segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Quando eles eram pequeninos... Era uma vez...

História escrita há já muitos anos para os meninos e com os meninos. O original, em formato digital perdeu-se, restando apenas um exemplar impresso com as ilustrações difíceis de reproduzir, motivo por que se publica apenas o texto.


O Gato Jarbas

I - Pesca com "chapo"


Era uma vez um menino que vivia perto de uma velhinha, com quem passava muito tempo. Na sua terra havia um rio e nesse rio andava sempre um barco.
Um dia, o menino passou pela casa da velhinha, cumprimentou-a com um beijo, e foi para o rio pescar. Como companhia levou consigo o seu gato Jarbas.
Passaram a manhã no barco, admiraram a paisagem, ouviram os passarinhos nos salgueiros das margens, enquanto esperavam com as canas viradas para fora e os anzóis presos aos fios, dentro de água. O Jarbas ia dormitando, muito preguiçoso, enroscado em cima do casaco do menino que estava dobrado à proa do barco.
De repente sentiram um puxão numa das canas. Batis, assim se chamava o menino, pegou rapidamente na cana, levantou-a bem alto e imediatamente um peixe caía dentro do barco, aos saltos. O Batis precipitou-se para apanhar o peixe e metê-lo no balde que estava ao fundo, na parte de trás do barco. Mas o peixe escapou-lhe das mãos e continuava a saltar. Quem esteve sempre à espreita com os olhos muito abertos foi o Jarbas. Aquele malandro logo que viu um peixe tão grande, pensou em comê-lo! Ainda tentou disfarçar, mas, quando viu que o Batis não conseguia segurar o peixe, que lhe escorregava das mãos, deu um enorme pulo e apanhou-o entre as patas. Foi então que sentiu uma enorme vontade de lhe dar uma trinca. Havia muito tempo que o Jarbas não comia um saboroso peixinho.
O que o Jarbas não imaginou é que a sua gula o levasse a escorregar e, em vez de ficar com o peixe, acabou por cair dentro de água.
- Cachapum!...
O Batis ficou muito aflito porque o Jarbas espatinhava dentro da água e assoprava, todo molhado e cheio de frio. Dobrou-se, com todo o cuidado, e puxou o gato completamente encharcado para dentro do barco. Deixou-o sacudir-se, e depois gritou-lhe:
- Jarbas, és um comilão desavergonhado!
O dia passara, já começava a anoitecer. Estava na hora de regressar. O Jarbas estava com frio e podia constipar-se. Batis remou com força para chegar à margem. Estava muito cansado, com fome e com sede. Faltavam-lhe as forças e a margem parecia tão longe!... Jarbas já dormia, enrolado aos seus pés. Precisava de ajuda. A noite tinha chegado depressa e estava muito escura. Sentia-se com medo e sozinho. Só lhe apetecia chorar. De repente, como que por magia, a luz da lua fez o rio prateado e o barco deslizara até à margem.
Em muito pouco tempo dormia tranquilo na sua cama azul...

