sábado, 23 de dezembro de 2023

Sapatos de cão e crianças sem sapatos, sem paz e sem pão

Hoje à tarde, enquanto fazia o meu exercício físico ao ar livre, na margem esquerda do Cávado, entre a Ponte de Prado e Ruães, reparei num cão de tamanho médio todo apetrechado para o frio que não fazia – o sol era claro, o ar macio e a temperatura amena. Pois aquele cão seguia junto aos seu jovens donos (suponho) abrigado debaixo de um cobertura avantajada a que, por analogia com os sobretudos (peças de roupa para humanos), chamarei de «sobrepêlo». Mas, o que me chamou a atenção foi que aquele cão usava sapatos. Procurei reparar melhor, entre cada ida e vinda do meu percurso: não, não conhecia calçado com tal uso. Interroguei-me sobre se seria para evitar sujar o chão da casa, dado que não era pela aspereza do solo nem por este estar demasiado frio ou quente (o asfalto, no Verão, pode ser um problema…). Também me perguntei se o cão preferiria andar naturalmente como cão ou como cão «travestido» por mão humana. Nada podia concluir.

Porém, em época de Natal, saltou-me o pensamento para as crianças que não têm tecto, nem pão, nem família, nem quem cuide delas.

Claro que, se aquele cão não tivesse sapatos, isso nada adiantaria à situação das crianças desvalidas. Mas o paralelo não abandonou o meu espírito. De resto, uma tétrada de sapatos de cão talvez não seja assim tão cara… Por outro lado nem sei se os donos daquele cão ofereceram a alguma(s) criança(s) desprotegida(s) pares de sapatos muito mais dispendiosos do que tétradas de sapatos de cão. Nada sei. Além do mais, respeito os que se dedicam aos animais e lhes querem mais do que às pessoas. Este grupo é muito alargado, talvez universal, se pensarmos nos animais que são nossos e nas pessoas que estão longe e que não conhecemos. Somos assim. Porém, reflectir nisto causa-me impressão, que deve derivar das minhas múltiplas imperfeições. Imperfeições que incluem a impossibilidade de fuga ao consumismo na medida que suponho ideal.

Vivemos num mundo cão, diz-se, e eu tenho-o por verdade. Mas salientando que a culpa não é dos cachorros.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Cacto de Natal

Schlumbergera truncata é o nome científico do chamado cacto de Natal. Tem outras designações, por exemplo cacto da Páscoa. Segundo a Wikipédia, é uma planta originária do Brasil, que cresce até cerca de 30 cm de altura e não apresenta espinhos. As flores medem até 8 cm, e apresentam tons de rosa, branco, laranja ou vermelho. O caule é formado por vários artículos que podem ser destacados para formar novas plantas. Gosta de solo fértil e bem drenado, de boa luminosidade, sem sol directo.

O exemplar da foto mora nos fundos cá da casa. Ninguém lhe dedica muita atenção, eu rego-o de tempo a tempo com pouca água. A planta parece vingar-se e obriga-nos a reparar nas suas bonitas flores, quando é o tempo.

E este é o tempo do cacto de Natal ou o cacto de Natal é deste tempo que agora faz.

Em mensagem rápida, que os meus netos estão quase a chegar!, ofereço-o à vista de todos, como sinal de Boas-Festas.

José Batista d'Ascenção

sábado, 9 de dezembro de 2023

Dezembro, cai chuva miudinha

Dia cinzento e molhado, no Minho. Há quem deteste, eu aceito e penso nas vantagens. O tempo assim convida(-me) à reflexão. Precisamos de chuva (bem chovida) e temo-la, como devia ser próprio da época. E, chovendo, nem o frio é tão extremado. Talvez esta aguinha sirva para retardar os queixumes de seca, como é costume, daqui por seis meses, ou antes.

Por outro lado, os meus netos e filhos e filhas (as mulheres deles) estão quase a chegar. Cuido que o desejo deles não é inferior ao meu e ao da mulher. E, se continuar a chover, quando vierem, tanto dá: ficamos em casa e (ainda) estamos mais juntos. Se fizer bom tempo vamos passear e divertir-nos em espaço amplo, o que também sabe bem. Está quase! Na escola, as aulas vão interromper-se dentro em pouco. Os resultados dos meus cachopos são bastante razoáveis, pese aqueles (poucos) casos que não me deixam descansado. Mas estou cheio de sorte este ano. E é isso que interessa.

Venham os jovens e os mais jovens, não surjam problemas maiores de saúde ou outros e o Natal vai ser bom e feliz.

Boas Festas, de que tanto precisamos.

Eu já estou a saboreá-las.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

O enigma da cultura

Menos imerso em leituras do que há tempos atrás, tenho lido os textos de Oliveira Martins, no livro «A cultura como enigma». É um homem de profunda cultura, o autor. E são interessantes os seus artigos, reveladores de muito saber, muitas vivências e muita(s) leitura(s). Tantas leituras que Oliveira Martins refere logo na primeira página: «Penso que o vício dos livros veio no meu código genético».  Uma frase de sentido forte e nítido, afectivamente (muito) verdadeira, mas factualmente falsa. Ninguém nasce com quaisquer genes para a leitura. É preciso berço favorável e uma infância com estímulo para o amor aos livros. Ninguém ama o que desconhece. Infelizmente, o ambiente familiar da maioria das crianças portuguesas não reúne as condições necessárias, e, por isso, globalmente, os portugueses não lêem. E, como não lêem, não gostam de ler. Como podia ser de outro modo?

A escola devia quebrar este ciclo, mas não é fácil consegui-lo. E cada vez parece mais difícil.

Por outro lado, a cultura não se dissemina por «osmose», de tal (má) sorte que a erudição e o saber, não raro, isolam os que os detêm num «espaço» a que as grandes massas são «refractárias», quando não mesmo algo hostis.

As democracias, para o serem, e para promoverem o humanismo e a cidadania, deviam tratar o assunto com toda a dedicação e cuidado. E firmeza.

A nossa, como outras, não tem sabido fazê-lo.

A responsabilidade é nossa.

Já o livro, esse vale a pena lê-lo.

José Batista d’Ascenção

Tempo de plantar

O Outono tem trazido chuva abundante, na metade norte do país continental.

Nas Ilhas não há problemas de seca. Há dúvidas sobre se gerimos bem os recursos hídricos: o excesso de água pluvial que não conseguimos reter; a falta de água na zona sul (onde chove pouco), que não conseguimos colmatar; a exploração excessiva de água subterrânea na orla algarvia; acrescendo a poluição de solos e cursos de água, tudo agravado pelos incêndios de Verão, que potenciam a erosão dos solos, o assoreamento das barragens e a contaminação das águas das albufeiras.

Porém, o tempo vai bom para plantar. Há cidadãos (individuais) que estão sensibilizados e fazem (muito bem) a sua parte. Mas falta política global, ordenamento florestal e ampliação e gestão da(s) área(s) de coberto vegetal autóctone.

Ocorrem algumas iniciativas simbólicas de plantação de árvores ou arbustos, quase sempre associadas à comemoração de «dias mundiais», que ficam bem na fotografia, por assim dizer, mas que convinha converter em algo que seja mais sistemático e efectivo (não importando que seja discreto e, desejavelmente, banal).

Ou plantamos diversificadamente os espécimes convenientes em cada região (basta de monocultura extensiva de eucalipto em qualquer sítio) ou os nossos filhos e netos não terão condições de sobrevivência.

