quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

“Os pobres”, livro de Maria Filomena Mónica

Publicado quase em meados do mês, fui procurar este livro, de que estava à espera. Gosto particularmente do desassombro, da clareza, do rigor e da firmeza de posições da autora e não fiquei desiludido. Por outro lado, admiro alguém que, afirmando que «Nunca passei fome. Os meus filhos nunca passaram fome. Os meus netos nunca passaram fome.», se pronuncia sobre o tema por imperativo de consciência, sem ceder à complacência de tratar os pobres como coitadinhos, mesmo quando factualmente o são e se comportam em conformidade. E mostra, documentalmente, que o seu sentir e pensar são assim desde adolescente, quando - só então, mas não por responsabilidade sua - descobriu que havia “pobres, miseráveis, a morrer de fome”, e escrevia «quando vou aos pobres tenho vergonha de ser rica».
Na sua abordagem, Maria Filomena não deixa nada de fora. Na página 28 refere mesmo «o facto de os meninos da casa [dos ricos, seus amigos] terem relações sexuais com as criadas». Neste ponto, a realidade descrita foi em muitos casos extensiva aos maridos das patroas e até ao pai e filhos (machos) da mesma família, em simultâneo. Ouvi-o da boca de colegas, que o referiram descontraidamente, entre 1980-85, quando frequentava a Universidade de Coimbra. De resto, um candidato presidencial, Manuel Alegre, também referiu o facto, enquanto sujeito da acção, não recordo agora se em resposta a pergunta mais indiscreta ou se naqueles assomos de franqueza que tornam os homens se não melhores, pelo menos mais iguais a si próprios… O “bisturi” de Maria Filomena também não esquece os “meninos ricos entretidos a brincar às revoluções”, nos tempos seguintes ao 25 de Abril, motivos por que se fartou, tendo deixado a faculdade. Em Setembro desse ano, notava «mais uma vez que, na oratória revolucionária, nunca se falava de pobres», mesmo quando se prometia a todos «pão, paz, saúde e educação, sem que alguém entendesse como isto poderia acontecer». No estrangeiro, designadamente nos EUA, onde foi em 1978, viu que «em pleno dia, os transeuntes passavam por cima dos sem-abrigo, sem notar que estavam ali pessoas», percebendo que no país do sonho americano, «a pobreza era vista, não como uma desgraça, mas como um falhanço moral». E refere que, em 1962, a obra de Michel Harrington, intitulada The Other America revelava «que existiam nos EUA entre 40 a 50 milhões de pobres», o que «chocou o Presidente J. F. Kennedy». Mais adiante, torna ao Portugal pós-25 de Abril, e escreve, resoluta: «Quem ideologicamente nunca deixou o século XVIII é natural que defenda que os pobres não sofrem» (pág. 45).
No capítulo 3, é tratado «O caso inglês». Aí se diz que «a pobreza só foi ‘descoberta’ no século XIX, quando alguns reformadores ingleses (…) publicaram obras sobre o assunto» (pág. 51). Logo adiante escreve: «o problema deixou de ser visto como o era no princípio do século, com Malthus, que se referia aos pobres como o excesso da população que vivia da ‘miséria e do vício’»… e outros que falavam «dos mendigos (…) que não querem trabalhar». Por volta de 1900, para Churchill, entre outros, a pobreza passou a ser vista como «um problema da sociedade e não dos pobres» (pág. 56).
No capítulo 4, busca-se informação sobre “artesãos, operários e proletários” portugueses, tarefa difícil pela escassez de documentação escrita rigorosa. Mas com elementos de sobra para referir, relativamente aos trabalhadores do Norte do país que, «se a alimentação era má, o alojamento era pior» (pág. 72), e que «a taxa de mortalidade infantil (…), entre 1887 e 1896, no Porto, «nunca desceu abaixo dos 226 por mil por ano» (pág. 73). A violência da fome e da miséria levou a várias greves que, nalguns casos, motivaram a intervenção da polícia e da tropa, que disparou sobre os trabalhadores, causando mortos (pág. 78). «Em 1903, ocorreu a maior greve que o país conhecera». Aconteceu quando tecelões e fiandeiros se uniram e desceram até ao centro da cidade, e então «o Porto olhou mulheres a pedir pão de joelhos. Mais do que medo, os grevistas causavam dó.» A imprensa da época fazia «relatos minuciosos dos sofrimentos dos grevistas» que «não eram tratados como trabalhadores fazendo valer os seus direitos, mas como pobres a suplicar o pão.» Por volta de 1910, a vida dos operários, especialmente das mulheres, era particularmente difícil: «Levantavam-se antes do nascer do sol: às sete horas tinham de estar na fábrica. À pressa, arrumavam a casa e tratavam do pequeno-almoço do marido e dos filhos. Quando eram mães, carregavam os recém-nascidos (…) para as oficinas. Andavam quilómetros a pé, descalças, à chuva. Tinham que se despachar, se não queriam que (…) lhes descontasse[m] (…) no salário. No trabalho, durante 12 horas, numa tarefa monótona, «se se enganavam, o erro era-lhes descontado. Se se distraiam podiam perder os dedos ou a mão. (…) No Inverno, o ambiente era gélido; no Verão, um forno. Tinham de respeitar a insolência dos mestres. Ninguém as respeitava. Ao meio-dia comiam, na rua ou no pátio, o almoço que tinham trazido de casa», sempre o mesmo: «um bocado de pão de milho, banha e peixe seco. Amamentavam a correr ou às escondidas. Chegavam a casa exaustas. Aos trinta anos estavam velhas», etc., etc. (pág. 88).
A meio do livro, no capítulo 5, com o título «De quem são os pobres?» é-nos dada uma perspectiva histórica desde meados do século XIX, em Portugal, sobre o tema do auxílio aos pobres, sempre sem benefício para os próprios, ressaltando os conflitos entre os governos da monarquia constitucional e as freiras (Irmãs da Caridade, da Ordem S. Vicente de Paula), provindas de França, a convite de «algumas aristocratas» (pág. 95). Não obstante, havia quem se preocupasse realmente com os pobres, como aconteceu com um fidalgo açoriano, de nome José do Canto. Segundo ele, a «miséria dos camponeses (…) derivava do analfabetismo» (pág. 104). E «um dos mais lúcidos escritores da época, António Pedro Lopes de Mendonça, destacava a diferença entre países católicos e (…) protestantes», acentuando que «a liturgia do protestantismo (…) vive mais da leitura da Escritura do que (…) das predicações» (ibidem), defendendo que «a matéria de ensino é uma dívida [d]o Estado (…) ao cidadão (…) e uma das garantias mais poderosas para a  manutenção da liberdade» (pág. 105). Infelizmente, «as ideias de José do Canto não resistiram ao confronto com a realidade» (pág. 107).
Os capítulos seguintes (6 e 7) abordam a relação da República e do Estado Novo (respectivamente) com os pobres, e mostram-nos - vale a pena ler! - como os pobres não melhoraram a sua condição durante a vigência de ambos. «O melhor exemplo da forma como o Estado Novo encarava os pobres é a polémica sobre a ‘Campanha contra o Pé Descalço’, lançada em 1928» (pág. 132), primeiro no Porto e depois em Lisboa. Essa campanha começou com a proibição do «hábito do pé descalço e instituía multas para os refractários. Logo se gerou uma polémica sobre se o pé descalço era motivo de vergonha ou de orgulho.» (ibidem). A autora esclarece: «Previsivelmente tudo isto deu em nada: nem os pobres tinham dinheiro para comprar sapatos nem as autoridades policiais eram em número suficiente para multar os infractores.» (ibidem). Para Salazar, «a mendicidade não é um índice da miséria porque é antes um vício» (pág. 133). (…) Acerca dele mesmo afirmaria, em 1949: «Devo à providência a graça de ser pobre» (pág. 134). De resto, em 1930, a taxa de analfabetismo em Portugal era de 70% (nota 22 da pág. 136) e essa condição foi mencionada como «característica positiva, (…) em 04 de Março de 1938 (…) no Parlamento» (pág. 137).
Pouco extensa, mas muito completa, esta obra não deixa de referir «Os pobres na literatura e nas artes» (capítulo 8), como se lê, saborosamente, apesar da crueza dos relatos, em excertos de diversos autores sobre o tema (Camilo, Eça, Raul Brandão, Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Torga, Ferreira de Castro, Cesário Verde, Rentes de Carvalho, para referir os mais significativos).
No capítulo final (9), Maria Filomena Mónica fala-nos sobre «A pobreza, hoje». O ritmo, a pertinência e o rigor são os mesmos. Leia quem puder. Veja-se só: «O que falha em Portugal não é apenas o Estado, mas a Igreja, as classes altas e até os pobres» (págs. 192-193); «não sou capaz de contemplar uma sociedade em que a protecção dos mais fracos e indefesos (…) fique a cargo da caridade privada.» (pág. 203); «Os jovens sem perspectivas de emprego, os homens e as mulheres em empregos precários, os imigrantes com direitos civis incompletos, o número crescente dos sem-abrigo não constituem um problema marginal: são a questão crucial dos nossos dias.» (pág. 205); …«a única maneira de os filhos dos pobres conseguirem escapar ao casulo social onde nasceram é através de um mecanismo que dê oportunidade ao mérito e o premeie.» (pág. 208); «Os governantes que apenas acreditam no mercado, que afirmam que os pobres apenas existem porque não querem trabalhar, que exaltam a ganância como valor supremo estão a minar a coesão das sociedades. Isto é um crime.» (pág. 209).
Esta súmula opinativa, embora extensa, é pálida e curta face à riqueza do livro. Mas eu precisava de a escrever e foi isto que consegui.
A Maria Filomena Mónica um «Obrigado!» muito sentido.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Natal de plástico