II - Queda na floresta

Na manhã seguinte o gato Jarbas acordou, esfregou os olhos e disse:
- Sinto-me muito bem disposto. Ontem, o dia não me correu bem, tomei um banho à força, mas hoje já estou pronto para me divertir.
Saiu de casa, saltitando e cantarolando, à procura do Zeferino, um gatarrão muito pachorrento, que habitava  na casa da velhinha, ali ao lado. Chamou por ele:
- Ó Zeferino! Zeferiiiiiiino!... Onde estás, companheiro?
O Zeferino ainda dormia, em cima de um pau que estava colocado bem alto, de parede a parede, no pátio da casa. Era ali que gostava de dormir: via tudo ao acordar e ninguém o incomodava. Como tinha muito equilíbrio, orgulhava-se de se deitar lá no alto e dormir sossegado, sem medo de cair. Mas agora, com o Jarbas a gritar daquela maneira, ia-se assustando a sério e por pouco não escorregou.
- Ó grande bruto - respondeu zangado - não sabes ter mais calma, o que é que te deu? Ainda é tão cedo e já tu vens aí aos gritos acordar-me. Espera, que já desço.
- Vim convidar-te para irmos juntos fazer qualquer coisa interessante, hoje. Sinto-me tão bem que tenho vontade de me divertir. Vá lá, anda daí. E se fôssemos subir a umas árvores, para afiarmos as garras e para ver se apanhamos algum passarito desprevenido?
O Zeferino achou aquela ideia um tanto estapafúrdia, àquela hora da manhã... E pensou: «Este Jarbas é incrível!» Porém, como já estava acordado aproveitou para se espreguiçar, coçou as garras no pau, lambeu a pata, passou-a pela cara e disse:
- Pronto, vamos lá então.
Partiram em direcção à floresta. Chegados ao carvalho grande, foi com gosto que subiram o enorme tronco e, com custo, de ramo em ramo, atingiram altura. O Zeferino, olhando em redor disse para o Jarbas:
- Que bonita é a paisagem vista daqui. Ora repara, não te parece um imenso mar de verde? É mesmo bonito!
- Chiiiiiiiuuu! - disse-lhe o Jarbas baixinho - Cala-te e repara, olha nesta direcção - e apontava com a pata.
O Zeferino até ficou triste. Aquele maroto não queria saber de coisas bonitas. Às vezes parecia mesmo um insensível. Que estaria ele a ver?
Entretanto, já o Jarbas caminhava sobre um ramo fino, em direcção à ponta, tão concentrado que nem se apercebia que o raminho se dobrava cada vez mais. E foi então que o Zeferino reparou: meio metro à frente de Jarbas estava um ninho onde três biquinhos amarelos se abriam exageradamente à medida que os ramos abanavam. Os pequeninos confundiam o avanço terrível do Jarbas com a chegada da mãe, trazendo-lhes comida. Zeferino sentiu um arrepio. Não se conteve e gritou:
- Jaaaaarbas!... Que vais fazer?!
Jarbas deu um pulo, o ramo abanou violentamente, o ninho parecia um baloiço descontrolado, as cabeças dos passarinhos bateram umas contras as outras, mas nenhum deles caiu do ninho. Os pássaros adultos, que acabavam de chegar com o bico carregado de sementes, ainda viram a ramagem num rebuliço, mas trataram de acalmar os filhotes. O que os assustou igualmente foi um som forte lá em baixo... Jarbas estatelou-se no chão e ficou esticado, como morto.
Zeferino, muito abalado, desceu cheio de nervos e, com muito custo, aproximou-se do amigo. Olhou-o primeiro, preocupadíssimo, e depois fez-lhe carinhos com a pata.
- Amigo! Amigo!, diz qualquer coisa! E continuava a abaná-lo com meiguice. Jarbas não dava sinais de vida. Zeferino sentiu as lágrimas a correrem-lhe pela face. E ficou a olhar, a olhar...
Então, passado algum tempo, Jarbas abriu os olhos.
- Jarbas! Oh, ele está vivo!, disse o Zeferino, com grande contentamento.
- Como estás, és capaz de falar? Mas não fales, não digas nada, descansa mais um bocadinho...
Jarbas fez sinal com a pata. Estava atordoado, mas teve forças para sossegar o amigo. Zeferino apanhou umas folhas, aconchegou-as num montinho, como se fosse uma cama, e arrastou o amigo para cima delas. Depois disse-lhe: - Descansa mais um bocadinho, eu já volto.
E correu com quanta velocidade tinha, em direcção a casa de Batis. A porta estava entreaberta e ele entrou a grande velocidade por ali dentro. Chegado ao fundo do corredor já havia tombado dois vasos de plantas e ainda embateu numa cadeira que tinha vários livros. Estava com o pêlo todo eriçado e bufava. A atrapalhação nem o deixava pensar. Batis, que estava a arrumar livros numa prateleira, sentiu aquela confusão toda mas nem teve tempo de ralhar ao Zeferino. Primeiro, ainda esteve para lhe pregar um pontapé, mas logo percebeu que o gato, assim agarrado às suas calças e a puxar, queria dizer-lhe qualquer coisa.
- Que é, Zeferino?... mas o Zeferino já estava outra vez à porta, aos pulos e a soprar, dava corridas na direcção de Batis e logo voltava para a rua.
Batis estava intrigado, quando chegou à porta já o Zeferino corria para a floresta. Seguiu-o. Quando chegou ao carvalho grande ainda o Jarbas estava deitado, a miar baixinho. Reparou então que ele chorava. Pegou-o ao colo e regressou a casa. Zeferino vinha atrás, preocupado.
Chegado a casa, Batis pousou Jarbas no cestinho dele e foi ter com a velhinha que morava perto.
- D. Raquel, o Jarbas está bastante mal. Penso que caiu do carvalho grande. Podia ir comigo visitá-lo e dar-me algum conselho útil?
- Vieste em boa hora, Batis, realmente agora tenho tempo livre. Vamos lá ver esse enfermo. Não te assustes. Dos gatos se diz que têm sete vidas.
Quando D. Raquel chegou perto de Jarbas, examinou-o com os olhos e com as mãos. Finda a observação, afirmou:
- Bem te disse, Batis, este gato não tem doença de perigo. Agora, atenção, logo que o Jarbas esteja recuperado, daqui por dois dias, vão ambos a minha casa, precisamos ter uma conversa. É muito importante, não se esqueçam. Fico à espera.
E saiu.

