domingo, 26 de setembro de 2021

O (meu) voto nas autárquicas

 

Calhando a passar, em cima dos traços horários das oito, debitados na rádio, frente à assembleia de voto da freguesia onde moro, foi com muito gosto que logo fui cumprir o meu dever cívico. Estava tudo a postos, fui dos primeiros e despachei-me num rápido.

Custou muito a muitos a conquista da liberdade e, com ela, a oportunidade de votar. Isto, em si, é um bem sem preço.

Mas a nossa democracia funciona bem? Eu penso que não. E de quem é a culpa/responsabilidade? Em minha opinião é nossa, dos cidadãos, que, demasiadas vezes, somos pobres em matéria de cidadania. Chegados aqui, o que devia funcionar melhor, para a cidadania ser mais efectiva?

Penso que, em primeiro lugar, é a resolução da pobreza. A pobreza impede a liberdade e a cidadania plena. Depois, entre vários factores, há o papel sofrível da escola. Em meu entender, a escola perde-se no seu papel promotor da qualidade e da elevação social quando não prepara bem os alunos. E não tem preparado bem grande parte deles, sobretudo os filhos dos (mais) pobres.

Quando às opções de voto, custa-me que a propaganda vá ao ponto de prometer o que não compreendo, como a «instalação de um espaço de diversão e treino para animais de estimação (cães)» ou a mudança de piso de uma praça em que passo todos os dias e que não me parece que careça de tal mudança…

A dívida do país é grande, os recursos são escassos (mesmo que nos acenem com milhões a haver…) e deviam ser aplicados com critério e parcimónia.

Parece-me, aliás, que se devia valorizar, entre nós, a possibilidade de os presidentes de junta de freguesia desempenharem a função «pro bono», especialmente naquelas em que o número de habitantes é bastante reduzido. Havendo muitas pessoas reformadas com boa formação e em boas condições de saúde, talvez a sua generosidade pudesse fazer bem às contas públicas e pusesse tino nos gastos e ponderação em certas obras (como as tradicionais rotundas) e em muitas acções, como passeios gratuitos injustificados.

Em qualquer circunstância, não prescindo de votar, e ponho a cruz nas possibilidades que me parecem melhores. Ou menos más.

Sempre com o gosto especial da liberdade.

José Batista d’Ascenção

domingo, 19 de setembro de 2021

Jovens (portugueses) que partem

Pronto: agora todos os meus filhos e netos são emigrantes. O filho mais novo partiu hoje, depois de quatro anos a trabalhar (no domínio da informática). Eu e a mãe fizemos questão de levá-lo ao aeroporto. Regressámos há pouco, algo silenciosos. Ambos pensativos, pela minha mente passava o atractivo de um bom contrato, salário relativamente alto, subsídio mensal de transporte, primeiro mês num hotel e uma equipa a procurar-lhe possibilidades de habitação, de que escolherá a mais conveniente, subsídio para instalação na habitação e outras gratificações. Como podia ele ficar? Já ganhava tanto como eu, que trabalho há 37 anos (e sou privilegiado, no meu país, porque tenho trabalho e porque ganho o que muitos não aspiram a ganhar…), mas o que lhe oferecem é irrecusável, realmente. E ele vai-se embora, e há um vazio no peito que não sei como preencher. A minha mulher, no banco da direita, vinha toda ocupada a disfarçar a tristeza da despedida. Ela que não tem qualquer consideração pelo dinheiro, nem espírito para fazer mealheiros: trabalha muito porque gosta e para se sentir viver, não para luxos com que cubra o corpo ou ostentações de qualquer tipo, mas viajar, ler, ver cinema, comer bem em sítios bonitos valem, no seu critério, o que for preciso pagar. É assim. Por isso entendia que o nosso benjamim ganhava bastante bem, e preferia tê-lo por perto, indubitavelmente.

Tacitamente, ao regressar a casa, eu e ela fomos para lugares diferentes, onde habitualmente trabalha cada um, e não falámos na despedida de hoje. Nem falaremos, por ora. Temos o direito de fugir ao assunto.

