quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Envelhecer em Portugal

Em Portugal, a esperança média de vida é hoje das mais altas do mundo (80,3 anos para as mulheres e 77,6 para os homens, valores de 2015, segundo dados da «Pordata»). Porém, enquanto nos países nórdicos, se vive com saúde até muito próximo do fim da vida, entre nós, muitas pessoas com 60 anos ou mais padecem de muitas mazelas físicas e psicológicas, e grande parte dessas pessoas consomem quantidades às vezes impressionantes de medicamentos diversos para várias doenças. Isto significa que, no nosso país, a terceira (60?-80 anos) e a quarta idades (a partir dos 80 anos) são um tormento progressivo para uma elevada fracção das pessoas dessas faixas etárias. Em suma: não se envelhece bem em Portugal.
A agravar o problema, em termos sócio-económicos, está a taxa de natalidade (número de nascimentos…), que é uma das mais baixas do mundo. Diminuindo o número de crianças e jovens e aumentando o tempo médio de vida aumenta exageradamente a proporção de pessoas envelhecidas. Por sua vez, entre os adultos, devido à crise internacional que abalou países como Portugal nos últimos seis anos, muitos dos nossos jovens qualificados e pessoas que perderam o emprego fugiram para o estrangeiro. Naturalmente, a maior parte das pessoas que deixaram de trabalhar permaneceu no país, umas simplesmente desempregadas, outras tendo sido indemnizadas para deixarem o trabalho e as outras na condição de aposentadas por idade ou invalidez. Resultou de tudo isto o agravamento da desproporção entre o número de pessoas que trabalham e as que deixaram de o fazer, com consequências muito negativas para a economia do país e, sobretudo, para a vida quotidiana das pessoas.
Na vida privada e social dos (mais) idosos há sempre situações indesejáveis de miséria, de solidão, de abandono, de doença ou de maus tratos, mas o mais comum talvez seja a fraca solicitação por parte da sociedade, na atenção que as pessoas merecem e no desperdício que é não colher os benefícios que daí adviriam: mais compensação afectiva, mais entusiasmo, mais disponibilidade, melhor interacção social, mais saúde e mais alegria…
Saber de pessoas que vivem imersas na solidão, perdem a noção dos dias da semana e do calendário, têm dificuldades na organização horária e ocupacional de cada dia, gastam horas ao telefone ou frente às televisões, tentam sentir-se úteis alimentando impropriamente pombos no espaço urbano, ou se viciam na “generosidade” de alimentar dezenas de gatos em recipientes improvisados que espalham na via pública, e com quem falam o que não falam com seres humanos que os escutem, são tudo formas, entre outras, de deitar fora a riqueza de tantos seres humanos, matando-lhes o gosto de viver e obrigando-os a arrastar-se numa velhice degradante.
Por outro lado, muitas pessoas com sessenta anos ou mais gozam, felizmente, de um estado de saúde físico e anímico que lhes permitiria prestar serviços muito relevantes à comunidade se conseguíssemos um pouco mais de organização e estímulo nesse sentido. Não que estas pessoas não sejam muito úteis: que o digam tantos filhos e netos que têm nos pais/avós um sustentáculo não só para fazer o acompanhamento e cuidado de crianças, como para ajudar em tarefas de casa ou mesmo (ou principalmente…) como apoio financeiro. Mas isso pode ser muito pouco para valorizar e entusiasmar pessoas cheias de capacidade, a quem não é legítimo privar dessa possibilidade.
Nesta altura, aproxima-se do fim a campanha para as eleições autárquicas. Um dia destes dei comigo a pensar que, se a lei permitisse, em paralelo, um regime de voluntariado nas candidaturas às juntas de freguesia, talvez muitas pessoas aposentadas ainda relativamente novas e cheias de frescura pudessem dar o seu contributo generoso de uma forma dedicada e gratuita, poupando o erário público, apenas pelo gosto de fazerem o bem pela comunidade, sem mais receberem por isso que o justo reconhecimento dos seus conterrâneos. Se a experiência vingasse, ainda que numa pequena fracção das 3092 freguesias (ou associações de freguesias) existentes, para além da poupança, minimizavam-se as acções interesseiras e ruidosas de competição agressiva, de todo dispensáveis, e estimulava-se a prática do bom exemplo. Daqui a quatro anos talvez valesse a pena.
E quem sabe se o procedimento não tenderia a ser beneficamente aliciante e contagioso? Mesmo correndo o risco de, daqui por oito anos, com o prolongamento da idade da reforma, já serem raros os aposentados com frescura e disponibilidade…