Que chegue o Natal. Reconforta a ideia de estar próximo dos familiares e amigos, de trocar abraços, do sentimento de pertença a uma rede de amizade envolvente e forte. Mas podem ser incomodativos os dias que o antecedem, tanta é a correria à procura de prendas, a publicidade que apela às compras, muitas compras, e a saturação de luzinhas e estrelinhas e bolinhas e fitinhas e lacinhos. E doces, muitos doces. Falo das casas e das mesas fartas, algumas excessivamente fartas. Mas, incómoda, incómoda, é a falta de abrigo e de pão e de trabalho e de saúde e de segurança de tantos e tantos que, à margem da sociedade, sentem mais forte a solidão nestes dias. E a situação daqueles que, de mãos vazias, fogem da guerra e da devastação e se lançam, por mar ou por terra, em busca desesperada da paz que lhes roubaram, tantas vezes deixando para trás os familiares mortos. Sendo que muitos dos que morreram e dos que fogem são crianças…
É a marcha da humanidade, tão característica. E esta fase, mundialmente inspirada pelo nascimento despojado de um Menino, com que o papa Francisco tenta acalentar sobretudo os pobres e humildes, vem, passa, torna a vir e torna a passar, em renovos de esperança que não encontram terreno fértil no coração de todos…
Não temos feito bem a sementeira.

José Batista d’Ascenção

sábado, 17 de dezembro de 2016

“Histórias” de Portugal

A saborosa leitura do livro “Episódios da História de Portugal, que não aconteceram bem assim…”, de Ricardo Raimundo, da editora Manuscrito, trouxe-me à memória a ironia e o sarcasmo com que um meu tio materno – o meu tio João que Deus haja, como (ainda) se diz na aldeia em que nasci – se referia à narração (salazarista) dos feitos heroicos da nossa História, que tanto me empolgavam, era eu aluno da “escola primária” e estava ele mobilizado para a guerra colonial, que cumpriu, e em que já tinha estado um outro seu irmão mais velho. Segundo dizia, “a história tem o nome com ela – é como a escrevem - e devia dizer-se «histórias» para poder corresponder às ideias das diferentes pessoas que a(s) podem escrever e contar”. De caminho, para animar a minha mãe, dizia-lhe que, pelo menos, quando eu crescesse (eu era o rapaz mais velho dos netos dos meus avós maternos) já não devia haver obrigatoriedade de seguir para África. Aconteceu como ele previu, embora não tivesse mais que a instrução primária e vivesse numa aldeia remota do interior isolado do país.
Voltando ao livro.
Começa ele por referir alguns “milagres” que a nossa “História” tornou “verdadeiros”, às vezes não passando da “invenção de um cronista” (pág. 32); e em todos os casos a posteriori por razões ou com intuitos determinados, fosse o “milagre de Ourique”, o “milagre das rosas” ou o “milagre que levou ao falhanço do atentado a D. João IV”.
De seguida revela factos que nunca aconteceram. Salva-se a honra filial de Afonso Henriques que, embora tendo combatido e vencido D. Teresa num “confronto militar e ideológico” (pág. 35), não confirma o dito do “filho que bate[u] na mãe”, agredindo-a e amaldiçoando-a, “uma invenção dos cónegos regrantes de Santa Cruz de Coimbra” (ibidem). E revela-se que Egas Moniz, enquanto aio de Afonso Henriques terá sido uma criação de um trovador da corte de D. Afonso III, trineto do próprio Egas Moniz por linha bastarda, desejoso de honrar o seu antepassado e de conseguir dessa forma projecção social, criando um cantar épico, a Gesta de Egas Moniz (pág. 40). A lenda pegou, e ficou. Também se demonstra que “o modo como Lisboa foi conquistada inviabiliza a acção decisiva que se atribui a Martim Moniz” (pág. 46), o qual não morreu entalado na porta do castelo durante o assalto decisivo… Do mesmo modo, a “história da coroação e do beija-mão do cadáver da rainha”, a que D. Pedro I teria obrigado os poderosos fidalgos de Portugal, no Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, “não passa de um mito” (pág. 50), uma fantasia que só apareceu mais tarde, em 1557, pela mão de um escritor castelhano, que “deu largas à imaginação para a exposição de cenas tétricas” (pág. 51). Também a história de Brites de Almeida, a padeira de Aljubarrota, pessoa real, cujos dados biográficos são interessantes, “é um mito” (pág. 55), não o sendo “o povo da região, que se insurgiu contra os castelhanos e os combateu” (ibidem). Outro mito é o da “Escola de Sagres”, uma vez que se sabe hoje que quer a dita escola quer “o objectivo do infante [D. Henrique] em formar homens capazes de sulcar os mares nunca existiram” (pág. 57). (…) “jamais o infante (…) pensaria em fundar uma academia, escola ou curso sobre a arte de navegar, uma vez que, (…) esta aprendia-se no convívio do mar, na prática do dia-a-dia, enriquecida durante as viagens.” (pág. 59) (…) nunca a matemática, se acaso chegou a ser ensinada na universidade, recebeu qualquer impulso da marinha” (…) (ibidem). Outra história nada verdadeira é a que quis fazer de D. Fernando o Infante Santo, "que nunca o foi nem o quis ser” (pág. 61), ele que várias vezes solicitou ao irmão a entrega de Ceuta e a sua consequente devolução à liberdade. (…) Não lhe passava pela cabeça que os irmãos preferissem Ceuta à sua vida” (pág. 62). No mesmo capítulo, na página 64, se demonstra como D. Henrique foi afinal um traidor indigno e interesseiro. Na última carta de D. Fernando (de 25 de Julho de 1442) nota-se “um misto de desilusão pelo comportamento de traição dos irmãos e a certeza de que a morte estava para breve: «sempre pensei ca antes da morte vos veria»” (pág. 65). Igualmente falsa é a “criação», no século XVI, das Cortes de Lamego de 1143. “A verdade é que as Cortes de Lamego de 1143 nunca existiram e o documento exarado com as suas deliberações era falso. Fora forjado no cartório de Alcobaça, com o intuito de demonstrar a ilegitimidade da soberania espanhola em Portugal e legitimar as pretensões ao trono dos Braganças” (pág. 74).
O capítulo III refere-se a frases que não existiram, que foram mal citadas ou que não foram ditas por quem se pensa. A título de exemplo, a frase “morro com a pátria”, atribuída a Camões é impossível que ele a tenha pronunciado na hora da morte, porquanto morreu de peste bubónica, doença que, nos seus últimos estádios, deixa o doente “prostrado, com febres altas, semi-inconsciente (…) e com tendência para afirmar coisas sem nexo” (pág. 82). Por outro lado, tendo morrido na miséria e “pestífero, não é plausível que mais alguém, a não ser entes queridos, estivesse à sua beira na agonia final” (pág. 83) para escutar e registar a frase. Com outras frases sonantes, atribuídas a personalidades históricas, passa-se outro tanto, mas não devo abusar das transcrições para não diminuir o interesse pelo livro, que o tem, realmente. Leia-o quem quiser saber mais…
O capítulo IV, o mais extenso, incide sobre factos mal contados, e começa com Viriato, que não foi quem se pensa e cuja história e ligação aos portugueses é, desde o seculo XIX, definida como mítica (pág. 115); passa por coisas tão diversas como a má interpretação da frase “Aqui nasceu Portugal” afixada na muralha de Guimarães ou pelo pinhal de Leiria de que D. Dinis não terá sido o semeador; ou pela bissexualidade de D. Pedro I, o apaixonado de D. Inês; ou pela ameaça do condestável Nuno Álvares Pereira em passar-se para a Espanha; e desmente que Portugal tenha sido o primeiro país a abolir a pena de morte; desmente também que Salazar tenha sido misógino e termina com a demonstração cabal de que a História de Portugal, desde Afonso I até meados do século XX é, em grande medida, um cortejo de horrores que contraria abundante e convincentemente a ideologia salazarista que apresentava Portugal como um país de brandos costumes. Pelo meio, neste e nos outros capítulos, há muito mais, tudo muito bem explicadinho, muito interessante, de tal modo que começando a ler o livro é difícil parar antes de o acabar.
Vale a pena. E, em minha opinião, Portugal e os portugueses não saem a perder.  

José Batista d’Ascenção

domingo, 11 de dezembro de 2016

Texto comovente, muito apropriado para a quadra que vivemos, gentilmente cedido pelo Professor Galopim de Carvalho e que gostosamente aqui se publica, com o devido agradecimento.

MAIS DO QUE A MORTE,  ASSUSTA-ME A SOLIDÃO DOS VELHOS



Este flash de  fim de vida, intensamente estampado nesta fotografia de Jorge Vieira, cala bem no fundo da nossa sensibilidade, não pela sombra do companheiro que partiu, já liberto e descansado das dores do corpo e da alma, mas pela irreversível solidão da que ainda espera pelo começo dessa viagem.
Tudo dói na crueza desta imagem. É a expressão no rosto da velha senhora, é o seu cabelinho ralo e desalinhado e o seu corpo, que se adivinha ressequido, escondido numa roupa que, por isso, ficou vários números acima. São os sapatos e as meias, de quem não tenciona sair à rua. É aquela mão agarrada ao canto da mesa e é ainda a toalha, grande demais para a pequena mesa a dois, agora dobrada e a dizer que, estendida, serviu uma família inteira que se esfumou. Pelos vincos bem marcados, esta toalha, talvez de linho, que ela própria bordou em tempos de jovem casadoira, a juntar ao enxoval, mostra que acabou de sair de um velho baú, com anos e anos de dobrada e adormecida ao lado de um saquinho de alfazema.