III - Conversa útil

Passados dois dias, Jarbas ainda sentia algumas dores, mas, tal como tinha previsto a D. Raquel, já se encontrava capaz de andar e sentia novamente um grande apetite. E foi ele mesmo, manhã cedo, a lembrar Batis de que naquele dia deviam ir a casa dela. Partiram, logo depois de se prepararem, muito entusiasmados.
Chegaram ao pátio da casa da D. Raquel e já ela os observava da janela. Deitou os olhos ao pau onde o Zeferino gostava de dormitar e disse-lhe:
- Zeferino, acorda e vai esperar as visitas.
Zeferino abriu um dos olhos, enquanto continuava a dormir com o outro, pareceu-lhe que vinha lá o amigo Jarbas, mas foi preciso nova ordem da D. Raquel para o despertar  completamente.
Zeferino desceu, correu para os amigos, aos pulos, antes ainda de lavar a cara. Ficou bastante contente de ver como Jarbas já quase não coxeava.
D. Raquel chamou os três para a saleta de estar. Em cima da mesas estavam uns biscoitinhos, sem açúcar, que ela fez questão de distribuir por todos, dando um pires cheio a cada um.
Depois agradeceu a visita e sem mais demoras começou a dizer o seguinte:
«Meus amigos, em especial meu amigo Jarbas: Temos que aprender a não ser comilões e a saber respeitar todos os seres vivos. Não podemos tratar mal os que são mais fracos do que nós, porque também não gostamos que nos façam mal. E fiquem sabendo que, muitas vezes, aqueles que estão mais desprotegidos, andam tristes e sofrem muito, têm um coração bom e até tratam bem e ajudam os que os fazem sofrer. Olhem que os passarinhos que estão nos ninhos são como os bebés que estão no berço. Precisam de carinho, que os pais lhes dão, como as criancinhas precisam dos cuidados dos seus pais e das pessoas mais velhas. É preciso que todos aprendamos a viver em amizade e em paz.  Aqui o Zeferino, quando era mais novo também fez uns disparates. Mas agora já está ajuizado.»
O Zeferino confirmou, interrompendo a D. Raquel.
- É verdade, Jarbas! E sabes que mais, se não fosse a D. Raquel ter-me dado uns ralhetes ainda havia de ter feito mais maldades. Mas ela soube ajudar-me. Fiquei tão agradecido que lhe pedi para vir viver com ela. Foi desde então que passei a ser o seu gato.
D. Raquel interveio novamente.
- Deixa lá, Zeferino, não te diminuas assim. Afinal tu eras um gato bem fofinho. Eu, se calhar, até fui muito áspera contigo. De resto, o Jarbas também não tem mau carácter. É mesmo um bom gatinho. E eu sei que o Batis lhe ensina coisas boas. Só que ele tem sido um bocadinho estróina. Mas, agora, que apanhou um banho à força e teve uma grande queda vai seguramente aprender a ser mais cuidadoso. É ou não é, Jarbas?
- Pode estar certa disso, D. Raquel. E muito obrigado. - Respondeu Jarbas.
O Jarbas, muito compenetrado, sentia-se feliz com os seus amigos e pensava em como eram bons os conselhos que lhe davam. Deu um pulo, saltou para o colo da D. Raquel e fez-lhe uma festa com a pata.
D. Raquel, muito contente, afagou Jarbas, passou a mão por Zeferino, fez um aceno a Batis e disse:
- Bom, bom, agora todos para a mesa. Preparei-lhes um almoço de que vão gostar.

