quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Desculpem, mas não

Creio que mexo em assunto interdito. Mas, como os meus pobres registos praticamente não têm leitores, não haverá ondas de indignação ou de fúria que me esmaguem. E, se houver, que haja.

Dos zunzuns a que não é possível fugir, parece-me que o futebol, como outras áreas, é um mundo de corrupção.

Reconheço que cumprirá uma função social. Se quase tudo é frustrante, porque não o amor a um clube, para compensação afectiva, ainda que ilusória? A natureza humana é como é e tem de haver escape para as decepções da vida, a raiva e a violência que habitam no fundo de nós.

Daí que cada equipa não jogue com as adversárias, mas contra elas. E vale praticamente tudo. Somos cegos para as falhas da equipa eleita pela nossa preferência e exacerbamo-nos com as dos adversários, que é preciso arrasar, dentro e fora do campo, com ou sem merecimento. 

Guerra é guerra.

Insultos, ofensas, agressões, vândalos organizados em claques têm justificação, se são dos nossos, apenas se tornando inaceitáveis se vêm do "inimigo".

Os negócios são opacos, as obras são faraónicas e é preciso alienar o público, para que não se discutam as formas de obter receita, que os impostos (de quem os paga...) cobrem.

Em Braga tivemos a construção de um estádio caríssimo, que continuamos a pagar, antes de um hospital público decente e da requalificação dos edifícios escolares. Prioridades.

Por isso, concordo com o que escreveu a economista Susana Peralta no jornal «Público» de 22 de Setembro sobre a impropriedade do dito do Presidente da República: «we are Cristiano Ronaldo». Eu não sou. Certo que, quando estive a cerca de 11 000 km do país, não encontrei ninguém que conhecesse o nome «Portugal», mas todos sabiam o de Cristiano Ronaldo. Só que, então como agora, continuo sem saber o que ganham com isso Portugal e os portugueses em geral.

Futebóis, cada vez mais massivos na comunicação social, pública incluída.

Repetindo-me, digo que não desgosto do jogo em si (que, em casa, vejo, por vezes, sempre sem som), eu que também fui praticante e elemento desequilibrador (em prejuízo da minha equipa) e que nunca perdi por mais de dez.

Fica escrito.

José Batista d’Ascenção

domingo, 24 de setembro de 2023

Eis porque gosto do Outono

Por limitações do dispositivo e insuficiência do autor,
a imagem fica muito aquém da realidade...

São frutos, senhores.

São cores. São aromas. São sabores.

A paleta é multicor. Radiosa, ao sol claro. Hoje, com calor ao passar do meio-dia e frio à noite.

Terras esquecidas do interior de Portugal. Ternura imensa de velhos isolados, sempre com filhos e netos no peito e no pensamento, ainda que longe na largueza redonda do mundo.

Uma beleza, que não dá de comer à dor, mas é linda de ver. Olha-se e não é preciso palavras.

Contempla-se apenas.


José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Inteligência Artificial - o que faz e como funciona o ChatGPT

Stephen Wolfram, um pioneiro da computação, explica-nos num pequeno livrinho (na foto) como é o que o ChatGPT se tornou «uma forma de inteligência capaz de escrever com um estilo tão semelhante a humanos, de uma maneira tão convincente.», coisa que «ninguém previa – nem mesmo os seus criadores». [notas da contracapa]

O ChatGPT baseia-se «no conceito de redes neuronais – concebido nos anos 40 como uma idealização do modo de funcionamento dos cérebros» (p 11) e consiste num «modelo de linguagem desenvolvido pela OpenAI que utiliza inteligência artificial para gerar respostas em linguagem natural a partir de perguntas ou entradas de texto. Ele é projetado para fornecer assistência e informações de uma ampla variedade de tópicos, com base no seu treinamento em textos da internet.» Esta é a resposta do próprio à pergunta: «O que é o ChatGPT, em três linhas».