Plantar - isto, que é óbvio, devia ser linear.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Pedagogia de outros tempos (II)

Reflectir/Recordar (*)

(continuação)

[...] 

Se não tivesse existido este estabelecimento de ensino [Colégio de S. Miguel de Refojos, Cabeceiras de Basto, em que ingressei em 1955], muitos jovens teriam ficado apenas com a 4ª classe do ensino primário, perdendo-se, assim, potenciais talentos.

Concluído o 5º ano liceal, uns por aí se ficaram. Com uma formação académica que lhes permitiu o exercício de profissões, nos sectores público e privado, em diversas regiões do país. Outros ingressaram na Escola do Magistério Primário de Braga, tendo desempenhado, nas suas vidas, o importantíssimo papel de professores do Ensino Primário. Alguns prosseguiram estudos, 6º e 7º anos do liceu (actual ensino secundário), tendo como objectivo ingressar na Universidade. De lá saíram licenciados nos mais diversos cursos.

No meu caso pessoal, frequentei o liceu Sá de Miranda, em Braga. Concluído este ciclo, ingressei na Universidade de Coimbra, onde me licenciei em Filologia Românica, na Faculdade de Letras, tendo enveredado pela docência no ensino liceal.

Durante toda a minha carreira profissional, fui professor do liceu Sá de Miranda, em Braga, tendo leccionado as disciplinas de Português, Francês e Literatura Portuguesa. E desempenhei vários cargos: director de turma, delegado da disciplina de Português, membro do Conselho Directivo e Orientador de Estágio Pedagógico.

Nunca é de mais salientar a importância do Colégio, numa zona rural, distante dos centros urbanos.

Os meus pais tiveram perfeita noção dessa importância, o que levou o meu pai, Américo Teixeira Leite Bastos, Tesoureiro da Fazenda Pública em Celorico de Basto, onde não havia colégio, a pedir a transferência para Cabeceiras de Basto, sua terra natal.

Recordo, saudosamente, a minha passagem pelo Colégio.

Recordo os meus colegas de estudo e de lazer. Formávamos uma «família», pois, ao longo do tempo, granjearam-se amizades que perdurariam para sempre.

Guardo, religiosamente, uma fotografia, onde figura o Gaspar, Dr Gaspar Miranda Teixeira, que, como eu, após a conclusão do 5º ano, se deslocou para Braga, com a finalidade de frequentar o 6º e 7º anos do liceu. Fomos colegas no liceu Sá de Miranda, embora frequentando cursos diferentes. Separámo-nos na ida para a universidade. A nossa amizade perdurou através dos tempos. O Dr Gaspar tem um currículo riquíssimo, abrangendo a Educação e a Política, tendo sido  professor, Presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto e deputado da Assembleia da República, entre outras funções. Estão presentes também o Fernando Raposo, professor do Ensino Primário,  o Dr Duarte Nuno, o Elias, engenheiro Elias de Almeida, infelizmente já falecido, e o João Manuel Gonçalves Pereira com quem mantenho um regular contacto.

Tenho impressivamente gravada, na minha memória, a figura do Joaquim Barreto, engenheiro Joaquim de Almeida Barreto, de Eiró, cujos discursos, plenos de humor requintado, ouvíamos deliciados no recreio.

Continuo a contactar com o engenheiro Joaquim Barreto, pois, actualmente, habita, como eu, em Braga, e continuamos a recordar «peripécias» do Colégio que gravámos, de forma indelével, na nossa memória.

Recordo as agradáveis actividades lúdicas que praticávamos no recreio: futebol e voleibol. O que ajudava a descontrair o ambiente um tanto exigente das aulas e do salão de estudo.

Recordo, ainda, os passeios pela quinta do mosteiro, em contacto com a natureza verdejante e o cantar álacre do ribeiro, a sugerir uma espécie de beleza primordial.

É a saudade do tempo que passa, de um tempo que não se pode prender. Não há cabelos a que nos possamos agarrar e retroceder. Mas fica a recordação de vivência plena que nos preenche a alma e contribui para o bem-estar absoluto.

António Augusto Carvalho Leite Bastos

(*) In: «Cabeceiras de Basto. Miscelânia Monográfica». Associação Antigos Alunos do Colégio SMR. 2023. Pg 12-14.

Afixado por José Batista d'Ascenção

domingo, 5 de novembro de 2023

Pedagogia de outros tempos (I)

O meu amigo António Bastos, professor aposentado do grupo de Português/Francês, foi convidado, em almoço-convívio de antigos alunos, a escrever sobre os tempos em que frequentou o Colégio de S. Miguel de Refojos (Cabeceiras de Basto). O seu texto, intitulado «Reflectir/Recordar» (*), tem interesse afectivo, pedagógico e documental e está escrito primorosamente, numa linguagem clara e precisa. Diz ele: 

À direita: António Augusto Carvalho Leite Bastos

[...]

Com muito gosto, confirmei a minha presença no referido convívio.

E, acto contínuo, começaram a afluir à minha memória, em catadupa, imagens imorredouras, imperecíveis, sobre o meu passado no Colégio, que frequentei até ao 5º ano liceal (actual 9º ano de escolaridade).

Foi um mundo redivivo, ressuscitado, a que «assisti», numa autêntica visão caleidoscópica: alunos, professores, directora do Colégio, funcionários, espaços, paisagens…

Foi uma «peregrinação» pelo passado de indesmentível fascínio, regozijo, que me fez regressar à minha juventude. E sonhei. «Pelo sonho é que vamos», diz o poeta Sebastião da Gama.

Confesso que sou um sonhador.

Chegado o dia [aprazado], lá marquei presença no referido almoço-convívio.

Dia festivo, gratificante, pela oportunidade de, mais uma vez, reencontrar velhos amigos da minha e de outras gerações, muitos dos quais já não via há algum tempo.

Antes evocar a minha passagem pelo Colégio, analisemos, sucintamente, a sua história.

Foi um mosteiro beneditino até à época da implantação do liberalismo, altura em que, por decreto de 1834, Joaquim António de Aguiar extingue as ordens religiosas.

A parte poente do edifício foi destinada aos serviços camarários. A metade nascente e quinta foram deixadas ao abandono.

Posteriormente, o Estado vende, em hasta pública, o mosteiro e quinta adjacente ao comendador A. Fernandes Basto.

Em 1944, o edifício é comprado por José Gonçalves Ferreira aos herdeiros do comendador. A 29 de Setembro desse mesmo ano, o Colégio começou a funcionar como internato, tendo, como director, José Gonçalves Ferreira.

Eram leccionados o ensino primário e o ensino liceal. O internato termina no ano de 1949.

Em 1955, ingressei no Colégio. A directora pedagógica era a Dra Emília Marinho da Mota, pessoa afável, compreensiva, de fino trato e de forte empatia junto dos alunos e de quem, com ela, contactava.

O Colégio era uma instituição particular de ensino, com oferta educativa do 1º ao 5º ano do liceu (actuais 5º a 9º anos de escolaridade).

Os alunos teriam de se submeter aos exames nacionais no 2º e 5º anos (actuais 6º e 9º anos de escolaridade, respectivamente), realizados no liceu Sá de Miranda, em Braga. E os resultados eram dos melhores. O Colégio era uma referência.

No tocante à disciplina, como reflexo da política do Estado Novo, havia um certo rigor, pois os alunos eram «formatados» em ordem a acatar o que lhes era imposto, sem grandes discordâncias ou reclamações. Devia reinar a ordem para o normal funcionamento da instituição escolar. A disciplina acima de tudo.