Filipe Gama, João Gama e José Batista

Em homenagem aos meus filhos, pelo privilégio de ter acompanhado de perto o seu crescimento e pelas alegrias que me têm dado.

José Batista

domingo, 21 de agosto de 2016

Cidade onde dá gosto viver – Leiden, na Holanda

Há espaços que se nos tornam muito agradáveis e onde gostaríamos de viver, mesmo que neles só tenhamos estado alguns dias. Leiden, uma cidade holandesa, possui uma harmonia, uma suavidade, um colorido e uma ambiência maravilhosamente cativantes. Está-se bem lá. E as pessoas de lá parecem sentir-se muito bem na sua cidade, consigo, com os outros, com os animais, que não fogem das pessoas, sejam cães, gatos, gralhas, corvos, pombas, patos ou gaivotas, e com as plantas, trate-se das flores de cores vivas e contrastantes que enfeitam jardins, frentes das casas e margens dos canais, ou das árvores que crescem nos parques, nas praças ou nas ruas, sem aquelas podas “decepantes” tão comuns no nosso país. Vários aspectos merecem destaque, sempre pela positiva.

As pessoas
Muitos bebés e crianças pequenas, de casais jovens, por vezes com três e quatro, muitas crianças de mais idade, jovens e adultos, estatura tendencialmente alta (são vulgares os homens com mais de dois metros – a Holanda tem os seres humanos mais altos do mundo), a maioria dos indivíduos bastante magros e elegantes, gente enérgica, activa, conversadora, tranquila e bem disposta: jovens raparigas deslocando-se de bicicleta, frequentemente aos pares, conversam e riem natural e descontraidamente, durante o percurso, o mesmo fazendo casais ou famílias mais alargadas ou grupos de amigos. Nas instituições, os funcionários são de uma atenção irrepreensível, sendo comum, após o atendimento formal, a amabilidade e a graça de nos desejarem um dia bom e divertido.

As casas
A harmonia das construções, o respeito e gosto pela tradição e pela arquitectura local, os poemas de autores famosos, em várias línguas, em letras garrafais, de alto a baixo, nas paredes mais expostas. Nos pisos do fundo, em certas ruas, é vulgar as janelas não possuírem persianas nem cortinas, e as pessoas, à noite, comem, trabalham ou vêm TV indiferentes a quem passa na rua, assim como quem passa na rua não dirige o olhar para quem está no interior das casas. As frentes, com boas janelas, com caixilhos de madeira, muito bem tratadas e as entradas com flores e plantas aromáticas, são um agrado e um convite a apreciar.

                                                      
Casa com poema de Fernando Pessoa

O colorido
Muita cor viva e contrastante, mas harmoniosa, nas floreiras das ruas, defronte das casas, das lojas, restaurantes, etc. A cor do pavimento, de tijolo vermelho escuro, ou de asfalto de igual cor, em algumas ruas, combina com as paredes das casas em que é usado o mesmo tijolo. No mercado, feito ao longo de muitas ruas, com os canais a meio, as cores contrastantes de flores, frutos, até de doces, azeitonas e queijos, ou mesmo de peixe, fazem lembrar as do mercado do Funchal, só que em grande extensão, pelas vias onde circulam imensas pessoas, cujo efeito, não só não incomoda como é surpreendentemente agradável.

Os aromas
O uso de plantas aromáticas, com destaque para a lavanda e o alecrim, que decoram a entrada de casas, esplanadas, lojas e restaurantes, dão uma ambiência e fragrâncias que dispõem bem.

Os sabores
Excepto o travo amargo das laranjas que provámos, de que, curiosamente, se faz um sumo natural tão bom como o nosso do Algarve, as provas de queijos, azeitonas (de imensas variedades) e compotas, que são grátis em cada tenda da especialidade, no mercado, são deliciosas. Os queijos merecem destaque, tal a quantidade, a variedade e a qualidade. Certos modos de confecionar o peixe, com os molhos que o acompanham, tornam-no saboroso. E as bolachas, bolos e doces do pequeno almoço comem-se bem. Os restaurantes caros, fora do alcance da nossa bolsa, escapam à possibilidade de análise.