José Batista d’Ascenção

domingo, 24 de setembro de 2017

O domínio da finança e a miséria de milhões de pessoas em todo o mundo

Lehman Brothers Holdings Inc. 
Empresa global de serviços financeiros,
banco de investimentos, etc. que, em 2008,
manteve elevadas notas de investimento pelas
agências de “rating” até falir (notação “A”, até
seis dias antes do colapso, pela Standard & Poor's),
Imagem da Wikipédia
José Carlos de Vasconcelos (JCV) escreveu no último número da revista «Visão» (pág. 80): As «agências de rating são instrumentos do pior do império financeiro global que se deviam envergonhar de muito que fizeram e de erros (só erros?...) de avaliação escandalosos. Nem por isso perderam poder, o que não constitui menor escândalo.» JVC cita a comissária europeia Viviane Reding que, em tempos, disse que «não é possível que um cartel de três empresas norte-americanas decidam a sorte de Estados e dos seus cidadãos», ao que ele acrescenta que, «no entanto, nada mudou». Da sua análise sobre a colocação de Portugal no “lixo”, de que agora uma das agências de notação nos tirou, e dos prejuízos que isso nos causou, bem como em relação a perspectivas futuras, JCV, extrai «duas conclusões que agora importam:
a) DBRS [agência canadiana, "mais pequena e decerto mais séria ou competente"] foi a única que em relação a Portugal fez uma avaliação e teve uma atitude decentes [tendo "mantido sempre a notação de Portugal no patamar que permitiu continuar as compras de dívida pública pelo Banco Central Europeu"];
b) se não se pode esquecer que a dívida do País continua a ser enorme, por isso mesmo não se pode esquecer também a necessidade de a renegociar (…); mais, é de elementar justiça renegociá-la, pois nada justifica [que] estejamos a pagar juros superiores aos que hoje pagamos nos mercados por empréstimos que nos foram concedidos no âmbito de um pacote de “ajuda” (…) da troika – juros, só os juros, que nos custam mais de sete mil milhões de euros anuais…»
Por sua vez, Vicente Jorge Silva escrevia no jornal «Público» de 17 de Setembro (última página): «As agências de rating fazem parte daquelas coisas detestáveis, não sujeitas a escrutínio e controlo democrático, que acabam por impor os seus critérios a instituições das quais dependem o rumo das economias, dos governos e das vidas das pessoas. E quando o todo-poderoso Banco Central Europeu se submete às notações dessas agências na aplicação das suas políticas, o destino de um país pequeno e vulnerável como Portugal pode ficar suspenso da cotação que lhe é atribuída por uma dessas entidades. Há alguns anos ainda se contestava o poder abusivo, caprichoso e não regulado dos agenciadores privados dos ratings, mas hoje apenas algumas entidades arcaicas do anticapitalismo como o PCP se atrevem a questionar a sua fatalidade.»
Porém, os cidadãos do mundo não podem aceitar eternamente o vampirismo financeiro reinante. Cabe a cada um de nós manter-se minimamente informado, a fim de que, solidaria e firmemente, nos possamos levantar e exigir dignidade e direitos. A começar pela relação com os bancos onde temos contas.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sugestões à Câmara Municipal de Braga