O Colégio era frequentado por alunos de ambos os sexos. As turmas eram mistas, embora a entrada para o mesmo e os recreios fossem separados.

Maioritariamente, os alunos eram da vila e do concelho de Cabeceiras de Basto. Havia também alunos de concelhos limítrofes, nomeadamente, Ribeira de Pena, Mondim de Basto, Celorico de Basto e de outras paragens, pois, nestes concelhos, não havia estabelecimentos de ensino que os pudessem receber para prosseguimento de estudos, acabada a escola primária (actual 1º ciclo).

Se não tivesse existido este estabelecimento de ensino, muitos jovens teriam ficado apenas com a 4ª classe do ensino primário, perdendo-se, assim, potenciais talentos.

António Augusto Carvalho Leite Bastos

(*) In: «Cabeceiras de Basto. Miscelânia Monográfica». Associação de Antigos Alunos do Colégio SMR. 2023. Pg 12-14

(continua)

Afixado por José Batista d'Ascenção

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Siglas - uso e abuso

Nem sei bem porque é que me irrita ouvir dizer «ésse-éne-ésse» em vez de «serviço nacional de saúde». Para mim é como se a instituição, para além de enormíssimas dificuldades, não tivesse direito ao bom nome.

Onde as siglas também me incomodam é no meu domínio profissional. Não digo educação, para não ultrajar o conceito, nem ensino, para não ser mentiroso, direi o sistema escolar que temos. Mas aqui, a multiplicidade, a diversidade e até a variabilidade das siglas fazem jus ao vazio que enfuna os normativos e a língua de pau de actas e afins. Servem para nada, que deve dar jeito a variados interesses, não necessariamente os de formar bem a criançada e juventude.

Nos partidos são úteis. A gente identifica-os rapidamente sem lhes pronunciar o nome, que é pouco agradável no caso de alguns. Dizem que são necessários à democracia, o que deve ser verdade, mas não há prova definitiva de que assim seja. Suspeito que nós, humanos, é que não concebemos o conceito de outro modo. Inventamos condições, convenções e rótulos porque temos que nos encaixar e encaixar os outros nas categorias que introduzimos na cabeça. E não queremos nem sabemos sair dessas gaiolas.

Um dia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, apresentava eu um tema ambiental numa aula do Professor Vitor Madeira, que não era um prodígio de empatia na opinião dos alunos, e referi-me sempre ao dióxido de carbono (CO2) como «cê-ó-dois». Foi forte a reprimenda: acaso gostaria que me tratassem por JB? Bem lhe podia ter dito que houvera antanho um jogador famoso do Vitória de Setúbal a quem sempre ouvi chamar JJ. Mas, a minha discordância foi tão acentuada que não contemplou aquela diplomática observação.

Agora, que estou farto de siglas, isso é verdade.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Adictos dos telemóveis

Hoje e há quarenta anos diferem radicalmente no dia-a-dia comunicacional de cada um de nós. Tirando o tempo de sono, quantos de nós passam(os) sem ter por perto um telemóvel ou de o manter entre os dedos por longos períodos ou com elevada frequência? Precisamos disso? – Passámos a precisar, deixámos criar em nós essa necessidade. Isso é bom? – Talvez a resposta seja: - bom ou menos bom, é a realidade.

E se os mais idosos são, em geral, menos dependentes, entre jovens (e crianças…) viver sem o apêndice em que o telemóvel se tornou (em boa verdade, talvez cada indivíduo se tenha tornado o anexo maior do aparelho…) é inimaginável, particularmente para os próprios.

A comunicação múltipla permanente ou o vício do jogo e o arquivo da intimidade fazem do dispositivo algo indispensável ou quase intrínseco e precioso para os mais novos. Nas escolas, e não apenas, a situação tornou-se um problema, por vários motivos. Pela minha parte, nunca, em altura alguma, me ocorreu tocar no telemóvel de qualquer aluno ou de o guardar e fazer a sua entrega na direcção, como vi alguns colegas fazer. Por um lado, sentia incómodo pessoal em ter na minha posse, ainda que transitoriamente, o repositório da vida íntima de alguém e, por outro, parecia-me uma atitude demasiado arriscada perante a fúria que poderia desencadear nos meninos e nos seus encarregados de educação.

O problema cresce e já há quem sugira terapêuticas para a enfermidade. Não sei se a dita acentua a solidão, mas é um facto que a solidão existe durante a dependência, mesmo que as vítimas se julguem acompanhadas, com mais ou menos ansiedade ou euforia desencadeadas pelo número de «likes» conseguido.

Faz tempo, pessoa amiga, que, a meus olhos, preza a fruição da vida com sabedoria, dizia, com graça, que as pessoas passaram a registar fotograficamente (e a publicar) tudo, a toda a hora, incluindo belíssimas paisagens e monumentos, só lamentando que, nestes casos, elas mesmas não prescindam de se colocar à frente, em grande plano, tapando quase tudo.

Já os direitos de terceiros à privacidade e ao anonimato parece terem deixado de existir, sem que as vítimas involuntárias se apercebam sequer da violação desses seus direitos.

José Batista d’Ascenção 

terça-feira, 10 de outubro de 2023

A guerra, sempre a guerra

Onde haja dois humanos não é improvável que surja revolta e se desencadeie uma guerra entre eles. Falta-me saber, e não pretendo tirá-lo a limpo, se a universalidade da hipótese também se estende a indivíduos solitários (em luta violenta contra si próprios).

O que haverá, na profundidade de nós, que nos empurra para a oposição encarniçada aos nossos semelhantes? E, qualquer que seja a resposta, será que radica nela alguma característica necessária à sobrevivência ecológica e evolução do género humano? Nova dúvida, irresolúvel.

A Natureza (também) é (intrinsecamente) violenta, como são violentas grande parte das relações entre o mundo vivo, seja entre espécies diferentes, seja dentro da mesma espécie.

Estas constatações desconfortam-me: nem as religiões, nem a política, nem a psicologia, nem a sociologia, nem o grau de «educação», nem as boas vontades e os exemplos coletivos e individuais, nem tudo somado, resolveu, em algum lugar, a eclosão de tumultos e de carnificinas entre seres humanos. Chacinas que nada legitima, diga-se com a ênfase possível. Porém…

Que marcha é a nossa?

O que valem os nossos (tão díspares) princípios?

Quem somos nós?

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Braga, ponto por ponto, de ponta a ponta

Pelo interesse e beleza do edificado granítico dos seus monumentos, e não apenas


Arte e sensibilidade do meu colega de profissão (docente do ensino secundário, já aposentado) e amigo, Domingos Araújo.

Tardei a visitar a exposição desde aquela segunda feira em que, distraidamente, fui ao museu Pio XII bater com o nariz na porta. Bem feito, disse a mim próprio na altura, para aliviar a frustração. Voltei, com calma, para ver e apreciar muitos trabalhos (alguns dos quais já conhecia) distribuídos pelos seis pisos da Torre de Santiago.

Do talento, labor e dedicação de Domingos Araújo resulta uma obra de numerosas e variadas peças, que dignificam e elevam o autor, beneficiam a cidade e enriquecem as pessoas.