A. M. Galopim de Carvalho

sábado, 3 de dezembro de 2016

Portugueses de coração grande

Esta tarde participei numa acção a que me propus como voluntário, depois de muitos meses a pensar num modo prático e simples de fazer alguma coisa (mais) efectiva pelos outros. Estive com mais uma colega e uma equipa de alunos num supermercado a recolher mantimentos para o “Banco Alimentar”. Cheguei receoso, na dúvida sobre se teria competência para a função. Os alunos facilitaram, recebendo-me com simpatia. Espantei-me com a (tão grande!) generosidade de tantas pessoas. E comovi-me com alguém que se desculpava por dar “muito pouco”, esforçando-me por lhe deixar um “obrigado” expressivo (em voz que me saiu quase embargada…). Outra pessoa “respondeu” ao meu “obrigado”, com um “de nada, amanhã posso ser eu”, que me tocou particularmente. E os contentores enchiam-se, e mais pessoas davam e o meu nervosismo tinha desaparecido. Findo o meu tempo de participação, despedi-me carinhosamente dos alunos, que não conhecia pessoalmente e que gostei de conhecer, e da colega que orientou a minha humilde colaboração.
Se o mundo fosse melhor, estas acções não deviam ser necessárias. Mas são, porque há pessoas que precisam de comer, no mínimo…
Agradeço às pessoas, todas as pessoas, que contribuíram, em qualquer ponto do país.
Agradeço às pessoas que aceitaram o meu pedido de colaboração.
Agradeço aos jovens disponíveis e de coração sensível, especialmente àqueles com quem passei o tempo desde o meio da tarde de hoje até à hora de jantar.
Um “bem haja” ainda para todos os que tornam possível a recolha de alimentos de hoje e de amanhã.

José Batista d'Ascenção 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Como os banqueiros fizeram desaparecer o dinheiro dos portugueses

Imagem obtida aqui

Avesso ao que se refere por “engenharia financeira”, ignorante do jargão em que se expressa e jamais praticante do seu exercício, tem-me cabido, no entanto, a espinhosa tarefa de ser “ministro das finanças” cá da casa, ao longo de décadas.
Nessa função, agarrei-me a um princípio muito simples, que aprendi cedo, qual seja o de não gastar mais do que se tem ou é certo que venha a possuir-se. E sofri a valer quando, há alguns anos, procedendo à moda antiga, exigi amortizar até ao total a dívida que contraira para pagar a casita onde moro, ao contrário da força que fazia uma “gestora de conta” que eu não pedira para ter, e que me convidava a adquirir cartões, “produtos”, joias e outras tralhas que não me interessavam. Fiz valer a minha vontade, não sem algumas hesitações de amigos e familiares que então me olharam como mau investidor. Nunca me arrependi.
Fora do estranho mundo do dinheiro, não deixei de adquirir o livro “A vida e a morte dos nossos bancos”, de Helena Garrido, editado pela “Contraponto”, e de o ler de uma vez. É um espanto. E uma revolta. Afinal, o que o livro nos diz não podia deixar de ser o que é, mas é inusitadamente brutal a descrição das voltas que os nossos “banqueiros” têm dado nas últimas duas décadas. Eis algumas citações:

“A CGD, o BCP e o BES são exemplos do que se fez (e não se fez) na banca portuguesa. O BPP e o BPN podem ser basicamente considerados casos de polícia. O Banif, uma história que se aproxima do BES”… (pág. 26);
[Em 1999], “pela primeira vez, os créditos concedidos pelos bancos ultrapassam os depósitos. A economia entretanto começou a crescer menos” (pág. 36) (…) “Usa-se o financiamento dos bancos para mobilar a casa, comprar carro, ir de férias e entrar na Bolsa.” (páginas 37 e 60); (…) “A Grande Farra segue em crescendo (…) é o tempo em que se defende o endividamento como virtuoso” (pág. 37);
Foram “publicadas notícias sobre financiamentos [do BCP] ao filho de Jardim Gonçalves, o perdão de 28,5 milhões de euros de dívidas a offshores [sociedades com sedes em paraísos fiscais] de um seu antigo aliado e (…) o caso das 17 offshores com acções do BCP e financiamentos da ordem dos 589 milhões de euros” (pág. 53);
“Nascer, crescer e fazer-se milionário quase sem capital, com apoio financeiro e através do mercado de capitais, foi uma receita de sucesso“… (pág. 56);
“… alguns caíram na tentação de usar financiamento para aplicar em acções.” (pág. 60);
…”assistimos (…) ao envolvimento do cidadão comum, desafiado e muitas vezes convencido pelos bancos a endividar-se para comprar acções das empresas que estavam a ser vendidas pelo Estado.” (pág. 60);
“A incapacidade de as famílias norte-americanas pagarem os empréstimos das suas casas teve o poder imprevisível de fazer cair um país como a Islândia.” (pág. 63);
“Quando a realidade se começa a impor, cria-se a ilusão de que Portugal conseguirá controlar a onda financeira da crise com um reforço do investimento público. Em finais de 2008, estavam planeadas auto-estradas, comboios de alta velocidade, um novo aeroporto para Lisboa e a terceira travessia do Tejo.” (pág. 64);
“Em Dezembro de 2008, o Governo liderado por José Sócrates anuncia que vai lançar concursos para a construção de mais oito auto-estradas.” (pág. 66);
“Os bancos estavam muito dependentes de empréstimos externos. O crédito que tinham concedido representava, em 2010, cerca de 160% dos depósitos.” (pág. 67);
“Entre finais de 2009 e 2010, a expansão do crédito é movida pelo Estado. É desta altura que datam as novas auto-estradas, em parcerias-público-privadas que são mais dívida do que parcerias.” (pág. 70);
…”de repente, os supervisores descobrem que há bancos que foram geridos por malfeitores…  (…) com a nacionalização do BPN, (…) a administração do Banco de Portugal percebe – ou deixa de fingir que não percebe – que, na sua estratégia (…), tinha pactuado com fraudes.” (pág. 77);
“No seu conjunto, a banca já registou (…) imparidades [perdas potenciais] no montante de 44 mil milhões de euros desde o início da crise, em 2007.” (pág. 97);
“O BES colapsa dois meses após a saída da troika. Um ano e meio depois, acaba o Banif. Dois anos passados, o novo governo de António Costa identifica necessidades de capitalização da CGD da ordem dos 5 mil milhões de euros. O segundo maior banco do sistema, o BCP, é alvo de sucessivos rumores… O Montepio Geral é mais um problema por resolver” (pág. 98);
“No cemitério de bancos, o que encontramos é uma mistura de gestão incompetente com cumplicidades entre alguns banqueiros, alguns empresários e alguns governos, numa lógica de poder e ganância e não de negócio e protecção do dinheiro dos depositantes.” (pág. 102);
“Nunca passou pela cabeça de ninguém que um governo tivesse coragem de deixar cair o grupo do Dono Disto Tudo. (…) Se as leis eram feitas no BES, como é que se podia esperar que ninguém apoiaria Ricardo Salgado?” (pág. 116);
“O Estado gasta 2,4 mil milhões de euros para vender o banco por 150 milhões pelo Banif.” (pág. 125);
“Gestores incompetentes, fracos ou corruptos trabalham para accionistas que usam os depósitos para financiarem os seus negócios ou os dos seus amigos em bancos onde os auditores são cegos e os supervisores inactivos ou incapazes.” (pág. 127);
“Continuam em análise os fundamentos jurídicos para perda do estatuto de idoneidade por causa da (…) comissão de 14 milhões de euros que Ricardo Salgado recebeu do construtor da Amadora José Guilherme”… (págs. 132-133);
“José Oliveira e Costa (…) é, até agora, o único banqueiro que esteve numa cela.” (pág. 148);
“O banco [BPN] é vendido e, para receber 40 milhões, «pagam-se» 600. A história repete-se em 2015,… [com a venda do] banco Efisa […]. Mais tarde veremos a mesma história no Banif”… (pág. 154);
“A presença da Caixa nos mais variados negócios é o espelho das escolhas de sucessivos governos. «O governo mandava e a Caixa fazia, não tinha outro remédio», (…). Os negócios mais ruinosos aconteceram no consulado de José Sócrates,” (…) Os empresários e banqueiros tinham na CGD a ferramenta para serem «donos» de empresa quase sem dinheiro. (pág. 159);
“Durante pelo menos década e meia, a Caixa foi instrumentalizada pelo accionista Estado.” (pág. 166);
BCP: “Um banco que vivia numa lógica redistributiva de tipo subdesenvolvida: bons salários, bons dividendos e elevado estatuto para colaboradores e accionistas convidavam a cumplicidades implícitas, (…) (pág. 168). A ambição e a ganância, marcas de guerra no BCP, transformaram-se em prejuízos para o banco (pág. 169);
“A ausência de responsabilização é (…) o que causa maior revolta. Até agora, e em sete anos, desapareceu 20% do sistema bancário. Apenas um gestor esteve, até agora, preso. Como é possível que ninguém seja responsabilizado? (pág. 181);
“A conta da incompetência, ganância ou fraude (…) está a ser paga. Pelos accionistas, por aqueles que têm poupanças aplicadas em acções dos bancos que sobreviveram, mas especialmente pelos contribuintes. E os problemas que existem e que estão por resolver antecipam mais contas por pagar.” (páginas 181-182);
“Os projectos em zonas protegidas, de reserva agrícola ou ecológica para os quais se abriram excepções, ou simplesmente os empreendimentos comerciais ou habitacionais em locais onde é difícil encontrar uma racionalidade económica, justificam (…) a hipótese de alguns bancos terem estado envolvidos em processos de corrupção.” (pág. 187);
“Com as novas regras da União Bancária, cada um [cada cidadão] tem de ser capaz de perceber se o seu banco está a ser bem gerido.” (pág. 192).

