o problema (sentido) do mundo (na realidade são apenas o problema de si próprias e/ou dos seus semelhantes). Progredimos? Temos progredido e muito. Mas o progresso não tem aproveitado a todos nem (muitas vezes) à maioria. E até onde vamos? Ou para onde vamos? Nem sequer sabemos bem como vamos… Como não sabemos racionalmente de onde viemos nem sabemos exactamente o que somos.
Mas hoje, estas e outras perguntas, tendo-me ocorrido, não me atormentaram (até agora). Creio que por ter sido um dia de sol. 
Às vezes é intensamente grato e bom e belo viver. Cabe-nos pugnar por isso até ao limite e partilhá-lo, por prazer e por dever ético.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O estilo e o ritmo de vida actuais e a produção de resíduos. Abordagem ligeira do problema dos plásticos

Imagem obtida aqui
Nas últimas três-quatro décadas, a produção de resíduos aumentou assustadoramente: desperdícios da indústria, invólucros e revestimentos de embalagens ou presentes adquiridos no comércio, lixos resultantes do ramo agrícola, do sector desportivo, do movimento turístico e dos espaços públicos, sobretudo urbanos, ou da actividade doméstica, parecem ocupar todos os espaços e «submergem-nos», seja pela sua volumosa e incomodativa presença, seja, principalmente, pelos prejuízos e malefícios que causam no ambiente e na nossa saúde, alguns deles, porventura, desconhecidos ainda.
Barragem Vacha, perto da cidade de Krichim em 25 de abril de 2009
O caso dos plásticos, no que respeita à sua produção e acumulação na natureza, dado que são muito lentamente degradados (tempos que podem se de quatro ou cinco centenas de anos), assume proporções dantescas. Nos oceanos, especialmente no Pacífico, mercê das correntes marítimas, formam-se ilhas flutuantes de plásticos acumulados com dimensões várias vezes superiores à superfície de Portugal (mais de sete vezes, fazendo o cálculo a partir de dados da Wikipédia). Animais marinhos e terrestres engolem objectos de plástico e morrem em consequência: há dias, o Professor Pedro Gomes, da Universidade do Minho, referia, numa conferência, que havia encontrado o esqueleto de uma raposa com um saco de plástico enrolado na zona da faringe (o animal teria ingerido ossos contidos no saco de plástico e morreu asfixiado). Há zonas costeiras que estão repletas de garrafas, sacos, caixas, tampas, entre muitos outros detritos de plástico. Nalguns casos, os frascos plásticos deitados fora continham produtos tóxicos que aumentam a contaminação do ambiente, exponenciando o perigo. E os rios são cada vez mais correntes de transporte de plásticos diversos, sendo que muitos deles ficam nas margens, enterrados nos sedimentos, podendo permanecer ali por muito tempo ou retomar a via descendente, a caminho do mar. Em certos países, como acontece na Índia, resíduos de plástico cobrem a superfície aquática dos rios de uma forma chocante e perturbadora. Nos campos em que há (ainda) actividade humana, o problema não é menor. E as bermas das estradas são muitas vezes faixas de acumulação de lixo, principalmente de plástico.
Lixo acumulado na costa de Manila Bay, Filipinas
Mas o problema maior dos plásticos talvez não resida principalmente no que está à vista. Na realidade, os plásticos vão-se fragmentando e as águas dos oceanos (de todos eles!) encontram-se repletas de micropartículas de polímeros que entram nas cadeias alimentares, não sabemos se e com que consequências, que neste momento não estamos em condições de prever quanto mais de prevenir. O que já sabemos é que mais tóxicos do que as unidades constitutivas dos próprios polímeros podem ser os aditivos químicos que se intercalam entre elas, desde corantes de tintas a outros componentes. E quanto mais pequenas são as partículas de plástico maior é a sua área relativamente ao volume, pelo que mais facilmente aquelas substâncias se libertam. Com que custos na fisiologia, na saúde e na sobrevivência dos organismos vivos, ainda estamos para saber.
Ora, há que reduzir a produção e utilização de plásticos por proibição legal, se o apelo à mudança de hábitos não fizer efeito, como não tem feito até aqui. Temos que reaprender a viver com menos plástico e a proibição, como aconteceu com os sacos de supermercado, tem que ser equacionada, pelo menos até se conseguir produzir polímeros para as mesmas funções, mas facilmente biodegradáveis, ou optimizar com grande eficácia a sua reciclagem.
De resto, exemplos como a proibição de fumar em recintos fechados ou de conduzir sem cinto de segurança mostra(ra)m a eficácia da via proibitiva legal.
Se queremos manter a «casa» (planeta) em condições humanamente habitáveis.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Curiosidades interessantes do livro «Todo o mundo é composto de mudança, considerações sobre o clima e a sua história», de João Alveirinho Dias.

