Carreguei no botão e “viajei” para o canal 2. “Aterrei” na música de Joana Gama e foi um bálsamo. Uns minutos de bem-estar. Uma sensação de esperança.
Um obrigado singelo, à qualidade e à beleza da arte de Joana Gama.
José Batista d’Ascenção
disto e daquilo, como elas são e como eu as vejo.
"O livro há-de ser do que vai escrito nele" (...) "por outra parte não se me dá nada que o não leia ninguém"...
(Bernardim Ribeiro)
Carreguei no botão e “viajei” para o canal 2. “Aterrei” na música de Joana Gama e foi um bálsamo. Uns minutos de bem-estar. Uma sensação de esperança.
Um obrigado singelo, à qualidade e à beleza da arte de Joana Gama.
José Batista d’Ascenção
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| Foto de Margarida Machado, colhida no "facebook" |
Há três meses apenas Portugal estava em seca severa. No Verão, os fogos lavraram como é hábito num país que não consegue gerir a floresta desde há muitas décadas e se tornou num imenso eucaliptal, ironicamente, em tempos de liberdade restaurada. A bem das celuloses, mas com danos mortais, e não poucos, e grandes prejuízos materiais e ecológicos projectados para o futuro. Quem viver verá.
Com a entrada do Inverno chegaram chuvas diluvianas intermináveis. Os campos ressequidos e as albufeiras vazias deram lugar ao encharcamento dos solos, às enxurradas violentas, a ruas transformadas em rios e a rios transmutados em mares bravios com as barragens a transbordar. Zonas baixas de cidades e aglomerados habitacionais viram garagens e caves ou lojas de rés-do-chão inundadas com destruição de mobilário, de produtos e de equipamentos. Em muitos casos, estas situações não eram imprevisíveis e só uma certa ignorância conformista entregue à sorte permitia não as recear.
Que diabo: não seria possível instalar depósitos que recebessem a água de beirados, poços que servissem de reservatórios, construir diques (açudes…) em ribeiras e pequenos rios que permitissem reter o precioso líquido durante pelo menos alguns meses de estio em zonas secas, ou mesmo sistemas de transferência de água entre cursos fluviais devidamente estudados, evitando que quase toda a que agora chove se escoe rapidamente para o mar?
Que povo somos?, apetece perguntar. E há quanto tempo somos como somos, com as consequências que sofremos é também interrogação legítima.
Não nos faltam especialistas de todas as áreas, nem académicos e investigadores reconhecidos, mas no concreto, pouco ou nada muda. Sejam engenheiros ou economistas, médicos ou homens de leis, industriais ou agricultores. Quem falha então?
O conhecimento, a prudência, o sentido de responsabilidade, a ética e os princípios, talvez. E a acção dos políticos, seguramente.
O mal é de raiz.
O que falha é a educação e a instrução que não damos [ai de nós, pais!, ai de nós, professores! – que formações da treta nos impingiram e que condições nos impõem] e a falta de rectidão de quem exerce o poder, perante a indiferença ou a conivência de demasiados cidadãos incapazes de o ser.
E isto não se remedeia com salvadores providenciais, que tendem para a negação e destruição da democracia, que entre nós carece de grande aprofundamento.
José Batista d’Ascenção
Um livro sobre a condição humana, com extraordinária agudeza de observação e análise. Uma leitura que prende até à dor. «Realidades» tão vívidas e autênticas que se impõem à sensibilidade do leitor. O bem e o mal. A complexidade, as qualidades, os defeitos e as fragilidades do ser humano. A ironia e a esperança. A dignidade da escrita que não envereda pelo sensacionalismo epidérmico. Que nada esconde, mas que não abusa do grotesco e do dramático. Um tema dificílimo de abordar - o da vida das pessoas mais velhas institucionalizadas – tratado literariamente, sem condescendência, mas sem fossar na desgraça, no sofrimento, na miséria e na maldade.