Chega como amostra de um cortejo de horrores. A conta, essa ainda não acabou de ser paga, vai crescer e… nós a pagaremos.
Mas estamos avisados.

Um grande «Obrigado» a Helena Garrido. 

José Batista d’Ascenção

domingo, 20 de novembro de 2016

“Civismo” à portuguesa (baixa)


Com o avançar da idade, por razões preventivas, e mais tarde devido a recomendação médica, comecei, como tantas pessoas, a fazer algum exercício físico, especialmente ao fim de semana: uma corrida em ritmo (muito) lento, umas flexões mal feitas e pouco mais. Com um amigo, primeiro, e com familiar, mais tarde, procurei sítios agradáveis, onde a actividade fosse (mais) convidativa.
Actualmente, e desde há algum tempo (dois anos, talvez…), vou acompanhado de familiar até um local magnífico na margem do rio Cávado, onde uma junta de freguesia terá gasto uns trocos para compor uma pista de terra batida, à beira-rio, num percurso de cerca de um quilómetro. O rio largo e cheio naquele local, as árvores sobre o trilho de corrida, muitas aves: melros, gaios, corvos, patos selvagens e uma ou outra garça dão um toque de natureza autêntica nas imediações da cidade [ontem e há oito dias pude apreciar umas quantas dezenas de patos formados em V e não pude deixar de pensar sobre durante quantos anos mais será (ainda) possível observar este fenómeno naquele sítio].
Ali andam muitas pessoas, umas caminhando apenas, cá e lá, lá e cá e outras, como eu, a fazer que correm. Há quem aproveite para passear os cães: uns com apenas um exemplar, outros com dois ou com três. Quase todos os levam soltos, excepção aos passeantes mais jovens que preferem segurá-los pela trela, cumprindo as recomendações afixadas num e no outro extremo do circuito (ver imagem acima). A maioria dos animais é perfeitamente pacífica, o que dá certo sossego aos que apenas ali vão praticar exercício, mas não é assim em todos os casos, infelizmente, para mim.
Há um senhor que gosta de passear com o seu cão, sendo que o cão não gosta de mim. Particularmente quando visto fato de treino, cujo tecido sintético faz um ruído característico sempre que corro, o animal investe comigo de forma ameaçadora. Paro, até o senhor acorrer e acalmar o bicho e só depois prossigo. Incomodado por ver que me incomoda, o homem faz questão de jurar que o animal não me morderia, que só reage por brincadeira, mesmo quando tem o pelo eriçado e as dentuças arreganhadas. E, por mais que uma vez, recomendou-me enfaticamente: «bòte-l’a mão! bòte-l’a mão!, supondo eu que isso significaria afagar fisicamente o cão, sem compreender como me seria possível fazê-lo. Limitando-me a ficar quieto e calado, mas sempre de frente para a “fera”, devo ter decepcionado repetidamente dono tão extremoso. Outro é o caso de uma senhora que costuma passear com dois cães: o maior deles ladra furiosamente em direcção a mim, a senhora desata aos gritos (com o cão), aproxima-se, agarra-o e coloca-lhe a trela. A cena acaba aqui. Até à próxima vez. Um destes dias encarei-a nos olhos e saiu-me de forma seca: «minha senhora, um dia destes zango-me e então não sei quem de nós vai ficar pior». Ficou encabulada. Mas sem emenda.
Estas pessoas que procedem assim passam da meia-idade e aparentemente não aprendem. Penso no assunto e interrogo-me sobre se alguns animais não reagem como reagem devido aos donos que têm, talvez por algum curioso modo de influência… não sei. Nas vezes em que isto me deixa mais aborrecido chego a desejar que houvesse algum organismo que verificasse e impedisse certas pessoas de terem animais.
Outro aspecto desagradável é quando durante ou após o “treino” me apercebo da porcaria e do fedor na sola das sapatilhas, de que custosamente procuro libertar-me. Tudo porque há gente pior que os animais. Ressalvo, no entanto, que os jovens têm uma atitude bem diferente, e ainda bem.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Resultado(s) das eleições presidenciais nos EUA – e agora?

Depois de uma campanha presidencial americana em muitos aspectos repugnante, eis o péssimo resultado que tantos temiam. É claro que Clinton não entusiasmava, talvez porque é ou parece manhosa, pouco autêntica, fria e interesseira. Estas são características que muitos apreciam ou julgam necessárias nos líderes políticos. Não é líquido que tenha que ser assim: provam-no tantas pessoas autenticamente generosas dedicadas à causa pública, sem ser preciso invocar exemplos excepcionais como os de Nelson Mandela ou do Papa Francisco. Mas os seres humanos, individualmente considerados ou como elementos de pertença a quaisquer grupos ou massas de votantes, reúnem o belo e o horrível, a nobreza e a indignidade, o bom e o mau. Daí que a resultante dos factores que determinam o “movimento” das sociedades não seja previsível, exigindo, para se progredir em sentido minimamente (e alargadamente) benigno, trabalho árduo, atento, dedicado, persistente e permanente. A escola (para todos) devia ser uma variável importante da equação, mas basta ver o estado a que chegou nos países ditos desenvolvidos (sendo que em muitos dos outros nem sequer existe…), para percebermos quão grande é a sua ineficácia. E, não raro, em níveis mais elevados de escolaridade não são menores os motivos de choque e decepção: veja-se a boçalidade do que se passa (incontrolavelmente?) com as praxes (ditas académicas!) nas universidades portuguesas.
Saiu-nos Trump. E agora? Para onde caminhamos? O mundo parece cada vez mais louco e perigoso. Para compensar, fico-me na esperança de que, em próximas eleições presidenciais americanas, surja novamente, pelo menos, uma mulher candidata, mas negra, como Michelle LaVaughn Robinson Obama. Até lá, que não sejam apenas o horror e as dores da humanidade a alimentar a esperança.
Donde, pesa em nós a obrigação permanente de pensarmos no que podemos ou devemos fazer, no imediato e a prazo, para que os seres humanos se tornem cada vez mais cidadãos esclarecidos, responsáveis, exigentes, conscienciosos e participativos. Assim também no exercício do voto.  

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Medidas na Grécia Antiga

Ainda como resultado da leitura do tratado “Teofrasto, História das Plantas” (tradução de Fátima Silva e Jorge Paiva), registam-se algumas medidas usadas na Grécia Antiga, antes do nascimento de Cristo, convertidas para unidades actuais. Nas notas explicativas dos tradutores da obra, ao fundo de cada página, são indicados os valores aproximados do total das unidades referidas em cada caso, por exemplo: «uma terça parte de uma mina» (página 325) equivalia a «cerca de 200 gramas», segundo a anotação 1860, em rodapé, nessa página; e «uns vinte pletros» (página 327), correspondiam a «cerca de 1, 75 hectares», como consta na nota 1865, dessa página. A redução dos valores para a unidade respectiva e a sua comparação com as unidades de medidas actuais apresenta-se a seguir. 

Medidas de comprimento
«meio-pé» - cerca de 15 centímetros.
«palmo» - 
«» - cerca de 30 centímetros.
«côvado» - cerca de 44 centímetros.
«passo» - medida que estaria compreendida entre os 65 e os 90 centímetros.
«orgia» - [«Treze orgias corresponde, segundo uns, a cerca de 23 metros, segundo outros a 38», lê-se na nota 1261 da página 231] pelo que, convertendo em unidades, teríamos, segundo uns, cerca de 1,77 metros e segundo outros cerca de 2,92 metros.
«braça ou braçada» - cerca de 1,80 metros.
«estádio» - cerca de 180 metros.

Medidas de capacidade
«sesteiro» - [«cerca de meio sesteiro» (página 112) correspondia a «cerca de quatro litros e meio» (nota 507)], pelo que um sesteiro seriam aproximadamente 9 litros.

Medidas de peso
«dracma» - «Antes de ser uma moeda, a dracma era uma medida de peso equivalente a 3, 40 gramas.», (nota 1967, da página 337).
«mina» - cerca de 600 gramas

Medidas de área
«pletro» - cerca de 0,0875 hectares

José Batista d’Ascenção

domingo, 30 de outubro de 2016

Livros que (nos) enriquecem

“Teofrasto, História das Plantas”, tradução portuguesa, de Maria de Fátima Sousa Silva e Jorge Paiva, publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra 

Teofrasto, (c. 371-286 a.C.), filósofo da Grécia Antiga, discípulo de Aristóteles, ensaiou uma primeira classificação das plantas em quatro grandes grupos: árvores, arbustos, subarbustos e ervas, em que “o grau de sistematização conseguido é modesto” (pág. 22), mas o interesse é grande, seja pela visão dos assuntos e pela sua análise (1), seja por aquilo em que o pensamento ou ação de Teofrasto se tornaram precursores (2), seja ainda pelas curiosidades (3), que são imensas. Para quem é professor de ciências do ensino não superior, o rigor da escrita de Fátima Silva, numa tradução espelhada, nada nebulosa, aliado à vastidão, incisão e precisão do conhecimento botânico de Jorge Paiva tornam fluida, agradável e proveitosa a leitura, a que acrescem as 2125 anotações em que são apresentados os nomes científicos dos seres vivos referidos (e não só das plantas), usando criteriosamente o seu nome científico, segundo as regras de nomenclatura, em latim, e em que nos são dadas especificações de cultura e de pensamento (4), assim como se indicam e esclarecem as localizações geográficas e se fornecem explicações ou enquadramentos dos mais diversos conceitos ou assuntos referidos no texto. Dito de outra forma: o tratado (composto pelos livros de I a IX) é bom para qualquer pessoa.
Aos tradutores: parabéns e obrigado.