Um dos candeeiros da Praça da Justiça, em Braga
Logo que passe a azáfama da campanha eleitoral (para as autárquicas) há-de a equipa da Câmara Municipal de Braga debruçar-se sobre alguns aspectos que merecem atenção, como os que, de seguida, refiro.
Na Praça da Justiça, frente ao edifício da Segurança Social, os globos de vidro dos candeeiros (três por candeeiro) vão acumulando água ao longo dos anos, até fatalmente caírem, se não forem substituídos antes disso. Como cada litro de água pesa um quilograma, se aqueles globos tiverem 30 cm de diâmetro (estimativa minha…), quando algum deles fica meio (ver 1ª foto), contém qualquer coisa como 7 litros de água e pesa, portanto, 7 quilogramas! Felizmente, como os candeeiros estão no centro de floreiras, se os globos se desprenderem por si, o risco de atingirem alguém é mínimo, mas, nunca confiando, é melhor prevenir do que remediar.
Agora que o Outono começa, convém estar atento ao estado das árvores de arruamentos e praças da cidade, a fim de detectar as que ofereçam perigo de se arrancarem ou partirem com as primeiras chuvas e ventos e proceder aos cortes necessários (atenção: devem-se limitar os cortes e as podas ao que é necessário e suficiente: mutilar as árvores, em tempo impróprio, como se fez aos lódãos da estrada de Real, em Abril passado, ou como mostra a árvore da segunda imagem, na rua da Restauração, não é poda nenhuma, é condená-las, absurdamente, ao definhamento e à morte prematura).
Árvore seca, consequência de poda incompetente.
Rua da Restauração, Braga
 
Se se proceder com o cuidado devido na altura (mais) adequada, evitam-se acidentes nos tempos de chuva e vento (queda de árvores ou ramos em cima de casas, de carros e até de pessoas) e diminui-se a folhada que vai cair nas semanas próximas, atapetando as ruas e entupindo os sistemas de escoamento de água. Nesta matéria, a colaboração dos munícipes, chamando a atenção para árvores que estejam em risco e ofereçam perigo, seria um útil exercício de cidadania que convém estimular.
De caminho, convém verificar atempadamente os sumidouros de escoamento das águas pluviais e desentupi-los, mormente os que se situam nas zonas dos túneis rodoviários, para evitar alagamentos, perturbações de trânsito, eventuais acidentes e danos resultantes.
Igualmente importante, passado o tempo de campanha, é remover todos os suportes de propaganda distribuídos pelo espaço urbano, para melhorar as vistas da cidade e facilitar a visão de transeuntes e automobilistas. Caso as equipas das diferentes candidaturas não procedam à remoção atempada desses materiais deve a Câmara Municipal fazê-lo, cobrando o valor das respectivas despesas.
Os munícipes bracarenses merecem.
Muito obrigado.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DA GEOLOGIA NOS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO

Texto gentilmente cedido pelo Professor Galopim de Carvalho, que aqui se publica, com o devido agradecimento

Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior da Geologia estão ao nível dos que caracterizam os países mais avançados, é confrangedor assistir:

- à total iliteracia neste domínio do conhecimento da quase totalidade dos portugueses, incluindo os das classes sociais ditas cultas;

- à mesma iliteracia na generalidade dos governantes e demais decisores políticos;

- à pouquíssima importância, nos ensinos básico e secundário, deste mesmo domínio científico, essencial como motor de desenvolvimento, mas também como componente da formação cultural do cidadão.

De há muito que venho alertando, em textos escritos e em conversas públicas, para a pouca importância dada ao ensino da Geologia nas nossas escolas dos ensinos básico e secundário. Isto porque, em minha opinião, quem decide sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, parece desconhecer que a geologia e as tecnologias com ela relacionadas estão entre os principais pilares sobre os quais assentam a sociedade moderna, o progresso social e o bem-estar da humanidade. 

As minhas repetidas e insistentes diligências junto dos sucessivos governantes, no sentido de inverter esta deplorável situação, a última das quais dirigida ao actual Sectário de Estado da Educação, Prof. João Marques da Costa (Doutorado em Linguística), continuam sem resposta. O que é desesperante e lamentável.