Eu vingo-me aqui, nestas palavras, que ela não sabe que estou a escrever. Ao Filipe não direi que as escrevi. Mas apetece-me gritar. Gritar que estou mais só. Que me faltam o conforto e as asas do sonho. Que me vão faltar abraços reais, de que tanto preciso. Que não suporto a perda do luxo que era sentar-me no sofá e adormecer ao som da música do piano, pelos dedos do meu rapaz, aquele que ainda não tinha fugido. E também vou sentir a falta de apoios materialmente úteis e reconfortantes. Quem vai agora desemburrar-me quando o computador não colaborar comigo? Quem se vai preocupar com as minhas viagens mais longas de carro, e sempre pronto para me aliviar do “stress” do volante? Onde vou eu compensar o prazer de, manhãzinha, aos fins-de-semana, dispor a mesa como se ele tomasse o pequeno-almoço comigo, mesmo que, quase sempre, só se levantasse a tempo do almoço?

Não é a hora de invectivar as condições sócio-económicas do país nem a acção dos políticos. Não era razoável, nem nada adiantaria.

Como não adianta este registo, que é apenas um lamento pela partida do meu menino mais novo.

Boa sorte, meu filho.

José Batista d’Ascenção

sábado, 11 de setembro de 2021

Antes que o dia acabe, dois pequenos apontamentos…


A minha homenagem, com apreço muito sentido, ao Presidente “cenourinha”, que ontem nos deixou. Um Homem Bom. E a delicadeza e a coragem e o respeito pelo outro - particularmente o desprotegido - em pessoa.


Obrigado, Jorge Sampaio.



A recordação do ataque às “Torres Gémeas”, que a criança que o meu filho mais novo era, à data, viu e registou como foi capaz na imagem ao lado.

O mundo tornou-se pequeno, é certo, para a estupidez humana. Mas cabe-nos viver nele. Todos. Se o permitirmos.

Viva a liberdade!

José Batista d’Ascenção

domingo, 5 de setembro de 2021

«Quem disse à estrela o caminho que ela há-de seguir no céu?»

Pertencemos à Natureza, que só muito parcialmente compreendemos. Somos feitos dos mesmos átomos de todas as coisas, que, ao longo do tempo, por evolução, se organizaram até às estruturas (cérebros) que sentem e pensam e sonham e decidem e resolvem (ou complicam…), mas não sabemos a razão última porque é assim nem para que é assim.

Somos da Natureza, mas não dominamos a Natureza. Emergimos nela/dela, alteramo-la, contudo, e podemos modificá-la (como estamos a fazer) até ao extermínio da nossa e de muitas outras espécies tão complexas como nós, os humanos.

Consideramos na Natureza, como em nós, o bem, o bom e o belo, o mal e o horrível. E o belo pode ser horrível, como o horrível é tantas vezes belo, se visto pelos que o não sofrem, ao tempo que acontece e em tempos posteriores.

Poalha das estrelas, nada do que somos escapa ao “débito” da mãe Natureza. E a Natureza cobra-o em algum momento, aos viventes ou aos vindouros.

O caótico das nossas acções soma-se até às consequentes resultantes que ocorrerão em tempos e lugares que, na maior parte dos casos, não sabemos prever.

Somos interrogações que nem sabemos formular. E a invocação de Deus(es), só no íntimo de alguns alcança respostas ou a convicção delas.

Sobra o mistério. Não obstante, os caminhos que caminhamos carecem de sentido, de que somos capazes ou não.

Por isso, não podemos dispensar-nos da busca. E de caminhar.

Valha-nos a ciência. E a poesia. Para além do mais.

Donde, a Escola ser fundamental.

José Batista d’Ascenção


PS: o título deste texto são dois versos impropriamente roubados a Almeida Garrett.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

«Clarissa», de Erico Veríssimo – releitura, 46 anos depois

Nos dias deste Verão, em que passei revista a uma série de livros da minha adolescência, ficou-me na mão a «Clarissa», de Erico Veríssimo. Li umas passagens, de imediato umas páginas e logo o reli por inteiro, sem parar. Uma escrita simples, clara, escorreita que deixa ver à “transparência” a alma das personagens. Em que é agradável ler que «a vida tem momentos brilhantes que compensam a dor de viver», em que se faz registo do «cheiro a terra molhada» em que se escreve que, no mapa, «a Itália, como uma bota de coral», aplica «um pontapé na Sicília». Alice Vieira, diz desse livro, no jornal «Público» de 14 de Agosto (pg 55) que lhe «ensinou que não é preciso uma grande história para se escrever um grande livro.» E se ela o diz…

Reli palavras muito em uso na aldeia da minha infância, no interior da Beira Baixa, e que desapareceram do léxico, como: «espichar», «estabanado», «estralar», «cisco», «encrencado», «gandaia» «desinquietos» e outras do vocabulário do Brasil, que então não conhecia.

