sábado, 29 de dezembro de 2018

Livros que devíamos ler, enquanto é tempo

«Fascismo, um alerta», de Madeleine Albright (Clube do Autor)

De leitura e compreensão fáceis, a mensagem deste livro parece-me urgente. A autora, com uma extraordinária experiência de vida e de acção política, imensa cultura e profundo e amplo conhecimento, nalguns casos pessoal, dos líderes do mundo desde há cem anos, analisa os perigos políticos da actualidade, abanando-nos para a possibilidade de se resvalar em grande escala para horrores que lembram o que aconteceu no século XX, com líderes como Mussolini, Hitler, Franco, Estaline e outros, e que continuam ou ressurgem no presente, sob outras cambiantes, às mãos de Putin, Duterte ou Kim Jong-un  - «verdadeiro fascista» (pg. 297) -, para referir apenas alguns dos muitos exemplos analisados por Madeleine Albright. 
Um dos motivos fortes da escrita do livro resultou da eleição de Trump: «Se pensarmos no fascismo como uma ferida do passado que estava quase cicatrizada, colocar Trump na Casa Branca foi como arrancar o penso e remexer na crosta.» (pg. 21)
A autora caracteriza o fascismo e o modo como os líderes fascistas tom(ar)am o poder, até pela via democrática (Hitler foi eleito), para depois o ampliarem sem medida, por todas as formas, incluindo a violência fria e cruel, sem contemplações nem escrúpulos nem remorsos.
Donald Trump: um perigo para a democracia
Para Madeleine Albright, o chamado populismo é quase inevitável em democracia e, em si, não reside mal de maior. A democracia é que carece de ser acarinhada e valorizada sem interrupções pelas sociedades onde existe e que são aquelas onde se atingiram melhores níveis de vida e de realização humana em liberdade.
Curiosamente, na actualidade, a circulação fácil da informação, muita dela falsa, mas baseada no conhecimento do que os indivíduos com sentimentos de injustiça e de revolta querem ouvir, devido à imensa recolha de dados pessoais por via digital, colocam em xeque os dirigentes democráticos que não conseguem «refutar histórias que parecem saídas do nada e foram inventadas unicamente para acabar com eles» (pg. 146). «Estamos acomodados. Mesmo os demasiado preguiçosos para ir votar sentem que é seu direito inato atacar por todos os lados os representantes eleitos.» (pg. 147)
Segundo M. Albright, «os déspotas raramente revelam as suas intenções e (…) os dirigentes que começam bem com frequência se vão tornando tanto mais autoritários quanto mais tempo permanecem no Poder» (pg. 151), situação agravada pelo facto de as medidas antidemocráticas serem «muitas vezes bem recebidas pelas pessoas, sobretudo quando se destinam a favorece-las.» (ibidem), razões por que não devemos abrandar a vigilância.
A União Europeia está hoje sujeita a nacionalismos extremistas. Foi o medo de que o fascismo voltasse «ao continente onde nasceu que estimulou o esforço de integração europeia, mas as origens desse sentimento têm mais de setenta anos, e as ansiedades, tal como os seres humanos, acabam por mostras a idade.» (pg. 217) O problema dos migrantes e refugiados agravam o problema. M. Albright conhece-o desde há muito: «Eu sou uma refugiada, mas uma refugiada com sorte. (…) não respeito os políticos que [servindo-se do tema] tentam ganhar votos lançando o ódio.» (pg. 225)
Contrariamente à prática de Trump, que considera o mundo «uma arena onde as nações, os agentes não governamentais e os empresários se confrontam e competem para obter vantagens» (pg. 263), M. Albright contrapõe que, «embora seja certo dizer que o mundo não é exatamente a Rua Sésamo, é um lugar onde todos os países têm de viver. Reduzir a nossa existência a uma luta competitiva para obter vantagens entre mais de duzentas nações não é lucidez, é miopia.» (ibidem)
Uma súmula do livro mais precisa do que o texto acima encontra-se na badana da capa. Assim mesmo não quis deixar de o escrever.