Exceptuando aqueles que, por formação académica e profissional, possuem os indispensáveis conhecimentos deste interessante e útil ramo da ciência, a generalidade dos nossos ministros, secretários de estado, deputados e presidentes de autarquias não conhecem nem a natureza, nem a história do chão que pisam e no qual assentam as fundações dos edifícios onde vivem e trabalham. Uns mais, outros menos, sabem o que neste território se passou desde o tempo em que o primeiro humano o pisou, milhares de anos atrás, mas muitíssimo pouco ou nada sabem sobre os milhões de anos de história deste torrão que é o nosso.
Não sabem que o lioz, ou seja, a pedra calcária usada na cantaria e na estatuária de Lisboa e arredores, nasceu num mar de há cerca de 95 milhões de anos (Ma), muito pouco profundo e de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Não sabem que o basalto das velhas calçadas da capital brotou, como lava incandescente, de vulcões que aqui existiram há uns 70Ma, nem que o granito, a pedra que integra o belo barroco da cidade invicta, tem mais de 300Ma. Não imaginam que o Tejo já desaguou mais a Sul, por uma série de canais entrançados, numa larga planura entre a Caparica e a Aldeia do Meco. Não sabem que a serra de Sintra é o que resta de uma montanha bem mais imponente e ignoram que, por pouco, não rebentou ali, há uns 85Ma, um grande vulcão. 
Marcados por um ensino livresco, tantas vezes desinteressante e fastidioso, são muitos os que, enquanto estudantes, frequentaram Geologia e que, terminada esta fase das suas vidas, atiraram para o caixote do esquecimento o pouco que lhes foi ministrado sem entusiasmo nem beleza.

É o que se passou com a generalidade dos nossos adultos, sejam eles juristas, economistas, militares ou marinheiros, poetas, romancistas ou jornalistas, vendedores de automóveis ou jogadores de futebol. Não sabem que grande parte do Ribatejo e do Alto Alentejo foi uma área lacustre e pantanosa há poucas dezenas de milhões de anos, que tivemos aqui períodos de frio glacial, como, por exemplo, o da Islândia, e de calor  húmido tropical, como o das Caraíbas. Ninguém lhes explicou o que significam, quando e como surgiram e evoluíram as serras de Portugal. Ignoram porque é que há mármores em Estremoz, sienitos nefelínicos em Monchique, areias brancas em Coina e em Rio Maior, pirites em Aljustrel, volfrâmio na Panasqueira, urânio na Urgeiriça, lítio em Montalegre e caulino na Senhora da Hora. Desconhecem porque é que se fala do Barrocal algarvio, das Rias Formosa e de Aveiro, das Portas de Ródão, do estuário e do gargalo do Tejo, dos barros de Beja, da livraria do Mondego, da Arriba Fóssil da Caparica, da “planície alentejana” ou do “Norte montanhoso”.

Sabem dizer granito, basalto, mármore, calcário, xisto, barro, quartzo, mica, feldspato, petróleo, gás natural e carvão-de-pedra, mas ignoram a origem, a natureza e o significado destes materiais como “palavras”  do “livro” que conta a longa história da Terra.

Para além do seu interesse utilitário na procura, exploração e gestão racional de matérias-primas minerais metálicas e não metálicas indispensáveis no mundo actual, a Geologia ensina-nos, ainda, a encontrar águas subterrâneas e recursos energéticos, como são o carvão, o petróleo, o gás natural e o calor geotérmico. 
Essencial no estudo da natureza dos terrenos sobre os quais temos de implantar grandes obras de engenharia (pontes, barragens, aeroportos), ou desenvolvemos a agricultura, a Geologia dispõe ainda dos conhecimentos necessários à prevenção face aos riscos vulcânico e sísmico, à defesa do ambiente natural numa política de desenvolvimento sustentado, à preservação do nosso património mais antigo, além de nos dar resposta a muitas preocupações de carácter filosófico.

Sou levado a pensar, e não estou só nesta ideia que, preto no branco, grande parte da confrangedora situação que  caracteriza o ensino da Geologia em Portugal radica, precisamente, no conjunto dos que têm apoiado o Ministério da Educação neste domínio. Nunca conheci nenhum destes elementos, mas é a eles e, também, necessariamente, a quem lhes foi dando posse, que se deve este estado de coisas que, oiço dizer, não é exclusivo da disciplina pela qual me venho batendo há décadas.

É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si meia dúzia de professores desta disciplina capazes de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino desta área curricular, a começar nos programas, passando pelos livros e outros manuais adoptados, pela formulação dos questionários nos chamados pontos de exame e, a terminar, na conveniente formação dos respectivos professores.