Personalidades
Entre as mundialmente conhecidas, basta referir que Leiden é a terra de Rembrandt, filho de um moleiro, e a terra onde Descartes viveu (na bem conservada casa com o número 21 numa das margens do canal Rapenburg). Há muitas outras personalidades famosas para as gentes locais, que as não deixam cair no esquecimento, porque as respeitam e as tomam como referência. Os monumentos, os museus e os espaços públicos demonstram-no elucidativamente.

A Universidade
O antigo (a universidade possui mais de quatrocentos edifícios espalhados pela cidade) e o moderno (estruturas com muitos pisos, outras rasas, com laboratórios, auditórios, refeitórios, espaços para aparcamento de bicicletas e largos espaços envolventes), a pujança da investigação, no passado e actualmente, sempre com os vultos da ciência muito presentes: lá constam, em paredes destinadas para o efeito, as assinaturas de Einstein, Röntgen, Max Plank, Becquerel, Schrödinger, Pascal, N. Bohr, entre milhares de outras… O “Hortus botanicus” – um jardim botânico extraordinário, com colecções de plantas carnívoras muito completas, em estufas enormes, dimensionadas em altura, por falta de espaço horizontal, com exemplos de todo o mundo, fetos de imensas variedades, tantas, tantas que são um deslumbramento, canteiros com todas as Ordens de plantas com flor, cada uma representada por diversos exemplares de várias das suas Famílias, cientificamente designadas e sistematizadas com recurso às modernas técnicas de análise de DNA. Como deve ser produtiva uma aula com alunos do ensino secundário naquele espaço! Mas não se pense que o “Hortus botanicus” está apenas reservado a estudantes e investigadores, nada disso, as suas grandes árvores, as flores, a relva, os circuitos, os lagos, o canal que o bordeja do lado oeste, as aves e os peixes que o habitam são para usofruto de quantos, crianças e adultos, de todas as idades, o escolhem para estudo, deleite, passeio ou descanso.


Universidade de Leiden – um dos edifícios mais recentes.



Estufas do Hortus botanicus – Em primeiro plano três exemplares da planta Amorphophallus titanus, cuja inflorescência pode atingir mais de três metros e setenta e cinco quilos de peso.


Hortus botanicus – canteiro de plantas (cientificamente identificadas) pertencentes à Ordem das Saxifragales

Os moinhos (de vento)
Estruturas emblemáticas, os moinhos serviam para moer todo o tipo de grãos, canela, baunilha, etc., e para bombear a água a fim de secar as terras. A superfície dos “Paises Baixos” (Holanda é apenas o nome de uma das suas doze províncias) situa-se abaixo do nível do mar: o aeroporto de Amsterdão, por exemplo, está cerca de três metros abaixo do nível médio das águas do mar. Outros moinhos serviam para serrar madeira, alguma produzida localmente (como os carvalhos roble, por exemplo), outra importada de muitas e longínquas partes do mundo, via marítima. Grande parte destes moinhos foram conservados como museus, em que pode ser apreciada rigorosamente a maneira como funcionam, facto que, associado à beleza do movimento das “velas” e da paisagem, os torna uma importante atracção turística.


Os canais, as ruas, as pistas para bicicletas e os passeios
Os espaços mais abertos entre as casas têm os canais a meio. Nas margens, os locais de atracamento dos barcos, os espaços para aparcamento de carros e/ou bicicletas, a faixa para os carros, a pista para as bicicletas e, junto às paredes das casas, os passeios para os peões. A largura de cada um daqueles espaços não é grande, mas o desenho está tão bem conseguido e as pessoas usam-no tão bem que não presenciámos qualquer congestionamento, ou queda das muitíssimas bicicletas ou (algumas) lambretas, sequer acotovelamentos dos peões. Igualmente fácil é a deslocação das pessoas em cadeiras de rodas. Tudo muito funcional e bonito e agradavelmente decorado com flores. A atravessar os canais, pontes em arco, também elas festivamente decoradas com cores vistosas, agradavelmente impressivas. O canal com mais tradição é o canal de Rapenburg.