O enredo não incide sobre a vida em lares onde se acumulam pessoas sem ou de fracas posses, onde o horrível não tem nome, mas é ficção realista de algum modo próxima, tratada com arte, e que vai ao essencial de um problema com que as sociedades europeias estão confrontadas. Um drama que se vai acentuar, com a desproporção crescente entre o número de crianças e jovens e o de pessoas fragilizadas pela velhice.
A vida humana medular que é o que é, em páginas que tocam, perturbam e comovem.
Um grande livro que nos ajuda a olhar para nós próprios, para os outros e para o que a todos espera.
A literatura em muitas e boas páginas, que vale a pena ler.
José Batista d’Ascenção
O Menino Jesus tem uma simbologia profunda e bela (de que arredo a figura do pai-natal, por antipatia). A sua mensagem não é genericamente concretizável, como a realidade histórica (e a natureza das pessoas que intrinsecamente somos) demonstra, mas é um ideal poderoso e nobre, que os humanos de todos os tempos e lugares contrariam ou incumprem vezes sem conta, o que não o desvaloriza, antes o eleva, como meta e desafio.
Rememoro a minha infância na casa pobre dos meus pais, a hipotética prenda no sapato, o apelo à prática do bem e o sentimento de apaziguamento reconfortante da época natalícia que então vivia. A vida repetiu os Natais, acentuando o “psicadelismo” em cada ano e a tendência crescente para o vazio obscenamente consumista da quadra. Mas não destruiu a ideia e a necessidade do Natal no fundo da minha alma céptica e distante.
Agora vêm aí os meus netos e dou por mim a esperar que cheguem. A contar os dias que faltam. Com uma vontade enorme de os abraçar e de os aconchegar no peito e no colo. De os cobrir de beijos. E de derramar sobre eles algo do Natal que sempre permaneceu em mim.
Por estes dias, enquanto aguardo, não caibo na expectativa. Falta pouco. Moderarei a exaltação, na medida do possível, mas não ocultarei o contentamento. Com a necessária sensibilidade, no momento da chegada e depois, não vão os meus netos fartar-se do avô.
Estou de braços abertos, faz muito tempo.
São os Meninos Jesus, por quem espero. Por eles e, claro, pelos meus filhos e pelas mulheres deles.
Eis as minhas prendas.
José Batista d’Ascenção
Hoje, com caudal forte, sonoro, impetuoso e turbulento. Muito bonito. Nas margens ainda há vegetação e alguns animais típicos, pouco visíveis nesta época, também porque há bastantes pessoas em circulação nos passadiços. Ao vivo, uma ou outra lagartixa, nas faces de quartzitos expostas ao sol, uma rapina lá muito ao alto e um esquilo meio dormente, cosido ao tronco de um carvalho, foi quanto vimos. De onde em onde alguns painéis com imagens e texto explicativo dos exemplares mais significativos. Um em particular mereceu a nossa atenção, pela referência à planta liliácea Hyacinthoides paivea, assim designada em «homenagem ao ilustre botânico português Jorge Paiva».
Havia competições de “rafting”, o que terá trazido alguns espectadores.
A paisagem seria globalmente deslumbrante, se, a algumas dezenas de metros de altura relativamente à água, de um e de outro lado, nas margens, até aos cumes, não medrasse um eucaliptal pegado. Na opinião do taxista que nos trouxe de volta de Espiunca a Areinho, onde iniciámos a caminhada (de cerca de 8,5 km), os eucaliptos secam os solos, mas são uma riqueza para os donos. Também são um material propício para os incêndios e desfeiam uniformemente a paisagem, além de não serem favoráveis aos animais que eram típicos da nossa floresta, acrescentei eu. E a conversa morreu assim.
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| Ao centro, em cima, uma "marmita de gigante", em "laboração" |
O trajecto valeu a pena, não tanto pelas atracções que procuram trazer gente que traga dinheiro para a região, como notou o nosso motorista: mais importante é a riqueza que (lá) havia e há, que não se traduz (talvez) em dinheiro vivo, mas que tem elevado valor intrínseco e primordial.