José Batista d’Ascenção

PS: O chamado «novo acordo ortográfico» leva ao uso de expressões como «violência setária» (pg. 131) e «luta setária» (pg. 138) o que me fez acudir à ideia conflitos com… setas. Também a frase: «Isto para o processo de aprendizagem e cria uma audiência» (...),  (pg. 285) me obrigou imediatamente a voltar atrás, para relê-la. Quando é que o dito acordo será revisto, pelo menos?

sábado, 22 de dezembro de 2018

Tradições de Natal, mas não apenas

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Na manhã de hoje, poucos minutos antes das nove, ouvia na rádio (rdp-antena 1) uma senhora falar com entusiasmo do maior madeiro de Natal de Portugal, que há-de ser queimado a partir das 00horas do dia 24 de Dezembro até aos Reis, na vila de Penamacor, na Beira Baixa. É o cumprimento da tradição, afirmava a senhora. Segundo as suas palavras, os rapazes de vinte anos, munidos de todas as ferramentas e com o apoio da Câmara Municipal e a cedência de maquinaria e meios de transporte pelas empresas da região, arrancam e cortam «uma sobreira» (um sobreiro grande) e transportam-na para o adro da igreja, onde vai fazer parte de uma pira gigantesca, de que brotarão chamas que ultrapassam a altura do cume dos telhados, continuando depois a arder durante catorze dias. Todo o trabalho é feito de forma gratuita e a energia gasta tem por fim a confraternização e o encontro de uns e de outros: os que são da terra e nela vivem e os que emigraram para o estrangeiro ou se deslocaram para as grandes cidades do país e retornam cheios de vontade ao conforto das suas raízes. A todos eles acrescem os que vão impressionar-se com tamanha fogueira e participar dos festejos e da camaradagem das gentes generosas e das fartas e deliciosas comezainas da ocasião. O entrevistador falava das «tchouriças» assadas no brasido e saborosamente repartidas pelos convivas.
Por detrás de tal manifestação festiva e do apego à tradição, há também a vontade de a transformar num cartaz turístico, chamar pessoas, fazer algum comércio, esconjurar de algum modo a interioridade e a desertificação, senão mesmo a solidão.
É bom manter, ver e (re)viver as manifestações culturais de cada região, especialmente quando a globalização uniformizou pensamentos e comportamentos, no começo por via das televisões e agora através das redes sociais. Comemos, vestimo-nos, frequentamos espaços parecidos e espectáculos idênticos, assistimos aos mesmos desportos e veneramos heróis planetários, ignorando origens e diferenças e, em certa medida, rasoirando a individualidade cultural das pessoas - há empobrecimento social e pessoal.
Mas, no caso em apreço, ocorreram-me outras reflexões, nem todas positivas: O sobreiro é uma árvore de crescimento lento e foi até escolhida como símbolo de Portugal (o abate é proibido). Interrogo-me sobre se cortar, acarretar e queimar tamanha quantidade de lenha, em tão pouco tempo, não poderia, modificando um bocadinho a tradição, voltar-se para outras espécies arbóreas. Estou a pensar nos eucaliptos, cujo «roubo» se poderia fazer em abundância de sítios próximos ou distantes, sobretudo de locais onde estejam a pôr em perigo (de incêndio ou outro) pessoas, habitações, animais domésticos, culturas agrícolas, canalizações de água (as raízes dos eucaliptos introduzem-se nos canos obstruindo-os) e a biodiversidade florestal. O mesmo se diga em relação a matos que tanto precisam de ser removidos das bermas das estradas e da proximidade de habitações. O «roubo» das árvores apenas devia ser eticamente proibido em courelas únicas de pessoas pobres. Nessa altura, o antigo ritual de passagem dos jovens mancebos a adultos reconhecidos far-se-ia com maior mérito, pessoal, social, ambiental e ecológico.
A libertação de grande quantidade de dióxido de carbono (resultante da combustão) dava-a eu de barato, sendo que os lucros da festa, se os houvesse, bem podiam destinar-se também a plantar duas árvores (não eucaliptos) por cada uma que fosse derribada para o efeito.
Mas, que digo eu? Com pouco e com muito, e com as melhores intenções, degradamos a nossa «casa comum» (o planeta, único sítio disponível para vivermos). Opiniões como esta, seguramente, não merecem concordância. Eu próprio, oriundo da Beira Baixa, condescendo intimamente no apreço e respeito pelo sentir e agir da minha gente.
Com dúvidas, porém.
Feliz Natal.