Canal Rapenburg

As bicicletas
Na Holanda diz-se que há mais bicicletas que pessoas e, a quem lá vai, é difícil supor o contrário. Como os terrenos são planos, o esforço é perfeitamente suportável e a velocidade de deslocação bastante considerável. Em muitas bicicletas, para além do condutor, pode viajar uma segunda pessoa adulta (às vezes com um cão que corre serenamente pela trela) ou uma criança, frequentemente um bebé, numa cadeirinha à frente, em certos casos provida de um mini para-brisas (só para a criança). Há também uns triciclos com uma espécie de caixote alongado bastante grande, à frente, onde é possível viajarem duas ou três crianças pequenas ou volumes consideráveis… Muito comum é uma caixa plástica (do mesmo formato exterior mas  um pouco mais pequena que uma grade de cervejas que não tivesse divisórias para as garrafas) à frende do guiador, onde, muitas vezes, viaja um cão, sentado, muito descontraído, como se estivesse no chão.
Este uso massivo da bicicleta tem importantes benefícios:
- permite a prática de exercício, sem perda de tempo, proporcionando boa forma física e elegância do corpo;
- Economiza gastos em combustíveis e em meios de transporte;
- Não polui o ambiente;
- É um factor da economia do país e dá emprego a muitas pessoas.

Os comboios
Os comboios são rápidos, suaves e bastante silenciosos, especialmente no seu interior, excepto nas estações de Amsterdão, onde viajam multidões. Não se vê um assento riscado ou rasgado ou sujidade no chão das carruagens. Viajar entre as cidades de Leiden, Amsterdão, Haia, Utreque ou Roterdão, só para dar alguns exemplos, é muito rápido e confortável. Curiosamente, em alguns comboios, há carruagens com a indicação de silêncio em todos os vidros de todas as janelas, onde os passageiros comodamente podem ler, trabalhar ou apreciar a paisagem e… o silêncio. Pode-se viver numa cidade e trabalhar noutra que o tempo gasto em viagens não será problemático. Outra curiosidade reside no facto de, nas maiores estações, haver sempre um espaço amplo, com um piano de cauda, devidamente afinado, para quem queira tocar e para quem queira ouvir (graciosamente, em qualquer das circunstâncias).

Ausência de pedintes, mendigos ou toxicodependentes
Impressão muito agradável nos ficou das várias cidades que percorremos em que não vimos pedintes, miseráveis, que envergonham as sociedades de muitos países, especialmente aqueles cujos governantes vivem com privilégios escandalosos em relação às pessoas comuns. O mesmo nos pareceu relativamente à exposição de toxicodependentes. Uma lição.

A relação com os estrangeiros
Muito cordial e simpaticamente, em Leiden, como tem toda a Holanda, parece haver lugar para todas as pessoas de todos os géneros de todas as culturas de todas as partes do mundo, sem que isso perturbe ou limite o gosto que os naturais da cidade manifestam pela sua própria cultura e modo de vida.

Adenda 1: Este texto pretende ser uma singela homenagem de apreço e gratidão à bonita e acolhedora cidade de Leiden, à sua universidade e às suas gentes.

Adenda 2: Usámos indevidamente o conceito Holanda, como significando a totalidade do país chamado Netherlands (Países Baixos), por ser a designação vulgar no nosso país.