1) Exemplos da capacidade de observação e análise de Teofrasto:

- “chamar raiz a tudo o que está debaixo da terra é um erro”, pág. 75; … “é pela função natural e não pela localização que a distinção tem que se fazer”, pág. 76;
- …"as mesmas árvores, se crescerem apertadas, são altas e delgadas, se tiverem mais espaço, são mais grossas e baixas”, págs. 81 (ideia repetida na pág. 168);
- “é nas zonas quentes e situadas a sul que as plantas aromáticas se dão”, pág. 184.

2) Algumas ideias ou acções precursoras de Teofrasto:

- trabalho de caracterização, sistematização e classificação das plantas;
- foi “o verdadeiro criador da Botânica”; 
- deu “um primeiro passo na direcção do conceito de ecossistema” nota 860, pág. 162;
- “sendo ele talvez o promotor de um primeiro jardim botânico”, pág. 29.

3) Exemplos de curiosidades interessantes relatadas por Teofrasto (ver nota no fim do texto):

- a chamedriz “é muito eficaz para proteger a roupa contra a traça, pág. 39; “o pólio [Teucrium polium L.] é muito eficaz para proteger a roupa da traça”, pág. 87; 
- “é com o sumagre que os curtidores tingem os couros claros”, pág. 161; 
- “o limão chamado «maçã» da Média ou da Pérsia [Citrus medica L.], a que chamamos «cidreira» e ao fruto «cidra», é útil quando se ingere um veneno letal e produz também um bom hálito, porque produz um aroma agradável”, págs. 177-178; 
- “há uma vegetação abundante e bonita que cresce junto ao litoral, sobre as pedras [é o líquene Lecanora tinctoria, (DC). Czerwiak, nota 1068] com que os Cretenses tingem não só os cintos, como também as lãs e as roupas, pág. 187; 
- “…efeito da couve sobre o vinho, para anular os efeitos da embriaguez”, pág. 214;
- Asplenium trichomanes L. e Asplenium adiantum-nigrum L., são referidas por Teofrasto como duas espécies de adianto, “ambas úteis contra a queda do cabelo, se moídas em azeite … há quem pense que a primeira é boa no tratamento da retenção de urinas», pág. 286;
- “dizem que o trigo e a cevada se transformam em joio, sobretudo o trigo … e ainda o linho, que também, ao que dizem, se transforma em joio”, pág. 304;
- …”no caso da peónia … se se for visto a cortar a raiz fica-se com as nádegas descaídas”, pág. 331 )

4) Exemplos de algumas especificações dos tradutores:

- “a videira, que o cultivo reduziu à dimensão de um arbusto tinha no seu estado selvagem, o porte de uma liana, até 35 metros, nota 48, pág. 65; 
- “o termo ricinus aplicado à planta resulta do facto de a semente ter a forma de uma «carraça», designada por ricinus em latim, nota 267, pág. 85;
- “os antigos serviam-se do rizoma de Narcissus tazetta L. para aromatizar o vinho ou o azeite, este último era usado na higiene pessoal”, nota 404, pág. 95;
- “os vinhos podiam ser aromatizados com pétalas de rosa, mirto, anis, timo e mel”, nota 951, pág. 175; 
- “há mais de 2000 anos, as favas deviam ser ainda de pequeno tamanho, […] pois a faveira ainda não estava tão selecionada como actualmente, de modo a produzir apenas favas de grandes dimensões”, nota 774, pág. 151;

Nota adicional: O livro IX, páginas 317 e seguintes, inclui referências a plantas com capacidades afrodosíacas ou com influência na reprodução. Não se deu nenhum exemplo para não retirar a curiosidade aos interessados e para não estender demasiado este texto.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Gestão das florestas, o que já “ontem” era tarde (com nota de revisão)

De acordo com notícias difundidas esta manhã, o conselho de ministros reunirá hoje na Lousã para tomar decisões relacionadas com a gestão da floresta. Segundo o que é noticiado, e que inclui declarações de Capoulas Santos, Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, passados dois anos (2017 e 2018), sem que se conheçam os responsáveis pela gestão de quaisquer terrenos agrícolas ou florestais, o Estado tomará a seu cargo essa gestão.
Tudo bem. O único receio é que o próprio Estado seja tão mau cuidador quanto os proprietários. E os maus exemplos, relativamente a áreas de mata que são suas e da sua responsabilidade, são conhecidos.
Mas era preciso não esquecer o assunto. Pelo menos isso. Vamos ficar atentos. 

José Batista d’Ascenção

Nota: Esta notícia, que tinha ouvido assim mesmo, na rádio "antena 1", veio a ter desenvolvimentos que revela(ra)m a complexidade do que se tem em vista em múltiplas vertentes, sendo que não se pretende que o Estado venha, ele mesmo, a ser um gestor de floresta. Mantenho, no entanto, o sentido do que escrevi.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Bom-senso e razoabilidade

É muito comum, a (des)propósito das mais variadas situações ou matérias, ver referida a conveniência de se ter (ou de se ter tido) bom-senso. Porém, o (nebuloso) conceito de bom-senso tem pelo menos dois problemas associados:
- ninguém sabe concretamente em que consiste;
- e (praticamente) todos pensam que têm muito, especialmente aqueles a quem mais falta, por razões compreensíveis…
Falta bom-senso a um povo que elege repetidamente políticos medíocres ou corruptos? Ou que ano após anos vê gastarem-se avultados recursos no combate a incêndios florestais em vez de exigir que se invista na sua prevenção? Ou na produção tanta e tal de normativos legais (propositadamente?) mal escritos, confusos e contraditórios, que nem os magistrados os conseguem deslindar e cumprir coerentemente, quanto mais os leigos?
Um professor (do ensino secundário) daqueles que sempre teve gosto em ensinar e que optou por se aposentar quando começou a sentir que o “sistema” não estava interessado nos seus serviços, fazendo habitualmente parte do secretariado de exames, dizia com graça que a norma que os regula, e que é tão extensa, e tão ridiculamente pormenorizada, só pode ter sido feita por pessoas que, enquanto estudantes, devem ter sido horríveis batoteiros - tal a minúcia com que o documento procura prevenir as mais imaginosas infracções susceptíveis de serem cometidas pelos alunos que se apresentam aos exames…
Grande parte dos regulamentos de muitas instituições, em particular das escolas, pecam por defeitos parecidos.
Em tais casos, estamos em presença de bom-senso ou da falta dele?
Não seria mais adequado fazer maior apelo à razoabilidade, conferindo a cada cidadão a autonomia e a liberdade de agir conforme a razão e segundo padrões eticamente aceitáveis, acrescidas da responsabilidade de justificar racionalmente os actos que pratica ou que de si dependam, em vez de o tornar um autómato cumpridor de regras, que falhará com mais probabilidade, desde logo porque age não pela sua cabeça mas por emaranhados de normas que atestam, no fundo, a sua irresponsabilidade?
Sem dispensar e preparação e o cuidado que em tudo são convenientes, a vida seria mais simples e mais compensadora e dificilmente se obteriam piores resultados.

José Batista d’Ascenção

domingo, 16 de outubro de 2016

Para onde caminha(m) a Europa (e o mundo…)?

Os (belos) ideais de paz e prosperidade na Europa, depois de duas guerras mundiais que tiveram lugar no seu seio na primeira metade do século XX, e com apenas vinte e um anos decorridos entre o fim da primeira (1918) e o início da segunda (1939), pareciam não só desejáveis como possíveis a muitos cidadãos do velho continente, que aderiram ao sonho de visionários como Jean Monnet e acreditaram na ação de grandes líderes que sabiam, com firmeza de princípios e tacto político, conduzir-se e conduzir os povos (Jacques Delors, Billy Brandt, Helmut Schmidt, Helmut Kohl…).
Porventura, grandes pensadores e grandes líderes assim como os muitos que os admiraram e seguiram descuraram factores intrínsecos da alma humana, como o egoísmo e o prazer da maldade gratuita, os quais, latentes em qualquer tempo e em qualquer lugar, se soltam e propagam vertiginosamente se as condições que os limitam - regras, leis e comportamentos fundados na sabedoria, no exemplo, na experiência e na acção dos homens bons - afrouxam a sua eficácia.
O horror nazi que nasceu e se expandiu entre povos cultos da Europa como eram o alemão e o austríaco, e com que muitos polacos, húngaros, checoslovacos e ucranianos contemporizaram, é exemplo maior do mal absoluto com que a natureza humana pode conviver ou mesmo comprazer-se.
Porque a História humana é um cortejo de horrores, que não temos o direito de esconder ou camuflar com o bom e o belo que, felizmente, (também) a pontuam, cabe à humanidade o dever fundamental de se obrigar ao respeito e à prudência, à generosidade e à solidariedade. E tais deveres e obrigações devem estar muito presentes na mente e na acção dos líderes que os povos elegem (pelo menos nesses…).
Ora, quando uma líder como Angela Merkel, aqui há alguns anos, afirmou que os portugueses trabalhavam pouco e tinham mais tempo de férias que os alemães, não só foi duplamente injusta e ofensiva - os portugueses são pouco eficientes (trabalhamos mal) mas não são preguiçosos (trabalhamos muito) – como soltou os demónios que devem povoar a cabeça de muitos teutões…  Nesse e noutros aspectos foi (intencionalmente ou não) irresponsável, fomentando sentimentos extremistas não só de alemães como de fracções significativas dos povos do Norte, França incluída. O que depois continuou a passar-se, com particular incidência na Grécia, às ordens de uma (des)União Europeia ilegitimamente comandada por Merkel, foi mau demais, desencadeando perplexidades e receios nos povos da Europa meridional, alimentados por manifestações de desprezo (de alguns) dos ricos dos países setentrionais. Os passos positivos que Merkel começou por dar recebendo milhares de refugiados (a pensar em mão de obra para a indústria alemã?) apaga(ra)m-se com o que aconteceu a seguir e se mantém e é intolerável, deixando uma (des)união de países desenvolvidos às mãos de falsos democratas que não respeitam os mais elementares direitos humanos, como se passa na Turquia. Na Europa, Merkel é uma mandante (aparentemente) insensível aos ódios entre povos que, no fundo, está a estimular. Ainda bem que manda menos no mundo do que gostaria e que viu anuladas as falcatruas a que obrigou a fraca (e hipócrita) direcção da (des)União Europeia na muito recente escolha do secretário geral da ONU.
O mundo não tem nada de especial a agradecer a líderes políticos como Angela Merkel e os cidadãos (que se querem esclarecidos) precisam exigir mais e melhor dos seus eleitos. Confiemos por isso que, do outro lado do Atlântico, os americanos façam o que devem derrotando o escroque Trump, mesmo que tenham que contentar-se com uma presidente cheia dos “pecados” dos políticos encartados, que nunca fizeram outra coisa na vida.
No mínimo, não deixemos morrer a esperança de que é (sempre) possível construir um mundo melhor.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Aspectos da vida dos pobres, numa aldeia do interior, no tempo de Salazar