A autarquia e as instituições bracarenses bem podem investir na edição e divulgação do espólio, por diversos meios e tecnologias, que só têm a ganhar com isso. Promovem a urbe, desde a «Bracara Augusta», fundada há cerca de 2000 anos, e antes disso, acrescentam o seu património documental e elevam a cultura dos bracarenses e de todos os que a visitam e têm alguma curiosidade sobre o seu edificado monumental histórico, arruamentos ou bairros, cruzeiros, fontenários ou outras peças escultóricas.

Muitos parabéns, ao Domingos Araújo, particularmente, e a todos os promotores desta rica e primorosa exposição.

E obrigado, também.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Reciclagem – fazêmo-la realmente? Nã...

Há dias cheguei a uma grande superfície (Modelo/Continente, Braga) e, à falta de contentor específico, que nunca vi em lado nenhum, dirigi-me, como de costume, ao balcão de atendimento para entregar duas lâmpadas fundidas. Diferentemente do habitual, a menina que estava ao serviço respondeu-me que não recebiam esse tipo de material. Perante a minha incredulidade, disse-me que iria saber (mais tarde…). Ao mesmo tempo um seu colega abeirava-se para acrescentar que, quando recebem lâmpadas usadas, as colocam no lixo comum, como sempre fizeram.

O meu espanto cresceu. Apenas respondi que também eu ia saber, porque supunha que a lei obriga os estabelecimentos comerciais que vendem equipamentos eléctricos a receber os que lhes levarem inutilizados [Dec. Lei nº 67/2014, alíneas a) e b) do ponto 2 do artigo 17], para reciclagem, e voltei para trás com as lâmpadas, que continuam no carro, tal como as deixei.

De caminho, lembrei-me que há alguns anos, no centro da cidade, onde fui adquirir umas armaduras fluorescentes novas, tendo levado para entrega as velhas e as respectivas lâmpadas inutilizadas, o senhor que me atendeu, já entradote, tinha dito o mesmo: que sim, que ficava com aquilo, mas que não tinha onde o meter, não lhe restando alternativa senão colocar tudo no lixo normal. Naquela altura contraditei-o, não acreditei que dissesse a verdade, que desconhecesse a sua obrigação, e que, depois do meu alerta, fosse despejar as lâmpadas velhas no lixo comum. Agora acredito nas três possibilidades, cumulativamente.

Não sem pesar. Somos predadores do ambiente, no que podemos e no que não podemos ou não sabemos ou não queremos evitar.

Que fazer?

Mal pelos meus filhos e netos e dos que são das suas gerações.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Desculpem, mas não

Creio que mexo em assunto interdito. Mas, como os meus pobres registos praticamente não têm leitores, não haverá ondas de indignação ou de fúria que me esmaguem. E, se houver, que haja.

Dos zunzuns a que não é possível fugir, parece-me que o futebol, como outras áreas, é um mundo de corrupção.

Reconheço que cumprirá uma função social. Se quase tudo é frustrante, porque não o amor a um clube, para compensação afectiva, ainda que ilusória? A natureza humana é como é e tem de haver escape para as decepções da vida, a raiva e a violência que habitam no fundo de nós.

Daí que cada equipa não jogue com as adversárias, mas contra elas. E vale praticamente tudo. Somos cegos para as falhas da equipa eleita pela nossa preferência e exacerbamo-nos com as dos adversários, que é preciso arrasar, dentro e fora do campo, com ou sem merecimento. 

Guerra é guerra.

Insultos, ofensas, agressões, vândalos organizados em claques têm justificação, se são dos nossos, apenas se tornando inaceitáveis se vêm do "inimigo".

Os negócios são opacos, as obras são faraónicas e é preciso alienar o público, para que não se discutam as formas de obter receita, que os impostos (de quem os paga...) cobrem.

Em Braga tivemos a construção de um estádio caríssimo, que continuamos a pagar, antes de um hospital público decente e da requalificação dos edifícios escolares. Prioridades.

Por isso, concordo com o que escreveu a economista Susana Peralta no jornal «Público» de 22 de Setembro sobre a impropriedade do dito do Presidente da República: «we are Cristiano Ronaldo». Eu não sou. Certo que, quando estive a cerca de 11 000 km do país, não encontrei ninguém que conhecesse o nome «Portugal», mas todos sabiam o de Cristiano Ronaldo. Só que, então como agora, continuo sem saber o que ganham com isso Portugal e os portugueses em geral.

Futebóis, cada vez mais massivos na comunicação social, pública incluída.

Repetindo-me, digo que não desgosto do jogo em si (que, em casa, vejo, por vezes, sempre sem som), eu que também fui praticante e elemento desequilibrador (em prejuízo da minha equipa) e que nunca perdi por mais de dez.

Fica escrito.

José Batista d’Ascenção

domingo, 24 de setembro de 2023

Eis porque gosto do Outono

Por limitações do dispositivo e insuficiência do autor,
a imagem fica muito aquém da realidade...

São frutos, senhores.

São cores. São aromas. São sabores.

A paleta é multicor. Radiosa, ao sol claro. Hoje, com calor ao passar do meio-dia e frio à noite.

Terras esquecidas do interior de Portugal. Ternura imensa de velhos isolados, sempre com filhos e netos no peito e no pensamento, ainda que longe na largueza redonda do mundo.

Uma beleza, que não dá de comer à dor, mas é linda de ver. Olha-se e não é preciso palavras.

Contempla-se apenas.


José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Inteligência Artificial - o que faz e como funciona o ChatGPT

Stephen Wolfram, um pioneiro da computação, explica-nos num pequeno livrinho (na foto) como é o que o ChatGPT se tornou «uma forma de inteligência capaz de escrever com um estilo tão semelhante a humanos, de uma maneira tão convincente.», coisa que «ninguém previa – nem mesmo os seus criadores». [notas da contracapa]

O ChatGPT baseia-se «no conceito de redes neuronais – concebido nos anos 40 como uma idealização do modo de funcionamento dos cérebros» (p 11) e consiste num «modelo de linguagem desenvolvido pela OpenAI que utiliza inteligência artificial para gerar respostas em linguagem natural a partir de perguntas ou entradas de texto. Ele é projetado para fornecer assistência e informações de uma ampla variedade de tópicos, com base no seu treinamento em textos da internet.» Esta é a resposta do próprio à pergunta: «O que é o ChatGPT, em três linhas».

O mais extraordinário é que quando o ChatGPT escreve um ensaio, o que ele faz, «essencialmente, é perguntar-se repetidamente “dado o texto até este momento, qual deverá ser a próxima palavra?” e adiciona uma palavra de cada vez.» (p.14) Isto significa que este programa fabuloso funciona com base em… estatística. Naturalmente, para que isso aconteça com sucesso é preciso definir uma série de parâmetros que escapam ao leigo, que pasma, ante o facto de o ChatGPT escolher «sempre a próxima palavra com base em probabilidades». (p.19)

O treino nas redes neuronais tenta que elas consigam «reproduzir com sucesso os exemplos que lhes damos. E depois confiamos que consiga[m] generalizar de entre esses exemplos de forma “razoável”.» (p. 44)

Este treino das redes neuronais é «basicamente uma arte. […] Na maioria dos casos, as coisas foram descobertas por tentativa e erro» (p. 51). […] «Os exemplos podem ser muito repetitivos. E, de facto, é uma estratégia padrão mostrar a uma rede neuronal todos os exemplos que tenhamos, vezes sem conta. […] De alguma forma [isto é] análogo à utilidade da repetição na memória humana. E é também necessário mostrar à rede neuronal variações do mesmo exemplo» (p. 56). O funcionamento do ChatGPT resulta «de um treino […] baseado num corpus de texto gigante – na internet, livros, etc., escrito por humanos.» […] Depois, usando peças de engenharia precisas, o ChatGPT consegue «produzir texto semelhante a humanos». (p. 85)

Para além do treino é importante «ter humanos a interagir ativamente com o ChatGPT, […] e dar-lhe feedback.» (p. 89)

Mas o ChatGPT não faz computação, o que «significa que nunca podemos garantir que o inesperado não aconteça» (p. 62). Na realidade, «o ChatGPT não diz sempre coisas que façam sentido. Ele apenas diz coisas que lhe pareçam corretas baseadas nas coisas que pareciam corretas no seu material de treino». (p. 112) O que produz é sempre estatisticamente plausível […], mas isso não significa que o que apresenta com confiança esteja necessariamente correto» (p. 120).