Se o considerássemos como merece.
José Batista d’Ascenção
Se o assunto fosse para graças, diria que também joguei à bola, que nunca perdi por mais de dez e que era frequentemente um elemento desequilibrador, especialmente em desfavor da minha equipa.
Mas o caso é sério. Afinal o que valem os (chamados) «direitos humanos»? E porque é que o futebol é um mundo à parte na justiça e nos negócios?
Bem sei: as pessoas, na sua maior parte, são apaixonadas pela modalidade, entendem-na facilmente, identificam-se com os seus protagonistas e vivem-na de modo intenso, até para esquecerem as agruras da vida e se evadirem do castigo que é sofrer as medidas governativas dos políticos e a violência da subjugação imposta pelos donos do dinheiro.
Já os poderosos e os políticos tiram os benefícios que podem da alienação futebolística: os primeiros através de negócios muitas vezes opacos e os segundos mediante o adormecimento dos eleitores.
Os jogadores de eleição, esses, em número restrito relativamente à globalidade dos praticantes, auferem quantias estratosféricas, muitas vezes fugindo ao pagamento de impostos.
Que importa que o dinheiro envolvido seja de proveniência duvidosa e que finte as regras das finanças? Pior, qual é o problema de entregar a organização de campeonatos mundiais a países corruptos e sem o menor vestígio de respeito pelo que deviam ser direitos inalienáveis dos cidadãos, especialmente das mulheres e das pessoas desconsideradas por preconceitos sociais? Não importa nada. Não há problema nenhum.
Antes pelo contrário: falam-nos de patriotismo, de apoio aos nossos atletas, da importância de projectar o nome de Portugal no mundo.
É diverso o meu conceito de patriotismo. E gostava que o nome do meu país se tornasse relevante por outros motivos, como seja o da exigência de um módico de ética e de respeito por quaisquer pessoas.
Daí que não entenda nem aceite que vão a correr para o "Catar" (que raio de nome!) o presidente da república, o presidente da assembleia da república e o primeiro-ministro.
Mesmo que Portugal ganhe a competição, o ganho será à custa de valores maiores que esquecemos. E, ganhe quem ganhar, será uma legitimação do país anfitrião em que vigora um regime político execrável, com a colaboração de todos os que participam.
O que retirará dignidade ao vencedor, brilhante e merecedor que seja, quer se queira quer não.
Pertenço ao grupo dos que não rejubilarão, na hipótese de não ser o único.
José Batista d’Ascenção
Adenda: Uma palavra de apreço aos corajosos, futebolistas ou jornalistas, que, no "palco", têm assumido posições de crítica e de defesa dos direitos humanos. Muito merecidamente.
Em dia chuvoso, a luz natural é parca e cinza. O interior da casa, mesmo com persianas e estores levantados, fica numa certa penumbra. O computador revela, afinal, fraca autonomia, que não vai além de duas dezenas de minutos. E o que havia a fazer requeria umas imagens a colher na “rede”, que ficou inacessível.
Fica-se sem saber o que fazer. O desconforto é mais acentuado porque a situação se prolonga por horas.
O almoço não pôde ser preparado, o que obrigou a alternativa pouco consoladora. O portão da garagem teve que ser aberto e fechado manualmente, o que se tornou incómodo devido ao hábito adquirido.
Enfim, uma manhã decepcionante, que nem a leitura, como recurso, compensou. É muito difícil abdicar das rotinas de conforto da nossa vida de dependentes consumistas.
E veio-me ao pensamento a vida de pessoas como a das que vivem na Ucrânia (sujeitas a uma operação militar especial de invasão e destruição assassina), mas também a dos pobres, do meu e de todos os países, que não têm pão, nem casa, ou que, tendo-a, só nela abunda a miséria da falta de tudo.
Que sorte eu tenho.
José Batista d’Ascenção