José Batista d’Ascenção

domingo, 16 de dezembro de 2018

Relógio biológico

Esta tarde observei o fenómeno curioso que a foto documenta e que não é incomum nos arruamentos arborizados das cidades no fim do Outono: Junto dos candeeiros de iluminação, as árvores mantêm as folhas verdes em contraponto com os ramos dessas árvores mais distantes da fonte de luz e com todos os ramos das restantes árvores que estão ainda mais afastadas.
O que acontece é que, por estes dias, o pôr-do-sol ocorre por volta das dezassete horas, altura a partir da qual a luz solar se vai extinguindo durante o crepúsculo.
No Outono, em resposta à diminuição progressiva da intensidade luminosa e da duração dos dias (fotoperíodo), as clorofilas (os pigmentos verdes) das plantas de folha caduca deixam de ser produzidas e destroem-se. Dá-se também a morte das células do pecíolo das folhas que as ligam aos caules e estas caem (abscisão). Daí os tapetes de folhagem que, em meio urbano, é preciso remover dos passeios e das faixas de rodagem nos locais onde temos a sorte de ter árvores que não foram dramaticamente podadas. Estes são fenómenos básicos normais que precedem a dormência de certas plantas durante os tempos mais frios e escuros do início e do meio do Inverno.
Mas a média das temperaturas do Outono tem sido relativamente suave e nas cidades esse efeito pode ser ainda mais notório, dadas as diversas fontes de calor artificial: maquinarias domésticas, comerciais e industriais, motores de combustão, etc. (as cidades tornaram-se «ilhas de calor»). Então, junto dos candeeiros, que se acendem antes do lusco-fusco, e que se mantêm iluminados pela noite fora, há um estímulo que engana as árvores, fazendo-as manter alguma folhagem durante mais tempo.
E por isso, temos plantas de folha caduca que, por alturas do Natal, ainda apresentam porções de ramaria verde. Não é normal, mas é explicável.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