Étimo de «clima»
Etimologicamente «o termo “clima” derivou do grego κλίμα [Klima] que significava inclinação do Sol.» Hoje, «a acepção do termo é algo diferente». (pg.2)

Dificuldade em definir «clima»
Em citação de um artigo do «insigne geofísico e meteorologista português, José Pinto Peixoto (1922-1996)», que adaptara uma frase de Sto Agostinho (354-430) sobre o conceito de tempo, surge na página 1 (em latim e logo depois traduzida para português) a seguinte frase: «O que é o clima? Se ninguém me perguntar o que é, eu sei! Se me perguntarem e eu quiser explicar, não sei!»

Diferença entre «clima» e «tempo»
Frequentemente confunde-se «clima» e «tempo» (estado meteorológico). «Tempo é o que acontece na atmosfera em determinado momento; clima é o que as estatísticas nos dizem que ocorre, em média, ao longo de muitos anos, o que nos permite deduzir o que acontecerá nos anos seguintes. Assim, clima é, de certa forma, uma construção estatística.» (pg. 5)

Desníveis da superfície oceânica
Devido às variações da força gravítica em resultado das diferenças de densidade das rochas do fundo oceânico, «a superfície livre do oceano tem (…) relevo, havendo uma diferença de mais de 150 m entre o ponto mais alto e o mais baixo.» (pg. 20). Porém, como o valor da gravidade é o mesmo em todos os pontos da superfície, este tipo de variação do nível das águas não causa qualquer corrente «(apenas induziria um fluxo hídrico se houvesse diferenças no valor da gravidade, como acontece nos rios).» (pg. 21)

Superfície média do nível do mar baseada em
16 anos de dados altimétricos satelitários (pg. 21)
O desníveis da superfície oceânica derivados de outros factores, como o vento, as variações de pressão ou a radiação solar, actuam cada um por si ou conjugados, dando origem a correntes ocasionais, com influência no clima regional.







Correntes oceânicas – importância fundamental no clima, e não só…
Como «a energia que o oceano recebe do Sol varia consoante a latitude, criam-se gradientes térmicos que impulsionam movimentos da água do oceano num fluxo contínuo, isto é, correntes marítimas. […] Os ventos de superfície, os gradientes de salinidade, as marés e a rotação da Terra são também geradores importantes de correntes marítimas.» (pg. 19)
As grandes correntes oceânicas superficiais recebem o nome de «giros» e modelam o clima do planeta. Um dos giros mais importantes das águas oceânicas é o «Giro do Atlântico Norte», que transporta calor das regiões tropicais para latitudes mais elevadas. Esta corrente oceânica tem uma componente chamada «Giro de Recirculação» que faz reter materiais levados à superfície no Mar dos Sargaços, acumulando aí uma grande quantidade de lixo produzido pelo Homem, designadamente plásticos. «O ciclo de circulação (ou giro) do Atlântico Norte (…) demora cerca de dez anos a percorrer». (pg.24)
Giro do Atlântico Norte. As setas vermelhas representam
 correntes de águas quentes, e as azuis, de águas frias. (pg. 24)
As grandes correntes oceânicas ocorrem também na coluna de água ou junto ao fundo, influenciadas pelas variações de densidade, que dependem da temperatura e da salinidade. Por isso, essas correntes se designam «termohalinas».

A circulação termohalina global tem um ciclo «que demora várias centenas de anos, apontando várias estimativas para valores da ordem dos 1000 a 2000 anos.» (pg. 31) Como estas águas circulantes movimentam também os nutrientes minerais, as zonas de proveniência de águas profundas, ricas em nutrientes, constituem zonas de excelência piscatória.
Circulação termohalina global, apelidada “conveyor belt”
 ou “correia transportadora” (de calor). (pg. 30)

A circulação termohalina global ter-se-á mantido desde a última glaciação, há 10 ou 12 mil anos, mas «é vulnerável a modificações rápidas e significativas» (pg. 32) com influência directa na regulação global dos climas.





José Batista d’Ascenção

Adenda: As curiosidades referidas são apenas algumas das que o livro contém. Maior precisão dos conceitos usados neste texto requerem a leitura do original.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Alterações climáticas e senso comum. O livro «Todo o mundo é composto de mudança, considerações sobre o clima e a sua história», de João Alveirinho Dias, faz luz sobre o tema.