Espantosamente, «tal como não sabemos o que se passa dentro do cérebro humano, na verdade não sabemos o que se passa lá dentro [do ChatGPT] (p. 80). Só que funciona! Sem que conheçamos «nenhuma razão teórica fundamental para que algo assim funcione.»! (p. 84)

Uma área onde o Chat GPT tende a ter dificuldades, como os humanos, é na matemática.» (p. 123). O ChatGPT talvez funcione bem 95% das vezes. […] E, «por mais que se tente, os outros 5% continuam difíceis de alcançar». (p. 135)

Quer dizer: «o ChatGPT – como os humanos – é ótimo onde não é preciso uma “resposta certa”. Quando é “posto à prova” para responder a algo preciso falha muitas vezes. A forma de resolver o problema é conectá-lo aos “superpoderes” dos programas de conhecimento computacional preciso.» Porém, ainda não há «certeza de como isto vai funcionar». (p 138)

Lá chegaremos.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Pescov, homem de meio corpo

A política sempre me fascinou tanto quanto me repugna. Já escrevi algures que o mundo (das pessoas), em geral, não se move por princípios nem por boas intenções, antes por interesses e por paixões. Isto é céptico e simples, bem sei. Mas assumo-o, por razões de princípio e motivos de clareza.

O sistema político russo é um regime de assassinos, que, na substância, pouco terá variado ao longo dos séculos. Ali como em muitas, muitas paragens. A minha insuficiência em História impede-me de elaborar ensaios sobre a matéria, mas não pode anular a minha liberdade de dizer o que penso e de que sou o único responsável.

Algo que me impressiona nos porta-vozes de Putin, desde o tremendo Lavrov ao incorpóreo Pescov é a frieza firme da linguagem a tentar impor uma leitura política que não cola com a realidade. A representação do papel é, no seu género, impressionantemente coerente, num e noutro, mas ocorre-me que, no caso de Pescov, se limita prudentemente à voz, sempre serena e calibrada, hirta como o microfone empunhado por uma foto estática, de meio corpo. Este homem existe mas aparece-nos como se fosse um dispositivo maquinal. Uma imagem que poderia funcionar como uma espécie de avatar político.

Entretanto, no mundo a(s) democracia(s) regride(m) e os direitos humanos são ideais  muito pouco universais.

Resta que, com imperfeições e falhas e crimes, há uma fracção da humanidade que não deixa de lutar por dignidade, justiça e liberdade. A esperança reside aí.

Suponho.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Cabelos brancos

Habituamo-nos facilmente às modificações subtis que o espelho nos mostra fielmente todos os dias, mas em que, de ordinário, não reparamos (nem, talvez, queiramos reparar…). Quando nos encontramos com alguém que (já) não víamos há algum tempo – às vezes anos – frequentemente soltamos um «estás cada vez mais nova(o)» ou «o tempo não passa por ti», esperando porventura um cumprimento equivalente da pessoa com quem deparámos.

Creio que todos duvidamos da autenticidade do que pronunciamos e ouvimos nestas circunstâncias, mas seria uma falta de simpatia confrangedora não procedermos naqueles termos. Há «mentiras» necessárias, que confortam e não prejudicam.

Nada nem ninguém pode parar a seta do tempo. E em tudo e em todos ficam as marcas da sua passagem. É assim.

E, contudo, há pessoas a quem o devir acrescenta serenidade e bonomia, muito apaziguadoras de si e dos que as rodeiam ou com quem se cruzam. Mesmo em senhoras, que bem que ficam, por vezes, os cabelos brancos: as minhas colegas e amigas I. Mendes e H. Lobo são disso exemplo. A alvura crescente dos seus penteados assenta-lhes plácida e harmoniosamente. Ficam simples e bonitas. Eu gosto. Nos homens também pode ser assim, embora a careca, a meus olhos, não beneficie nenhum.

Que a velhice, tirando a maravilha dos netos, não traz nada de especialmente agradável. Se vejo mal, velhos ou novos que me apontem onde e em quê.

Mas a sabedoria e a bondade só alcançam verdadeira maturidade em que viveu muito. E não apenas por isso, a velhice é encarecidamente merecedora de respeito e veneração.

José Batista d’Ascenção

domingo, 20 de agosto de 2023

Ele, o mar

Fugido do calor e da secura do interior, reconfortado com os sorrisos (mesmo os mais tristes), as conversas e o carinho de tantos velhos e alguns novos, imersos no bastio de eucaliptedo que afoga a paisagem, desci ao sabor do mar imenso.

Chegado (ontem) à tardinha, fui ter com ele, o mar, já o sol se escondera por detrás da massa líquida. Um casal que restava aprestava-se a deixar a praia e, então, enquanto a Lurdes caminhava na areia molhada, primeiro para sul e depois para norte, sentei-me na cadeira (bastante cómoda) do banheiro e olhei-o de frente, ao mar, percorrendo a vista a 180º, para a esquerda e para a direita. Foram vinte minutos de brisa fresca, de cheiro a maresia, do som repousante das vagas mansas, de descanso da vista pelo longe, cada vez com menos luz.

Procurei não pensar em nada, só para repelir quaisquer pensamentos tristes, com ponderada isenção.

É bonito e diverso o nosso país. E agradável e sereno.

Nisto, o alerta da minha companhia e o escuro progressivo encaminharam-me para casa.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Aquém e além do Moradal

Sento-me à janela, na casa em que nasci, e demoro a vista nos contornos da serra que todos os dias olhei quando menino. Conheço-lhe o perfil quartzítico, de antes do espreitar do sol, que nasce entre os seus cumes, até ao findar do dia, à luz esmaecida do poente. É como se aquela montanha me conhecesse ou eu a sinto como se fizesse parte dela. A sua rudeza maciça e os gumes dos seus rochedos – “canchos”, no dizer dos antigos - resistentes à erosão, são de uma nobreza humilde e sólida, que nem precisava do monumento de Siza Vieira que lá se constrói agora.

Os rasgões na paisagem, em vertentes mais próximas, são recentes. Destinar-se-iam a um daqueles projectos megalómanos sem futuro nem respeito pela orografia e pela Natureza. As chuvas de sucessivos Invernos podem demonstrá-lo da pior forma, mas, se acontecer, ninguém será responsável… Dizem-me que já foi embargado. Eu pergunto-me como é que deixaram que acontecesse.

Escassas semanas depois dos incêndios de 2020, os eucaliptos vingaram-se, iniciando uma explosão de milhões de sementes que germina(ra)m em todos os espaços disponíveis. Uma asfixia, que não se vislumbrava (ainda) há quarenta anos. E que a violência das chamas ceifará, quem sabe se antes de estas árvores darem o primeiro corte, fonte de rendimento com que os residentes, apesar de envelhecidos e desesperançados, contam. É um fado. Uma “sina”, que até eu consigo prognosticar, desejando, porém, que a realidade (me) desminta.