T’arrenego, pai natal

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Bem sei que para muitas crianças és um velhinho de barbas brancas, vistoso, simpático e meigo e, principalmente, um dador de presentes.
Mas para mim és, desde a infância, um usurpador de funções e um mau substituto do Menino Jesus, que era pobre como eu e as pessoas da minha família, mas riquíssimo em generosidade e doçura e suavidade e discrição. Com a força das multinacionais do comércio arrumaste violentamente o Deus-Menino da minha afeição. Nunca soube onde nem como um Jesus pobre tinha tanto para dar. Como os familiares me diziam que era Deus, não me cabia compreender os seus prodígios, que aceitava sem sombra de dúvida. Não que ele fosse pródigo comigo ou com as minhas irmãs, longe disso. Mas, não sei porquê, era tal a maravilha de receber coisas pequeninas e simples, que o venerava mais que aos mais queridos da família, porque assim me disseram que devia ser, especialmente a mãe, as tias e a avó, dentro de portas, e as catequistas, nas sessões de doutrina.
Imagem obtida aqui.
Não podes imaginar o cuidado com que deixávamos o sapato à beira da lareira, próximo da chaminé, e nos íamos deitar, silenciosos, para não perturbar a vinda do Menino, nas noites longas e frias de 24 de Dezembro. E de manhã, depois de acordar, íamos ver se ele realmente tinha vindo. E tinha. Vinha sempre. Pobre como nós, mas vinha. Era uma elevação do espírito, tínhamos merecido que viesse. Não o havíamos incomodado na sua acção. Respeitávamo-lo com convicção profunda, àquele Menino despojado como nós devíamos ser.
Quando tu, meu vermelhão berrante, apareceste e te tornaste ubíquo e barulhento em todos os Dezembros, nas ruas, nas montras, nos cartões e nas tevês e até trepando paredes, qual bombeiro escalador, assim como nos jardins-de-infância e nas escolinhas dos mais pequeninos, triunfavas contra o meu sentir e também contra o meu gosto. Certo que muito antes disso, ainda meninos, já a mana mais velha tinha reunido connosco para nos dizer que eram os pais que previamente compravam os presentinhos e que os colocavam no sapatinho depois de adormecermos - ela até sabia onde eram guardados antes de os recebermos. Foi um desapontamento sofrido, depois de uma quase recusa inicial em aceitar que pudesse ser assim.
Mas nem isso abalou a ternura que continuei a nutrir pela imagem de Jesus, que fui guardando comigo. E tudo o que sobre ele li me impressionou favoravelmente, mesmo quando não compreendia, então como agora. E fui crescendo e envelhecendo e tal imagem não morreu em mim. E quando, um dia, muito jovem, li um conto chamado «O Suave Milagre», de Eça de Queirós, revivi intensamente o significado dessa imagem que ainda mora no meu peito. Nenhuma outra leitura alusiva ao Natal, de que sobressaem os contos de Dickens e os de vários autores portugueses seleccionados por Vasco Graça Moura (em que se inclui «O Suave Milagre», claro está), me tocaria assim.
Não sei, pai natal, quantos anos mais vais sobreviver ao consumismo e ao materialismo que, através de ti, se disseminou e contaminou a época mágica do Natal de adultos e crianças. Mas admito que venhas a ser ignorado e «deitado fora», quando, por quaisquer motivos, passares de moda e já não renderes. O que te substituirá, não o sei.
Por mim, conto morrer com reminiscências gratas do esquecido Menino Jesus. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 8 de dezembro de 2018