Importantes páginas da longuíssima e complexa história da Terra, conservadas nas rochas, estão à disposição dos professores e dos alunos nos terrenos que rodeiam as suas escolas. Conhecer esses terrenos e os processos geológicos aí envolvidos, desperta a curiosidade dos alunos, abrindo-lhes as portas não só ao conhecimento da sua região, como aos da geologia em geral. Tais conhecimentos, mais sentidos e interiorizados do que, simplesmente, decorados para debitar em provas de avaliação, conferem dimensão cultural a esta disciplina, formam cidadãos mais conscientes da sua posição na sociedade e defensores activos do nosso património natural. 

À semelhança de um velho pergaminho, de um achado arqueológico, ou de uma ruína, as rochas, com os seus minerais e os seus fósseis, são documentos que a geologia ensina a ler e a interpretar.

Se há matérias que têm características passíveis de serem ministradas numa política de regionalização do ensino e que muito conviria considerar, a Geologia satisfaz esta condição. 

Portugal, de Norte a Sul e nas Ilhas, dispõe de uma variedade de terrenos que cobrem uma grande parte do tempo geológico, desde o Pré-câmbrico, com mil milhões de anos, aos tempos recentes. No que se refere à diversidade litológica, o território nacional exibe uma variedade imensa de tipos de rochas, entre ígneas, metamórficas e sedimentares e, no que diz respeito aos minerais, o número de espécies aqui representadas é, igualmente, muito grande, e o número de minas espalhadas pelo território e hoje abandonadas ultrapassa a centena.
Temos, muito bem documentadas, as duas últimas grandes convulsões orogénicas. A Orogenia Hercínica ou Varisca, que aqui edificou parte da vasta e imponente cadeia de montanhas de há mais de 300 Ma e hoje quase completamente arrasada pela erosão, e a Orogenia Alpina que, nas últimas dezenas de milhões de anos, entre outras manifestações, elevou o maciço da Serra da Estrela, à semelhança de uma tecla de piano que se levanta acima das outras, e dobrou o espectacular anticlinal tombado para Sul, representado pela serra da Arrábida.
Podemos mostrar aos nossos alunos muitas e variadas estruturas tectónicas, como dobras, falhas, cavalgamentos e carreamentos. Temos à nossa disposição múltiplos aspectos de vulcanismo activo e adormecido (nos Açores) e extinto, de um passado recente (na Madeira, há 7 Ma, e Porto Santo, há 14 Ma) e antigo de cerca de 70 Ma, entre Lisboa e Mafra. Temos fósseis de todos os grandes grupos sistemáticos e de todas épocas. Temos dinossáurios em quantidade e algumas das pistas com pegadas destes animais entre as mais importantes da Europa e do mundo.

Tudo isto para dizer que, no ensino da Geologia, para além de um conjunto de bases gerais consideradas essenciais e comuns a todas as escolas do país, as do ensino secundário, deveriam ministrar um complemento criteriosamente escolhido sobre a geologia da região onde se inserem.

Assim e a título de exemplo, as escolas das regiões autónomas, aproveitando as condições especiais que a natureza lhes oferece, deveriam privilegiar o ensino da geologia própria das regiões vulcânicas, incluindo a geomorfologia, a petrografia, a mineralogia, a geotermia  e a sismicidade (estas duas, nos Açores). Do mesmo modo, o citado vulcanismo extinto, entre Lisboa e Mafra, o maciço subvulcânico de Sintra (possivelmente um lacólito), o mar tropical pouco profundo que aqui existiu, durante uma parte do período Cretácico, deveriam ser objecto de estudo dos alunos da “Grande Lisboa”.
Os exemplos são muitos e cobrem todo o território. O termalismo em Chaves, São Pedro do Sul e em muitas outras localidades, os vestígios de glaciações deixados nas serras da Estrela e do Gerês, o complexo metamórfico e os granitos da foz do Douro, os “grés” de Silves, os quartzitos da Livraria do Mondego e a discordância angular da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) deveriam constar dos programas das escolas das redondezas.