Ocorrem-me pensamentos difusos quando, solitário, fico imerso nestas terras a que pertenço e que sempre transportei comigo, silenciosamente.

Aquém ou além do Moradal, esteja onde estiver, ou ande por onde andar, as minhas raízes são (d)aqui.

José Batista d’Ascenção

domingo, 6 de agosto de 2023

Em cem hectares cabem muitas árvores – haja delas bons frutos

A «Jornada Mundial da Juventude» promovida pela Igreja Católica, com a vinda a Portugal do Papa Francisco, que está em Lisboa desde a manhã de quarta-feira passada até ao fim da tarde de hoje, domingo, tendo-se apenas deslocado a Fátima na manhã de ontem, sábado, foi uma impressionante manifestação religiosa, mas também social e política. Nunca, em Portugal, em tempo algum, se juntou tanta gente, no Parque Eduardo VII e adjacências e, depois, no novo recinto preparado nas margens do Trancão, do lado de Lisboa e do lado de Loures.

Francisco é um colosso: como ser humano simples e bom, como homem de cultura abrangente e profunda e, naturalmente, como líder religioso. A sua capacidade de, aos 86 anos, envolver e entusiasmar os jovens, fazendo-os vibrar da forma mais fina e comovente é algo que nunca (eu) tinha visto.

Não creio que estes acontecimentos mudem o mundo, mas deixam marcas e têm consequências. E tudo se deve à hercúlea fragilidade de um Homem que soube sacudir e repelir as misérias da instituição que dirige. Os simples perceberam-no e apoiam-no. Os empedernidos da ortodoxia formal retraíram-se. A paz é mais verosímil no espírito de muitos, utópica que seja. E isso não é pouco.

E Lisboa e Loures ganharam um espaço maravilhoso que bem poderia reverter para os cidadãos, se betão e estruturas o não tragarem mais ou menos vorazmente. Em cem hectares cabem muitas árvores, as pessoas precisam de espaço livre, sombra, temperaturas amenas e oxigénio. E uma das capitais mais bonitas e luminosas do mundo e as áreas envolventes muito ganhariam em se repetir o aproveitamento que foi feito no local em que teve lugar a «Expo 98». Essa seria também a melhor forma de homenagear e de materializar as ideias do autor do melhor livro de ecologia que me foi dado ler – a encíclica «Laudato Si».

De boas árvores bons frutos.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Boas férias

Finalmente em férias. Este ano lectivo não foi mais pesado nem mais difícil do que os anteriores, mas a parte final foi menos gratificante, sem que tenha corrido mal. E o encerramento foi bom.

Neste momento, enquanto escrevo, olho a manhã cinza, mas plácida e agradavelmente tranquila. Nos dias que hão-de seguir-se procurarei mergulhar em leituras claras, belas e ricas, possivelmente mais clássicas do que modernas. Não me empanturrarei de eventos culturais formais socialmente frequentados. Evitarei multidões. E barulho. E quilómetros de estrada. Procurarei sítios do nosso país bonitos, serenos e pouco concorridos. Não desperdiçarei a boa comida, sem exageros. Desfrutarei de sãos convívios.

Vou recolher-me no conforto e na ternura de familiares e amigos, aliviando a pena de ter os netos longe.

E não gastarei muito tempo nas redes sociais.

Parece-me bastante razoável, este (meu) programa (de intenções), que mereceu a concordância dos próximos.

Boas férias, mesmo para os muitos que as não podem gozar.

José Batista d’Ascenção

domingo, 9 de julho de 2023

O cérebro e a faculdade de aprender

Referências ao livro “Deus Cérebro” desencadearam em mim grande vontade de o ler. Foi uma leitura interessante, à procura de soluções para perguntas de há muito, que continuam sem resposta. Suspeitava-o, li com voracidade e confirmei. Mas valeu a pena.

Interesso-me, como comum mortal, pelo entendimento de como é que a matéria se organiza e pensa e sente e se questiona a si própria, com base em correntes electroquímicas de iões de sódio e de potássio (processos que parecem bastante monótonos e idênticos) em células que chamamos neurónios, e nas múltiplas comunicações entre esses neurónios (sinapses) feitas por cerca de uma centena de moléculas a que chamamos neurotransmissores. Se é tudo tão básico e tão parecido, como é que, com base nesses circuitos, eu oiço e vejo e sinto e sonho e amo e penso no futuro? Mistérios. Se «o Universo criou o cérebro humano para se ver a si próprio» (p. 217), também faz sentido que o cérebro se estude a si mesmo, matéria da neurociência. O cérebro, o corpo, o planeta, o universo e toda a matéria que existe são feitos da mesma massa, pois que são constituídos pelos mesmos 118 elementos químicos. Mas falta «descodificar o cérebro humano» (p. 118), de que «não sabemos coisas básicas» (p. 151): «ainda estamos na idade das trevas quando se trata da ciência do cérebro» (p.152). 

Aqui residem grandes dúvidas relacionadas com a minha profissão: sou professor (do ensino secundário, de biologia, ainda por cima) e interessa-me o estudo das redes neuronais como «chave para a compreensão da função cognitiva» (p. 156), ou confirmar a que «também é a chave para o cérebro humano: prática, prática, prática» (p.95) ou saber porque é que «as crianças aprendem mais rápido do que as pessoas mais velhas» (p. 97) ou destacar o papel da memória - «claramente a capacidade mais importante que temos» (p. 104), entre outros motivos que possam traduzir-se em desempenho mais eficaz e gratificante da docência.

Na realidade, a prática de quase 40 anos de ensino foi reforçando em mim a ideia de que a maior parte das “teorias” e metodologias de aprendizagem são bastante vácuas e falhas, pelo que se desdobram/sucedem/multiplicam sem resolver problemas prementes crónicos (o que não desmerece o trabalho de grandes pedagogos, apenas não lhes oculta os limites e, muito menos, legitima deficientes versões e adaptações “caseiras” do seu legado). Por consequência, os professores tornam-se náufragos de fórmulas e procedimentos que têm fundamento idêntico ao que teve a prática médica de realizar sangrias ou aplicar sanguessugas durante muitos séculos.

José Batista d’Ascenção

sábado, 17 de junho de 2023

Previsões científicas e realidade

A meio da segunda metade da década de 70, o meu amigo Chico Agostinho, que ia mais vezes à capital do que eu, facultou-me o livro «A revolução biológica», de G. Rattray Taylor, jornalista britânico que o publicara em 1968. A sua leitura causou-me viva impressão, apesar de não alcançar plenamente, nem sequer entender suficientemente bem, o âmago de algumas das matérias abordadas. Mas o sentido fundamental, sim, esse julgo tê-lo captado na essência, o que aumentou as minhas perplexidades.

Os interlocutores com quem procurei abordar uma ou outra questão que se (me) levantara não comungaram do meu interesse. Tomei então a decisão de guardar o livro sem o perder de vista, os anos necessários, até a minha formação e a realidade me ajudarem nas respostas.

E esperei durante cerca de 45 anos. O que aprendi não resolveu o miolo das minhas dúvidas, mas o devir foi elucidativo, não dessas problemáticas, mas da ilusão dos sábios, que não se contêm na ribalta da fama que os arrebata.

