sábado, 10 de janeiro de 2026

Num mundo instável, que papel para os humildes cidadãos?

Velho que me sinto há anos, olho perplexo a humanidade. O mundo é como é (e nunca foi melhor, nem sequer tão bom para uma larga fatia de seres humanos), apenas está cada vez mais tóxico (em múltiplos sentidos) e imprevisível, o que impõe esforços de serenidade e lucidez. Que podem fazer os cidadãos comuns?

Sem pretender expor receitas - tomara eu «azeite para a minha candeia» - nem ser exaustivo ou hierárquico, parece-me que:

- não podemos descrer da humanidade, da parte boa das muitas pessoas que procuram o melhor para si e para o próximo;

- é preciso ter princípios, respeitá-los e não ter receio de os assumir (no meu caso, os valores dos evangelhos são a matriz fundamental, de que dispenso a prática ritualizada de convenções socio-religiosas);

- é imprescindível educar as crianças pelo exemplo e segundo normas democráticas de deveres e direitos, com elevado respeito pelos direitos humanos consignados na carta das Nações Unidas;

- cada cidadão deve obrigar-se a um desempenho profissional dedicado e com rectidão;

- devemos ser compassivos e valorizar a humildade nas acções em proveito próprio e/ou de outros;

- não se deve desistir daquilo em que se acredita, pessoal e socialmente, da verdade dos factos e da lisura de procedimentos, mesmo (ou sobretudo) em situações de fragilidade ou desvantagem;

- a relação com a Natureza e as comunidades vivas deve ser de integração harmónica para não degradar o planeta, que é a (única) casa comum em que as espécies, incluindo a humana, poderão continuar a viver (ou não).

E quando a morte me levar, que reste algum contributo meu para um mundo melhor do que o que encontrei quando nasci.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A lei dos mais fortes num mundo sem princípios nem compaixão

De modo geral, os movimentos sociais não ocorrem por princípios nem por boas intenções, o mundo das pessoas (e os ideários políticos) move(m)-se por interesses e por paixões. Já escrevi isto várias vezes e não consigo desmentir-me a mim próprio.

Mesmo a democracia, o menos mau de todos os sistemas políticos, parece ter saturado as pessoas, que descrêem dela, a contrariam nas suas práticas e optam em liberdade por regimes autoritários.

Claro que há razões objectivas que contribuem para que assim seja, mas isso não explica tudo. É como se no âmago das pessoas houvesse alguma tendência para o abismo e a violência, tantas vezes expressa cegamente em raiva e ódio destruidores da harmonia mínima vantajosa para todos.

As experiências traumáticas ensinam, mas a força desses ensinamentos só tem eficácia preventiva sobre a maioria dos que os sofreram e deles guardam memória: casos das guerras mundiais, das explosões das bombas nucleares, da guerra do Vietname, etc.

As gerações vindas a seguir, que pais e avós protegem tanto quanto podem e que são educadas em ambientes que cultivam a paz, tornam-se algo insensíveis, como se os relatos ouvidos, os filmes vistos ou o que devia ser a aprendizagem nas escolas se tornasse longínquo e pouco real ou credível, deixando de ser relevante.

E então, de novo, as sementes da agressividade germinam, crescem e desenvolvem-se, qual pasto para futuras chamas de ódios e guerras ferozes, que podem começar no exercício livre de escolhas políticas mediante eleições.

Pela parte que me toca, e com muita pena, porque diz respeito à profissão que escolhi e a que me dediquei, vejo na educação formal e no papel da escola um enorme falhanço. Tendencialmente, as teorias da aprendizagem desenharam realidades fictícias, propuseram metodologias absurdas, denegriram a memória, cultivaram a falta de humildade e diplomaram a ignorância. Professores, pais, avós e a comunidade começaram a pagar o “preço”. E as vítimas finais são os adultos que foram crianças que não soubemos ensinar.

Obviamente, há uma minoria que escapou aos efeitos deletérios.

Será que esses vão conseguir resgatar a massa restante?

José Batista d’Ascenção

domingo, 4 de janeiro de 2026

Novo ano, novos danos, nova esperança no(s) ser(es) humano(s)

Para aonde vai o mundo?

Na Ásia, o criminoso Putin está cada vez mais ancho. A vida sorri-lhe, para mal dos que domina e dos que pretende vir a subjugar.

Mais a Sul, a China desenvolve-se económica, técnica e cientificamente e estende-se cheia de confiança. Macau é “fagocitado” e nele cada vez menos vestígios lusófonos restarão, muito menos resquícios de democracia. Taiwan será incluída na China sem apelo nem agravo. Da Coreia do Norte nem vale a pena falar.