O mais extraordinário é que quando o ChatGPT escreve um ensaio, o que ele faz, «essencialmente, é perguntar-se repetidamente “dado o texto até este momento, qual deverá ser a próxima palavra?” e adiciona uma palavra de cada vez.» (p.14) Isto significa que este programa fabuloso funciona com base em… estatística. Naturalmente, para que isso aconteça com sucesso é preciso definir uma série de parâmetros que escapam ao leigo, que pasma, ante o facto de o ChatGPT escolher «sempre a próxima palavra com base em probabilidades». (p.19)

O treino nas redes neuronais tenta que elas consigam «reproduzir com sucesso os exemplos que lhes damos. E depois confiamos que consiga[m] generalizar de entre esses exemplos de forma “razoável”.» (p. 44)

Este treino das redes neuronais é «basicamente uma arte. […] Na maioria dos casos, as coisas foram descobertas por tentativa e erro» (p. 51). […] «Os exemplos podem ser muito repetitivos. E, de facto, é uma estratégia padrão mostrar a uma rede neuronal todos os exemplos que tenhamos, vezes sem conta. […] De alguma forma [isto é] análogo à utilidade da repetição na memória humana. E é também necessário mostrar à rede neuronal variações do mesmo exemplo» (p. 56). O funcionamento do ChatGPT resulta «de um treino […] baseado num corpus de texto gigante – na internet, livros, etc., escrito por humanos.» […] Depois, usando peças de engenharia precisas, o ChatGPT consegue «produzir texto semelhante a humanos». (p. 85)

Para além do treino é importante «ter humanos a interagir ativamente com o ChatGPT, […] e dar-lhe feedback.» (p. 89)

Mas o ChatGPT não faz computação, o que «significa que nunca podemos garantir que o inesperado não aconteça» (p. 62). Na realidade, «o ChatGPT não diz sempre coisas que façam sentido. Ele apenas diz coisas que lhe pareçam corretas baseadas nas coisas que pareciam corretas no seu material de treino». (p. 112) O que produz é sempre estatisticamente plausível […], mas isso não significa que o que apresenta com confiança esteja necessariamente correto» (p. 120).

Espantosamente, «tal como não sabemos o que se passa dentro do cérebro humano, na verdade não sabemos o que se passa lá dentro [do ChatGPT] (p. 80). Só que funciona! Sem que conheçamos «nenhuma razão teórica fundamental para que algo assim funcione.»! (p. 84)

Uma área onde o Chat GPT tende a ter dificuldades, como os humanos, é na matemática.» (p. 123). O ChatGPT talvez funcione bem 95% das vezes. […] E, «por mais que se tente, os outros 5% continuam difíceis de alcançar». (p. 135)

Quer dizer: «o ChatGPT – como os humanos – é ótimo onde não é preciso uma “resposta certa”. Quando é “posto à prova” para responder a algo preciso falha muitas vezes. A forma de resolver o problema é conectá-lo aos “superpoderes” dos programas de conhecimento computacional preciso.» Porém, ainda não há «certeza de como isto vai funcionar». (p 138)

Lá chegaremos.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Pescov, homem de meio corpo

A política sempre me fascinou tanto quanto me repugna. Já escrevi algures que o mundo (das pessoas), em geral, não se move por princípios nem por boas intenções, antes por interesses e por paixões. Isto é céptico e simples, bem sei. Mas assumo-o, por razões de princípio e motivos de clareza.

O sistema político russo é um regime de assassinos, que, na substância, pouco terá variado ao longo dos séculos. Ali como em muitas, muitas paragens. A minha insuficiência em História impede-me de elaborar ensaios sobre a matéria, mas não pode anular a minha liberdade de dizer o que penso e de que sou o único responsável.

Algo que me impressiona nos porta-vozes de Putin, desde o tremendo Lavrov ao incorpóreo Pescov é a frieza firme da linguagem a tentar impor uma leitura política que não cola com a realidade. A representação do papel é, no seu género, impressionantemente coerente, num e noutro, mas ocorre-me que, no caso de Pescov, se limita prudentemente à voz, sempre serena e calibrada, hirta como o microfone empunhado por uma foto estática, de meio corpo. Este homem existe mas aparece-nos como se fosse um dispositivo maquinal. Uma imagem que poderia funcionar como uma espécie de avatar político.

Entretanto, no mundo a(s) democracia(s) regride(m) e os direitos humanos são ideais  muito pouco universais.

Resta que, com imperfeições e falhas e crimes, há uma fracção da humanidade que não deixa de lutar por dignidade, justiça e liberdade. A esperança reside aí.

Suponho.

José Batista d’Ascenção