Sorri com a afirmação de que em breve se pudesse comprar castidade na farmácia, assim como adquirir líbido (p. 48), com a prudência de não definir proporções entre as duas possibilidades.

Chocou-me que um vulto da ciência como J. B. S. Haldane tivesse sugerido a clonagem de centenários saudáveis. A sua ideia era que, depois dos 55 anos, os grandes génios passassem a educar os seus descendentes clonados (p. 29).

Pareceu-me bizarria destituída de senso a ideia de aumentar a inteligência de símios para os transformar em escravos, o que não passaria de uma “extensão do aproveitamento prático dos cavalos para sela e tiro” (p. 87). Ou adaptar braços de símio e cabeça de cão a um canguru, para criar um animal capaz de cobrir grandes distâncias num instante e de executar qualquer tarefa de destreza manual (p. 88). E por aí adiante, em mirabolâncias sobre transplantes de órgãos, controlo da memória e da inteligência ou prolongamento da vida (em 1966 um perito em cirurgia do coração da Univ. de Birmingham disse numa conferência que “alguns dos presentes viveriam até aos 180 anos” – p. 102). Até à eugenia humana e à criação de vida, temas tão delicados hoje como então, e que não cabem em abordagens ligeiras.

Horrorizei-me ao reler que em Seattle, em 1965, na Univ. de Washington, uma mulher que sofria dos rins foi ligada [pela circulação] a um canceroso, com o argumento de que cada um deles podia beneficiar o outro. Morreram ambos (p. 132). O mesmo senti com a referência à extracção do cérebro da caveira de um macaco para tentar mantê-lo vivo com circulação sanguínea artificial (p. 134).

Para encurtamento, finalizo, referindo que é de loucos prever que “em breve conseguiremos não só provocar a loucura, como curá-la” (p. 145). Para mais sabendo, com Erasmo de Roterdão, que «o número de loucos é infinito, [e que] este número abrange todos os mortais, excepto alguns que ninguém consegue encontrar» (in: Elogio da Loucura).

Não se pense, porém, que o livro é só disparates. Há nele muita biologia, bem fundamentada. E boa escrita. E humor.

Mas, em biologia, não podemos tudo, porque a biologia não permite tudo.

E ainda bem.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Agricultura «biológica» - a mistificação começa no nome (*)

O Professor Miguel Mota (1922-2020), insigne (e entre nós quase desconhecido) cientista, nos seus escritos, esclareceu meridianamente a inadequação do qualificativo «biológica(o)» aposto a qualquer tipo de agricultura ou produto obtido da prática agrícola.

Por mais químicos (de síntese industrial) que se usem, cereais, legumes, frutos, forragens para animais ou outros produtos agrícolas não deixam de ser o resultado do desenvolvimento de seres vivos, logo, biológicos. E as espécies agrícolas, sejam as seleccionadas ao longo de milénios ou as obtidas por transgenia, na actualidade, não são menos biológicas por isso.

O mesmo se aplica a animais, como se aplicaria a micróbios com metabolismo, bactérias, por exemplo (o caso dos vírus biológicos é mais problemático…).

Pensemos no caso das pessoas: poucas haverá que nunca tenham tomado quaisquer medicamentos, mas isso não altera em nenhuma delas a sua condição intrinsecamente biológica.

Por outro lado, a prática da agricultura, como a da jardinagem ou a da gestão florestal exigem de quem as tem ao seu cuidado enormes esforços e despesas “contra”… a Natureza. Se isto choca pense-se na rapidez com que certas espécies selvagens (ervas daninhas ou infestantes e espécies invasoras) muito rapidamente eliminariam as variedades cultivares de que nos nutrimos ou com que alimentamos os animais domésticos, que embelezam os espaços de jardim ou de que extraímos madeira, resina, cortiça, etc., se faltasse a acção permanente de hortelãos, jardineiros, couteiros, engenheiros agrícolas ou florestais e outros.

É assim. E, por extensão exemplificativa, passa-se o mesmo com a acção protectora das vacinas e dos antibióticos na prevenção ou no combate de infecções letais em animais e em seres humanos. 

Esclarecer isto não significa qualquer desvalorização da Natureza, muito menos a apologia das acções que a poluem e destroem. Antes pelo contrário.

Por isso, uma boa designação para qualificar uma agricultura amiga do ambiente seria, por exemplo, «agricultura ecológica».

Porque é de ecologia que se trata, antes que a degradação da Natureza trate de nós.

José Batista d’Ascenção

(*) Adenda: recomenda-se a leitura do artigo «Comer biológico “é uma decisão, não uma recomendação de saúde”», in: caderno P2 do jornal «Público» de 04 de Junho de 2023, p. 4-9.

sábado, 3 de junho de 2023

Verdade, beleza e bondade

Parece que Einstein entendia os conceitos de verdade, beleza e bondade (não por esta ordem…) como ideais «que iluminaram o seu caminho». Não é fácil discordar, e não apenas induzidos pelo reconhecimento da importância e da influência daquele génio.

A formulação é concisa, directa e geral. Mas é menos clara e muito menos objectiva na sua aplicação concreta do que pode supor-se.

O que é a verdade? Não é o mesmo para todos, sobre a maioria dos assuntos. E, no entanto, não há ética sem princípios que se aceitem como verdadeiros. Princípios, atitudes, procedimentos, opções, decisões. Os próprios factos são-no se os aceitamos (ou conseguimos ver) como tal: A Terra não é plana, mas os “terraplanistas” não aceitam esse facto!

Para o conceito de beleza, a destrinça é ainda mais problemática. A minha cultura e a minha educação determinam os meus padrões de beleza. Quando eu era menino (ainda) ouvia a pessoas mais velhas: «gordura é formosura». E hoje, quando me deparo com certas obras de pintura ou escultura do século XX, vejo nelas beleza ausente e arte nenhuma. É com certeza impreparação minha, mas não apenas (suponho), nem principalmente, em muitos casos.

A bondade é para mim um conceito aparentemente mais transparente. Mas qual é o grau de aparência? Não o sei quantificar. Conheci e conheço pessoas extraordinariamente bondosas. Mas essas não correspondem, em minha opinião, a “protótipos” frequentes. E, a meu ver, quem é bom ou menos bom razões há-de ter, conhecidas ou não, voluntárias ou involuntárias. E não se é bom (ou menos bom) sempre. Mandela ou Luther King foram sempre bons (por quaisquer critérios humanos)? Mais: era possível ou desejável que o fossem?

Seja como for, a tríplice fórmula “einsteiniana” é o melhor que se pode arranjar.

Se aspirarmos a ser verdadeiros e a conhecer a verdade, se apreciarmos e respeitarmos o belo e se nos esforçarmos por ser bons, «desde que haja saúde e paz, o resto a gente faz»; li este acrescente não sei onde, em entrevista a Alice Vieira.

E faz(emos) melhor.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Desmaterializar?

Os recursos informáticos evoluíram e aumentaram de tal modo a(s) sua(s) capacidade(s), desde há menos de cinquenta anos, que a nossa vida pessoal e profissional se modificou extraordinariamente, com enormes e imprescindíveis benefícios, embora não isentos de problemas e riscos.

Se tivéssemos que regredir muito mal o suportaríamos e, por isso, nem concebemos tal hipótese, mesmo os que, como eu e mais velhos, vivemos a realidade anterior…

Na verdade, não faltam problemas não resolvidos que se agravam e outros que surgem de novo, constantemente. Alguns deles quase preferimos mistificá-los. Pensemos, por exemplo, no que passou a ser referido por “desmaterialização”.