Estes e muitos outros exemplos reforçam a ideia da possibilidade de uma adequada informação sobre a geologia regional a complementar um bem pensado programa de base comum a todas as escolas.

Imenso e tido por inabarcável, ao tempo dos descobrimentos marítimos, o nosso Planeta começa a dar preocupantes sinais de agressão já evidentes na poluição do ar que respiramos, da água dos mares e da que bebemos e, ainda, dos solos onde, é bom não esquecer, radica toda a cadeia alimentar que nos sustenta.

Apesar de ínfima no contexto da biodiversidade, esta criatura, a última de uma linhagem evolutiva de milhares de milhões de anos, a que foi dado o nome de Homo sapiens, só por si e desde o advento da Revolução Industrial (finais do século XVIII, começos do XIX), tem vindo a atentar, a ritmo exponencial, contra o meio físico que a todos rodeia, atingindo, no presente, níveis alarmantes que justificam, entre outras reuniões internacionais, a COP 21 que, em 2015, teve lugar em Paris.
Na sociedade de desenvolvimento, tantas vezes descurando os bem conhecidos preceitos de sustentabilidade, privatizam-se os benefícios da produção e distribui-se pelos cidadãos a subsequente poluição. À desenfreada procura de lucro de uns poucos, tem de opor-se a necessária cultura científica por parte dos restantes cidadãos. E a Escola tem, forçosamente, que fornecer essa cultura em articulação harmoniosa e inteligente com os saberes de outras disciplinas. Não o molho de definições que (salvo honrosas excepções) tem sido a sua praxis.
Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente da Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação científicas, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe correctamente o acesso aos conhecimentos que, constantemente, a ciência nos revela. Sendo a geologia a disciplina científica que nos fornece todos conhecimentos atrás apontados, é fulcral atribuir-lhe, ao nível da Escola, a importância que, realmente, tem.

Publicado por: José Batista d'Ascenção

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Aquilo a que chamam «praxe»


Imagem: Joana Alves, estudante do 1º ano
 do mestrado integrado de arquitetura da FAUP
Há poucos momentos dei com o postal cuja face está reproduzida ao lado sobre a mesa de um filho meu recentemente formado por uma (boa) faculdade da Universidade do Porto. A mensagem escrita no verso, que me parece muito oportuna, reza assim (itálico meu):

A praxe académica é totalmente voluntária!

A não participação na praxe não pode significar a exclusão de estudantes de quaisquer atividades académicas. Nenhum(a) estudante pode ser discriminado(a) por decidir não participar em atividades realizadas no âmbito da praxe.

As instituições do ensino superior são espaços democráticos de liberdade onde cada pessoa é livre de fazer as suas escolhas e de ter as suas opiniões. As diferentes formas de integração do(a)s novo(a)s estudantes devem decorrer obedecendo a princípios de respeito e dignidade.

O Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (Lei nº 62/2007, de 10 de setembro) qualifica como infração disciplinar "a prática de atos de violência ou coação física ou psicológica sobre outros estudantes, designadamente no quadro das «praxes académicas»" e tal infração tem sanções que podem ir desde a advertência até à interdição de frequência da instituição.

Existem mecanismos de proteção dos teus direitos e não hesites em recorrer a eles para te defenderes e para defenderes os teus colegas.

Qualquer ofensa à integridade física e psicológica deve ser denunciada pelo(a) próprio(a) ou por terceiros que testemunhem esses abusos.

O Ministério da Educação e Ciência criou um endereço de correio eletrónico (praxesabusivas@mec.gov.pt) onde abusos ocorridos no âmbito das atividades de praxe [podem ser denunciados, acrescento meu].

E, em nota de rodapé, com letras de menor tamanho:

de acordo com a Resolução da Assembleia da República, nº 24/2014, aprovada em 28 de Fevereiro de 2014

Resumindo: Em relação ao tema, até há entre nós quem conheça as normas adequadas e as coloque em letra de forma. Acontece, no entanto, que pouco efeito parecem ter…
De quem será a culpa?