Foi uma das obras que li para a disciplina de Português, no liceu (em Castelo Branco). E ficou-me na lembrança.

Hoje, não conheço escritores que escrevam assim. Alguns há que parece tudo fazerem para não serem entendidos. E eu faço-me o favor de não os ler.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Marcas do tempo em espíritos brilhantes

Nos dias que correm, tornaram-se vulgares as referências ao carácter “racista” de muitas obras de artistas maiores da História da humanidade. Também a protecção dos animais se tornou um assunto importante para cada vez mais pessoas, e ainda bem, pese o possível desconforto de certos bichos, que não podem fugir às consequências do amor mais ou menos bem resolvido que os seus donos lhes dedicam.

Acontece que cada autor, enquanto ser humano, é sempre um produto modulado pelos padrões sociais, culturais e educacionais do seu tempo, e das suas aventuras de vida, face às possibilidades que as condições biológicas (a genética, a neurofisiologia, a alimentação, a saúde…) determinam ou permitem. Inescapavelmente.

Vem isto a propósito de uma das minhas leituras de férias, «O Retrato de Dorian Gray», de Oscar Wilde. Pois li com desconforto a opinião de uma das suas heterodoxas e brilhantes personagens sobre as mulheres, em várias passagens. Trata-se de preconceitos tão taxativos quanto infundados, numa obra literária de grande fôlego - «O mais importante romance de Oscar Wilde» - lê-se na capa, por debaixo do título (Publicações Dom Quixote, 1ª edição, 2003). E surgiu-me a dúvida sobre se tais opiniões são (apenas) da personagem ou do próprio autor, mesmo descontando o seu apego ao cinismo, ao sarcasmo e à ironia. O mesmo senti sobre as relações amos-criados, em que estes são tratados mais como autómatos ou coisas do que como pessoas, pessoas de quem se aprecia «a plácida marca do servilismo» (pg 175).

Recentemente, li algumas referências aos registos de S. Paulo sobre a posição dos homens e das mulheres no casamento. Umas condenando, outras defendendo. Ora, poucos opinadores são capazes de situar o apóstolo no seu tempo, por incapacidade ou falta de habilitações, ao contrário do que faz brilhantemente o académico Frederico Lourenço, em textos de luminosa profundidade. Tem tanto sentido acusar(mos) o Santo de desprezo pelas mulheres como acusá-lo de não se opor à escravatura…

Ou seja: tendemos a olhar o passado com os olhos e o pensamento do presente e a julgá-lo pelo prisma que nos é imediato ou conveniente. Acontece que é desejável algo mais para um entendimento esclarecido.

Que às marcas do tempo nem os santos escapam.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Pequeninas coisas do que fui sendo e sou

Por estes dias rumei ao sótão da casa da minha mãe, na aldeia, e decidi-me a abrir o “sarcófago” onde, há dezenas de anos, jaziam elementos escritos importantes na minha aprendizagem e na minha formação. Lá estavam “preciosidades” como as provas de treino e de avaliação da escola primária, algumas atacadas pelas traças, os cadernos diários das diferentes disciplinas dos tempos do liceu – o Liceu Nacional de Castelo Branco -, os “Cadernos de Educação Popular” e outros fascículos, revistas e livros com pendor político, que “estudei” avidamente na adolescência, na sequência da inebriante festa da liberdade, que foi o 25 de Abril de 1974.

Sempre tive uma grande atracção pelos ideais políticos e pela «coisa pública», diametralmente oposta à opinião repulsiva que ia formando sobre a acção de grande parte dos líderes e protagonistas, desde então até hoje. Por um lado a esperança funda num caminho de progresso da humanidade e, em particular, da sociedade portuguesa. Por outro, a realidade, no modo como em cada tempo a fui (vi)vendo, sempre a frustrar-me as expectativas.

Mas os tempos de hoje em Portugal são melhores, incomparavelmente melhores, do que a vida miserável do país, naquela altura e antes disso. Em termos gerais, naturalmente.

Acalentei o sonho de que a Escola havia de resgatar o povo português, na sua preparação e mentalidade - um atrevimento e uma ilusão.

José Batista d’Ascenção