Além Atlântico, o megalómano e mentiroso Trump faz da América Latina o seu quintal. Não englobará Brasis e Argentinas, até pela dimensão, mas aniquilará Venezuelas e «arredores». Ameaça despudoradamente o México, “deglutirá” (também) a Gronelândia e o mais a que a demência o conduzir.

A Europa parece um continente abúlico, incapaz de proclamar e defender bem alto os seus valores, com líderes baços e acobardados.

As Nações Unidas são uma organização pobre e triste, bloqueada pelos poderosos membros permanentes do conselho de segurança, à vez, consoante os interesses de cada um, no retalhar impune do mundo.

Portugal é um grão irrelevante no desconcerto das nações.

E até eu, hoje, ao sair de casa apressado, para chegar a tempo ao almoço com familiares, despedi sumariamente um pedinte jovem de tez morena, que já não é a primeira vez que vejo à minha porta. Nada lhe dei. Enquanto saboreava a comida, lembrei-me dos olhos tristes daquele indivíduo e senti-me menos merecedor do pão de cada dia.

A humanidade tem remédio? Penso nos meus netos e digo (a mim) que sim.

Mas não tenho a certeza.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Ciganos

Nascido e criado numa aldeia do interior da Beira Baixa, sentia receio dos ciganos nómadas, como todos os meninos, porque as referências àquelas pessoas eram sempre negativas. Exceptuavam-se os ciganos que vendiam nas feiras, os quais, nesse contexto, eram tendeiros como os outros, livres de anátemas. Assim o recordo.

Em Outubro de 1973 fui para Castelo Branco, frequentar o liceu. Morei dois anos na rua d’Ega, que sobe da rua dos Ferreiros, em cujo extremo sul viviam famílias ciganas. O cruzamento frequente com ciganitos na rua não atenuou os meus receios, que eram comuns aos dos jovens com quem eu convivia, todos nós procurando distância, para evitar roubos e violência, nunca acontecidos, o que atribuíamos à nossa inteligente precaução.

Já casado, e pai, vivi 16 anos no bairro de Santa Tecla, em Braga, numa rua contígua ao «bairro dos ciganos». Tinha o hábito de ir à pastelaria Baía, a 20 metros da porta, e ali me demorava, tomando café e lendo o jornal, confortável, muito pela simpatia da D. Alice e do Sr Jorge, que exploravam o estabelecimento, diariamente frequentado por ciganos. Certo dia, quando ia pagar, nada devia. Um senhor cigano dirigira-me imerecida boa acção. Fiquei a saber que se chamava Sebastião. Noutra altura, naquele café e na mesma mesa, alguém me tocou no braço e perguntou delicadamente se o fumo de cigarro me incomodava. Era o Sr Sebastião. Naquele tempo fumava-se em qualquer sítio e quem estivesse mal que se mudasse. Ora, eu, que já então era um “activista” escolar anti-tabaco, compus o melhor sorriso e disse ao Sr Sebastião que não me incomodava nada, que estivesse à vontade. E ele esteve: de cigarro na mão, ainda por acender, foi fumar para a rua.

Porém, nem tudo era tão harmonioso na relação – ou falta dela – entre ciganos e não ciganos. As acções podiam não ser harmónicas e pressentia-se que o sentir profundo de uns e outros carecia de confiança e placidez.

Mudei de morada, decorreram vinte e tal anos e nunca mais vi o Sr Sebastião.

A todos, não ciganos e ciganos, um Bom Natal.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Estão quase a chegar

Um dos brinquedos que
 fiz para os meus netos

Estão quase a chegar, os meus netos. Estou que não me tenho. A avó está tal e qual. Nenhum de nós disse nada ao outro sobre o seu estado de espírito. Mas, se eu noto nela, ela deve notar em mim.

São emigrantes, os meus filhos e os meus netos. Não são emigrantes como os meus tios e primos foram, mas não deixam de ser emigrantes. Eu quero que os tratem com respeito, lá pelas terras onde moram e pelos sítios aonde vão. Por isso, vejo com olhar de bondade os imigrantes que se instalaram no nosso país, por mais e diversos que sejam. Quer-me parecer que os problemas que sinto, desde sempre, na educação, área em que procuro servir, ou os da saúde, que tão desorganizada anda, ou os da habitação, em que se praticam preços escandalosos, são bem anteriores à onda migratória que se espraiou (também) por Portugal.

A época do calendário em que estamos é propícia aos sentimentos de paz e compaixão. Há agora quem ataque a empatia, quando, a meu ver, ela se tornou (ainda) mais necessária do que antes.

Aproximam-se os meus netos. Sinto-o com exultação. Com eles e por eles, apetece-me abraçar o mundo e, especificamente, quem queira o meu abraço.