As pessoas do povo com mais de setenta anos sabem, de experiência sofrida, o que era a vida das gentes humildes do país há pouco mais de quarenta anos, tantos quantos tem o 25 de Abril. Crianças e jovens andavam descalços, poucos iam à escola, a que parte deles chegava depois de percorridos três ou quatro quilómetros a pé, com fome e a tiritar de frio, no inverno, alguns deles tendo tomado um gole de aguardente para “aquecerem”… O clima social e familiar era, não raro, de grande violência física e verbal e os professores primários, alguns apenas regentes pouco mais que analfabetos, confirmavam diariamente nas palavras e nos actos o terror que se abatia sobre as crianças. Mas os adultos e os velhos presos à terra pela penúria, pela incapacidade e pela ignorância não viviam em melhores condições. Fosse nos tempos da guerra civil de Espanha, fosse por alturas da segunda guerra mundial ou depois, durante as décadas de cinquenta e de sessenta (do século XX), os tempos eram particularmente maus para os pobres: a falta de perspectivas para os jovens durante os anos trinta, quarenta e cinquenta ou o medo da guerra colonial mais tarde, a ausência de assistência gratuita na saúde e de pensões de velhice ou incapacidade para as pessoas do mundo rural faziam da existência um complexo de incerteza e medo permanentes. As habitações eram ordinariamente horríveis, sem electricidade nem água canalizada nem quarto de banho, mal isoladas e sem divisões que dessem alguma privacidade a numerosas ranchadas de filhos, os quais dormiam “em grupo” em esteiras ou enxergas de palha. As condições de higiene eram tão precárias que era comum as pessoas e as tarimbas onde dormiam ficaram inçadas de piolhos, pulgas e percevejos.
Assim mesmo, não faltava vontade de viver e espírito de humor em miúdos e graúdos, especialmente quando algum cibo acalmava o estômago e o estado de saúde o permitia. E isso era traduzido em muitas histórias contadas por pessoas que jura(va)m que também com muito sentido de humor, ora alegre ora triste, foram vividas. Seguem-se algumas delas.

De algumas localidades se dizia que era tão intensa e generalizada a falta de víveres que até os cães, quando ainda conseguiam reunir forças, “sentando-se” nos quartos traseiros, não diziam mais que: «fòme! fòme-fòme! fòme-fòme-fòme!», a que respondia um ou outro galo, cioso das suas pitas, firmando-se nas patas, enchendo o peito e esticando o pescoço: «sempre cá assim foi…!»

E, de certo padrasto, contava-se que, à mesa, em tom seco e duro, perguntou aos enteados:
- Meninos, quereis pão?
- Queremos sim senhor – responderam eles.
Logo tornou o padrasto:
- Como é que se diz!
- Nããão… senhor – balbuciaram em voz sumida as crianças.
 - Dizei assim sempre, quando quiserdes mais, pedi – rematou o padrasto.

Noutra situação, dizia-se que certo marido, em tarde de menos afazeres, procurou uma via alternativa para catar os piolhos à mulher: sentaram-se ambos nas escaleiras no acesso exterior da casa, ele num degrau mais em cima e ela noutro mais em baixo, entre as suas pernas. Com ambas as mãos o homem ia desviando os cabelos e caçando os insectos, um a um, após o que os largava sobre a laje de xisto do degrau e os esmagava com… um martelo. Algo surpreendidos com a nova metodologia de espiolhar, os passantes sorriam e alguns comentavam, sendo que um fez uma sugestão capaz de aumentar a rapidez e eficiência do processo, nos seguintes termos: - porque não aplicar a pancada sobre os bichos no sítio onde eles causam prejuízo? Diz-se também que, como prova da diversidade de sentidos de humor, riram o proponente da sugestão e o eventual executante, mas não achou graça a beneficiária da desparasitação.

Pouco divertido e pungente é o relato do caso de uma criança que, um dia, correu para o avô e lhe disse com extrema convicção:
- Ó avô, avô, pão com queijo é tão bom!
Ao que o avô, espantado, perguntou: 
- Meu filho, onde é que tu comeste pão com queijo?
Resposta imediata do petiz:
- Não comi, avô, vi que estavam a comer… do outro lado do rio!

A fome é negra, dizem as tais pessoas de oitenta anos. E o que mais nos poderiam dizer, se tivéssemos tempo para as ouvir!

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O que António Guterres (não) merecia

Saberá melhor que quase todos nós, o cidadão António Guterres, que o mundo não se governa por princípios nem por boas intenções, antes se move por interesses e por paixões.

Depois de vencer e vencer e vencer e vencer e vencer eleições sucessivas (que raio de método!), um candidato generoso, dedicado, conhecedor e sensível à condição dos que mais sofrem, vê a própria ONU envolver-se em “manigâncias formais” para encontrar um secretário-geral a contento (e ao serviço?) de quem, na ordem internacional, põe e dispõe.

Sempre foi assim, desde que o mundo é mundo, “manda quem pode”, mas se a ONU quiser manter um mínimo de credibilidade aos olhos das pessoas de bem, não pode deixar de escolher António Guterres para seu (próximo) secretário-geral.

Pressinto que não será assim e não vislumbro qualquer bem geral que decorra desse facto. Oxalá me engane.

José Batista d’Ascenção

sábado, 1 de outubro de 2016

As universidades portuguesas não produzem prémios Nobel, (re)produzem praxes

É de aplaudir a frontalidade e veemência com que Manuel Heitor, ministro da ciência, tecnologia e ensino superior, se tem pronunciado contra o barbarismo dos “rituais” dos alunos do ensino superior, contrastando com o que, durante muito tempo, foi a tradicional impotência complacente dos ministérios da pasta (com a excepção feliz de Mariano Gago) e dos responsáveis pelas universidades, personificados nos (seus) reitores.
A mais vetusta universidade do país, uma das mais antigas da Europa e do mundo, terá sido o pólo “inspirador” de onde, por arremedo e degenerescência, irradiaram procedimentos chocantes que se multiplicaram por todo o país, no que deviam ser dignas instituições do ensino superior capazes de formar científica e eticamente os mais dotados dos nossos jovens. Casos houve em que as acções incontidas de estudantes (?) irresponsáveis terminaram em homicídios, relativamente aos quais a justiça, até à data, não encontrou culpados.
Afirmam algumas vozes que são sinais dos tempos. Ao paradigma em que os pais mandavam nas crianças sucedeu a “regra” actual em que os meninos mandam nos pais, primeiro, e nos professores do ensino pré-escolar, básico e secundário, à medida que vão crescendo. E, não poucas vezes, exercem o seu domínio chegando a vias de facto, de que as vítimas preferem guardar “segredo”, atitude conforme com a desatenta compostura de (desacreditadas) hierarquias formais. Curiosamente, os jovens assim “educados” chegam ao que seria a idade adulta, por volta dos 18 anos, e submetem-se voluntariamente aos insultos e comportamentos mais atrozes de meros colegas, como se precisassem tardiamente de ser moldados autoritária e violentamente em estádio (estágio?) necessário para obterem graduação na condição de algozes.
Chamam-lhe integração. E é. Muito eficaz, de resto, como a realidade comprova. Tão bem integradas são estas pessoas que vão mais tarde ocupar lugares de responsabilidade e de chefia no país, o mesmo país de onde os que podem (compreensivelmente) se escapam.
Que relação terá tudo isto com a mentalidade que nos caracteriza e com o estado a que chegámos?