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Sobre a demissão do comandante nacional da (des)protecção civil

Imagem obtida aqui.
Não creio que se tenha perdido nada. Não compreendo qual tem sido o papel da chamada protecção civil. Há quase um mês dirigi uma solicitação a estruturas da protecção civil, relacionada com perigo de incêndio na casa onde mora a minha mãe, que tem oitenta e três anos, por falta de limpeza das propriedades que a rodeiam e que não lhe pertencem. Essa solicitação foi dirigida a um presidente de câmara, a um director do plano municipal da protecção civil, a um comandante de bombeiros e a um presidente de junta de freguesia, todos do mesmo concelho do interior centro do país, em carta registada com aviso de recepção, de que não se obteve qualquer resposta (até ao momento).
Se a minha mãe morrer queimada na sua própria casa, tentarei arranjar coragem para o comunicar especialmente à «protecção civil».
O senhor agora demitido comandava uma organização com responsabilidade na morte de dezenas de pessoas ocorridas em Pedrógão Grande este Verão e também com responsabilidade pelo prejuízo de centenas de milhares de hectares de floresta que ardem todos os anos no país, assim como casas de habitação e pequenas unidades fabris, designadamente serrações de madeira, os seus camiões e outros equipamentos móveis.
Para que serve uma «protecção civil» assim? Se é só para umas pessoas terem uns cargos, não vale a pena.
Por outro lado, ao que se lê nas notícias, aquele senhor foi mais um que obteve uma licenciatura em que só prestou provas a 4 de 36 unidades curriculares (vulgo, disciplinas) formalmente exigidas. Nas outras 32, funcionou o mecanismo das «equivalências»! Onde e com quem já tínhamos visto isto? E com quem mais o vamos ver ainda?...
Falta-me a paciência. Haja vassouras! E lixívia!

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Terror, por acção humana ou em consequência dela

"Twin Towers", 2001
Fez hoje dezasseis anos que ocorreram os ataques terroristas contra as “Torres Gémeas” e o “Pentágono”, nos Estados Unidos da América. Esses acontecimentos provocaram milhares de mortes e desassossegaram o mundo, num horror cataclísmico, ao vivo e em directo, através das televisões, com imagens reais muito piores do que as de qualquer filme de terror. A “resposta” Norte-Americana contra Osama Bin Laden e a Al-Qaeda e os países que os “abrigavam”, teve lugar a seguir, tendo-se iniciado pouco depois, em 07 de Outubro, a guerra contra os Talibãs, no Afeganistão. Desde então até aos dias de hoje, o mundo, que já não era seguro, ficou ainda mais instável e o sentimento de insegurança das populações foi sempre em crescendo.
Vivemos com medo. Medo do terrorismo. Medo dos que são diferentes. Medo de que aumente a criminalidade. Medo de que nos “roubem” o trabalho. Enfim, medo. Muito medo.
E o medo cria condições para o aparecimento de salvadores que dão largas à vontade de, pela força, criarem uma sociedade “limpa” do que consideram defeitos, mas sobretudo da presença do que (e daqueles que) nos atemoriza(m).
Donal Trump
Na América, o que parecia impensável aconteceu. Após a Presidência de Barack Obama, um acontecimento extraordinário, que encheu a Europa de esperança, seguiu-se o pesadelo da eleição de Trump, que todos os dias se torna mais preocupante, até por não sabermos aonde nos vai levar. No continente europeu, a falta de lideranças com dimensão e princípios humanitários deixa-nos a olhar com admiração para Ângela Merkel, a mesma que disse que os portugueses trabalham pouco e têm mais tempo de férias do que os alemães. Depois foi o que vimos. E no Velho Mundo (Europa), em países como a Polónia ou a Hungria e também na Turquia (que pretende aderir à União Europeia), dirigentes políticos desafiam impunemente os valores e os direitos que conquistámos ao fim de séculos e que julgávamos adquiridos.
Mas é Trump, pelo poder e pela influência no mundo, que constitui a incógnita de desenlace mais atemorizador. Para além das suas ideias (!?) político-militares, as crenças sobre o clima e sobre (a ausência de) alterações ambientais devidas à poluição podem levar o planeta a um ponto sem retorno. 
Papa Francisco
Bem anda o Papa a pregar o que convém, com lucidez e persistência. Diz ele, a propósito dos mais recentes furacões: “Quem nega as alterações climáticas será julgado pela História. A ciência é muito clara. Se não arrepiarmos caminho, vamo-nos afundar."
Oxalá o aviso venha a tempo e faça algum efeito. 