Filipe Gama e José Batista

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Roçar mato

Afaste-se a gente, mesmo que por poucos dias, do nosso rectângulo, e dificilmente passa um que não vá saber das notícias pátrias: más, quase sempre: seja a política, seja a economia e, em Agosto, os incêndios. Uma ou outra vez, o desporto mitiga, mas nada que aligeire o desencanto comum. A “época dos fogos” é uma dor de alma, um castigo violento e repetido, cuja experiência não nos ensina nada. Sofremos o indizível, queixamo-nos da sorte, invocamos a Providência, mas não fazemos nada para mudar o que, pela nossa inacção, se torna inexorável. Somos avessos ao esforço prévio, racional, rigoroso e paulatino, na construção do futuro. 
Se as temperaturas são altas e a humidade é baixa, semanas sucessivas, e se a floresta (que, entre nós é essencialmente constituída por monocultura extensiva de eucalipto, como, em tempos, já o foi de pinheiro, conquanto nessa altura se cuidasse dos pinhais) não está ordenada nem é limpa e, além do mais, sendo o eucalipto e o pinheiro altamente combustíveis, torna-se uma espécie de “paiol” pronto a deflagrar em cada Estio. Criminosos piromaníacos e madeireiros oportunistas também os há, mas os verdadeiros criminosos somos nós mesmos, os cidadãos portugueses que não praticam e exigem a limpeza, a gestão e conservação das florestas. A nossa exigência devia alargar-se à não (re)eleição de políticos incompetentes e irresponsáveis, que vão destruindo o (nosso) presente e hipotecando o futuro das nossas crianças. 
As políticas em Portugal deviam passar por cortar o mato, pelo menos em certas zonas, desbastar as árvores em crescimento e remover os detritos que, no mínimo, serviriam como adubo vegetal e lenha ou equivalente para aquecimento no Inverno. Este tipo de prevenção talvez ficasse mais barato do que o que se gasta anualmente (e em anos repetidos…) no combate aos incêndios, em aviões, por exemplo, além de poder criar algum emprego. 
Certo que em zonas do interior, despovoadas e envelhecidas, o mato cresce, cresce e envolve perigosamente estradas e habitações. Mas não poderiam os senhores autarcas investir, praticar e exigir mais em limpeza das florestas do que em multiplicar rotundas? O facto de o país carecer, nessas zonas, de braços jovens e adultos capazes de trabalhar, revela também o carácter errado de políticas sociais que encerram centros de saúde e escolas o que, só por si, contribui para a desertificação humana do interior. Sem pessoas, a floresta fica abandonada, à mercê da mais ligeira ignição… 
Daqui por seis ou oito semanas, muitos portugueses sentirão alívio, quando surgirem as primeiras chuvas, altura em que se extinguirão definitivamente os incêndios… deste Verão. E, até ao próximo, seja o que Deus quiser. 
Como se Deus quisesse a nossa desgraça. 

José Batista d’Ascenção 

Adenda: Outro texto do autor, bastante anterior a este, sobre o mesmo assunto pode ser encontrado aqui.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Nota de abertura

O que aqui vai ser escrito será aquilo que por qualquer motivo, em cada momento, quiser(mos) deixar publicado. E ficará como testemunho voluntário (e involuntário…) do que o(s) autor(es) pensa(m) e sente(m) sobre quaisquer assuntos ou temas acerca dos quais queira(m) pronunciar-se. Sem linha directriz sobre as matérias a abordar, escrever-se-á segundo o que a vontade, a sensibilidade e o sentido de reserva do(s) autor(es) ditarem.
Escrupulosamente, estes escritos pautar-se-ão pela ausência de intenção de ofender ou desconsiderar quem quer que seja. Não serão discutidas pessoas, mas pensamentos, acções ou factos que mereçam opinião ou crítica ou despertem a vontade de escrever. Olhar-se-á o mundo pelos olhos do(s) autor(es), com as ferramentas do seu pensamentos, tão só.
A coisa melhor e mais bela do nosso país é a sua língua. Com ela pensamos e somos quem somos. Este tesouro patrimonial evoluiu (muito) ao longo dos séculos e, nos mais recentes, no decurso de décadas. Porque, entre os autores, há os que não compreendem a vantagem ou utilidade (sequer a exequibilidade de propósitos) do (chamado) “Novo Acordo Ortográfico” (acordo de quem com quem, em nome de quem?), respeitar-se-á a ortografia de quem escreve cada texto. Este aspecto é bastante penoso (sobretudo) para quem é professor (do ensino secundário, no caso) e está profissionalmente obrigado ao uso da nova grafia. Donde, seja pelo surgimento de textos seguindo uns o acordo e outros não, seja pelos erros resultantes da confusão que possa haver, se faz transitar a “culpa” para quem impôs novas regras da ortografia sem ouvir os povos que a usam e sem atender às consequências mais prováveis… 
Em suma, o objetivo fundamental do que aqui será publicado é apenas o de poder emitir opinião, que assim fica registada, independentemente de haver (mais ou menos) leitores. Possíveis comentários só serão publicados se observaram as normas (subjectivamente consideradas) de respeito, mas não o serão críticas insultuosas ou malcriadas nem lamechices fúteis.
Eis, resumidamente, a carta de intenções. Fica dito. 

José Batista d'Ascenção