Meninos: na Terra e no Céu e ao Deus-dará

Imagem da Wikipédia 
Volto à conversa contigo, meu neto. Nós, os que vamos ficando velhos, temos necessidade de falar, independentemente de nos quererem ouvir. Por isso falamos sozinhos, até, ou com os animais ou com pessoas imaginárias ou com os nossos botões, também para não incomodar. Tu estás um «homem» bonito de ver: olhos vivos e luminosos, sorriso desarmante e um palrar sonoro e cativante. É bom e faz bem ver-te crescer, bem alimentado, aconchegado e saudável. E é uma sorte que possas crescer assim, desejando nós que a mesma sorte te acompanhe a vida toda.
Mas, nas nossas cidades (na tua e na «minha»), no nosso país e em muitas regiões do mundo, há muitos meninos que não têm pão, nem casa, nem quem cuide deles, nem escolas, nem jardins, nem sítios seguros para brincarem ou sequer viverem. E muitos são levados de fugida, ao colo dos pais (que às vezes perdem ou deles se perdem), por caminhos e mares, em desespero, porque as suas terras se transformaram em lugares de sofrimento e horror insuportáveis. Que bom, tu não seres um desses meninos, e que mau que haja meninos nessas condições.
Imagem obtida via Google
Também é bom pensar nas possibilidades que hoje existem para acompanhar os bebés e as crianças portuguesas em geral, por comparação com o que acontecia no nosso país há apenas cinquenta anos (andava eu na escola primária). Mas há algo que piorou: o número elevado de crianças que então nascia e as poucas que nascem hoje. Certo que não faltam pessoas na Terra e algumas talvez venham para Portugal (precisamos de pessoas, sabes…), mas se não for assim vais crescer numa sociedade com muitos adultos e velhinhos e com (muito) menor proporção de meninos e jovens…
Por esta altura e nos dias próximos, até ao Natal, muitos são os adultos que se afadigam a gastar o que podem (e o que não podem) para comprarem presentes (muitos presentes) para oferecerem uns aos outros e, naturalmente, às crianças. Em não poucas famílias, os meninos ficam atafulhados de tralha e talvez seja por isso que lhe ligam tão pouco. Bem gostaria que não fosse assim contigo, meu rapaz, mas tenho receio. E há também aqueles meninos que nem um brinquedo, simples que seja, hão-de receber. Sempre foi assim (o que não está mais certo por isso). Mas o fundamental era que a uns e a outros não faltasse o pão e o carinho, qual deles o mais necessário, e um tecto, humilde que fosse.
Imagem obtida aqui.
Depois, meu filho, há o lixo, cada vez mais lixo, que os adultos (e jovens) consumistas e os meninos mimados fazem cada vez em maior quantidade. E há esta bola em que existimos que não aguenta tanto «esterco sintético», não degradável. Eu e os da minha geração falhámos (também na educação das crianças e dos jovens) e deixámos degradar a «casa» que habitamos e de que somos parte, e que está repleta de motivos curiosos, extraordinários e belos. A humanidade tem os seus defeitos, meu querido. Assim mesmo, nunca a vida foi tão boa, ainda que para uma fracção minoritária dos seres humanos.
Com o teu pequenino contributo, somado aos de outros da tua idade, anima-me a ideia de que a «casa de todos» evolua para melhor. Mas antes que isso aconteça tens que brincar muito. Essa é, provavelmente, uma das condições necessárias para que possa acontecer.
Não te maço mais.
Um abraço apertado. 