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A casinha do avô da outr’aldeia

Quando eu era menino, ir a casa dos avós (maternos), no extremo da aldeia, a que, por essa razão, se chamava e ainda chama “outr’aldeia”, com as minhas irmãs, enchia-me, a mim e a elas, de expectativa e entusiasmo. Por um lado, a comida da avó, fosse qual fosse, era sempre diferente e muito especial, de tal modo que me ficou a ideia de que, se fosse possível prová-la em qualquer parte do mundo, próxima ou longínqua, naquela altura, agora ou em qualquer tempo futuro, a identificaria de olhos fechados à primeira vez que a levasse à boca. Era assim e assim me ficou na cabeça e em todo o meu ser, com destaque para o recôndito do peito. Por outro lado, havia um ambiente tão próximo, tão confortável e tão convidativo, enfim, tão nosso, que, não raro, dava vontade de fugir e dar uma saltada à casa dos avós. Claro que, sempre que isso acontecia, lá estava a avó, muito firme, a perguntar se a mãe sabia aonde tínhamos ido, dava-nos alguma coisinha pequenina, se tinha, e apressava-nos o regresso. Falava eu de doce e excitada expectativa, que aumentava exponencialmente se, para além de nós, estivessem alguns primos. Praticamente, todas as semanas íamos à outr’aldeia e os avós vinham também, com frequência idêntica, mas não em dias fixos, à nossa casa.
Mas o mais saboroso do que retive eram os serões das noites longas de Inverno. Na casa dos avós, pobre como era a casa de todas as pessoas da família, costumávamos ficar à lareira, à noite, depois da refeição, com o lume a crepitar e todos em roda, o avô fechando o semi-círculo do lado esquerdo, na sua cadeira, e a avó do lado oposto, num banquinho, de costas para o armário grande, de onde podia sempre tirar alguma coisa saborosa, a distribuir pela pequenada, que brincava entre si e escutava com mais ou menos interesse os conselhos dos adultos, indiferente à cavaqueira entre eles. Estes, por entre a conversa, mantinham-se de olho nos nossos movimentos não fosse algum de nós chegar-se demais ao fogo. Um lugar muito apreciado por mim e pelos meus parceiros de brincadeira era o espaço entre os joelhos do avô, com um dos seus braços a rodear-nos a cintura – chamávamos-lhe a “casinha do avô”. Se o ciúme dos restantes não era (muito) notório, porque, se o fosse, o avô dava um afago, aceitava um beijo e docemente reconduzia o beneficiário para a brincadeira com os pares, as suas mãos fortes e calosas erguiam o ocupante e sentavam-no, por alguns minutos, numa das pernas. Como se estava bem ali: com uma das mãos do avô a amparar-nos as costas e a outra sobre o peito, ao receber um beijo sobre o cabelo, elevava-se a gente numa espécie de trono de algodão doce a contemplar um mundo perfeito e seguro. Melhor só quando o avô correspondia ao pedido de algum de nós para que contasse um conto. Um conto à escolha do avô. E então, quando ele começava, um silêncio descia sobre todos, para que a história fluísse nas palavras de encantamento que, ora numa altura ora noutra, faziam brilhar os olhos dos ouvintes, e só eram interrompidas por interjeições de espanto ou explosões de gargalhadas. Nesses momentos, o avô cadenciava o discurso, para acentuar o “suspense” ou estimular o riso, intervalando se necessário, até todos ficarem à espera, muito atentos e presos à continuação. Cada conto podia estender-se mais ou menos, e dar lugar a outro ou a outros consoante as reacções e o entusiasmo da assistência. O fim aproximava-se quando um ou outro dos mais pequenos se esforçava por arregalar os olhos, a que o peso do sono fazia descer as “persianas”. Nessa altura, para alguns de nós, já o conto era sonho, embalados no berço de encantamento que eram os braços em que, aconchegadamente, adormecêramos.
Bem-haja eterno, queridos avós.

José Batista d’Ascenção