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Outono

À semelhança do grande escritor russo Fiódor Dostoiévski, o Outono também se me afigura como um tempo sombrio a condizer com o Outono da vida, numa espécie de angústia escondida face ao confronto com esta realidade, ao mesmo tempo que me traz memórias nostálgicas de há muitos, muitos anos.
Nunca gostei do Outono. Este sentimento enraizado em criança, creio que tem a ver com o ano em que me mandaram para a escola primária de São Mamede, tinha eu nove anos. O Verão, de que sempre gostei, mesmo sem nunca ter visto o mar e brincado na praia, acabara. Caíam as primeiras chuvas e a alegria do sol tinha dado lugar a um céu cinzento. Quando, aos sete anos, chegou a minha vez de entrar para a 1ª classe, a minha mãe entendeu que eu era muito frágil para enfrentar a crueldade, repito, a crueldade de alguns dos seus “pedagogos” que ali exerciam o seu mister. E essa realidade entrava-nos quase diariamente, pela casa adentro, nas mãos do meu irmão Mário a frequentar a aula de um desses desalmados. Mesmo no inverno, com frieiras nos dedos, esse “bandido”, no dizer deste meu irmão, não se coibia de lhe ferrar meia dúzia de reguadas em cada mão.
Nesse tempo, o ano escolar chegava-nos com o mês de Outubro, mais precisamente, na segunda semana deste mês, um ou dois dias depois do feriado comemorativo da Implantação da República.
A pedido de minha mãe, o meu pai inscreveu-me no então Ensino Doméstico e a minha entrada na escola oficial só teve lugar aos nove anos, directamente para a 3ª classe, já suficientemente crescidinho para poder enfrentar os castigos do mestre-escola, nesse outro Outono igualmente sombrio e triste dominado pelo medo.
Talvez seja esta a razão pela qual nunca gostei do Outono. Entristecem o tempo chuvoso e os fins de tarde que encurtam os dias em contraste com os tardios ocasos do verão que findou. Entristece-me o cair das folhas que encheram de verde as ruas e avenidas da cidade. É, tradicionalmente, a época da caça desportiva, que de desporto não tem nada, actividade que repudio como atentado gratuito e cruel contra a vida de maravilhosas criações da mãe natureza, nossos pares na biodiversidade e detesto o Dia de Finados e os macabros crisântemos, de sinistro aroma, à porta dos cemitérios. 
As castanhas assadas e o vinho novo pelo São Martinho não são suficientes para inverter este sentimento.

A M Galopim de Carvalho

sábado, 17 de setembro de 2016

Tal dia como hoje nascia um incansável e genuíno ambientalista português


[Segue-se artigo publicado no “Diário do Minho” no dia 28 de Novembro de 2013. Porque pertinente e actual reedita-se com adaptações de pormenor]


Jorge Américo Rodrigues de Paiva

Botânico, professor, investigador, ambientalista e divulgador

As linhas que se seguem não se debruçam sobre a obra científica do botânico Jorge Paiva. Relativamente a essa matéria não faltará quem, com propriedade e competência, a registe e aprecie como é devido. Trata-se apenas de um humilde texto de reconhecimento e gratidão à pessoa e ao cidadão empenhado sobretudo nas causas do ambiente e da sobrevivência humana, ao Mestre e amigo de quantos gostosamente o procuram, o ouvem e com ele discutem as suas mensagens. 
O Professor Jorge Paiva nasceu em Angola, a 17 de Setembro de 1933. Formou-se na Universidade de Coimbra onde foi investigador e professor das Faculdades de Ciências e de Farmácia. Leccionou também em várias outras universidades. Entre os alunos era muito admirado e estimado, quer pelo rigor, quer pela clareza das suas lições, quer pela disponibilidade para os receber e esclarecer, chegando a acompanhar alguns de forma sistemática, dando-lhes explicações mesmo de matérias que não eram a sua ocupação diária, por exemplo de química. Com os seus alunos, era muito comum sair dos muros da universidade, ou dos espaços do jardim botânico e levá-los a conhecer a flora e a fauna das mais variadas regiões: Margens do Mondego, Mata da Margaraça, Paul de Arzila, Gerês, Estrela… Fez investigação em Portugal, no continente e no que eram as antigas colónias portuguesas em África, e no estrangeiro (durante três anos trabalhou em Londres nos Jardins de Kew e na Secção de História Natural do Museu Britânico). Foi várias vezes premiado pelos seus trabalhos de investigação, quer publicações de botânica quer relacionadas com a saúde (estudo de pólenes e alergias), quer ainda pela sua acção como ambientalista. Outros botânicos prestam-lhe homenagem baptizando novas espécies de plantas, de diferentes continentes, com nomes (latinizados) derivados do seu, como é o caso da Dendroceros paivae, uma planta semelhante a musgo, de S. Tomé e Príncipe, ou de diversas angiospérmicas (plantas com flores que dão frutos que encerram as sementes) de que são exemplos: a Hyancinthoides paivae, uma liliácea do Minho e da Galiza, a Monotes paivae, uma planta africana, da província do Bié, em Angola, e a Argyreia paivae, uma planta trepadeira, de Timor.
Muito dedicado à causa do ambiente palmilhou o país de lés-a-lés, observando, fotografando, ouvindo as pessoas e fazendo palestras para os mais variados auditórios. Alertou atempada e energicamente para o erro da extinção dos serviços florestais, para o contra-senso da monocultura florestal, como no caso do eucalipto, para os enormes riscos de incêndio, para a progressiva destruição do coberto arbóreo de vastas zonas e dos cimos montanhosos e para a desertificação humana do interior do país. Sensível, muito atento e disponível, percebeu desde sempre a necessidade de formação e de actualização dos professores do ensino básico e secundário, que passaram a ver nele um apoio de generosidade inteira e limpa: desloca-se onde o chamam, desdobra-se em conferências e palestras pelas escolas, onde adultos e jovens, com formações muito diversas, e mesmo as crianças mais pequenas, o ouvem com espanto e atenção; somaram-se centenas e depois milhares de sessões sempre com a mesma prontidão e energia, sem nada cobrar por viagens, dormidas ou refeições, refeições que, por vezes, chegou teimosamente a pagar aos acompanhantes. Como formador de professores conduziu dezenas deles a variados locais de interesse, como os acima referidos e a outros, como a Foz do Sado ou a Serra Algarvia. Da Madeira, trouxe alunos de pós-graduação ao Gerês. Continua a correr o mundo, procura os “santuários” naturais e as zonas degradadas pela poluição: observa, fotografa, estuda, documenta e divulga. Não desiste da sua mensagem nem afrouxa a sua disponibilidade. O amor pela Natureza fê-lo comemorar os seus oitenta anos subindo ao Pico da Nevosa no Gerês, numa caminhada de cerca de 24 quilómetros. Com fundamento, alerta-nos para a condição do ser humano “preso” na gaiola “Terra”, que nos mostra em imagens reais, captadas por si nos locais mais díspares. É com belas imagens dessas que ilustra as muitas centenas de postais de Natal que todos os anos envia a muitas centenas de pessoas, uma ideia original que combina uma enorme ternura com lições de ecologia em várias línguas, em resumos densos e curtos, mas fáceis de compreender. “Cidadão da Natureza” diz, com alguma pena: «Só me falta ir à Antártida!»
(…)
Recentemente, o canal dois da RTP emitiu quatro documentários intitulados “No trilho dos naturalistas”, em que o Professor Jorge Paiva é protagonista de destaque, imerso em ambientes distintos e distantes, que descreve e explica com clareza, servido por um conhecimento vasto e profundo, que sabe como ninguém tornar acessível, cativante e pedagógico.

Aqueles que de há muito o conhecem, estimam e procuram felicitam-no carinhosamente, deixando ao Bom Mestre, de ontem e de hoje, o Obrigado de sempre.

José Batista d’Ascenção

domingo, 11 de setembro de 2016

Limpar as sarjetas, aquém e além de Sacavém, não custava muito e convém

De Setembro se dizia, antigamente, no país “profundo”, que tanto pode secar montes e fontes como levar açudes e pontes. De momento tem valido a primeira alternativa, mas o Verão aproxima-se do termo e podem não estar longe as primeiras chuvas fortes. Deixando agoiros de lado, e sem confiança ilimitada no que chamam “Protecção Civil”, sempre havia de convir que os senhores autarcas e outros responsáveis pensassem atempadamente em alguma verificação do estado de bueiros e condutas de águas pluviais, pelo menos naquelas zonas, urbanas ou outras, onde os riscos de inundação sejam mais temíveis.
Era eu menino e via, lá na aldeia onde nasci e vivi até ao fim da escola primária, o guarda-rios, não aquela ave azul vivo comum ao longo dos cursos de água, mas um profissional que andava por ribeiras e rios e verificava se os donos dos campos das margens não entulhavam os leitos ou se as pessoas procediam indevidamente em relação a outros aspectos: poluição da água, pesca ilegal, etc. Não sei se tal função ou equivalente existe hoje, mas, se houvesse e tivéssemos pessoas competentes a desempenhá-la, talvez se evitassem algumas situações de ruína de pessoas e bens…
Com alívio para muitos, os dias decrescem, as temperaturas baixam, a chuva virá e os incêndios hão-de ser extintos. Vivemos muitos dias de Agosto e de Setembro com o coração na boca, cheios de perplexidade, horror e desespero, tantos sofrendo ao vivo e praticamente todos através das televisões. E não sem espanto, um espanto que nos dilacera todos os Verões e que, repetidamente, nos apanha desprevenidos. Isto é tão contraditório e inacreditável, quanto real e intrinsecamente nosso!
Que podemos/devemos nós (cada um de nós) fazer (ou exigir que se faça), já este Inverno e na próxima Primavera, para minorarmos os previsíveis infernos dantescos do Verão de 2017?
Esperar milagres? Ou tentar fazer algo que os tornasse menos necessários?
Resta ainda aquela pergunta que, com muito má consciência, podíamos formular, se não aos Deuses, não fôssemos desagradar-lhes, pelo menos à Natureza, que temos em pouca conta: 
Que te fizemos Natureza, para reagires assim?