A Europa tem vivido estes dias sob uma vaga de frio que, mesmo sendo Inverno, não deixa de ser acentuada. Portugal, mais a sul e próximo do oceano apresenta temperaturas não tão extremas, mas ainda assim um pouco baixas para o que estamos (ou passámos a estar) habituados.
Acontecimentos deste tipo levam alguns, por razões diversas (em que se incluem lutas desenfreadas de competição económica), a questionar e até a ironizar sobre o chamado «aquecimento global». O caso mais preocupante será o do presidente dos EUA., pelo cargo que ocupa, pela influência que tem e pelo poder que representa. Opostamente, outros vêem em qualquer extremo climático pontual uma consequência directa da ação humana. Convém que estudemos um pouco.
E sobre esta matéria há informação disponível bem compilada e bem analisada, em termos científicos e em termos linguísticos, pelo que podemos compreender o fundamental de certos fenómenos associados ao clima e às suas variações. O livro intitulado «Todo o mundo é composto de mudança, considerações sobre o clima e a sua história. I Sistema Climático Terrestre. CIMA. Faro. Portugal. 2016», de João Alveirinho Dias, a que acedi usando o mural do facebook do autor e que descarreguei, em versão PDF, cumpre bem essas funções. Este livro, com 77 páginas, foi o meu entretém dos últimos dias, nos intervalos que a «correcção» de testes me deixou livres e muito dele aproveitei. Por essa razão, julgo-o particularmente útil para professores de biologia e geologia, de geografia ou mesmo de história, mas também para outras pessoas com formação académica superior ou não.
Logo no prefácio, surge a ideia de que «o clima está sempre a modificar-se», pelo que «para entendermos o clima actual e podermos perspectivar o futuro é preciso conhecermos como foi o clima no passado». Ora, hoje, o clima «é um tema que desperta paixões e polémicas (…), principalmente no que respeita à influência do Homem na modificação climática em curso». «O clima é a média de diferentes parâmetros ao longo de um período alargado (algumas décadas).» E quando se trata de médias é preciso certo cuidado, para não cairmos em erros fáceis: basta lembrar que «anos em que o Inverno foi muito frio mas o Verão foi muito quente podem ter a mesma temperatura média anual de outros anos em que o Inverno foi ameno e o Verão foi moderado». Estando o clima sempre a modificar-se, hoje como no passado, temos que contrariar a tendência para «ver modificações climáticas em ocorrências singulares. […] [que] não traduzem qualquer tipo de modificação climática». Além de que, «uma das características constantes do clima é a sua grande variabilidade, atingindo por vezes valores extremos que só se voltam a repetir passados muitos anos.» Por isso, «a introdução do termo “normal”, no léxico meteorológico e climatológico revelou não ser o mais adequado». O «clima é uma entidade complexa» que não se define de forma simples e objectiva, porque não é constante (contrariamente à «noção que perdurou até por volta dos anos 60 do séc. XX»), «não se sabendo bem qual é o melhor período [temporal] para [o] definir»… 
A finalidade do livro é «sabermos como é que o clima funciona e quais são os múltiplos factores que o influenciam». A modificação climática actual sofre, naturalmente, a influência das actividades humanas: «cidades com extensas superfícies impermeabilizadas, com múltiplos aparelhos de regulação térmica, que as transformam em ilhas de calor, criação de grandes corpos hídricos, como a barragem do Alqueva, que aumentam a humidade nas regiões vizinhas», por exemplo. E o livro progride com informações sobre a complexidade do sistema climático terrestre e sobre os diversificados factores que o afectam: astronómicos (como os movimentos da Terra, a obliquidade do seu eixo, a excentricidade da órbita e outros), geológicos (tectónica de placas, vulcanismo) e biológicos (cobertura vegetal do solo, fotossíntese).»
«Diferentes reconstruções das variações de temperatura nos últimos dois milénios»,
segundo autores diferentes. «Anomalias referentes a médias (nem sempre as mesmas)
 da 2ª metade do século XX.» (Mais especificações no original)
Os factores que governam o clima «actuam em escalas temporais diversificadas, que vão das décadas aos milhões de anos e interagem frequentemente de forma não linear, [n]uma intrincada rede de processos físicos que só agora começamos a perceber»… Sabemos que o clima é uma manifestação atmosférica, mas esquecemo-nos de que «a atmosfera, tal como a conhecemos […] nem sempre existiu.» Em termos de análise, o clima é uma resultante estatística de estados do tempo (estados meteorológicos em certos momentos), e não deve confundir-se com eles.
Reconstrução das temperaturas a partir de testemunho de gelo
(ver especificações no original), entre há 5 000 anos e há 95 anos.
Marcaram-se os períodos frios a azul e os quentes a vermelho,
separados pela média das temperaturas no período. Em baixo, a
azul claro, representa-se o forçamento climático devido à actividade
vulcânica, estimada com base na presença de sulfatos.
Este livro está redigido de forma clara (até com recurso à poesia!) mas densa e com informação técnica tão precisa, que, tentar resumi-lo, daria um «resumo» (cópia) com a mesma extensão do original.
Em consequência, por agora, acrescenta-se apenas que «quanto ao que se passa actualmente com o clima sabe-se que, em média, as temperaturas estão a subir», mas não podemos (ainda) saber se se trata de variação climática ou se é uma modificação (mudança) do clima, sendo que que há imensa confusão de termos usando-se «variação» climática e «modificação» climática como se fossem sinónimos, e não são…

José Batista d’Ascenção.

Adenda 1: O uso de aspas corresponde a citação literal do texto da obra em apreço.

Adenda 2: Se, porventura, o autor do livro passar os olhos por este escrito, e o mesmo não lhe agradar por algum ou por vários motivos, o que seria normal, faça o favor de manifestar a discordância sincera e severa que julgue merecer e que antecipadamente se agradece.