A enorme capacidade de armazenamento de dados/informação em suporte digital aliviou ou dispensa quilómetros de prateleiras e evita o transporte físico demorado de enormes volumes e peso de papel. No entanto, as nossas casas e os postos de recolha de material eléctrico/electrónico/informático vão-se enchendo de imensa parafernália do género: monitores, “CPUs”, teclados, “ratos”, “tapetes”, mochilas, discos, digitalizadores, impressoras, cabos, carregadores, “routers”, telemóveis, etc., a que não é fácil dar nova vida, útil e (minimamente) limpa.

O papel era usado em quantidades ciclópicas, na mesma proporção das árvores abatidas, mas o produto em si não colocava problemas insolúveis de degradação orgânica nem libertava contaminantes perigosos.

Do material eletrónico resultam plásticos, borrachas, vidros e metais como o alumínio ou o cobre, mas também elementos pesados, prejudiciais à saúde, como o mercúrio, o chumbo, o cádmio ou o arsénio. Idealmente, devemos proceder à separação destes resíduos e reciclá-los, o que proporciona lucros a empresas e alguns postos de trabalho, mas esse ideal está longe da optimização desejável.

Acrescem problemas ambientais da exploração insustentável dos recursos naturais, com a destruição das paisagens, a alteração negativa de modos de vida e mesmo a escravização de seres humanos, como acontece com as crianças que, na mina de Luwow, na “República Democrática do Congo”, trabalham em condições horríveis na exploração da «columbite-tantalite», mineral raro de onde se extrai o tântalo (resistente ao calor) usado no fabrico de smartphones e computadores portáteis, de que nós, os privilegiados, fazemos uso.

Para além dos problemas ambientais e de saúde, há ainda a dolorosa constatação de que os progressos notáveis da digitalização aumentam enormemente o fosso entre os deserdados de conforto e de dignidade, cada vez mais, e os poderosos dos meios e da informação (verdadeira e falsa) que controlam e disseminam como lhes convém. E a «inteligência artificial» corre o risco de servir eficazmente essa via.

Por isso, hoje mais do que em qualquer época histórica, necessitamos de pessoas inteligentes e generosas, que se batam denodada e corajosamente por valores e cultivem sentimentos de compaixão, pela prática, pelo exemplo e pela exigência de cidadania.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 25 de abril de 2023

25 de Abril de 1974, o dia da liberdade

Trabalhos de alunos da Escola Francisco Sanches - Braga

Ao fim de quase meio século de ditadura, que se instalou facilmente na sequência da desorganização e penúria de dúzia e meia de anos da «república», que substituíra a «monarquia» em 1910, a imensa maioria dos portugueses dos meios urbanos rejubilaram. O «salvador» Oliveira Salazar, que governou com mão de ferro, não se compadecia com a miséria dos pobres e prezava a ignorância dos simples, que preferia analfabetos ou, quando muito, que soubessem apenas ler, escrever e contar: que vivessem da agricultura de subsistência, não soubessem de leis nem de direitos e nunca contestassem a autoridade (“se soubesses o que custa mandar, querias obedecer toda a vida” era dito seu afixado em paredes de escolas e liceus de antigamente). As mulheres eram “propriedade” dos maridos (não podiam ir ao estrangeiro sem a sua autorização) e não havia assistência médica nem segurança social para os portugueses do mundo rural, que eram a maior parte, e até foi preciso ser portador de licença para poder ter um isqueiro. Não havia direito de manifestação nem de discordância política, que a polícia do regime – a PIDE – vigiava continuamente, perseguindo, encarcerando, torturando e deportando por delito de opinião.

Para fugir à mais vil miséria, os portugueses emigravam para países como a França (Paris chegou a ser a “segunda cidade portuguesa”…); outros haviam saído para as colónias africanas, principalmente Angola e Moçambique. Manter as “províncias ultramarinas” (só Angola era maior do que o continente português catorze vezes e Moçambique nove) exigia a mobilização de todos os jovens mancebos para a guerra colonial, iludindo ou tentando iludir, estupidamente, os colonos idos da metrópole de que era possível aguentar a situação militar indefinidamente. Na Guiné-Bissau a guerra de guerrilha nunca foi controlada, desde o seu início, em 1963-65, e frequentemente chegavam à metrópole os caixões com os (supostos) cadáveres dos que caíam em combate. Os retornados do pós-25 de Abril muito viriam a sofrer em consequência da cegueira do regime deposto, que culminou na avalanche trágica do regresso, e que os erros do processo agravaram.

A queda do regime ocorreu à segunda tentativa (a primeira, infrutífera, ocorreu em 16 de Março de 1974, no quartel das Caldas da Rainha), quando os militares de patente intermédia levaram a efeito uma revolta vitoriosa pouco depois, no dia 25 de Abril.

Pela acção dos «Capitães de Abril», em que se destacou admiravelmente Salgueiro Maia, os sonhos libertaram-se numa torrente de alegria e de esperança. Uma festa de liberdade, em que os canos das espingardas dos militares se encheram de cravos vermelhos.

Desde então não conseguimos concretizar os sonhos, mas continua na nossa mão trabalhar para o conseguir. O 25 de Abril franqueou as portas para a liberdade, a justiça e a democracia. Exijamos de cada um de nós e dos nossos concidadãos a assunção desse dever e dessa responsabilidade.

Viva o 25 de Abril.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 18 de abril de 2023

«Os Anos», de Annie Ernaux

Não sei se é boa literatura, mas é um livro extraordinário de análise psicológica, sociológica e política. De uma autenticidade que só a lucidez e a honestidade tornam possível. O que somos e o que (não) fazemos. O egoísmo e a força das crenças. As ilusões consumistas. A fragilidade dos ignorantes (que todos somos) e dos sábios. A passagem do tempo e a trituração indiferente de cada um. O progresso que não torna as pessoas mais felizes. O registo permanente (desmesurado, excessivo e irrelevante) de tudo nos «gadgets», próprios e alheios, que cada indivíduo atulha para si e prodigaliza a potentíssimas bases de dados. A tecnologia que não espera por ninguém. O tédio e o desinteresse. A indiferença do mundo face à irrelevância do indivíduo. A solidão irresolúvel. O fim e o inevitável esquecimento - a morte inexorável que, em poucas gerações, tudo apaga(rá) da memória vívida dos que nos sucedem .

Concluo eu: só há verdadeira grandeza de alma na bondade das acções e nos corações que estimam sem cobrar, sendo que esta riqueza preciosa não é objectivo maior da autoformação humana.

José Batista d’Ascenção


sábado, 15 de abril de 2023

Lisboa de passagem, um dia destes

Luminosa. Linda. Larga. E limpa, nesta zona.

O lince ali, o olhar felino numa expressão doce, de frente para o líquido azul. Arte maior em tamanho multi L, executada com lixo.

O autor é Bordalo II, um grafiteiro e artista plástico nascido em Lisboa em 1987.

Muito bonita, a capital do país. Assim fosse fácil para os portugueses viverem nela. Esses (nós) estão (estamos) lixados. Não sem culpas no cartório, porque somos da mesma massa dos que escolhemos para nos governarem/representarem ou lhes fazerem oposição, uns e outros tão idênticos, como se não houvesse alternativa (que, se calhar, nem há).

Mas nada disto diminui a lindeza de Lisboa.

José Batista d’Ascenção