José Batista d’Ascenção

domingo, 25 de novembro de 2018

Notas sobre a publicidade ao eucalipto

Artigo do Professor Jorge Paiva, publicado no Diário de Notícias, em 23 de Novembro

Não costumo ler anúncios, pois são sempre interesseiros e, na maioria das vezes, ilusórios. Como compro e leio diariamente jornais, no dia 14 deste mês chamou-me à atenção uma bela fotografia da copa muito ramificada de um eucalipto que ocupava uma página inteira dos jornais diários, seguida de duas outras páginas inteiras de um texto com uma lista de subscritores. Apercebi-me imediatamente de que se tratava de um amplo e dispendioso anúncio (três páginas) e não o li, como sempre faço com qualquer anúncio, até com os que, abusivamente, me enchem a caixa do correio.
Porém, acabei por ter de o ler pois além de ter sido publicado nos jornais do dia seguinte, nos semanários e até nalguma imprensa regional, também várias pessoas me recomendaram a leitura, pois sabiam que eu há mais de três décadas alertara para o desastre ecológico que estavam a criar em Portugal.
Ao lê-lo, primeiramente julguei já estar completamente senil (tenho 85 anos), pois, como botânico, já estive e estudei vários ecossistemas florestais naturais do Globo Terrestre e sempre considerei que aquilo a que se chama carvalhal é uma floresta e que um eucaliptal não é uma floresta. Falei com familiares e amigos, para ter a certeza que ainda não baralho conceitos. Ainda pensei ir a um neurologista, mas considerei que não era necessário, pois ainda recentemente tinha sido aceite para publicação numa revista científica estrangeira (Kew Bulletin) um artigo meu com a descrição de uma espécie nova para a ciência, existente numa floresta tropical africana. Se estivesse senil, o artigo não estaria em condições de publicação.
Segundo os critérios inseridos no texto do referido anúncio, a Floresta Atlântica da América do Sul, de que restam apenas 6% do que existia quando o Brasil foi descoberto, seria uma mata. Aliás, os brasileiros designam-na por "Mata Atlântica" e à Floresta Equatorial da bacia do Amazonas, por "Mata Amazónica". Os redactores do texto é que não se lembraram disso, pois teriam possibilidades de baralhar ainda mais a população portuguesa.
Também fiquei espantado com o conceito de biodiversidade, quando nos querem convencer de que os eucaliptais têm muita biodiversidade. Toda a gente sabe que a biodiversidade desses ecossistemas antrópicos é baixíssima e até muitíssimo mais baixa do que a de um baldio. Não é preciso ser-se cientista para alguém se capacitar disso. Por exemplo, não vejo rebanhos de ovelhas a pastarem em eucaliptais, mas vejo-os nos baldios.
Outra atitude indecorosa é quererem convencer toda a gente de que os eucaliptais não são tão inflamáveis como os ditos matos. Sou biólogo e botânico, por isso, durante os estudos universitários tive várias disciplinas de Zoologia, Botânica e Química. Além disso, como tive um grande professor de Química (Rómulo de Carvalho, o Gedeão), que me ensinou racionalmente as reacções químicas e como doutorei gente em plantas medicinais (grande parte são aromáticas), sei química suficiente para saber que as essências elaboradas pelos eucaliptos são muito voláteis e altamente inflamáveis. Por favor, não considerem que as pessoas não são minimamente instruídas ou que são estúpidas.
Claro que a retórica economicista é própria da sociedade de mercado em que estamos inseridos. Mas, como as pessoas não comem eucaliptos, eu preferia que o meu país produzisse alimentação suficiente, até para exportar (para a "tecla" das divisas), do que tenha de importar, como estamos a fazer. Os países árabes são, actualmente, muito ricos, mas não estão a preparar os respectivos países para o futuro, pois importam praticamente toda a alimentação. Um dia poderão ter muito dinheiro, mas se não tiverem ninguém que lhes venda a comida, morrerão à fome, de nada lhes valendo a riqueza. Se Portugal investisse na produção alimentar, estava a preparar melhor o país para o futuro, poderia exportar, não tínhamos o país tão poluído, não teríamos incêndios tão devastadores e mortíferos, assim como não estaríamos a transformar as nossas montanhas em desertos de pedra. Claro que no texto do dito anúncio pró-eucalipto, não se refere a tremenda poluição das águas do Tejo, nem o cheiro nauseabundo das regiões da Leirosa, Cacia e Setúbal. Nem sequer querem ver que estão a poluir a "gaiola" (Globo Terrestre) onde eles próprios vivem. Aliás, muitos deles sabem disso, mas são tão egoístas que preferem deixar que o problema seja resolvido pelas gerações vindouras, porque, por agora, conseguem ainda viver, com abundância e fausto, apesar do grau de poluição que o Globo já apresenta.
Infelizmente estão a provocar a morte ecológica do meu país que, actualmente importa madeira de carvalho, pois já não tem carvalhais para poder ser exportador (traria divisas em vez de as gastar ao importar), porque nunca arborizamos o país desflorestado com os nossos carvalhos. Foi «pinheirar» e «eucaliptar» desmesuradamente, cobrindo, densamente, grande parte das nossas montanhas de pinhais e eucaliptais contínuos e contíguos.