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Texto gentilmente cedido pelo Professor Galopim de Carvalho, cuja publicação é uma honra que muito se agradece ao autor

OITENTOSE

Há dias o otorrinolaringologista que me observou, depois de ouvir o meu historial clínico e de olhar para a lista de fármacos que diariamente sou forçado a tomar, olhou para mim com um amistoso sorriso e disse: 
- A sua doença, professor, é só uma e chama-se “oitentose”.
Rimos os dois enquanto ele prescreveu o que entendeu prescrever. Despedimo-nos, ele ficou onde estava, à espera do próximo cliente e eu voltei à minha rotina.
De facto, a “oitentose”, outros há que a referem pela sigla PDI, afectou-me consideravelmente a audição, a visão, a mobilidade e, em consequência disso, o convívio com os outros, com a sociedade que me rodeia. Em contrapartida, aumentou-me a capacidade de interiorização. E nesta interiorização, o natural envelhecimento do corpo conduz, inevitavelmente, ao problema da morte, que, no meu caso pessoal, é sentido com a maior tranquilidade, como um fim de uma etapa natural inscrita na natureza e na evolução da matéria.
São muitos os que, para seu conforto, se agarram à ideia de uma vida “do lado de lá” assegurada pelas respectivas almas. Não é, seguramente, o meu caso.
A Bíblia ensina que a alma, entendida como espírito, é uma emanação exclusiva do Homem a quem Deus deu vida no sexto dia da Criação, o que, segundo o texto sagrado, aconteceu há cerca de seis mil anos. Para os crentes, a alma nasce com o ser humano, cresce e evolui com ele, liberta-se dele no momento da morte do respectivo corpo e permanece para além dele. Nesta concepção, a morte física de alguém tem lugar no momento em que a alma abandona o corpo e parte para uma outra forma de existência, entendida como unicamente espiritual, imortal e, portanto, eterna.
A palavra alma radica no latim “anima” e significa o que anima e dela derivam palavras do nosso dia-a-dia, como animal, animado, animação, ânimo e animismo, a teoria que considera a alma, simultaneamente, princípio de vida psíquica e física ou orgânica. Nesta óptica, abandonado pela alma, o corpo fica sem animação e, portanto, morto.
No âmbito da grande maioria das religiões cristãs e não cristãs, a alma é uma entidade imaterial que continua a existir após a morte do corpo, destinada a fruir, para sempre, a graça celestial ou condenada ao eterno tormento. Os seguidores desta ideia poderão concluir que, uma vez libertas do corpo e dos interesses e compromissos inerentes à vida terrena, as almas se tornam as melhores críticas dos actos dos homens ou das mulheres que foram. 

Na linha da tradição religiosa pagã da antiga Grécia, Platão ensinava que as almas, na sua imortalidade, caminhavam para a perfeição, ganhando sabedoria e libertando-se dos medos e de outros defeitos humanos, entre os quais, a inevitável condição de errar. E essa sabedoria era interpretada por ele como a capacidade de conviver com os deuses por todo o sempre. 
Para Lucrécio, poeta romano do século I a. C., a alma morria com o corpo de que foi complemento. Ele defendia que, após a morte, dela restava o que ele designou por “simulacrum”, entidade a que o povo chama fantasma e que muitos acreditam deambular entre os vivos. Nesta sua visão revela ter bebido na sabedoria grega, nomeadamente, na ideia epicurista de “eidolon”, termo grego que refere o mesmo tipo de entidade.

A Igreja católica ensina que há tantas almas, quantas a pessoas nascidas na Terra. 
Um parêntesis para dizer a quem não sabe que o termo católico tem origem na palavra grega katholikós, que significa Universal.
Há, portanto, as almas das pessoas que estão vivas e as de todas as que já morreram, digamos que desde Adão e Eva. Aceitando esta versão bíblica, o número de almas é imenso e não pára de crescer. Assim sendo, podemos perguntar «onde é que cabem tantas almas?»
A resposta afigura-se-me simples. O conceito de alma implica o seu carácter imaterial. Assim, as almas não têm dimensão física, ou seja, não têm massa nem volume, não têm peso e não ocupam espaço. São como o pensamento. Para elas não há gravidade nem distâncias, nem fronteiras, não há alto nem baixo, nem dia nem noite, nem quente nem frio. São ubiquistas, podendo estar, ao mesmo tempo e a qualquer momento, aqui e nos quasares mais longínquos, nos confins do Universo, a milhares de milhões de anos-luz.
Sendo a alma exclusiva do Homem e se tivermos em atenção a evolução do ser humano como espécie, desde o mais antigo primata, até ao Homo sapiens actual, passando pelos australopitecos e pelos outros hominídeos que os estudiosos têm descoberto e descrito, a pergunta que me ocorre fazer é «a partir de que estádio evolutivo da hominização, os nossos antepassados começaram a surgir acompanhados das respectivas almas?» Foi no Neanderthal, aparecido há umas centenas de milhares de anos, ou foi só no Cro-Magnon, que se pensa ter exterminado aqueles, há uns trinta ou quarenta mil anos?
A alma entendo-a pura e simplesmente como o psiquismo decorrente da vida animal. Sem sombra de dúvida, sabemos que os nossos antepassados exerceram actividade psíquica e, neste sentido, torna-se evidente que tiveram alma tal como eu a entendo. Mais ainda, muitos animais superiores revelam capacidades cerebrais amplamente investigadas em institutos de psicologia animal, pelo que podemos dizer que também têm alma, repito, no sentido que dou à palavra. Quem põe em causa a inteligência de um chimpanzé, de um cão, de um golfinho ou, mesmo, do Troodon formosus, o dinossáurio carnívoro, desaparecido há mais de sessenta milhões de anos?
Nesta concepção, quando morre o corpo morre a alma. O que perdura, por mais ou menos tempo, é a memória que dele, enquanto vivo, nos ficou.

Por vezes, dou por mim a pensar que sou um materialista, no sentido filosófico da palavra, não no sentido vulgar e pejorativo de pessoa só interessada nos bens materiais. Um materialista na linha de Leucipo de Mileto e de Demócrito de Abdera, filósofos atomistas do século V, antes de Cristo, e precursores do materialismo, para os quais tudo o que existia era feito de átomos e vazio. 
Até que algo me “ilumine”, como a tantos outros, sou de opinião de que tudo o que existe é matéria e que todos os fenómenos que observamos são o resultado de interacções materiais. O pensamento, ou seja, a actividade intelectual, psíquica ou espiritual, como alguns preferem dizer, cria as ideias, mas temos de concordar que essa actividade é processada por circuitos eléctricos entre células do cérebro, que sabemos serem entidades materiais feitas de carbono, oxigénio, hidrogénio, azoto e umas pitadas de outros elementos químicos.
Não sendo matéria, as ideias concebo-as como fruto de um estado muito avançado desta realidade física e biológica, que é o cérebro. São parte do intelecto (uns dirão do espírito) de quem as concebeu enquanto criatura viva e, portanto, radicam em algo bem material. Morto o cérebro são muitas as ideias que sobrevivem através das suas criações, por tempo menos ou mais dilatado. Leucipo e Demócrito, para citar apenas dois, morreram há mais de dois milénios, mas as suas ideias continuam bem vivas. As criações materiais, que podemos tocar ou ver, uma escultura ou uma pintura, por exemplo, encerram ideias que não morrem, a não ser que algo as destrua. Mas as criações imateriais morrem se não tiverem quem as mantenha vivas e as transmita. 

O pensamento filosófico ou o matemático só existem se forem registados num qualquer suporte material ou se alguém, como criatura viva, os recordar.

A música existe mas só nos damos conta dela se for escrita, tocada, gravada ou cantada. Praticamente, perdeu-se toda a música que se cantou ou tocou na Antiguidade e na Idade Média, anteriormente à introdução dos pentagramas (pautas) e respectivas notações dos sons, no século XI. Mas sabemos que se fez música porque alguns dos instrumentos usados, como a lira e a cítara, chegaram até nós. 
Com a poesia passa-se o mesmo. Se não for escrita ou registada perde-se. Têm sido muitos os poetas populares, que não sabendo escrever ou não tendo tido quem lhe escrevesse os versos que criaram, morrem, levando consigo toda a poética de que foram autores. Felizmente que, por terem sido escritas, chegaram até nós obras que classificamos de imorredouras e que dizemos serem as almas dos respectivos poetas. E é por isso que se fala da imortalidade de Píndaro, de Virgílio, Dante, Camões, O’Neill, Sofia, Ary… 

Galopim de Carvalho

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Binómio escultura - poesia

A forma no espaço e a palavra poética casando harmoniosamente, com delicadeza, elegância e sensibilidade. Arte original nos materiais, nos processos e na expressão, pelo par artístico, marido e mulher, Fernanda Machado Nogueira e Carlos Gama Nogueira, residentes em Braga.


Polifacetada, a arte de Fernanda Nogueira exprime-se também em peças de croché reproduzindo à escala qualquer objecto: uma sapatilha, um automóvel... ou as comuns peças de roupa que, saídas da sua mão, têm um cunho personalizado em função do destinatário. Com grande rigor na concepção e execução, na forma, nas proporções e no uso e combinação das cores, os seus trabalhos transmitem suavidade e conforto, à vista e ao tacto, pontuando com doçura os momentos de quem os observa, oferece ou... recebe.

José Batista d'Ascenção