Feliz Natal.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

«Braga Natural»

Não recomendo prendas de Natal, nem de qualquer outra época. Muito menos se e quando os preços dos possíveis presentes não são propriamente módicos. Nem mesmo quando se trata de livros, de bons livros.

Que o tempo dos livros para “enfeitar” estantes já lá vai (embora não em todos os casos...).

Eu sou dos que gostam de livros. Tanto que não posso comprar todos os que queria: nem tinha dinheiro, nem tinha tempo (de vida) para os ler.

Um livro que gostei de ter nas mãos, por várias vezes, foi o livro «Braga Natural», com fotografias de João Ferreira, textos de Daniel Santos e fotografia aérea de Filipe Soares, prefaciado pelo vice-reitor da Universidade do Minho, Hernâni Gerós. A edição é do Município de Braga, de Junho de 2025.

A obra tem impressão de qualidade e dá uma excelente ideia da fauna e da flora do concelho de Braga. Pena o preço não ser convidativo para a generalidade dos munícipes.

Em futuras edições, que eu desejo que haja, duas gralhas devem ser corrigidas: os nomes científicos do sobreiro -  árvore símbolo nacional de Portugal desde 2011 - que é «Quercus suber» (e não «Quercus sobur», ver páginas 30 e 90) e de um abelhão polinizador, que se designa «Bombus terrestris» (e não «Bumbus», ver páginas 123 e 193).

Mais um desejo: convinha que a edilidade disponibilizasse o livro a um preço mais acessível. 

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Poesia, Ciência, Sentimento

O nosso poeta maior viveu no século XVI e publicou a sua obra épica há mais de 450 anos (em 1572). Senhor de extraordinário talento, servido por uma memória prodigiosa, curioso, culto e erudito como poucos no seu tempo, vivia a vida com uma intensidade só ao alcance de espíritos decididos. As suas qualidades e o seu virtuosismo poético e intelectual, o gosto e o afinco pela composição poética, deixaram-nos uma obra ímpar, em versos líricos e épicos.

Camões foi único pela vastidão, originalidade e subida qualidade da sua obra, o que não significa que não tenhamos tido no passado, como temos no presente, e teremos seguramente no futuro, outros vates de grandeza universal. Isso também o engrandece.

Os estudos sobre Camões e sobre a obra camoniana serão sempre bastos e não se vê que possa esgotar-se o manancial, tão rica é a fonte de que brota. Haja curiosidade, sensibilidade, conhecimento e talento para abordagens originais, úteis e, tanto quanto possível, belas. Assim mesmo, poucos se abalançariam a estudar as plantas – todas as plantas – em toda a obra de Luís de Camões. «Grande nau, grande tormenta» – versejou epicamente o próprio. «Colossal desafio, trabalho em que porfio» decidiu Jorge Paiva.

Decidiu e não desistiu. À sua análise não escapou árvore, arbusto ou erva, folha, flor ou fruto da poesia de Camões. Tudo esquadrinhou em cada verso: os termos, os conceitos, a rima, a métrica e as suas implicações na escolha das palavras relacionadas com espécimes vegetais. Do vasto edifício dos seus conhecimentos sobre botânica, a que se dedicou sem interrupções ao longo de uma vida longa e profícua, o especialista das plantas adentra-se nos labirintos da elaboração poética, na riqueza e beleza da polissemia, no rigor da expressão que serve múltiplos significados, na elegância do versejar, e extrai de tal mundo a decifração clara, exacta e fundamentada dos muitos e variados exemplares de vegetais, que coloca à disposição do entendimento e das vivências dos comuns mortais. E então ficamos a saber de que plantas se trata, porque são umas e não podem ser outras, seja pelas suas características, seja pelos nomes que na altura lhes eram dados ou fosse pela geografia que então era conhecida ou por onde se viajava. A poesia camoniana, se não fica mais poesia, fica mais entendível, logo mais bela, com o contributo de Jorge Paiva. E mais vasta (ou mais alargada) aos nossos olhos. E mais profunda. E mais original. E mais vivida. E mais nossa. Nossa de todos os que a lêem.

O curioso nisto é tais acréscimos virem de um botânico, sendo que dificilmente poderiam vir de algum especialista de quaisquer outras áreas. Nem mesmo poderia vir de um botânico qualquer. Neste caso, o botânico que elucida a obra poética é ele, também, um poeta à sua maneira. Um poeta da Natureza. Um príncipe de sensibilidade. Um ser humano de enorme generosidade.

A quem se agradece mais esta lição que é o livro «As Plantas na Obra de Camões».

Com carinho e admiração.

José Batista d'Ascenção