Biólogo

Afixado por: José Batista d'Ascenção

domingo, 18 de novembro de 2018

Excesso de carne na alimentação dos portugueses e alguns problemas de saúde consequentes

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Nas últimas cinco décadas, os portugueses tornaram-se grandes consumidores de carne. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, de 2014 a 2017, o «total de carnes e miudezas» ingerido por cada habitante em Portugal foi crescendo sucessivamente de ano para ano: 108,2 - 111,2 – 112,6 – 114,0 kg. Estes valores ultrapassam em quatro ou cinco vezes as necessidades proteicas de cada adulto, que podem andar à volta de um grama por quilo de peso por dia, embora devam variar consoante a idade, o sexo e a profissão ou o estado de saúde. 
Razões económicas, culturais e educativas contribuíram para o fenómeno. Algumas prendem-se com a pobreza e malnutrição da maior parte da população portuguesa até aos inícios da década de setenta do século XX. E períodos houve, como nas décadas de trinta e quarenta do século passado, em que a fome quantitativa (ausência do que comer) afectava profundamente grandes camadas da população, quer no meio rural quer no meio urbano. E antes disso não era diferente. Mesmo os que criavam um porco, que matavam anualmente, privavam-se da carne vermelha de presuntos e enchidos, que vendiam, e limitavam-se ao toucinho salgado, com que temperavam os caldos, e às partes menos valorizadas que, habitualmente, não chegavam para muitos dias.
Com a reivindicação de melhores salários e a melhoria dos níveis de vida sequentes ao 25 de Abril de 1974, os portugueses tiraram a barriga de misérias. Ao mesmo tempo ocorreram migrações de muitos habitantes do campo para a cidade, onde as profissões não exigiam o mesmo dispêndio energético de quem agricultava de sol-a-sol ou trabalhava na floresta ou em poços ou em minas ou em pedreiras, etc. Tendo mudado de vida, os hábitos alimentares não se alteraram em conformidade: e a comida servida em quantidade e abundância, com bifes tapando o diâmetro dos pratos, não raro com «um ovo a cavalo», feijoadas que deviam chamar-se «carnadas» ou cozidos à portuguesa empratados em cogulo com nacos enormes de carne e enchidos na mesma proporção, pão (demasiado) branco (quase só amido) e abundância de fritos (em óleos saturados, do uso repetido), a que não faltaram os doces abundantes à sobremesa, depressa levaram ao aumento de barrigas nos homens e quadris e cinturas nas mulheres. Passámos a ser um país de gordos. E não só entre os adultos.
De modo geral, consumimos demasiadas calorias de quaisquer dos alimentos energéticos: glúcidos (os amidos das batatas, do arroz, das massas e do pão «fino» e os açúcares), lípidos (gorduras, das carnes, dos óleos...) e prótidos (proteínas da carnes, do peixe, dos ovos e do leite e derivados). Deste excesso resultam vários problemas: aumento de peso (obesidade) com repercussões nas doenças cardiovasculares (colesterol elevado, arteriosclerose, tromboses, enfartes e «àvecês»), diabetes e perturbações da coluna e outros ossos (porque o esqueleto passou a suportar um acréscimo significativo de carga, que o foi deformando). Isto implica sofrimento, perda de dias de trabalho, gasto dos próprios em medicamentos e despesa do país em serviços de saúde. E se em Portugal a esperança média de vida é das mais elevadas do mundo, é comum as pessoas da terceira e quarta idades padecerem longos anos, diferentemente de países onde os (mais) idosos se mantêm saudáveis durante praticamente toda a vida.
As proteínas são essencialmente longas cadeias de aminoácidos. Quando digeridas no (nosso) intestino, as proteínas alimentares de qualquer proveniência são degradadas em aminoácidos, que são absorvidos para a corrente sanguínea e levados para todas as células. A função destes aminoácidos é servirem como elementos de construção das nossas próprias proteínas, segundo sequências geneticamente definidas. Portanto, os aminoácidos, e as proteínas que elaboramos com eles são como que os tijolos do corpo (por isso se revestem de uma importância capital durante o crescimento: na infância e na juventude), e essas proteínas, para além de conferirem estabilidade e arquitectura a cada célula, desempenham funções tão diversas como servirem de transportadores celulares, modularem reacções químicas, executarem movimento, constituírem anticorpos, funcionarem como receptores de identificação, etc. etc. Porém, se estão em excesso têm que ser metabolizadas em vias bioquímicas que levam à formação de resíduos de azoto (elemento químico constituinte do grupo amina de cada aminoácido), que são tóxicos se não forem convenientemente excretados. Daí resultam os bem conhecidos problemas relacionados com compostos azotados como o ácido úrico, causador da inflamação das articulações (chamada «gota»), e a ureia.
Como melhorar então a nossa alimentação (e poupar na aquisição dos bens alimentares e ganhar na saúde e contribuir para um melhor desempenho económico do país)? Diminuir o consumo de carne e compensar, eventualmente, a ração alimentar com produtos vegetais. Até ecologicamente se ganha: como o ser humano passaria do terceiro nível da cadeia alimentar: plantas – animais – ser humano, para o segundo desses níveis, muitos dos terrenos que produzem alimento animal passariam a produzir alimento humano. E o que o excesso de animais para abate consome poderia, sob a forma de outras culturas, alimentar mais pessoas. Claro que era preciso educar todos e apoiar os produtores de carne no sentido de reconverterem a sua actividade.
Porém, nas nossas escolas, diferentemente do que já foi feito, a educação alimentar é muito deficiente. E os efeitos notam-se. Infelizmente.

José Batista d’Ascenção